terça-feira, 27 de outubro de 2026

José Feldman (Livro da Saudade)

No meu livro de lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução…
Vanda Fagundes Queiroz 
(Curitiba/PR)

Escrever a própria história é um exercício de paciência arqueológica. O tempo passa e nós nos tornamos os autores de uma obra que só se encerra com o último suspiro. Olhar para trás e folhear as páginas internas é deparar-se com o verso preciso da poetisa: “a vida como um livro de lembrança, ainda sem conclusão”. Estamos sempre no gerúndio, rascunhando capítulos, corrigindo parágrafos e rasgando páginas inteiras de arrependimento.

Contudo, o nó cego da nossa existência reside na primeira página. A trova nos oferece um diagnóstico cirúrgico da alma ao inverter a cronologia dos afetos: “saudade é aquela esperança que compôs a introdução”.

Geralmente, pensamos na saudade como um olhar voltado para trás. Julgamos que ela é o resíduo do que passou, a poeira que fica na sala depois que a visita vai embora. Mas a filosofia do tempo nos ensina que a saudade morde mais fundo por outro motivo: ela não é a falta do passado, mas a falta do futuro que havíamos projetado. Quando recordamos com dor ou melancolia um amor que acabou, uma infância distante ou um porto que deixamos, não choramos apenas pelo que foi. Choramos pela esperança que tínhamos naquela época.

A introdução do nosso livro de lembrança é sempre escrita com a tinta fresca da expectativa. Quando somos jovens, ou quando iniciamos um novo ciclo, cada passo é dado em direção a um horizonte luminoso. Vestimos o mundo com os nossos melhores desejos. Essa esperança inicial é o prefácio de tudo o que virá.

Com o avançar dos capítulos, a realidade impõe sua revisão textual. O tempo, esse editor implacável, corta nossos excessos, cancela personagens que amávamos e muda o rumo da narrativa sem nos pedir licença. É aí que a esperança original, aquela que abriu o livro, muda de nome. Ela não morre; ela se transmuta. O desejo pelo que poderia ser torna-se a falta daquilo que poderia ter sido. A esperança, quando envelhece, vira saudade.

Portanto, haver saudade na nossa introdução significa que fomos corajosos o suficiente para começar a história com entusiasmo. Um livro que não guarda saudades na abertura é um livro que nasceu frio, escrito por quem nunca ousou esperar nada da vida. A saudade que carregamos não é um sinal de derrota diante do tempo, mas a prova biográfica de que nossa introdução foi rica em promessas.

O livro continua sem conclusão. Novas páginas estão em branco, prontas para o dia de amanhã. O bom autor da própria vida sabe que não pode apagar a introdução, nem deve passar o resto dos dias relendo o mesmo início. A sabedoria consiste em aceitar que a saudade é o lastro poético da nossa caminhada. Olhamos para ela com respeito, fechamos aquele primeiro capítulo com um sorriso melancólico e voltamos a segurar a caneta. Afinal, a história ainda está sendo escrita, e cada novo parágrafo é uma chance de reinventar o que a esperança começou.
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José Feldman (1954) 
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)
    Defensor ferrenho da causa animal: “Para mim, os cães e gatos não são apenas animais de estimação; eles são, genuinamente, irmãos. Esse tratamento reflete a profundidade de um amor incondicional e uma dedicação incansável à causa animal. Sob a minha ótica, a barreira entre as espécies se dissolve diante do respeito mútuo, da lealdade e da pureza que esses seres de quatro patas oferecem. Defender a vida, a dignidade e os direitos desses "irmãos" é uma missão de vida, merecedores de todo o cuidado, proteção e carinho. A presença e a proteção desses animais vão muito além do ambiente doméstico, desempenhando papéis fundamentais na sociedade humana: Eles atuam como verdadeiros terapeutas, reduzindo os níveis de estresse, ansiedade e solidão em pessoas de todas as idades. Como cães-guia e de assistência médica, garantem autonomia, segurança e mobilidade para pessoas com deficiências ou condições crônicas. O convívio e o respeito pelos animais ensinam às novas gerações valores cruciais como responsabilidade, compaixão, cuidado com o próximo e altruísmo. Graças aos seus sentidos aguçados, muitos trabalham ao lado de forças de segurança em missões de resgate, farejamento e salvamento de vidas humanas. Resgatei da rua cães e gatos abandonados.”

Estante de Livros (“Til”, de José de Alencar)

Til, romance publicado por José de Alencar em 1871, é uma das obras mais expressivas do seu ciclo de romances regionalistas. Ambientado no interior de São Paulo (na região de Campinas) durante o século XIX, o livro utiliza uma trama folhetinesca e cheia de mistérios para retratar a vida rural, os costumes da época, o sistema patriarcal e a cruel realidade da escravidão.

1. RESUMO DA ESTRUTURA DA TRAMA

A história gira em torno de Berta, uma jovem órfã, alegre e caridosa, apelidada carinhosamente de "Til" (por ser pequena e ativa como o sinal gráfico). Ela vive sob a proteção de Nhá Santana e é adorada por quase todos na região, especialmente por dois rapazes: Miguel (seu irmão de criação) e Afonso (filho do poderoso fazendeiro Luís Galvão).
Paralelamente, conhecemos Jão Fera, um temido jagunço e assassino que, secretamente, protege Berta com a própria vida. O nó dramático desata-se quando segredos do passado vêm à tona: descobre-se que Berta é, na verdade, filha bastarda de Luís Galvão com Besita (uma antiga paixão). Besita foi assassinada por ciúmes pelo próprio marido, Ribeiro, que agora retorna sob a identidade de um misterioso ermitão para se vingar de Luís Galvão. Jão Fera, que era apaixonado por Besita, jurou proteger a filha dela (Berta) a qualquer custo.

2. ANÁLISE DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS

Berta (Til): 
É a personificação da virtude, da pureza e do altruísmo. Berta funciona como o "anjo tutelar" da narrativa; ela cura doentes, amansa feras (como o próprio Jão Fera) e tenta trazer luz para a vida de todos. Diferente de outras heroínas românticas, ela abre mão do próprio casamento com Afonso para garantir a felicidade alheia e cuidar dos necessitados.

Jão Fera: 
Um dos personagens mais complexos e fascinantes de Alencar. É o "bom selvagem" ou o herói marginalizado. Embora seja um matador cruel para a sociedade, sua brutalidade é fruto de um meio injusto. Ele é totalmente regenerado pelo amor platônico que sentia por Besita e pelo instinto paternal de proteção a Berta.

