Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Contos e Lendas do Mundo (Dinamarca: A Árvore da Saúde)

Era uma vez um homem que tinha três filhos. Quando estava prestes a morrer, chamou-os e disse que a única coisa que tinha para lhes deixar era o pomar, pelo que o deviam repartir de modo que cada um ficasse com uma parte. Acrescentou que uma das árvores produzia frutos da saúde, mas absteve-se de explicar qual ou onde se situava.

Poucos dias mais tarde, expirou e os filhos prepararam-se para dividir a herança. Mas o mais novo era ainda tão pequeno que não o incluíram e repartiram o pomar em duas partes iguais. O irmão deserdado ficou apenas com a árvore solitária situada no centro do terreno. Decidiram não lhe atribuir terras, por pensarem que, se fosse precisamente aquela a da saúde alguns frutos cairiam nas áreas que lhes pertenciam.

Um dia, inteiraram-se de que a princesa do país estava gravemente doente e o rei prometera concedê-la como esposa, além de oferecer metade do reino, a quem fosse capaz de a curar. Em face disso, os irmãos decidiram tentar a sorte. O mais velho foi o primeiro a dirigir-se ao pomar com uma cesta no braço, para colher uma peça de fruta de cada uma das suas árvores, após o que se encaminhou para o palácio. No entanto, o percurso obrigava-o a atravessar um bosque e, assim que penetrou nele, surgiu-lhe uma mulher idosa.

— Bom dia. Que levas na cesta?

— Rãs e sapos — replicou o rapaz. — Mas que tens com isso?

— Então, serão rãs e sapos — decidiu ela, e afastou-se.

Ele reatou a marcha até que alcançou o palácio, onde um guarda lhe perguntou:

— Que pretendes, rapaz?

— Trago na cesta frutos da saúde e quero entrar para curar a princesa — foi a resposta.

Disseram-lhe que admiravam a boa intenção, mas primeiro tinham de inspecionar o conteúdo da cesta. Quando levantaram a tampa, depararam-se-lhes numerosas rãs e sapos, que tentavam sair. Ato contínuo, aplicaram uma valente surra no rapaz e expulsaram-no.

Entretanto, o segundo irmão foi por sua vez ao pomar e encheu uma cesta com todo o tipo de frutos. Ao entrar no bosque, encontrou-se com a mesma velha, que o cumprimentou e perguntou que continha a cesta.

— Serpentes e víboras — informou o rapaz, não sem alguma brusquidão.

E ela replicou:

— Então, serão serpentes e víboras.

Uma vez diante da entrada do palácio, ele pretendeu passar com os frutos da saúde, mas, quando os guardas levantaram a tampa da cesta, viram-se perante as serpentes e víboras mais repelentes, o que lhe valeu uma surra não menos contundente que a sofrida pelo irmão.

Por último, o mais novo dos três rapazes quis tentar igualmente a sorte. Colheu frutos da sua árvore e pôs-se a caminho. No bosque, surgiu a inevitável velha.

— Bom dia. Que levas na cesta?

— Também te desejo um muito bom dia — replicou ele, cordialmente. — A cesta contém frutos da saúde.

— Então, serão frutos da saúde — determinou ela, e seguiu o seu caminho.

O irmão mais novo atravessou o bosque e, um pouco adiante, desembocou numa praia, onde viu que a rebentação arrastara para terra um grande esturjão, agora ofegante na areia.

— Vou ajudar-te, peixinho infeliz — articulou ele.

Apressou-se a lançá-lo à água e, no momento imediato, o esturjão assomou à superfície e gritou:

— Muito obrigado! Se alguma vez estiveres em apuros e puder valer-te, não hesites em me chamar.

O rapaz seguiu de novo o seu caminho. Pouco depois, avistou um corvo e um enxame de abelhas que travavam luta renhida, com estragos consideráveis em ambas as partes. Ele dirigiu-se-lhes e tentou fazer-lhes compreender a insensatez da peleja, pois podiam voar para onde desejassem. Reconheceram que tinha razão e, enquanto se afastavam, tanto o corvo como as abelhas lhe gritaram:

– Obrigado pelo bom conselho! Se alguma vez te vires em apuros e pudermos ajudar-te, não hesites em nos chamar!

