Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 15 de março de 2013

José Nêumanne (A volta de Quaderna, o Quixote da caatinga)

(Nêumane, Jornalista, editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e do SBT, poeta e escritor com diversos livros publicados, entre eles: Solos do silêncio – poesia reunida  e O silêncio do delator.)
Pode até ter sido mera coincidência o escritor paraibano radicado em Recife Ariano Suassuna haver permitido, após um longo hiato de 31 anos a reedição de sua obra-prima em prosa de ficção, Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, neste mesmo ano em que se comemoram os 400 anos de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, a primeira novela da história da literatura mundial. Mas a verdade é que há muito mais coincidências entre a saga do cavaleiro andante e a do poeta-palhaço sertanejo que a primeira letra de seus nomes – Quixote e Quaderna.

Na nova e caprichada edição com que a José Olympio está substituindo agora, tendo afinal obtido a autorização do renitente autor, a velha, já ensebada e rara última edição ainda dos anos 70 do século passado, foi incluído o posfácio do grande escritor pernambucano infelizmente muito pouco conhecido no Sudeste Maximiano Campos (1941-1998). Em seu texto, esse expoente da Geração de 65 deu aquela que talvez seja a melhor definição do protagonista do romance: "Quaderna é um misto de Quixote e Sancho, com predominância de Quixote". Mas as semelhanças entre as duas obras não se limitam à inicial dos nomes de seus protagonistas. Assim como Cervantes glosou os romances de cavalaria na moda em seu tempo, Suassuna trabalha sua literatura no riquíssimo acervo da poesia de bancada das feiras nordestinas com conhecimento de causa e estro de poeta.

Nas veredas de Cervantes - Da mesma forma como Quixote, Quaderna é trágico e cômico, épico e picaresco. Aliás, da mesma forma como o cavaleiro da triste figura e como inúmeros heróis dos romances de cordel que ele cita ao longo do caudal de prosa poética em que o herói é criado e recriado e se mostra malcriado. Costuma-se comparar a prosa ao mesmo tempo clássica (de um classicismo de romance europeu, do qual também estão embebidos os folhetos de feira) e bárbara dessa obra-prima a dois outros momentos capitais da ficção em português das Américas: Os sertões, de Euclydes da Cunha (com ípsilon, como gosta de grafar Suassuna), e Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Há com esses outros livros, sim, seminais semelhanças de porte, mas parentesco estilístico pode ser que haja mais com o primeiro que com o segundo. Como o registro da queda de Canudos, o percurso de Quaderna pelo sertão real e por seu universo de fantasia, susto e sombra se insere nas veredas, abertas por Cervantes e mapeadas por Jorge Luís Borges, da novela enciclopédica, não tanto na trilha "joyciana", preferida por Rosa nos sertões das Gerais: a da submissão da narrativa à lingüística.

Na prosa de Rosa em geral – e no "romance riverrão" em particular -, o autor pesquisa o miolo da palavra, partindo da raiz, mas buscando a universalidade em doses de erudição de laboratório. Essa foi a trilha perseguida por James Joyce na elaboração de Finnegans Wake, obra quase intraduzível em outras línguas precisamente por não pertencer apenas à original. Suassuna – mais até que em Euclydes e mesmo que em Borges, citados acima como expoentes da prosa enciclopédica – faz o trajeto oposto, partindo do ar para o substrato da língua, como o fizeram os colegas japonês Dogen Zenji (1220-1253), argentino Bartolomé Hidalgo (1788-1822), peruano César Vallejo (1892-1938) e chilenos Vicente Huidobro (1893-1948) e Pablo Neruda (1904-1973). Todos esses escritores, citados em brilhante ensaio do escritor argentino Juan José Saer, preferiram lidar com sua "língua materna" a fazê-lo com a "língua nacional". Assim como o mestre zen-budista Zenji impregnou-se de cultura chinesa, mas escreveu seus 95 sermões no próprio e tosco japonês, o irlandês (como Joyce) W. B. Yeats (1865-1939) elogiava o gaélico como língua de sua grei, mas escrevia sua poesia genial no idioma que aprendeu da mãe na infância, o inglês, e o florentino Dante Alighieri (1265-1321) inventou a poesia ocidental no grosseiro dialeto toscano, preterindo o latim que dominava muito bem, Suassuna recorreu ao ritmo, à graça e à picardia da língua que sorveu nas conversas íntimas da família, em funções de repentistas e nos romances de amor, aventura e presepadas dos heróis da cultura sebastianista medieval ibérica transportada para o sertão de origem de seu herói e pai, João Suassuna.

