Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 4 de janeiro de 2020

A. A. de Assis (Marilinda, Heroica Mulher)


Godô, que assinava Godofredo, chegou para tentar a vida na cidade nova. As ruas poeirentas assistiam ao erguimento simultâneo de centenas de casas, de madeira quase todas. Os moradores, por volta de cinco mil pioneiros, denunciavam pelo sotaque suas diferentes origens. Godô estava pronto para incorporar-se àquela aventura: vinha com algum capital, um jipe, muita esperança de enricar com a loja que planejava abrir.

No Fagundes Hotel, na Pensão Familiar e na Hospedaria Dona Chica não havia quarto disponível, tudo lotado. Godô não teve alternativa senão pedir pousada numa das casas da “zona”, quarteirão afastado do centro, onde cheirosas mulheres davam colo aos solitários do lugar. Marilinda, vasta morena de fartos cabelos negros, abriu o quarto e o coração para acolher o hóspede. Ele, se quisesse, poderia ficar ali até alugar uma casa. Pagaria cama e comida; os carinhos seriam de graça. Marilinda, por uma dessas razões que a razão desconhece mas sempre aplaude, gostara dele, assim de primeira olhada.

Em vez de alugar, Godô decidiu construir uma casa, com espaço para montar a loja na frente. Agradava-lhe, porém, a mordomia oferecida pela generosa hospedeira. Continuaria lá por uns três meses, o tempo que fosse necessário. Achava melhor do que hotel ou pensão: tinha conforto e companhia. Mais tarde, de alguma forma, compensaria Marilinda, tão bondosa era, embora bem mais Mari do que linda fosse.

Terminada a construção, Godô montou estoque (secos, molhados, armarinhos, de um tudo), mobiliou a casa, mudou, abriu a loja, formou logo promissora freguesia. Sozinho de noite, sentia saudade; convidou então Marilinda para governanta. Ela aceitou chorando de feliz, saiu da “zona”, acomodou-se na casa do amigo. Trabalhava de cozinheira, arrumadeira, balconista, lavadeira. Terminado o expediente, acalorava o repouso do patrão.

Solteiro, solteirão para bem dizer, com seus quarenta e tantos, ele jamais se casara. Por falta de tempo, dizia. Homem trabalhador, desde muito moço vinha juntando para se estabelecer num lugar de futuro. Ora se deu, todavia, que Marilinda um dia súbito embarrigou. O passado dela, mais por precisão do que por sem-vergonhice, não era lá essas coisas, desde menina na difícil vida-fácil. Mas coração puro estava ali, mulher leal, de serventia total, nunca reclamava, nada exigia, era toda uma oferta constante de trabalho e ternura ao patrão, agora futuro pai do seu primeiro filho, acidentalmente gerado.

Godô não ficou bravo não. Antes se emocionou até, com a ideia de ganhar herdeiro. Abraçou a companheira, abriu um vinho. Mas a situação dos dois não poderia continuar daquele jeito, a criança teria que nascer em lar organizado, era urgente providenciar o casamento nos conformes da lei, da fé e dos costumes, o passado dela pouco importaria.

Providenciou roupas melhores para a noiva, matriculou-a na escola para aprender as letras, as contas e os bons modos. Queria a mãe do seu filho devidamente transformada em dama,  que deveras ela  merecia,  tão  dedicada  a  ele  desde  o  dia  em  que ali chegara desospedado  e  cansado.  Era a amiga,  a  confidente,  a  servidora,  a  parceira  de  cama   e conversa. Seria injustiça descartá-la, agora que os negócios vinham rendendo e ela trazia no ventre a continuação dele, o filho não encomendado porém bem-vindo.

O bebê nasceu direitinho, e macho. A mãe queria o nome de Godozinho, o pai preferiu José, homenagem ao avô que o criara. Marilinda teve mais quatro, formando com José bonita prole de três meninos e duas meninas. A loja crescendo sempre, junto com a cidade. Godô agora barrigudo, cabeça calva, prestígio grande no lugar, vereador, diretor de várias entidades, só não o lançaram candidato a prefeito porque ele de fato não quis: temia perder fregueses. Aceitou ser presidente do orfanato: queria ajudar as crianças pobres, principalmente as filhas de mães solteiras. Heroicas mulheres, dizia, dando Marilinda como exemplo. Ela teve a sorte de se casar; outras no entanto lutavam sozinhas, marginalizadas. O orfanato iria acolher suas crianças não encomendadas mas bem-vindas, como o José. E assim se fez.

Fonte:
A. A. de Assis. Vida, Verso e Prosa.
Livro entregue pelo autor.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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