Luís Galvão: 
Representa o patriarca da época. Homem respeitado, dono da fazenda das Palmas, mas carimbado por erros e covardias do passado (o adultério e o abandono de sua filha biológica, Berta).

Brás: 
Um rapaz com deficiência mental crônica que é ridicularizado por quase todos, exceto por Berta. Ela dedica tempo para ensiná-lo, alfabetizá-lo e integrá-lo, mostrando a faceta de assistencialismo e caridade da protagonista.

3. TEMÁTICAS CENTRAIS

O Regionalismo e a Crítica Social
Embora o Romantismo tenda a idealizar a realidade, Alencar insere em Til fortes elementos de denúncia social que antecipam o Realismo:

A Escravidão: 
Ao contrário de outras obras onde o tema é suavizado, em Til a violência da escravidão é explícita. O autor retrata castigos físicos, o terror dos escravizados fugidos e a desumanização do sistema. A figura do feitor e a descrição do cativeiro demonstram o peso dessa engrenagem na riqueza das fazendas de café.

O Patriarcalismo: 
A autoridade incontestável dos senhores de terras e a submissão das mulheres e agregados são expostas na dinâmica da Fazenda das Palmas.

O Determinismo e o Espaço
O cenário (a fazenda, a mata, o rio, o quilombo) não é apenas um pano de fundo, mas um agente ativo na história. Há um contraste claro entre o espaço civilizado (a casa grande da fazenda) e o espaço selvagem (a floresta onde Jão Fera habita). A natureza molda o caráter e o destino das personagens.

O Sacrifício Romântico
O desfecho da obra quebra a expectativa tradicional do "final feliz" com casamento. Berta escolhe a santidade e o dever moral em vez do amor romântico. Ela decide permanecer solteira para continuar exercendo seu papel de protetora dos desamparados (especialmente cuidando de sua mãe adotiva e de Brás).

4. ESTILO E LINGUAGEM

José de Alencar utiliza uma linguagem rica em metáforas, descrições detalhadas da fauna e flora paulistas e termos típicos do falar caipira da época. A narrativa adota o formato de folhetim: capítulos curtos, ganchos de suspense ao final de cada seção, revelações bombásticas de parentesco e forte apelo emocional.

5. IMPORTÂNCIA DA OBRA

Consolidou o projeto literário de Alencar de mapear a identidade brasileira através de suas regiões. Enquanto O Gaúcho explorou o Sul e O Sertanejo o Nordeste, Til imortalizou o interior do Sudeste cafeeiro, servindo como um valioso documento literário sobre as contradições éticas, sociais e humanas do Brasil imperial.

6. SINOPSE

O Cenário e a Protagonista
A trama se passa na década de 1820, no interior da província de São Paulo, na região de Campinas. O centro do universo narrativo é a Fazenda das Palmas, propriedade do respeitado e poderoso patriarca Luís Galvão. Próximo dali, vive Berta, uma jovem órfã de beleza singular, inocente e de espírito altruísta, apelidada de Til. Berta é uma espécie de "anjo tutelar" da região: ela espalha alegria, cuida dos necessitados e consegue amansar as figuras mais brutas e marginalizadas daquele ambiente rural, como o jovem Brás — um rapaz com severa deficiência mental a quem ela tenta alfabetizar.

O Triângulo Amoroso e as Tensões Sociais
Berta cresceu ao lado de Miguel, seu irmão de criação, que nutre por ela uma paixão reprimida. No entanto, ela também desperta o amor de Afonso, o filho herdeiro de Luís Galvão. Enquanto os jovens vivem os dilemas típicos do amor romântico, o pano de fundo da fazenda revela as feridas abertas do Brasil colonial: a brutalidade da escravidão, o medo dos negros fugidos e a opressão do sistema patriarcal.

Os Segredos do Passado e as Revelações
A calmaria da vida rural é estraçalhada quando mistérios soterrados há mais de dezesseis anos começam a vir à tona. Descobre-se que Berta não é uma simples órfã, mas sim filha bastarda do próprio Luís Galvão com uma antiga paixão, Besita. No passado, ao descobrir a traição, o marido de Besita, Ribeiro, assassinou a esposa a facadas em um ataque de ciúmes e desapareceu.
No presente da narrativa, Ribeiro retorna sob a alcunha de um misterioso Ermitão, movido por um desejo cego de vingança contra Luís Galvão. Para executar seus planos de sangue, ele tenta contratar o temido jagunço e matador de aluguel Jão Fera.
O que o Ermitão não sabe é que Jão Fera — o homem mais perigoso da mata — era secretamente apaixonado pela falecida Besita. Ao descobrir que Berta (Til) é a filha da mulher que ele amou, Jão Fera se regenera pelo afeto platônico e jura, com a própria vida, proteger a jovem de qualquer perigo, inclusive do próprio pai vingativo e das ambições dos fazendeiros.

O Desfecho Sacrificado
A narrativa se transforma em um emocionante jogo de perseguição, emboscadas na floresta, revelações de parentesco e resgates heroicos. No clímax da história, a verdade é exposta a todos, forçando os personagens a encarar os erros do passado. Rompendo com o tradicional final feliz dos folhetins, Berta decide abrir mão do casamento e do amor de Afonso para se dedicar inteiramente à caridade, assumindo o papel de protetora dos desamparados daquela comunidade, enquanto aqueles que a cercavam colhem as consequências de suas escolhas.

