Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 5 de janeiro de 2020

Contos e Lendas do Mundo (Irlanda: Sgiathán Dearg e a filha do rei do Mundo Ocidental

Noinín, filha do rei do Mundo Ocidental, saiu, um dia, a passear e, enquanto caminhava, viu o pássaro Sgiathán Dearg e considerou que era o mais belo que jamais se lhe deparara.

— Seria feliz se pudesse estar com esta ave! — exclamou.

Sgiathán Dearg esvoaçou em torno dela durante uns momentos, aproximou-se mais e acabou por desaparecer no bosque.

A filha do rei saiu a passear no dia seguinte, o pássaro tornou a aparecer e ela pensou que era ainda mais belo e tentou apanhá-lo, mas não conseguiu. No terceiro dia, o pássaro esvoaçou ainda mais perto. — Gostava tanto de ter esta admirável ave! — exclamou ela.

Sgiathán Dearg aproximava-se cada vez mais. Por fim, logrou apanhá-lo, acariciou-o, beijou-o e levou-o para casa.

Em seguida, pediu que lhe levassem uma gaiola espaçosa, onde o introduziu e conservou no seu quarto, dando-lhe de comer todas as iguarias que ela própria consumia.

A noite, a criada entrou no aposento e, na gaiola, viu um homem em vez de um pássaro. Quando ela se retirou, Noinín voltou-se para Sgiathán Dearg, que lhe explicou:

— Estou sob a influência do feitiço da rainha de Gleann Dearg. Todas as manhãs sou um pássaro, mas à noite recupero a minha forma normal e converto-me em homem. Fico aqui empoleirado e constrangido, entregue ao meu sofrimento. Liberta-me da gaiola, ainda que por pouco tempo, até ao amanhecer.

Ela abriu a porta da gaiola e conversaram até ao romper da alvorada, quando o homem voltou a transformar-se em pássaro, mas não voltou para a gaiola, e a jovem não conseguiu apanhá-lo. Manteve-se no quarto e, quando abriram a porta, saiu disparado e ficou a esvoaçar em redor do castelo.

No quarto dia, Noinín foi passear, para ver se conseguia voltar a apanhá-lo. Estava ansiosa e não se sentia tão bem-disposta como em outras ocasiões. Seguiu atrás de Sgiathán Dearg, rapidamente, esforçando-se por capturá-lo. Assim continuaram durante grande parte do dia, até que chegaram a uma colina. Perto do topo, ela esforçou-se mais uma vez por apanhá-lo, mas, de repente, a encosta abriu-se e ele desapareceu através da abertura, que se tornou a fechar com prontidão. A filha do rei ficou assim abandonada num lugar que não conhecia, pelo que passou a noite na colina, com a esperança de que Sgiathán reaparecesse na manhã seguinte.

No entanto, amanheceu, e o pássaro continuava ausente. Noinín achava-se perante um grande problema e dominada por profunda angústia, consciente de que os pais e demais familiares deviam estar alarmados com a situação. Por fim, começou a afastar-se da colina e caminhou durante todo o dia, até que começou a anoitecer e avistou um belo castelo ao longe. Ao aproximar-se, deparou-se-lhe uma porta enorme ricamente ornamentada, alta e magnífica. Bateu e surgiu uma mulher, que inquiriu:

— Que pretendes, minha filha? Para onde te diriges?

— Venho pedir alojamento para esta noite.

— Tê-lo-ás, assim como jantar, pois deves estar faminta, depois de um longo percurso. És forasteira nesta região, onde passa muito pouca gente. Queres dizer-me como te chamas?

— Sou do Mundo Ocidental e o meu nome é Noinín.

— Que te trouxe para estes lados?

A jovem descreveu toda a história, sem omitir um único pormenor — como conhecera Sgiathán Dearg e o capturara, para depois o perder e perseguir pela segunda vez, vagueando sem rumo definido, até que avistara o castelo.