Colcha de retalhos - Na orelha da nova edição, Bráulio Tavares, poeta também paraibano, resumiu a escritura da obra-prima do mestre da literatura, antes consagrado e popularizado no teatro, de forma exemplar: "O Romance d’A Pedra do Reino é um livro onde o autor parece decidido a aproveitar-se de todas as liberdades concedidas hoje em dia ao gênero ‘romance’, como desaguadouro de elementos vindos da novela, do conto, do poema, do folheto de cordel, do monólogo dramático, do diálogo filosófico, da crônica de época, do memorialismo." Isso resultou, em sua opinião, numa "colcha de retalhos onde a prosa profética convive com o trocadilho, a iluminação mística é contrabalançada pelo versinho fescenino e longas citações de obras históricas são ilustradas por desenhos que lembram os ‘rébus’ ou enigmas figurados dos almanaques dos charadistas."

Ao mesmo Bráulio Tavares coube posfaciar outra obra-prima do autor, esta no teatro, O auto da Compadecida, relançada em edição comemorativa (revista pelo autor) dos 50 anos da peça pela Agir, com ilustrações não do autor (como no caso do romance), mas do filho Manuel Dantas Suassuna, além de outros textos do poeta Carlos Newton Júnior e do romancista Raimundo Carrero, ambos seguidores de Suassuna em seu Movimento Armorial, do qual o exemplo mais completo e perfeito em literatura é o Romance d’A Pedra do Reino. No posfácio Bráulio reproduziu uma anedota que o próprio Suassuna adora repetir em suas divertidíssimas aulas-espetáculo – a do crítico que lhe perguntou o que, afinal, era dele naquela peça que, conforme o próprio autor reconhecia, tinha o primeiro ato baseado no folheto O dinheiro, de Leandro Gomes de Barros, o segundo inspirado no romance O Cavalo que defecava dinheiro e o terceiro em O castigo da soberba, todos compilados por Leonardo Mota em seu clássico Violeiros do Norte, cuja primeira edição data de 1925. "Oxente, eu escrevi foi a peça", respondeu-lhe o dramaturgo.

O "gênio" e o "quengo" - Se Quaderna, entre artimanhas, palhaçadas e quetais, revela seu projeto de se tornar o "gênio da raça brasileira", João Grilo, o "amarelo" do cordel tornado protagonista da peça que fez enorme sucesso no palco e, adaptada para a televisão e para o cinema, tem assegurado farto lucro para seus produtores, pode ser apontado como o protótipo do "quengo" (sinônimo de cérebro e, por extensão, de quem saiba usá-lo): o tipo covarde e desnutrido que consegue sobreviver a golpes de esperteza com os quais supera a truculência dos donos do poder no sertão sem lei.

E, por fim, para quem quiser conhecer o processo racional do qual são extraídas a prosa, a poesia e o teatro do morador do Poço da Panela a José Olympio também reeditou o livro no qual ele reuniu seus ensinamentos do curso que deu sobre Estética na Universidade Federal de Pernambuco: Iniciação à Estética. Nele trouxe para seus alunos e, depois, para seus leitores diversas visões - de Platão e Aristóteles aos escolásticos e a Kant, de Kant a Hegel e a Bérgson, entre outros pensadores - na linguagem clara, concisa e saborosa que domina como poucos. E reconhece sem disfarces sua adesão à escola da Estética filosófica pelo mesmo motivo com que colando cacos da literatura popular das feiras livres amalgama a cerâmica sofisticada de sua obra literária variada: "é a mais aberta de todas e incorpora ao estudo do campo estético as contribuições trazidas por todas as outras."

Fonte:
http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/jneumanne/jn0017.htm

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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