Fonte:
Análise detalhada da obra. Floresta: out. 2026. Comunicação pessoal em formato de texto gerado sob demanda pelo usuário com IA Google.
Imagem criada com IA Microsoft Bing

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Filemon F. Martins (Semeando Trovas)

  

1
A brisa passa e sussurra
uma canção de bonança,
e a praia, envolta em ternura,
lembra um lençol de esperança.
2
A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
3
A felicidade é um sonho,
- por que deixar pra depois?
O amor é sempre risonho
na vida vivida a dois.
 4 
Aquele beijo de Judas
no cenário da traição,
revela que as trevas mudas
podem trair nosso irmão.
5
Cai a chuva na vidraça
e eu fico triste, porque
não há beleza nem graça
nesta casa sem você.
6
Céu azul, todo estrelado,
sorrindo, ao clarão da lua,
e o meu peito, apaixonado,
a chorar a ausência tua.
7
Ciúme é cuidado e zelo
que temos do nosso bem,
pois não queremos perdê-lo
para os olhos de outro alguém.
8
Como é bom viver à toa
e sempre fazer o bem,
que a Natureza abençoa
quem vive em Itanhaém.
9
Criança és flor, és bonança
espargindo luz e amor,
porque trazes a esperança
de um futuro promissor.
10
Criança, teu riso é tudo,
traz um brilhante porvir,
se amparada com estudo,
o mundo volta a sorrir.
11
“Das coisas belas da vida”
que colhi, em profusão,
eis a mais nobre e querida:
em cada TROVA um irmão!
12
Da vida não quero a glória
que tanto engana e seduz.
Prefiro não ter história
a renunciar minha cruz.
13
De manhã, sinto o perfume
das flores no meu jardim,
e um beija-flor – que ciúme,
chegou bem antes de mim.
14
Do fruto vem a esperança,
depois da bonita flor.
Assim também a criança,
depois de um florido amor.
15
É Natal! Nossa Esperança
de ser bom, fazer o bem,
nasce com aquela criança
na manjedoura em Belém.
16
Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.
17
Este cigarro, este fumo
que você traga com gosto,
será depois, em resumo,
o seu mais forte desgosto.
18
Eu sinto nos braços teus,
um carinho, um aconchego,
e me torno um semideus
vivendo em paz, no sossego.
19
Falando de amor, Maria,
que saudades sinto agora
daquela doce alegria
que em teus olhos vi outrora.
20
Gaivotas passam voando
o céu azul é um lençol;
casais na praia se amando
sob os olhares do sol.
21
Gosto da vida pacata,
homens simples dos sertões,
pois vejo usando gravata
por aqui muitos ladrões.
22
Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
23
Meu peito canta, sorrindo,
ao ver o clarão do dia,
enquanto a noite fugindo
deixa rastros de alegria.
24
Minha mãe – como eu quisera
do meu amor dar-te prova,
e o meu carinho – pudera
enviar-te numa TROVA.
25
Na minha vida pacata
que levo desde menino,
tenho sido um acrobata
no circo do meu destino.
26
“Não há vaga”. Está escrito
naquele enorme portão,
e o trabalhador, aflito,
em casa não tem feijão.
27
Não julgue pela aparência,
não condene sem saber;
às vezes com paciência
algo bom temos de ver.
28
Não me fascina o sucesso,
nada tenho para dar.
Quero apenas – eu confesso
o amor no mundo espalhar.
29
Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.
30
Nenhum poema é mais belo
e inspira tanta esperança
do que um sorriso singelo
no rosto de uma criança.
31
Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.
32
No livro da natureza
as lições são sem iguais.
Tenho, por isto, certeza
que é onde se aprende mais.
33
No meu balaio carrego
sonhos de amor e venturas,
mas muitos sonhos, não nego,
se tornaram desventuras.
34
No Sertão ninguém contesta,
o povo celebra e canta.
A chuva promove a festa,
fartura para quem planta.
35
No teu sorriso, criança,
vejo o mais belo perfil,
porque tu és a esperança
do futuro do Brasil.
36
O céu, hoje, de repente
escureceu e chorou.
O sertanejo, contente,
sorriu, pulou e cantou.
37
O tempo – é santo remédio,
cura os males da paixão:
- cicatriza a mágoa e o tédio
e dá paz ao coração.
38
Ouço o barulho das águas
que se batem nos rochedos,
vão levando minhas mágoas,
vão sepultando segredos!
39
Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.
40
Quantas noites, meu amor,
olhando, no céu, a lua,
eu me sinto um trovador
pensando na imagem tua.
41
Que fomos feitos de barro,
não há, aqui, discussão.
Mas quando em você esbarro,
esse barro é de emoção.
42
Quem conversa sem saber,
querendo ser sabichão,
cuide, que vai receber
severa repreensão.
43
Que o teu futuro, criança,
seja de luz e esplendor,
vislumbre de confiança
no mundo do desamor.
44
Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de MULHER!
45
Sinto um perfume na rua
fazendo a gente feliz,
enquanto a noite flutua
nas flores de bogaris.
46
“Sorriria de feliz”
e o mundo teria paz,
se o coração que maldiz
soubesse perdoar mais.
47
Sou aprendiz nesta Escola
de amores, lições e sonhos,
- meu verso voa e decola
buscando dias risonhos.
48
Tenho certeza que a trova
– poema feito de amor -
é um sonho que se renova
na vida de um trovador.
49
Vivendo ao sabor do vento
neste vaivém de emoção.
Sou, no mundo, um cata-vento
buscando o teu coração.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Filemon F. Martins (1950)
FILEMON FRANCISCO MARTINS é um renomado escritor, poeta e trovador brasileiro, reconhecido como um dos nomes expressivos da poesia lírica e do trovadorismo nacional. Nasceu EM 1950, na cidade de Ipupiara/BA (região da Chapada Diamantina). Passou a infância e juventude na Bahia (em Ipupiara e Morpará). Posteriormente, mudou-se para São Paulo (SP), onde fixou residência por longos anos para estudar e trabalhar. Cursou Administração de Empresas na Faculdade de Administração e Ciências Econômicas "Santana", em São Paulo. Prestou serviços para grandes corporações e órgãos públicos, incluindo a Empresa Folha da Manhã S.A. e a Prefeitura Municipal de São Paulo. Desenvolveu sólida carreira no Judiciário Federal, atuando e aposentando-se na Subsecretaria de Feitos da Presidência (UFEP). Foi também filiado ao Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD).
Filemon possui uma produção diversificada em artigos, crônicas, sonetos e trovas, sendo membro de várias entidades literárias e culturais de destaque. Sua trajetória é marcada por reconhecimentos em trovas e antologias poéticas pelo país. Membro da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras, Anápolis/GO; The International Academy of Letters of England, (London, England); Academia de Letras de Ipaussu/SP; Clube Baiano de Trova, Salvador/BA; Instituto Cultural do Vale Caririense, em Juazeiro do Norte/CE; Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD), Confraria Brasileira de Letras (PR).
Sua bibliografia abrange obras poéticas e pesquisas genealógicas: “Flores do meu jardim” (Poemas, 1997), “Anseios do coração” (Poemas, sonetos e trovas, 2011); “Dicionário genealógico da família Ribeiro Martins” em coautoria com Mário Ribeiro Martins (2007); “Fagulhas” (Miscelânea, 2013); “Sonetos & Trovas” (2014); “Histórias que só agora eu conto” (2018) e – “Caminhos do Jordão da Bahia” (2022).
A relevância do autor reside na preservação das formas clássicas da poesia e na contribuição para o resgate histórico e cultural brasileiro.