— Queres entrar para o meu serviço? perguntou, no final, a mulher.

– Sim.

Não se sabe que salário Noinín pediu, nem se chegou a receber algum, porém a mulher explicou-lhe:

— Trabalharás para mim durante um ano e um dia. Suponho que não sabes a quem pertence este castelo!

— De fato, não faço a menor ideia.

— Trata-se da casa do vento e eu sou a rainha do vento.

Quando tinham decorrido três quartas partes do ano, Noinín teve um filho, mas cumpriu todo o período combinado. A mulher nunca lhe encontrou qualquer defeito, nem falou mal dela. No entanto, no termo do prazo, decidiu:

— Não podes continuar aqui. Não quero uma criança a crescer em minha casa. Tens plena liberdade para ir para onde quiseres e trabalhar noutro lugar. — Fez uma pausa e acrescentou: — Ofereço-te este anel. Quando olhares através dele, não terás fome nem sede e verás tudo à tua volta, esteja perto ou distante, à vista ou oculto.

Noinín partiu com o filho e viajou até quase anoitecer. Nessa altura, olhou através do anel, descobriu um elegante castelo e dirigiu-se para lá. Do lado da frente, havia uma porta e um belo prado. Ela bateu e apareceu uma mulher de aspecto agradável.

— Que pretendes?

— Preciso de alojamento por uma noite. Venho de longe e estou muito cansada. Não avistei qualquer casa, além desta.

— Terás alojamento, porque é muito pouco frequente aparecer alguém. Entra. — Noinín seguiu-a, e ela perguntou: — Diz-me quem és.

— Noinín, do Mundo Ocidental. Procuro uma casa para servir.

— Durante quanto tempo?

— O que desejares, mas espero que me seja permitido conservar o meu filho junto de mim.

— Com certeza. Porque não?

— Ele não provoca problemas — assegurou a jovem. — Basta dar-lhe de comer. Não é travesso nem incomodativo.

— Ficarás ao meu serviço um ano e um dia — decidiu a mulher.

Noinín serviu na nova casa com boa vontade. O que a criança não crescia de dia, fazia-o ao longo da noite e, se não era de noite, crescia durante o dia, e ninguém pode imaginar o que aumentava.

— Sabes que casa é esta? — perguntou a mulher.

– Não.

— Não me parece bem que uma pessoa sirva sem saber onde. É a casa da lua e eu sou a rainha da Lua.

As relações entre ambas eram satisfatórias e Noinín uma serviçal excelente: conhecia todos os trabalhos e executava-os o melhor que sabia. Quando transcorreu um ano e um dia, a rainha declarou:

— O teu filho está a crescer muito depressa e tudo indica que será enorme. Não podemos permitir que uma pessoa assim viva mais tempo nesta casa.

— Então, tenho de partir — admitiu Noinín -, pois não posso continuar aqui sem ele.

— Antes de saíres, dar-te-ei um presente. — A mulher entrou num aposento do castelo e reapareceu com um gorro com desenhos e uma varinha. — Pode acontecer ires a um lugar e não saberes onde estás ou como sair de lá. Se tal acontecer, basta pores este gorro e dizer "Desejo encontrar-me neste ou naquele sítio, ou nesta ou naquela rua", para te veres lá imediatamente. Com a varinha, podes abrir caminho através de qualquer lugar ou restituir uma pessoa enfeitiçada à sua forma anterior.

Noinín aceitou o gorro e a varinha, abençoou a mulher e partiu. Durante todo o dia não viu senão páramos e lugares silvestres. Ao anoitecer, lembrou-se do anel que tinha consigo desde que estivera na casa do vento, olhou através dele e avistou um grande castelo, com um pátio nas traseiras e um prado em frente. Quando lá chegou, bateu à porta, que foi aberta por uma mulher formosa.

— Que pretendes ou esperas encontrar aqui?

— Alojamento para esta noite, se estiveres disposta a oferecer-me - respondeu a jovem.

