Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 11 de janeiro de 2020

Antonio Roberto de Paula (Outra e Mais Outra para Relaxar)


– E aí?

– Beleza?

- Beleza.

- Vamos tomar uma hoje?

- Hoje, não. Sem chance.

– O que houve?

– Aquela dor.

- Voltou?

– É.

- Você precisa ir a um médico, cara!

- Se continuar, eu vou.

– Tá doendo muito?

- Pra caramba. Exagerei ontem.

– Onde cê foi?

- Passei por quatro botecos.

- O que te arrebenta é que você mistura.

– Cê também, cara!

- É, mas dou um tempo. Você é todo dia.

- Tava pensando. Será que eu sou alcoólatra?

- Deixa de ser besta. Lógico que não.

- Mas todo dia eu tenho que tomar pelo menos uma.

- É normal. A gente fica cansado e nervoso e toma pra relaxar.

- Mas ontem eu não fiz nada. Não cansei e não fiquei nervoso. Quando me dei conta já tinha tomado uma meia dúzia de cervejas e outro tanto da branca.

- Cê tomou remédio?

– Tomei um pra dor de cabeça e outro pro estômago.

- E não melhorou?

- A cabeça tá mais leve, mas o estômago tá esquisito. Não comi nada ontem e tô sem fome hoje.

– Por que você não vai num médico?

– Tô com medo.

– Do que?

– Acho que ele vai encontrar alguma coisa.

– Ah, encontrar com certeza ele vai, mas bota fé que não é nada grave. No máximo uma gastrite.

– Acho que a gente tá exagerando na bebida.
 
– Também acho. Mas fala pra mim, tem coisa mais gostosa do que ficar numa mesa de bar?

- Mas precisa de bebida sempre?

- E tem jeito de ficar duas horas conversando tomando guaraná e suco de laranja?

- E vendo os caras das outras mesas dando aquelas goladas gostosas na cerveja?

- Falando nisso, vamos pedir uma? Uma só?

- Não, hoje eu tô fora.

- Pede uma cerveja preta. É fraquinha. Teu estômago nem vai sentir.

- Não.

- Então bebe uma jurubeba ou uma raiz amarga. É bom pro estômago.

- Não, pede uma cerveja pra você que eu vou tomar só um copo.

– Tá.

– Acho que esta gastrite pode ser também do cigarro.

-Também colabora. Bebida e cigarro com o estômago vazio não é mole.

- Quantos cigarros você fuma por dia?

- Um maço e meio. Por aí. Durante o dia eu regulo, mas no bar eu acendo até na bituca.

- Igual eu. Põe mais um pouquinho.

- Cê falou deste lance de alcoólatra. Será que a gente é?

- Pra falar a verdade, na bucha mesmo, acho que sim.

- Não tinha pensado nisso.

- Penso direto nisso, mais ainda quando acordo de ressaca. Sabe aquela hora que você encara o espelho e fica louco de arrependimento?

- E promete que não vai tomar mais nenhuma até o próximo milênio?

- É. E à tarde esquece do que falou. Põe mais um golinho.

– Tô ficando barrigudo.

– Barriga de chope.

- E você, além de barrigudo, tá com a cara inchada.

- Não tem nada a ver com a bebida. Meu pai é assim.

- Porque também é outro bêbado. Rá, rá, rá, rá, ...     Vou pegar mais uma.

– Teu caso é mais grave. Você é baixinho. Não dá pra disfarçar.

- Vamos fazer um trato. A gente só toma na terça, quinta e sábado.

- Hoje é segunda. Então vamos ter que tomar amanhã.

- Não disse que vamos ser obrigados a tomar nestes três dias Podemos passar batidos.

- Tem que ter opinião. Pode pintar a maior festa do mundo que a gente não bebe. Certo?

- Certo, mas é bom acertar que no domingo é opcional. Imaginou passar um domingão a seco?

- E a sexta? Fim de expediente.

– O que é que tem?

- O que é que tem? Quando foi que você deixou de beber na sexta-feira?

– Acho que nem na Sexta-feira Santa.

- Sobra a segunda e a quarta.

- Certo. Mas tem uma coisa. E se jogo da seleção cair num destes dias?

- Mas aí pode. É um caso excepcional. Copa do Mundo é de quatro em quatro anos. Ver jogo da seleção sem tomar uma cervejinha nem pensar

– Concordo. Coloca mais um pouco aí no meu copo.

Fonte:
Antonio Roberto de Paula. Da minha janela. Maringá/PR: Gráfica Sthampa, 2003.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to