O jovem prosseguiu em frente, até chegar à entrada do palácio.

— Que pretendes daqui, rapaz? — perguntaram-lhe.

— Trago nesta cesta frutos da saúde, para que a princesa os coma e se cure.

Louvaram-lhe a boa intenção, mas insistiram em inspecionar o conteúdo, porque já se lhes haviam deparado as coisas mais estranhas. Com efeito, a cesta estava cheia de maçãs de aspecto admirável. Ele ofereceu duas a um dos guardas, que comeu uma e sentiu-se imediatamente mais leve e alegre e o acompanhou à presença do rei e da princesa.

O jovem ofereceu algumas maçãs a esta última, a qual, quando consumiu a primeira, conseguiu levantar a cabeça da almofada, após a segunda pôde sentar-se e, no final da terceira, ergueu-se de um salto e pôs-se a dançar no quarto.

O rei alegrou-se profundamente e prometeu ao rapaz que seria o marido de sua filha. No entanto, ela não estava de acordo, por o considerar demasiado insignificante. Explicou ao pai que o homem com o qual se prontificaria a casar tinha de ser alguém no mundo. De qualquer modo, se devia desposar aquele jovem, este tinha previamente de recuperar o anel que o rei perdera no mar, vinte e quatro anos antes.

Ante isto, o jovem ficou preocupado. Todavia, lembrou-se do esturjão, correu à praia, chamou-o e comunicou-lhe a situação em que se encontrava. O peixe mergulhou ao fundo do mar e reapareceu pouco depois com o anel. O rapaz regressou ao palácio profundamente aliviado.

O rei recebeu-o com particular assombro, procurou a princesa e anunciou-lhe:

— Sabes perfeitamente que deves casar com quem te curou. Por conseguinte, deixa-te de exigências e desposa-o sem mais delongas.

No entanto, ela respondeu que não o podia fazer. Queria ter um marido que estivesse em condições de construir um palácio tão grande e magnificente como o do pai, além de que devia ser de cera e brilhar ao sol como se fosse de ouro puro. O rei tratou de transmitir estas exigências ao rapaz, que, a princípio, assumiu uma expressão carrancuda, mas acabou por se recordar das abelhas, afastou-se rapidamente, chamou-as e revelou-lhes o dilema em que se encontrava. Elas, porém, asseguraram-lhe que fariam tudo ao seu alcance para o comprazer. Quando, no dia seguinte, todos se levantaram, erguera-se um palácio de cera de dimensões e magnificência idênticas às do que o rei habitava, resplandecente ao sol como se fosse de ouro puro.

O monarca voltou a consultar a filha e advertiu-a:

— Agora, não posso conceder mais adiamentos. Tens de casar com ele, já que as suas capacidades excedem de longe as de qualquer homem médio.

A princesa mostrou-se muito surpreendida com o que via, mas não se deu por satisfeita. Quis que o pai comunicasse ao rapaz que obtivesse os três tições mais velhos do inferno. Prometeu que, se o conseguisse, não faria mais exigências e casaria com ele de bom grado.

O rei ficou extremamente indignado com a nova pretensão, mas acabou por ceder e informou o jovem. Este, a principio, sentiu-se muito apreensivo, mas não tardou a lembrar-se do corvo, o apóstolo de Satanás, ao qual valera numa aflição. Por conseguinte, chamou-o e expôs-lhe o problema. A ave prometeu fazer tudo ao seu alcance para o ajudar e não tardou a reaparecer com os três tições. O rapaz aceitou-os, dirigiu-se prontamente ao palácio e largou-os no regaço da princesa. Arderam imediatamente, e ela esteve na iminência de ficar sufocada com o fumo. Muito assustada, pôs-se de pé de um salto e correu para os braços do pretendente. Já não havia nada que impedisse o casamento. Celebraram-se, pois, as bodas e os noivos receberam metade do reino como dote.

Fonte:
Contos Tradicionais da Dinamarca

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to