— Dar-te-ei, porque é muito pouco frequente ver uma pessoa desconhecida nestes lados. Que idade tem o teu filho?

— Um ano, três meses e dois dias.

— Se é tão jovem, quando crescer será o maior herói do mundo. Queres entrar para o meu serviço?

– Sim.

— Agora, fala-me de ti. Conta-me tudo e com sinceridade.

Noinín narrou toda a história. No final, a mulher perguntou:

— Sabes que castelo é este?

– Não.

— A casa do Sol e eu sou a rainha do Sol.

A jovem executou perfeitamente o serviço até decorrer um ano e um dia. Não se pode descrever nem explicar como a criança crescia continuamente, nem quanto media.

— Não podemos ter um homem assim cá em casa — anunciou a rainha do Sol. — Deves preparar-te para partir, mas podes ficar mais um dia comigo. Passaste muitas dificuldades e ainda conhecerás mais do que possas imaginar, mas talvez acabes por encontrar dias melhores.

Noinín ficou mais um dia e, na manhã seguinte, viu três corvos diante da janela numa colina. Naquele momento, as aves lutavam umas com as outras.

— E uma pena ver dois matar um — disse o filho.

— Não te preocupes com os corvos — respondeu Noinín. – Não é fácil saber se convém ou não que te intrometas.

Quando anunciou à rainha que tencionava partir na manhã seguinte, esta última discordou.

— Não irás ainda. Gosto da tua companhia. Quero conversar contigo mais tempo.

Na manhã imediata, viram os três corvos pela segunda vez.

— E uma pena ver dois matar um — observou o filho.

— Já te disse ontem que não te preocupasses com isso — lembrou-lhe Noinín.

— Mas preocupo-me! Tenho de ajudar o terceiro corvo.

— Não o farás — decidiu, e, nesse dia, impediu-o de ir ter com as aves.

Mais tarde, falou com a rainha:

— Estou a causar-te mais problemas do que devia e a atrasar-me demasiado.

— Fica comigo hoje, e não te pedirei mais. Tenho algumas outras coisas para te dizer.

Mais uma vez, os três corvos lutavam, dois contra um.

— É uma pena ver dois matar um — tornou a repetir o filho. – Tenho de ajudar o terceiro.

— E difícil manter-te afastado da peleja — reconheceu Noinín, e desta vez não se opôs.

— Tenho uma irmã que afastaram de mim há muitos anos – informou a rainha do Sol. — Agora, que viajarás por lugares solitários e estranhos, abre bem os olhos para veres se a descobres. E impossível prever se voltarás a passar por aqui, mas se tal acontecer avisa-me. Dar-te-ei uma toalha de mesa que, caso necessites, te proporcionará comida e bebida em abundância. Aqui a tens.

O filho dirigiu-se à colina onde se encontravam os corvos.

— É uma vergonha dois tentarem matar um.

— Mais valia que te preocupasses contigo, em vez de vires incomodar-nos — replicou uma das aves.

— Seja como for, vou pôr termo a isto. A partir de agora, só lutará um contra um e o terceiro comigo.

O filho de Noinín lutou com um dos corvos, que voava à sua volta e sobre a sua cabeça, disposto a abatê-lo, quando o jovem lhe apontou a espada e deu uma estocada. O sangue da ave jorrou para a sua mão e, quando a agitou, atingiu outro corvo. Ato contínuo, este transformou-se no homem mais elegante do mundo. Quando o rapaz se deu conta do sucedido, disse ao segundo corvo:

— Não tenho nada contra ti que não tenha contra este.

Salpicou-o de sangue e viu que se convertia num homem como o anterior.