Biografia = Scortecci, Unicamp, Página 3, Anseios do Coração, Confraria Brasileira de Letras, etc.

Hans Christian Andersen (O fundão do sino)

Ding- Ding! Ding-dong!

O som sobe do "Fundão do Sino". no ribeiro de Odense. Não há criança na velha cidade de Odense, na ilha de Fiônia, que não conheça aquele riacho, que rega os jardins que rodeiam a cidade. Corre da represa ao moinho, passando por baixo das pontes de madeira. Florescem nas suas águas os lírios amarelos, que o povo chama botões do ribeiro; e crescem também ali o juncos de penacho castanho; e tifas escuras e aveludadas, de grande porte. Junto do Campo do Monge, e da Lavanderia, os salgueiros velhos, já de tronco fendido, mas ainda tesos e direitos, debruçaram-se por cima das águas; mas em frente deles veem-se jardins que se sucedem, todos diferentes, uns cheios de flores e ostentando caramanchões, graciosos e elegantes como uma cidadezinha de bonecas, outros onde  vicejam apenas repolhos e outras hortaliças. Noutros pontos não se avistam os jardins, porque sabugueiros viçosos estendem os galhos por cima das águas. Estas são, nalguns pontos, tão fundas, que o remo não lhes alcançava o leito. O ponto mais fundo fica defronte do convento das freiras: o "Fundão do Sino". 

É lá que mora o velho gênio das águas, o "Homem do Riacho". Dorme durante o dia, enquanto o sol cintila na água, e aparece nas noites estreladas, e à luz do luar. É muito, muito velho. A avó diz que a sua avó contava histórias dele: que vivia uma vida solitária, sem falar com ninguém, a não ser com o enorme e velho sino da igreja. Dantes o sino se balançava na torre da igreja; mas agora já não se vê sinal algum nem da torre nem da igreja, que tinha a invocação de Santo Albano.

Ding-dong! Ding-dong!

Era a voz do sino, quando ainda estava pendurado no alto da torre; mas uma tarde, quando o sol já ia descendo no horizonte, e o sino estava no auge da agitação, despencou-se lá de cima e veio voando pelos ares; e o metal polido reluzia como se fossem brasas, aos raios vermelhos do sol.

- Ding-dong! Ding-dong! - Cantava o sino- Ding-dong! Agora vou descansar!

E voou para o riacho de Odense, e lançou-se no lugar mais fundo. Por isso se chama hoje aquele ponto o "Fundão do Sino".

Mas o sino não achou naquele lugar nem sono, nem sossego. Lá embaixo, na morada do Homem do Riacho, repica e canta tanto, que às vezes o som repercute na água. Há quem diga que esse som indica que alguém vai morrer. Isso não é verdade, não: o sino canta e conversa com o Homem do Riacho, que já não vive agora sozinho.

E que é que lhe conta o sino? Já vimos que é muito, muito velho. Existia antes que a avó da vovó tivesse nascido; pois mesmo assim, com toda essa idade, é uma criança, comparado com o Homem do Riacho, que é um velho  taciturno, um esquisitão. Veste calças de pele de enguia com botões amarelos - os botões do riacho - e traz à cabeça uma coroa de juncos. A barba é toda cheia de lentilhas dos rios. Pois com toda essa esquisitice, é um velho de aspecto agradável.

Seriam precisos dias e anos, para repetir tudo quando o sino conta. Ano após ano, conta ele sempre as mesmas histórias antigas, mas renovadas: ora abreviadas, ora desenvolvidas, conforme a disposição do momento. Conta coisas dos tempos antigos, dos sombrios tempos antigos:

- Na igreja de Santo Albano, o monge subia à torre. Era jovem e belo, mas tão taciturno... Olhava pela claraboia, olhava para o ribeiro de Odense, naquele tempo em que tinha ainda o leito largo, e o Campo do Monge era ainda um lago. Seus olhos vagavam sobre o dique verde, e o Cerco das Freiras, e lembrava-se dela; e o coração batia-lhe com mais vigor:

Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong!...

Sim, era isso o que o sino contava.

- O estúpido criado do bispo subia também à torre, quando eu, o sino fundido de metal, me agitava e cantava, com a minha voz dura e poderosa. Eu poderia esmagar-lhe o cérebro. Ele se acomodava em debaixo do lugar onde eu estava suspenso, agitando duas varetas, como se fosse um instrumento de corda, e cantava:

"Agora posso cantar, posso cantar em voz alta, as coisas que noutra a hora nem sequer posso cochichar... Posso cantar tudo quanto eles mentem escondido, encerrado, fechado...Lá reina o frio e a umidade. Os ratos nos comem vivos... Ninguém sabe disso, ninguém ouve dizer estas coisas, ninguém ouve... Nem agora ouvirão, pois o sino repica e canta:

"Ding-dong! Ding-dong!

"Havia naquele tempo um rei, chamado Kanut, que respeitava os bispos e os monges. Mas ele ofendeu os camponeses com palavras duras, e impôs-lhes pesados impostos, e eles pegaram em armas e paus, e perseguiram-no, como  a uma fera. O rei Kanut foi refugiar-se na igreja, e fechou a porta; e a turba enfurecida acampou diante da igreja. Eu ouvi contar essa história. Os corvos e as gralhas, espantados com os gritos e vociferações que retumbavam ali, voavam, entrando na torre, e dela saindo, olhavam para a multidão reunida lá embaixo , espiavam pelas janelas da igreja, e contavam em altos gritos o que viam: o rei Kanut estava rezando, prostrado, diante do altar, enquanto seus irmãos Érico e Benedito ficavam de guarda à porta, de espada desembainhada. Mas o criado  do rei, o desleal Blake traiu o amo. A multidão reunida diante da igreja ficou sabendo onde poderia acertar um tiro no rei, e um deles atirou uma pedra pelo vitral. E agora o rei jazia ali, morto. os gritos da turba feroz e das aves assustadas retiniam e faziam o ar estremecer. Também eu juntei meu canto ao deles:

" Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong!

