domingo, 20 de novembro de 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 6

SOLIDÃO

I

Não era mais que uma pequena aldeia,
Um lugarejo assim, com passarinhos,
Flores, verdura e sol. Paisagem feia.
A igreja, um velho cura, água e moinhos...

De quando em quando o fado, a Lua cheia,
E casos mil fantásticos de velhinhos,
Com princesas no meio, com adivinhos,
E sempre lá no fundo a mesma ideia...

Eu não seria mais do que um moleiro.
Ocupado, ocupado, o dia inteiro,
Sem ambições jamais do que eu não vi.

Nem cornamusa alegre de pastores,
Nada! Nem tudo me seriam flores...
Mas quem me dera não sair dali!

II

No meio desta rústica paisagem,
Que eu por felicidade descobri,
Que bom de interromper a minha viagem,
De erguer a tenda e fazer pouso em Ti.

Que doce aqui ficar nesta ermitagem!
Que bom! que bom de me enterrar aqui!
Onde eu achei melhor camaradagem?
Gente mais simples onde foi que eu vi?

Podia o Orgulho uivar pela cidade,
Não me entraria em casa a Vaidade,
Eu fecharia a porta a tudo isto...

Oh! esquisita flor que se descobre:
De viver entre os pobres como um Pobre,
Entre os humildes como Jesus Cristo!

III

Aquele que ali vai nesse caminho,
Todo despido, todo, da Ilusão,
Não tem um manto, o pobre, não tem linho,
Não tem mulher, não tem sequer irmão.

É mais pobre que Jó, o pobrezinho,
De seu não tem senão esse bastão,
Que ao mesmo tempo é o seu copo de vinho,
E a sua luz em meio à Decepção...

O vento fere rijo como açoite
Quando ele passa. É noite. Anoiteceu.
E ele não sabe onde passar a noite.

Não sabe nada, nem por que nasceu,
Nem por que vive, nem por que se afoite...
– Esse velhinho é mais feliz do que eu!

IV

Que bom se eu fosse aquele lavrador,
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...

Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste do sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...

E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda d’um roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!

Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!

V

Oh! para que sair do fundo deste sonho,
Que o destino me deu, e que a Vida me fez,
Se eu quando, a meu pesar, casualmente, ponho
Fora os pés, a tremer, volvo, ansiado, outra vez.

O meu lugar não é no meio de vocês,
Homens rudes e maus, de semblante risonho,
Não é no meio de tamanha insipidez,
D’um egoísmo atroz, d’um orgulho medonho!

O meu lugar é aqui, no seio desta ruína,
Destes escombros, que reluzem como lanças,
E destes torreões, que a febre inda ilumina!

Sim, é insulado, aqui, no cimo, bem o sei!
Entre os abutres e entre as Desesperanças,
E dentro deste horror sombrio, como um Rei!

VI

Que outro desejo bom, que me cative,
Eu poderei achar, laços fatais,
Se naquela prisão, onde eu estive,
E onde quisera estar, já não estais?

É de esperança, eu sei, que o homem vive,
E é de quimera e sonhos imortais,
Mas se o que desejei eu não obtive,
Que outra fortuna posso querer mais?

Que mais hei de querer, se para aquele
Que o destino cruel bate e repele,
Todo desejo é inteiramente vão?

Sim! Porém o Silêncio é o deus Apolo!
E tem a graça, e o gesto, e o beijo, e o colo
De Vênus Afrodita – a Solidão!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

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