Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 28 de agosto de 2011

Nilto Maciel (Vou ser Herói, Maria)


Transtornado, o homem recusava abrir a porta do elevador. Se do lado de fora estivesse um tigre à sua espreita? Vários tigres? Um horror! E tremia todo. Não conseguia nem sequer se manter em pé. Melhor sentar-se. E esperar, esperar, esperar. Passaria toda a noite, e quantas noites fosse preciso passar, dentro do elevador. Não, morreria de inanição e tédio. E se o tigre, os tigres abrissem a porta? De manhã os vizinhos, sua mulher só encontrariam alguns ossos. Nunca saberiam como e por que sumira tão misteriosamente. A ossada poderia ser de outro. Talvez de um cachorro grande. Nunca de um homem, dele. Não havia canibais na cidade. Nenhuma notícia deles.

Sossegou, buscou uma brecha na porta, olhos e ouvidos de caçador. Nenhum sinal de tigre. O bicho não chegara àquelas alturas. Com certeza continuava na rua.

Abriu um pouquinho a porta. Puxou-a para si. Melhor não confiar em nada. Felino é bicho traiçoeiro. Empurrou de novo a porta. E, de um pulo, lançou-se contra a porta do apartamento. Socorro, Maria, socorro! Do outro lado gritaram espere, espere. Até abrirem a porta o tigre o devoraria. Bateu com força as mãos na porta. Deu outro pulo e caiu no meio da sala. Bêbado, sem-vergonha, desgraçado. Fechassem a porta logo. O tigre podia entrar.

Não, não havia bebido nada? E o que era aquilo então? Ficara maluco de vez? Maluco é a mãe. Mais um minuto, e nunca mais o teriam visto. Comido, co-mi-do por um tigre, Dona Maria. Ela se pôs a rir. Riso de deboche. Depois gargalhou. As crianças também riram. O pai delirava? Ergueu-se do chão, ainda aflito. Prestassem atenção, muita atenção. Havia um tigre na rua. Debaixo do prédio. A mulher riu de novo. Não risse. Se não acreditasse e quisesse virar comida de tigre, abrisse a porta e descesse. As crianças já não riam e correram para a mãe.
Na televisão o locutor falava de crises, abacaxis e pepinos. Alta do trigo. O homem correu a apertar o botão do aparelho. Nada de barulho. O tigre poderia se irritar. De onde surgiu esse tigre, homem? Sei lá. Deve ter vindo da África. Não, pai, ele fugiu do circo. Deu na televisão. Mentira, gritou o outro filho.
O tigre estava doente e teve alta. Então é mais perigoso ainda. Tigre ferido é uma fera.

Maria deu um gritinho, as crianças se puseram a chorar. O homem criou coragem — foi trancar a porta já trancada. Arrastou os sofás para a porta. Onde estava o revólver? Não tinham revólver nenhum. Só os de brinquedo. Então buscassem as facas, todas as facas. Se o tigre se atrevesse a entrar, ele o esfolaria. Vou ser herói, Maria.

E apagou as luzes.

Fonte:
Nilto Maciel. Pescoço de girafa na poeira. Brasília: Secretaria de Cultura do DF, 1999.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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