" O sino da igreja está suspenso lá no alto, e olha para longe, e avista as aves, e entende-lhes a fala. O vento entra, uivando, na sua morada, pelas claraboias e sineiras; entra por todas as fendas. E o vento sabe de tudo: ele fica sabendo de tudo quanto se passa pelo ar, que cerca tudo quanto existe, e se introduz nos pulmões dos homens; sabe tudo quanto se manifesta por meio de sons e ruídos, ouve cada palavra, cada suspiro... O ar fica sabendo de tudo, e conta tudo ao vento; o sino da igreja entende-lhe a linguagem, e , repicando, comunica tudo ao mundo:

" Ding-dong!... Ding-odng!...

"Mas afinal cansei-me de ouvir e de saber tantas coisas. Já não podia anunciá-las, repicando e cantando. Fiquei tão fatigado, senti-me tão pesado, que afinal o campanário desmoronou, e eu voei pelo ar luminoso, e desci para o lugar mais fundo do rio, onde mora o Homem do Riacho, solitário, sozinho. E aqui conto agora todos os dias o que ouvi e o que sei. Ding-dong! Ding-dong!..."

Assim soa  e se lamenta o sino, no riacho de Odense. Foi a avó quem o contou.

Mas o mestre, na escola, diz que sino nenhum pode repicar lé embaixo, na água, não há nenhum Homem do Riacho, porque não há mesmo. E quando todos os outros sinos da outras igrejas ressoam tão maravilhosamente, diz ele que o que soa não é o sino, mas o ar; e que é o ar que produz aqueles repiques. E avó conta também que o sino mesmo já tinha dito isso.

Nesse ponto ambos estão de acordo, o que já não é pouco. Ambos diziam:

"Sê prudente, sê prudente, e tem cuidado!"

O ar sabe tudo, paira em volta de nós, está dentro de nós, fala dos nossos pensamentos e das nossas ações - e fala mais lentamente do que o sino do Fundão do Riacho de Odense, onde mora o Homem do Riacho.

O ar faz os nossos pensamentos ressoarem para fora, até o imenso fundo do Céu, muito longe, e sempre, sempre... até que os sinos do Céu repiquem:

Ding-dong!...Ding-dong!…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Hans Christian Andersen (1805 - 1865)
    HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. 
    Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Estante de Livros (“Trilogia Dupin”, de Edgar Allan Poe)

A Trilogia Dupin, escrita por Edgar Allan Poe entre 1841 e 1844, é a pedra angular da literatura policial moderna. Através do personagem Chevalier C. Auguste Dupin, Poe não apenas inventou a figura do detetive excêntrico e genial, mas também estabeleceu os principais clichês, estruturas e convenções narrativas que definiriam o gênero pelos séculos seguintes, influenciando diretamente criadores como Sir Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Agatha Christie (Hercule Poirot). 

1. OS TRÊS CONTOS DA TRILOGIA

Cada narrativa da trilogia explora uma faceta diferente da investigação e consolida subgêneros específicos do romance policial:

Os Assassinatos da Rua Morgue (The Murders in the Rue Morgue, 1841):

O Enredo: Duas mulheres são brutalmente assassinadas em um quarto trancado por dentro no quarto andar de um prédio em Paris. Testemunhas ouvem vozes estranhas, mas ninguém consegue decifrar o idioma.
Importância: É considerado o primeiro conto de detetive da história e o inaugurador do subgênero "mistério do quarto fechado". Dupin resolve o caso demonstrando que a lógica humana comum falha ao tentar aplicar motivações humanas a um crime que, na verdade, foi cometido por um orangotango. 

O Mistério de Marie Rogêt (The Mystery of Marie Rogêt, 1842):

O Enredo: Uma jovem perfumista parisiense é encontrada morta no Rio Sena.
Importância: Esta obra inaugurou o gênero True Crime. Poe baseou a ficção em um crime real ocorrido em Nova York (o assassinato de Mary Cecilia Rogers). Ele transpôs o cenário para Paris e colocou Dupin para resolver o caso utilizando apenas recortes de jornais e relatos da mídia. É o conto mais denso e jornalístico, focado na análise crítica do sensacionalismo e dos furos lógicos das investigações policiais oficiais. 

A Carta Roubada (The Purloined Letter, 1844):

O Enredo: Uma carta politicamente comprometedora é roubada dos aposentos reais pelo audacioso Ministro D——. A polícia revistar exaustivamente a casa do ministro, mas não encontra nada. Dupin é contratado para reavê-la.
Importância: Introduz o conceito de que o melhor esconderijo é aquele que está visível a todos. Dupin soluciona o caso entendendo a psicologia do criminoso (que é poeta e matemático) e percebendo que a carta foi deixada exposta, mas disfarçada. É considerado por muitos críticos o ápice literário da trilogia pela inteligência psicológica e economia de ação.

2. O MÉTODO DUPIN: RACIOCÍNIO 

Poe não chamava suas histórias de "policiais", mas sim de contos de ratiocinação. O método de Dupin baseia-se em três pilares fundamentais:

Observação vs. Leitura de Sinais: Diferente da polícia, que busca apenas pistas físicas óbvias, Dupin observa o comportamento humano e o contexto. Ele consegue rastrear o fluxo exato de pensamentos do narrador apenas observando seus passos e expressões faciais durante uma caminhada silenciosa. 
Identificação Psicológica: Para capturar um criminoso, Dupin se coloca no lugar dele. No conto A Carta Roubada, ele explica que o bom investigador precisa alinhar o seu intelecto com o do oponente. Se o oponente for um idiota, o plano será simples; se for um gênio, o investigador precisa pensar de forma inovadora. 
A União entre Poesia e Matemática: Dupin despreza a lógica puramente matemática da polícia formal, alegando que ela é rígida demais. Para ele, a verdadeira análise exige imaginação criativa (poesia) combinada com o rigor dedutivo (matemática). 