Noinín despediu-se da rainha e empreendeu a marcha com os dois homens e o filho. Os homens iam à frente e, quando começava a anoitecer, chegaram a uma abertura estreita numa enorme escarpa, que se fechou no momento em que eles acabavam de a transpor. Noinín puxou da varinha oferecida pela rainha da Lua e aplicou uma pancada, depois outra e finalmente uma terceira. A passagem abriu-se e ela desceu ao Mundo Inferior, à terra mais magnífica que se podia conceber. Os dois homens encontravam-se lá, na sua frente. Reataram o caminho, que se prolongou por muito tempo. Havia luz a jorros e um campo admirável, com cada zona melhor e mais admirável que as precedentes.

Noinín lembrou-se então do gorro e pô-lo na cabeça, ao mesmo tempo que dizia:

— Desejo que se abra caminho até Gleann Dearg.

Abriu-se imediatamente e eles viajaram longo tempo, não se sabe quanto, até que chegaram a Gleann Dearg, mas não podiam ver nada, porque estava tudo coberto de pó, neblina e um feitiço ofuscante. Encontravam-se esgotados e debilitados pela fome, e não se avistava comida em parte alguma. Noinín lembrou-se então da toalha que trouxera da casa do Sol e não tencionava utilizar até que se visse muito necessitada. Estendeu-a no chão e verificou que estava coberta de comida e bebida em abundância. Todos comiam com prazer, quando surgiu um cisne, que se apoderou da melhor iguaria e voou para longe. Passado pouco tempo, reapareceu e levou outra.

— Se voltas a fazer isso, utilizo a varinha — ameaçou o filho.

O cisne apareceu pela terceira vez, e descia suavemente, quando o filho de Noinín pegou na varinha e o atingiu com ela. No instante imediato, o cisne caiu no chão, transformado numa bela mulher, a irmã da rainha do Sol, que disse a Noinín:

— Esperei durante muito tempo pela chegada do filho de Sgiathán Dearg para quebrar o feitiço que me subjugava. Bem sei que te trouxe nesta direção. Agora, fica aqui. Estes dois heróis proteger-te-ão até que voltemos. O jovem e eu partiremos juntos. E partiram os dois.

— Não tardarás a ver o rei — referiu a cunhada do Sol ao filho de Noinín -, pois ele já sabe que vamos, mas não quem somos. Quando te perguntar quem és e onde vais, responderás que és o filho de um pai e de uma mãe da Irlanda do Norte, já falecidos, e viajas com a tua irmã. Procuras um lugar em que ela possa ficar a servir. Ele aceitar-me-á então para criada de quarto da filha. Tu ficarás nas proximidades, pois eu sairei a dar uma volta todas as noites. Em virtude do cargo que exercer lá, poderei inteirar-me do que se passa no castelo.

Com efeito, o rei de Gleann Dearg contratou a cunhada do Sol para ficar ao serviço da filha. No dia seguinte, a princesa e a criada saíram a passear.

— Isto é um lugar escuro e solitário — disse esta última. — Como consegues suportar a vida aqui, onde só há nevoeiro espesso?

— Não te preocupes — replicou a filha do rei. — Vem comigo, para darmos uma volta.

Andaram até chegar a um castelo, que, outrora, devia ter sido suntuoso. Na porta, havia uma aldrava, e a princesa indicou, apontando-a:

— Puxa-a. — A criada obedeceu. — Agora olha em volta.

A terça parte da planície estava iluminada com intensidade. Tornou a puxar a aldrava, e a luz propagou-se a dois terços. Ao terceiro puxão, a iluminação foi total.

— A minha mãe enfeitiça esta planície todas as manhãs para toda a gente, exceto para si própria, e permanece assim até à noite. Nessa altura, fica tão escura para ela como para os outros, mas se um homem conhece o segredo dos puxões da aldrava, pode iluminar a planície, como nós acabamos de fazer.

Na noite seguinte, a criada saiu para se encontrar com o filho de Noinín. Passearam juntos e andaram longamente, até que chegaram ao castelo parcialmente em ruínas.

— Na sua época, era suntuoso — disse ela.

— Ainda hoje se nota.

— Puxa essa aldrava, mas com força.

