Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 27 de novembro de 2011

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) O Casamento De Narizinho – III – Os brincos do marquês


Chegou afinal o dia da partida. De manhã cedo Narizinho deu os últimos retoques no vestido novo da boneca.

Emília fez cara de pouco caso. Achou feio. Queria vestido de cauda.

— Você — disse ela — convidou-me para madrinha do casamento, lembre-se. Como, pois, posso apresentar-me na corte com este vestido de Judas no sábado de Aleluia?

— Lá arranjaremos outro, como daquela vez — respondeu a menina. Este é só para a viagem. Se faço vestido de cauda, você vai enganchando pelo fundo do mar, onde há muito pé de coral mais espinhento que carrapicho.

O Visconde de Sabugosa também ia, para servir de padrinho.

Narizinho mudou-lhe a fita da cartola e pediu a Emília que o escovasse da cabeça aos pés.

— Este senhor Visconde — acrescentou a menina – está mudando de gênio. Depois que caiu atrás da estante de vovó e lá ficou esquecido três semanas, embolorou e deu para sábio. Parece que os livros pegaram ciência nele. Fala dificílimo! É só física para aqui, química para ali...

— E Rabicó? — indagou a boneca.

— Rabicó não vai! — gritou Pedrinho que ia entrando nesse momento. — Está um marquês muito mal-educado, estragador de todas as nossas festas. Não se lembra do que fez com as cocadas no dia do seu próprio casamento?

Narizinho protestou.

— Mas não fica bem, Pedrinho! Rabicó, afinal de contas, é marido de Emília e não fica bem que Emília apareça na corte sozinha. Podem falar dela...

— Pois então vai — resolveu Pedrinho — mas o meu bodoque vai também, e se ele não se comportar muito direitinho, já sabe – é cada pelotada na orelha de sair cinza!

Pedrinho ganhara um bodoque de guatambu e agora resolvia tudo a bodocadas. Mas Narizinho não se conformou.

— Coitado de Rabicó! Não sei por que você tanto se implica com ele...

— Não é implicar, Narizinho. Rabicó é mesmo capadócio e encrenqueiro por natureza. Veja o Visconde. Não passa dum simples sabugo de milho, mas como é distinto, palaciano, todo cheio de mesuras! Quando se senta numa cadeira, fica ali horas, dias, semanas inteiras sem incomodar ninguém.

Às onze horas foram todos para a beira do ribeirão, onde já estava o coche do príncipe à espera deles no fundo da água.

— O coche já veio — disse Emília — e Rabicó ainda não está vestido. Você esqueceu-se de arrumá-lo, Narizinho.

— É verdade! Mas isso é coisa de um minuto — respondeu a menina e atou um laço de fita na caudinha encaracolada do marquês.

— Só faltam agora uns brincos — lembrou Pedrinho, tirando do bolso dois amendoins com casca. Estalou-os e prendeu-os na ponta de cada orelha do leitão. Depois disse de cara feia: “Não me vá comer os brincos, senhor marquês, senão já sabe o que acontece” – e apontou para o bodoque.

Nesse momento o doutor Caramujo saiu d’água. Trepou a uma pedra e fez com os chifrinhos gesto de que podiam tomar o coche.

As águas imediatamente se abriram, como no Mar Vermelho quando os hebreus chegaram perseguidos pelos egípcios. Tomando à frente, Narizinho desceu ao fundo, seguida de todos os mais.

Entraram no coche. Contaram-se. Faltava o marquês!

— Sempre se espera pela pior figura! — resmungou Pedrinho já meio aborrecido. — Por que será que ele não aparece?

Nisto a cabeça do doutor Caramujo surgiu à janelinha.

— O senhor marquês não quer entrar! — murmurou ele muito aflito.

— Eu não disse? — exclamou Pedrinho encolerizado. — Rabicó já começa com encrencas! Mas esperem aí... e saltou do coche, de bodoque em punho.

Emília teve um começo de faniquito, sendo preciso que Narizinho lhe esfregasse no nariz uma folha de erva-cidreira.

Segundos depois Rabicó, esfogueteado por Pedrinho, entrava para a carruagem feito uma bala, indo encorujar-se aos pés da menina. Emília olhou para ele e danou.

— Veja, Narizinho! Rabicó já perdeu o brinco da orelha direita!

E olhe como está todo amarrotado o laço de fita...

Pedrinho e o doutor Caramujo surgiram.

— Finquei-lhe uma pelotada na orelha das de arrancar faísca! — foi dizendo o menino.

— Judiação! — exclamou a menina apiedada. — Mas o pior é que acertou no brinco, que lá se foi...

— Não faz mal — resolveu Pedrinho. — Explica-se lá na corte que a moda aqui na terra é um brinco na orelha esquerda e todos acreditam.

E voltando-se para o camarão cocheiro:

— Vamos!

O chicotinho do camarão estalou e os hipocampos partiram no galope.