3. A CRIAÇÃO DOS ARQUÉTIPOS DO GÊNERO

A genialidade da trilogia também reside na arquitetura de personagens que Poe desenhou e que se tornou a fundação do gênero:

O Detetive Excêntrico
Aristocrata decadente, recluso, brilhante, que trabalha pelo prazer intelectual e não apenas por dinheiro.
Equivalente a Sherlock Holmes

O Narrador Companheiro
Um amigo anônimo, comum, que admira o detetive e serve como a ponte para o leitor compreender a genialidade do protagonista.
Equivalente a Dr. John Watson

O Delegado Incompetente
O Prefeito de Polícia de Paris (Monsieur G——), que representa a burocracia, a força bruta e a falta de imaginação.
Equivalente a Inspetor Lestrade

Paris Noturna e Gótica
A atmosfera de mistério, neblina e becos escuros que amplifica o clima de enigma.
Equivalente a Londres Vitoriana

4. IMPACTO E LEGADO CRÍTICO

A Trilogia Dupin transformou o crime na literatura. Antes de Poe, o crime nas histórias era tratado sob uma ótica puramente moral, religiosa (pecado/punição) ou puramente de horror (gótico). Poe transformou o crime em um problema intelectual, um enigma matemático que pode ser resolvido através da pura força do intelecto humano.
Mesmo após quase dois séculos, a trilogia permanece atual por demonstrar que a verdade raramente está escondida em segredos profundos, mas sim na incapacidade humana de observar o que está escancarado diante de nossos olhos.

5. SINOPSE

5.1. Os Assassinatos da Rua Morgue (1841)

A Premissa e o Crime: 
Madame L'Espanaye e sua filha, Camille, são brutalmente chacinadas em sua residência na Rua Morgue, em Paris. O crime choca a cidade pela violência extrema: o corpo da filha é encontrado enfiado de cabeça para baixo na chaminé, e o da mãe, com a garganta cortada de orelha a orelha, é descoberto no quintal dos fundos. O quarto estava trancado por dentro, e o dinheiro das vítimas permaneceu intacto, descartando o latrocínio.
O Nó Cego da Polícia: 
Testemunhas de diferentes nacionalidades que passavam pela rua relatam ter ouvido duas vozes discutindo no quarto. Todos concordam que uma das vozes era de um francês, mas há uma contradição absurda sobre a segunda voz: o italiano jura que era um espanhol; o holandês acha que era um francês; o inglês pensa ser um alemão; e o francês acredita tratar-se de um italiano. A polícia, paralisada pela falta de nexo e sob pressão pública, prende Adolphe Le Bon, um funcionário de banco inocente que apenas entregara o dinheiro às mulheres na véspera.

A Resolução e o Subtexto: 
Dupin assume o caso para libertar Le Bon. Ele percebe que o erro da polícia foi tentar humanizar o crime. Ao analisar os indícios (a força monumental necessária para prender o corpo na chaminé, as marcas de dedos gigantescas no pescoço da vítima e a voz que ninguém conseguiu identificar como uma língua conhecida), Dupin deduz que o assassino não possui linguagem humana. Ele conclui que o responsável é um Orangotango das ilhas Bornéu, que havia escapado de um marinheiro maltês.
A Profundidade da Obra: 
Poe usa este conto para confrontar a racionalidade do Iluminismo com a animalidade selvagem. O mistério do "quarto fechado" é resolvido quando se percebe que a lógica humana comum falha ao tentar projetar intenção, malícia ou ganância onde existe apenas o caos e o instinto da natureza.

5.2. O Mistério de Marie Rogêt (1842)

A Premissa e o Crime: 
Marie Rogêt, uma jovem de beleza exuberante que trabalha em uma famosa tabacaria de Paris, desaparece misteriosamente. Dias depois, seu corpo flutuante e severamente desfigurado é encontrado no Rio Sena, apresentando sinais de estrangulamento e violência física. O caso gera um frenesi midiático sem precedentes, com jornais competindo por teorias sensacionalistas e cobrando respostas da polícia.

Nó Cego da Polícia: 
A prefeitura de Paris se perde no mar de narrativas criadas pela imprensa. Os jornais locais defendem hipóteses conflitantes para vender mais exemplares: alguns afirmam que Marie foi vítima de uma gangue de arruaceiros da periferia; outros sugerem que ela forjou a própria morte e que o cadáver pertence a outra pessoa; há ainda os que acusam o seu noivo, St. Eustache (que comete suicídio logo após o crime, complicando ainda mais o cenário). O Prefeito de Polícia recorre a Dupin em segredo absoluto, oferecendo uma recompensa generosa.

A Resolução e o Subtexto: 
Este conto é um exercício de investigação puramente poltrona. Dupin não visita a cena do crime nem interroga testemunhas. Ele se tranca em seu apartamento escuro e analisa o caso usando exclusivamente a lógica aplicada aos recortes de jornal. Dupin desconstrói sistematicamente os preconceitos e as falácias lógicas da mídia. Ele prova que o corpo era de fato de Marie e descarta a teoria da gangue, demonstrando que os nós nas roupas e a forma como o corpo foi arrastado indicam a ação de um único assassino, provavelmente um oficial da marinha com quem ela tinha um caso amoroso secreto.

A Profundidade da Obra: 
O conto é uma ficcionalização cirúrgica do assassinato real de Mary Rogers, ocorrido em Nova York. Poe usou o texto para tentar resolver o crime real em tempo real. Filosoficamente, a obra é uma crítica feroz ao jornalismo caça-cliques e à psicologia das massas, mostrando como o clamor público e a busca por narrativas fáceis cegam o aparato estatal para os fatos matemáticos e objetivos.

3. A Carta Roubada (1844)

A Premissa e o Crime: 
Uma ilustre dama da realeza (subentendida como a Rainha) está em seus aposentos lendo uma carta de teor político e pessoal devastador. O inescrupuloso Ministro D—— entra na sala, percebe o nervosismo da mulher e nota o documento. Com audácia fria, ele coloca uma carta sem importância sobre a mesa ao lado da legítima e, ao se despedir, leva a carta comprometedora diante dos olhos impotentes da dama, que não pode reagir para não levantar as suspeitas do Rei, também presente no recinto. O Ministro passa a chantagear a coroa.

O Nó Cego da Polícia: 
O Prefeito de Polícia passa três meses revistando secretamente a residência do Ministro todas as noites. A polícia usa métodos microscópicos ultra-avançados para a época: abrem as capas dos livros, furam as pernas das cadeiras com agulhas finas, analisam os tapetes com lupas e examinam cada centímetro de parede e chão em busca de fundos falsos. Nada é encontrado. Frustrado e temendo a ruína política, o prefeito oferece uma fortuna a Dupin se ele conseguir recuperar o papel.

