Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Carolina Ramos (O Perdão)


O homem olhou-se no espelho, Não gostou do que viu. Por mais boa vontade que tivesse, não poderia deixar de constatar que o visto, não era aquilo que desejava ver! Estava velho! Velho, sim! Quantos anos teria?! Nunca se detivera em pensar nisto!

A verdade é que já nascera velho, barba branquinha como a neve… e que branquinha sempre seria, como se verões e primaveras jamais houvessem passado por ele.

Apertou entre os dedos o anel de gordura que lhe circundava o ventre e acrescentou a contragosto: — Velho e barrigudo! — péssimo binômio, abominado até mesmo pelos menos vaidosos. Reagiu em tempo: — Velho, sim, porém, nem tão barrigudo como o personificavam por aí, estufado de múltiplos enchimentos ao redor da cintura, a simular uma obesidade exagerada, que, na verdade, não era sua!

Detestava os papais-noéis que badalavam sinos às portas das grandes lojas, a arrematar a missão com aquele grotesco Ho… ho... ho!, sempre forçado e inoportuno! Todos eram de meia idade, tentando simular uma velhice robusta, que não chegava aos pés da sua, transpirando em bicas, dentro daquele casacão vermelho, acolchoado, pés metidos naquelas botas negras de cano alto, sem dispensar, é claro, as barbas postiças, nem sempre impolutas quanto às que ele penteava agora frente ao espelho. Todos, sem exceção, empenhados em simular a simpatia bonachona, que o “Bom Velhinho" deveria ter, para a todos conquistar.

Papai Noel verdadeiro, olhou-se novamente ao espelho. Viu-se cansado! Cansado como realmente estava! Pernas pesadas, corpo doído, desejoso de atirar-se numa poltrona, entregue a uma soneca sem fim!...

Pela primeira vez, não sentia ânimo para se desincumbir da tarefa que, durante toda vida, a cada dezembro, aguardava com entusiasmo e carinho, saudoso do sorriso das crianças à espera de sua chegada. Depois de tantos anos de dever cumprido, doía-lhe na alma a constatação de que o mundo repudiava o sonho, roubando à inocência das crianças, aquela fantasia, tão pura, do velhinho com um saco cheio de presentes para distribuir entre aquelas que se comportavam bem, durante o ano todo!

Chamavam-no agora de velhinho atrevido, malfeitor, usurpador das glórias natalinas, com suas bochechas coradas e sadias, que atraiam as atenções, não só dos pequeninos, mas, também, de famílias inteiras, a cercar sua figura de carinhos, fazendo dele alvo das alegrias de infinitos Natais, em detrimento do objetivo principal, que era lembrar o sublime nascimento do Menino Jesus!

Coração retalhado e cheio de angústia. Papai Noel indagava a si mesmo se acaso, não seria mesmo aquele velho atrevido, que se insinuava nos lares, a eclipsar as homenagens pertencentes ao Santo Menino, adormecido no presépio, e, por ele tanto amado?! Se assim fosse, não haveria dúvidas — era, mesmo, um grandessíssimo ladrão!

Batia no peito contrito: — Sim, talvez fosse mesmo um desprezível ladrão! E dos piores! — Roubara... e continuava a roubar, nada menos que, o Espírito do Natal!

A dor de consciência o exauria. Sugava-lhe as forças! Mas, o senso do dever o impelia a continuar. As crianças esperavam por ele. Precisava terminar de vestir-se para a longa viagem.

Lá fora, as parelhas de renas, atreladas ao trenó, impacientavam-se, pisoteando a neve e sacudindo os guizos, para chamá-lo ao dever.

Papai Noel procurou apressar-se! As pernas cansadas, enfiadas nas botas pesadas como chumbo, tentaram arrastá-lo até o trenó. Mas... a noite, fria, chegou primeiro, envolvendo-o com seu manto bordado de estrelas!

Papai Noel dobrou os joelhos e estendeu-se no alvo lençol da neve macia. Adormeceu... e só acordou no céu!

Naquele Natal, as crianças de todo o mundo regalaram-se com os presentes, deixados por seus pais nos sapatinhos, dispostos sobre o fogão, antes de irem para a cama.

Conformado, Pai Noel sentiu que não fizera falta! Em troca, tinha agora ao seu redor uma legião de anjinhos irrequietos a lhe pedir histórias, encantados com o seu riso franco, sem o costumeiro Ho... ho... ho!

Mas... de repente, aquelas bochechas coradas empalideceram! Ficaram mais brancas que as brancas barbas que as circundavam! O riso patético foi engolido - Os olhos tristes do Papai Noel baixaram, confusos, assumindo o peso daquela imensa culpa, acumulada em toda sua longa jornada! É que uma Senhora, muito linda, vinha em sua direção, caminhando sobre as nuvens, trazendo pela mão um Menino também de beleza inconfundível!

O velhinho dobrou os joelhos ante os dois seres que se aproximavam e, sem procurar esconder o constrangimento, murmurou em voz quase inaudível:

— Perdão, Jesus... perdão! Juro que eu não queria roubar nada... nada mesmo! Mas… mesmo sem querer… parece que acabei roubando!

No entanto, para sua surpresa, o Menino de olhos ternos, parecia não ouvir o que aquele homem lhe dizia. Estendia-lhe a mão para que se erguesse e, com voz doce, quase implorava:

— Papai Noel por favor, me conta uma história... conta?

Ao colo de Sua Santa Mãe, o Menino deleitou-se, encantado como qualquer criança de sua idade, a ouvir, atento, a voz, trêmula e cheia de emoção, que começava a contar:

— Era uma vez... um velhinho, muito velhinho mesmo... que, a cada fim de ano, queria ajudar para que todas as criancinhas fossem felizes, pelo menos por uma só noite! E, para realizar o seu sonho, o bom velhinho escolheu a mais bela de todas as noites, a Noite de Natal! Ou seja, aquela noite maravilhosa, em que, há muito tempo, nascera um Menino muito especial. Aquele Menino chamava-se Jesus e trazia consigo uma grande missão, que era dar Sua vida, pela salvação da humanidade!

Maria, coração angustiado por terríveis lembranças, acariciava de leve a cabecinha do Filho - temerosa de que tudo pudesse acontecer outra vez!

Finda a história, o Menino adormecera… guardava ainda nos lábios o esboço de um sorriso feliz!

Papai Noel engoliu um soluço de emoção, sentia-se perdoado!... Mergulhou o corpo cansado no fofo colchão de nuvens... e adormeceu, feliz!...

Fonte:
Carolina Ramos. Feliz Natal: contos natalinos. São Paulo/SP: EditorAção, 2015.
Livro enviado pela autora

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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