O caminho por onde o coche corria era uma beleza. Florestas de esponjas. Florestas de algas. Florestas de corais. Até por uma floresta de mastros de navios naufragado o coche passou.

Os viajantes espiavam pelas janelinhas e viam deslizando no seio das águas os vultos dos mais terríveis monstros do mar — tubarões enormes, espadartes, serpentes. Até um polvo viram, ondeando os seus compridos tentáculos.

Emília gostou muito do polvo.

— Sou capaz de fabricar um! — exclamou, fazendo todos se voltarem para ouvir a asneirinha que ia sair. — Pego numa porção de cobras e amarro todas as cabeças num saco de couro e solto no mar e vira polvo!...

— Você é mesmo uma danada, Emília — disse Narizinho distraída, com os olhos postos em Rabicó, muito jururu no seu canto.

— Mas era melhor que endireitasse o brinco de seu marido. Está cai não cai...

— Ele que coma o brinco duma vez — respondeu a boneca.

— Toda essa tristeza de Rabicó é vontade de comer o brinco.

Rabicó passou a língua pelos beiços, com uma olhadela para o bodoque de Pedrinho — e suspirou.

Enquanto isso Pedrinho conversava com o doutor Caramujo a respeito da serpente do mar.

— Mas há ou não há essa tal serpente? — indagava ele. – Uns dizem que há, outros dizem que não há. Qual a sua opinião, doutor Caramujo?

— Nunca a vi — respondeu o médico. — Mas o mar é tão grande que deve haver de tudo.

— Uma coisa não há — interveio Narizinho. — Sereias! Vovó diz que sereia é mentira.

Pedrinho fez um muxoxo de dúvida.

— Como vovó pode saber, se nunca devassou todos os mares?

— Essa é boa! É de primeira. Parece até que a burrice de Emília pegou em você, Pedrinho! Vovó sabe porque lê nos livros e é nos livros que está a ciência de tudo. Vovó sabe mais coisas do mar, sem nunca ter visto o mar, do que este senhor Caramujo que nele nasceu e mora. Quer ver?

E voltando-se para o ilustre doutor:

— Diga, doutor, qual é o seu nome científico?

O doutor Caramujo engasgou, com cara de quem nem sequer sabia que tinha um nome científico.

— Não sabe, não é? — continuou Narizinho vitoriosa. — Pois fique sabendo que vovó sabe — e até o senhor Visconde, só porque cheirou os livros de vovó, é capaz de saber. Vamos, Visconde! Dê um quinau aqui neste sábio da Grécia. Diga qual é o nome científico dos caramujos.

O Visconde limpou o pigarro e deitou sabedoria.

— O senhor Caramujo é um molusco gastrópode do gênero Líparis.

Entusiasmada com a ciência do Visconde, Narizinho bateu palmas.

— Está vendo, doutor? O senhor é um Líparis, Líparis! Com “L” grande! Escreva na sua casca para não esquecer. O nosso Visconde sabe o nome científico de todas as coisas, menos uma...

Aposto que não sabe o nome científico de Emília!...

O Visconde respondeu, depois de limpar outro pigarro:

— A senhora Emília é um animal artificial que não está classificado em nenhuma zoologia.

Narizinho deu uma gargalhada gostosa.

— Eu não aturava tamanho desaforo! — disse cutucando a boneca. — Chamar a você, uma ilustre marquesa, de animal!...

Emília olhou para o Visconde com um arzinho de soberano desprezo.

— Não ligo a vegetais — disse ironicamente — que antes de serem Viscondes andavam jogados no chão, perto do cocho das vacas, sujos de terra e outras coisas, sem cartola nem nada... O Visconde é muito importante, mas treme de medo cada vez que passa perto da vaca mocha...

— O senhor Visconde tem medo de vacas? — inquiriu o doutor Caramujo muito admirado, apesar de não saber o que era vaca.

— Como não? — respondeu Narizinho. — Ele é sabugo e todo sabugo assim que vê uma vaca finca o pé no mundo. Não sabe que as vacas preferem comer um sabugo a comer um bombom? A mãe do Visconde, o pai do Visconde, os irmãos, os primos, os tios, o sogro — a parentela inteira do Visconde, todos os sabugos lá do sítio de vovó foram mascados pela vaca mocha. Só escapou este, porque usa cartola e vaca tem medo de sabugo de cartola.

Nesse momento o coche entrou por uma planície de areia que não tinha fim. Pedrinho olhou para aquilo com desânimo, a coçar a cabeça. Estava com preguiça de atravessar tanta areia.

— Estou farto de fundo do mar — disse ele. — O melhor é chegarmos já, já, ao palácio do príncipe.

E sem esperar pela resposta dos outros, berrou para o camarão cocheiro:

— Chegue já, cocheiro, se não vai pelotada!... O camarão cocheiro não discutiu. Puxou as rédeas e chegou e parou bem defronte do palácio real.

Continua... A Chegada

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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