A Resolução e o Subtexto: 
Dupin ouve o relato, pede o talão de cheques do prefeito, recebe o pagamento e, para o espanto de todos, entrega a carta imediatamente. Ele explica que a polícia falhou porque assumiu que o Ministro esconderia o objeto da mesma forma que um homem comum faria. Dupin, sabendo que o Ministro é um poeta e matemático genial, entendeu sua psicologia: o melhor lugar para esconder algo ultra-secreto é deixando-o totalmente à vista. Dupin visita o Ministro usando óculos escuros (para observar sem ser notado) e encontra a carta rasgada, suja e virada do avesso, pendurada de forma displicente num porta-cartas de papelão logo acima da lareira. Ele cria uma distração na rua e substitui o documento por uma réplica.

A Profundidade da Obra: 
Este é o conto mais cerebral da trilogia, celebrando o conceito de identificação intelectual. Dupin vence o criminoso porque é capaz de espelhar exatamente a sua mente. A obra discute a natureza da percepção: os seres humanos são incapazes de enxergar aquilo que está escancarado diante de seus olhos se estiverem condicionados a procurar apenas o que é complexo e oculto.

Cada um desses contos foca em uma técnica: ação e dedução física (Rua Morgue), análise documental e midiática (Marie Rogêt) e pura psicologia do oponente (Carta Roubada).

Fonte:
Análise detalhada da obra. Floresta: out. 2026. Comunicação pessoal em formato de texto gerado sob demanda pelo usuário com IA Google.
Imagem criada com IA Microsoft Bing

domingo, 25 de outubro de 2026

Olivaldo Júnior (Semeando Trovas)

 