Ele obedeceu, e a terça parte da planície tornou-se visível.

— Torna a puxar — indicou a criada.

Desta vez, tornaram-se visíveis dois terços. Ao terceiro puxão, toda a planície resplandecia.

— Também a podes arrancar, se quiseres.

O filho de Noinín assim fez, e o feitiço de Gleann Dearg desapareceu por completo.

— Agora, puxa a deste lado da porta.

No momento seguinte, uma voz proferiu:

— Sou Fear an Fháinne. Que pretendes de mim?

— Quero que a rainha e a sua filha não voltem a enfeitiçar esta planície e Sgiathán Dearg venha imediatamente.

O poder da rainha terminou nesse momento e, pouco depois, Sgiathán Dearg encontrava-se entre eles. Quando o filho de Noinín atingiu o pássaro Sgiathán Dearg com a varinha, este transformou-se num herói mais formoso que qualquer outro homem e acompanhou-os ao lugar onde Noinín e os outros o aguardavam.

— Tinhas-me visto antes? — perguntou Noinín.

— Sim — respondeu Sgiathán Dearg. — Com certeza.

— Porque não me procuraste ou foste atrás de mim, em vez de me deixares só no mundo, a lamentar-me e a vaguear por lugares solitários?

— Não estava dentro das minhas possibilidades. Dominava-me a magia da rainha de Gleann Dearg, que me obrigava a permanecer no seu castelo como homem todas as noites, exceto três em cada sete anos. Foram essas que passei no do teu pai ou perto dele. De resto, se te encontrasse sob a forma de pássaro, que poderia fazer por ti?

— Absolutamente nada — reconheceu Noinín.

O seu filho mantinha relações excelentes com a jovem princesa de Gleann Dearg. Amavam-se muito, casaram e ficaram a viver nesse país.

— Voltemos para a nossa casa e deixemos isto ao meu filho -propôs Noinín.

— Não desejo outra coisa — declarou Sgiathán Dearg.

E puseram-se a caminho em direção ao Mundo Superior — os dois heróis que tinham sido corvos e a cunhada do Sol acompanharam-nos. Quando passaram perto da casa do Sol, Noinín sugeriu:

— Podíamos pernoitar aqui.

Assim fizeram. A rainha do Sol acolheu-os com entusiasmo, mostrando-se encantada e contente.

— Conheces esta mulher? — perguntou Noinín.

— Não — respondeu a rainha.

— Contaste-me que tinhas uma irmã que foi separada de ti há muitos anos.

— Sim, mas era então muito jovem. Não conheço esta mulher.

Noinín trouxera de Gleann Dearg a aldrava que convocava Fear an Fháinne e chamou-o.

— Explica à rainha que esta mulher é a sua irmã — ordenou-lhe.

Fear an Fháinne narrou a história, a rainha acreditou e ele desapareceu imediatamente.

— O meu marido jaz aqui convertido numa pedra — informou a rainha. — Foi a rainha de Gleann Dearg que o reduziu a essa forma. Dá-lhe saúde e força de novo. Liberta-o.

— Puxa essa aldrava — indicou-lhe Noinín. — Convoca tu própria Fear an Fháinne.

A rainha obedeceu. Ato contínuo, Fear an Fháinne devolveu ao Sol a sua força e brilho, encontrando-se perante a sua rainha, tão ágil e em bom estado como sempre.

Todos passaram a noite com alegria e prazer. Na manhã seguinte, ressuscitaram o corvo morto, o terceiro irmão. Os três homens que haviam sido corvos e lutado permanentemente na colina diante da casa do Sol eram irmãos de Sgiathán Dearg que também tinham sido enfeitiçados pela rainha de Gleann Dearg e continuariam a defrontar-se entre si, se não fossem resgatados.

Noinín regressou ao seu lar no Mundo Ocidental, acompanhada de Sgiathán Dearg e dos seus três irmãos.

Fonte:
Contos Tradicionais da Irlanda

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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