1
A mentira mais sincera
sempre peca pelo excesso:
agradar a quem espera
que essa vida é só sucesso.
2
Ante os "beijos do cinema",
o casal enfim se rende;
todos sabem que esse tema
facilita um "happy end".
3
Ao clarão da tarde quente,
te abandono e tenho medo:
quando chove só na gente,
nasce a lágrima em segredo.
4
Ao tentar ser mais feliz,
disse adeus à solidão;
mas nenhum amigo quis
animar-me um violão...
5
Ao tomar de um violão,
tomo o bonde da esperança;
no abandono da estação,
estaciono em mim criança.
6
As palavras caem frouxas
no terreno dos ouvidos;
as imagens são as trouxas
nestes ombros doloridos.
7
Cada história dessa vida,
no arvoredo de uma voz
que se fez de adormecida,
só renova a Elis em nós.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
8
Cada lágrima guardada
guarda, sim, o coração:
fica sempre represada,
entre a voz e um violão.
9
Calendário da mentira
tem seu próprio movimento,
mas o povo que se vira
vira o jogo e muda o vento.
10
Cansadíssimo de tudo,
dou adeus à Boa Sorte,
calo a boca, fico mudo,
mas te amo até a morte.
11
Canto triste, na ribeira,
denuncia o poetinha
que se dera à cordilheira,
poesia que ele tinha.
12
Carrilhões, barulho santo,
como a música em João
Pernambuco, doce espanto
que nos dói no coração.
13
Castro Alves, bom poeta,
como um grande cantador,
conquistou a nobre meta
de expurgar do negro a dor.
14
Coração de mentiroso
sempre tem um bom motivo 
para achar maravilhoso
ser do próximo o mais "vivo". 
15
Coração de namorado
bate as horas como o sino,
avisando que é chegado
novo amor ao seu destino.
16
Coração que diz “Adeus”
bate fraco e sem barulho;
queira logo, nosso Deus,
eu me livre desse orgulho.
17
“Devagar, se vai ao longe”,
diz o povo em seu adágio;
seu adeus me fez o monge
da “saudade sem pedágio”.
18
Entre campos e cidades,
esta máxima conduz:
as mentiras são verdades
que queriam vir à luz.
19
Entre velhos pergaminhos,
chilreando feito gralhas,
namorados são pombinhos
que dividem as migalhas.
20
Folhas secas são histórias
de um verão inesquecível;
entretanto, até memórias
têm seu tempo previsível.
21
Fora escrava e alforriada,
"Anastácia" em ré menor,
mas, no céu da batucada, 
mulher negra é sol maior.
(Pelo Dia Latinoamericano da Mulher Negra)
22
Hoje, quando sou sincero
e lhe escrevo minha alma,
muito mais me desespero,
dando adeus a toda calma.
23
Inda espero, distraído,
por teu carro à minha porta:
canto triste, dolorido,
esperando quem me importa.
24
Já perdi seu telefone,
só me vale seu e-mail:
hoje vivo só, “alone”,
sem a hora do recreio.
25
Já são trinta e dois verões
sem Elis cantando ao vivo;
tempo passa sem senões,
pois seu canto é redivivo.
(Pelo Aniversário de Elis Regina)
26
Lá do Sul, do comecinho
do pais que tanto amou,
certa Elis fez seu caminho
no país que a consagrou.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
27
Ladrilhada de brilhante,
ou “sujinha” de poeira,
Poesia é todo instante
que se pega na “peneira”.
28
Meu amigo mais querido,
Baden Powell de ilusão,
fez-se em algo conhecido:
abandono e eterno não.
29
Meu amigo mais querido,
com histórias de aventura,
fez-se logo o preferido
da saudade que perdura.
30
Meu poeta preferido
não escreve, nem recita,
mas dedilha, comovido,
cada nota que visita.
31
Na historinha familiar,
o João chamou Maria,
e Maria, sem pensar,
fez a ele companhia.
32
Namorado sempre esconde
quando chora de saudade,
pois amor, se perde o bonde,
nunca perde a majestade.
33
Na valsinha da memória,
num coreto enfim desperto,
todo mundo vira história
e anoiteço em um deserto.
34
No cantinho, atrás da porta,
meu amor ficou sozinho;
muitas vezes, quem importa
diz adeus devagarzinho.
35
No desenho de um acorde,
no lirismo de uma rima,
eu só quero que concorde:
seu adeus é nosso clima.
36
No divã da inconsciência,
entre Freud e o próprio eu,
peço a Deus a paciência
que o Abandono já comeu.
37
No lirismo do palhaço,
todo feito em poesia,
fantasio e me desfaço
desta falsa alegoria.
38
No serão da fantasia,
entre quarto e o calendário,
violão faz companhia
para um homem solitário.
39
No sertão de minha vida,
vivo feito o Riobaldo:
só "veredas" dão guarida
para o rio do Olivaldo.
40
No seu dia, Poesia,
todo mundo fica atento:
a metáfora, tardia,
busca o pé até do vento!
41
O barquinho, Poesia,
de mil versos carregado,
desemboca n’alegria
do oceano desdobrado.
42
O ninguém se faz de “flor”,
vale bem o quanto pesa;
quando espeta o seu amor,
despetala quem despreza.
43
O Pinóquio poderia,
se ele fosse brasileiro,
ser o dono d'alegria
desse trem eleitoreiro.
44
O segredo do abandono
se revela ao sol mais pleno:
és verão, e sou outono,
neste inverno nada ameno.
45
O verão que amarelece
cai em folhas, coração;
mas você jamais fenece,
faz do outono floração.
46
Para honrar o meu ofício
e “animar” a biografia,
vou pular no precipício
dos amantes da poesia.
47
Poesia bota em cheque
toda a nossa imensidão:
tempo curto de moleque,
breve tempo de ancião.
48
Poesia, forma vaga,
lua fixa a nós defronte,
cada verso é tua baga
neste cacho de horizonte.
49
Por pensar demais em ti,
vivo o carma desta prova:
incorporo um bem-te-vi,
bem te vejo e faço trova.
50
Pra dizer adeus assim,
não precisa piedade:
basta ser um ser a fim
de matar felicidade.
51
Quando a banda toca Chico,
fico alegre e, de repente,
muito mais tristonho eu fico,
porque tu estás ausente.
52
Quando choro com razão
percebendo o que se deu,
dou-me inteiro ao violão,
que me dá o que era meu.
53
 Quando eu era só abismo
no silêncio de meus ais,
tu me deste o “catecismo”
da amizade, luz no cais.
54
Quando vi a nossa foto,
desgastada, na gaveta,
vi nascer um terremoto
neste inóspito poeta.
55
"Romaria" de canções
arrastando a "Madalena",
travessia e comoções:
era Elis roubando a cena.
(Pelo Aniversário de Elis Regina)
56
Se jurei não mais falar
sobre nada do que disse,
é porque sou de trocar
a promessa por crendice.
57
Sem resposta a meus e-mails,
tua ausência é muito forte;
já tentei “milhões” de meios,
mas “deletas” minha sorte.
58
Se o verão lhe der licença
e o caminho for propício,
chegue e faça a diferença,
doce outono, neste início.
59
Solidão e violão
são irmãos e não se largam:
uma amarga o coração,
outro adoça os que se amargam.
60
Todo adeus tem duas beiras,
duas margens de amizade;
numa beira, estão trincheiras,
noutra beira, só saudade.
61
Todo outono faz de mim
o jardim que fora eterno;
mas o "eterno" do jardim
ressuscita findo o inverno.
62
Trabalhando desde cedo,
aprendendo a conquistar,
todo jovem perde o medo
de esboçar o céu no mar.
63
Uma casa de escritores
junto ao "rio guaçuano"
foi a causa dos amores
que cobri de desengano.
64
Um adeus só quer dizer
o que nunca se diria:
diz-se adeus para esquecer
quem jamais esqueceria.
65
Vaga-lumes incendeiam
a plateia de meninos:
são poetas que semeiam
poesia aos pequeninos.
66
Vulnerável coração,
coração dilacerado:
a cantora chora, não,
é soluço marejado.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
67
Violão deixado ao léu,
tua estante, muitas folhas,
todos vivem sem papel,
no entreato sem escolhas.
68
Violão que vive mudo,
sempre à espera de seu bem,
sonha dedos de veludo
que o dedilhem para alguém.
69
Violão, tens muitas cordas,
mais até que o coração;
entretanto, quando acordas,
só se move a da emoção.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Olivaldo Júnior
O poeta, trovador e escritor OLIVALDO JÚNIOR é uma figura de destaque na cena cultural e literária da região da Baixa Mogiana, no interior do estado de São Paulo. Ele transita com facilidade pelas vertentes da escrita acadêmica, da rádio, da música e da poesia clássica. Nasceu na cidade de Aguaí/SP, mudou-se com a família para a cidade de Mogi Guaçu/SP ainda quando era menino. É nesse município que ele fixou residência, desenvolveu suas profundas raízes artísticas e construiu sua vida comunitária. Sua paixão pela comunicação e pelas artes se reflete em suas escolhas acadêmicas e profissionais.: Graduou-se em Letras (com Licenciatura Plena e Habilitação em Português e Inglês) pelas Faculdades Integradas Maria Imaculada (FIMI). Também possui formação profissionalizante em Radialismo pelo SENAC de São Paulo. Atua como Oficial Administrativo na Fundação Educacional Guaçuana (FEG) e também exerce atividades no campo da docência, locução/radialismo e na música popular, atuando como instrumentista.
Olivaldo Júnior cultiva o gosto pelos livros e discos desde a infância. Sua expressão escrita foca principalmente em poemas, contos, crônicas e letras de música. Ao longo de sua caminhada lírica, tem se inscrito assiduamente em festivais literários e concursos de trovas regionais, colecionando diversas classificações e premiações que validam a sensibilidade de sua escrita. Embora desenvolva seu trabalho de maneira independente ou integrada a coletivos locais, sua produção está associada a plataformas e grêmios de fomento, como o portal Família Literária (https://www.familialiteraria.com.br/escritores/olivaldo-junior/1513688), que cataloga e preserva a voz de escritores atuantes no Brasil. A principal marca das publicações de Olivaldo Júnior é a sua participação em antologias poéticas coletivas e fanzines regionais, dividindo páginas com outros poetas paulistas. Suas produções espalham-se em formato de poesia clássica, com destaque para as suas trovas e minicontos, compartilhados tanto em compilações impressas de concursos quanto em suas mídias sociais voltadas à arte.
A importância de Olivaldo Júnior reside no seu papel como um dinamizador da cultura descentralizada no interior de São Paulo. Ao unir as competências de radialista, professor de línguas e músico popular, ele atua como uma ponte que retira a poesia dos espaços puramente acadêmicos e a devolve para o cotidiano da população de Mogi Guaçu e região. O autor mostra que manifestações clássicas e exigentes (como a métrica das trovas) combinam perfeitamente com a sensibilidade popular e a sonoridade musical moderna, inspirando novas gerações locais a valorizarem a riqueza da Língua Portuguesa.