Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá) Parte 3


AS REDUÇÕES JESUÍTICAS

-E deu certo o esquema?

-Nem tanto. Os padres chegaram com ordem expressa do governador e do bispo de Assunção para, em nome do rei, impedir a escravização dos índios. Isso irritou muito os colonizadores. Habituados a utilizar a mão de obra indígena, sentiram-se “traídos”, passando então a sabotar o trabalho dos jesuítas. Apesar, porém, dessas dificuldades, foram implantadas as reduções, umas vinte, ao longo dos rios.

-Onde exatamente?

-Distantes cerca de 45 quilômetros umas das outras, as reduções eram uma espécie de “municípios indígenas”, formando uma confederação em que os administradores de Ciudad Real e Villa Rica não podiam interferir. As duas primeiras foram erguidas em 16l0: Nossa Senhora do Loreto e Santo Inácio, na confluência do Pirapó com o Paranapanema. Em seguida formaram-se muitas outras, entre as quais se destacavam as de São José, São Francisco Xavier, Encarnação e São Miguel, no rio Tibagi; Jesus Maria e Santo Antônio, no rio Ivaí; São Tomé e Sete Arcanjos,no rio Corumbataí; e Santa Maria, no rio Iguaçu, perto das cataratas. Compunham, juntas, o que se sonhou ser a República Teocrática Guarani.

-Comovente utopia!

-De fato. Mas vamos em frente: as reduções, que como eu lhe disse obedeciam a um esquema semelhante ao da Praça Dom Pedro II, de Maringá, tinham ao centro um grande largo para festas, esportes e outras atividades coletivas; em torno, a igreja, a escola, um salão de oficinas e artesanatos, o escritório do alcaide e demais repartições públicas (cabildo, armazém, enfermarias etc.) e, em fileiras, os pavilhões residenciais dos índios, cabendo a cada família um aposento com divisões internas feitas de couro e esteira. No pátio havia ainda um relógio de sol. Em algumas reduções, mantinha-se também um alojamento para hóspedes eventuais. Nas terras em volta formavam-se as lavouras e os pastos para criação de gado.

-Quem administrava a aldeia?

-Em cada redução moravam dois ou três padres, que era ao mesmo tempo sacerdotes, médicos, professores, catequistas, contabilistas, engenheiros, veterinários, agrônomos... A administração geral, todavia, era exercida pelos próprios índios, que escolhiam, por eleição direta, o alcaide (prefeito), o corregedor (encarregado dos assuntos judiciários) e os membros do cabildo (conselho de chefes setoriais). O regime político era uma forma primitiva de socialismo, preservando os costumes tribais.

-Tinham tudo em comum?

-Edifícios, ferramentas e outros bens pertenciam à comunidade. A produção da terra e das oficinas era distribuída de forma equitativa entre as famílias. A produção excedente era exportada via Assunção, sobretudo a erva-mate. Com os lucros desse comércio, realizavam-se melhoramentos nas aldeias.

-E os índios se adaptavam facilmente a essa forma de vida?

-Os jesuítas eram muito hábeis. Sabiam como conquistar a simpatia dos nativos, a ponto de convencê-los a andar vestidos. Os homens usavam calções; as mulheres, longas saias, embora continuassem pintando o rosto e enfeitando os cabelos com charmosos cocares. Com os missionários os índios aprenderam técnicas agrícolas e pecuárias, aprimoraram-se na produção de tecidos, tornaram-se carpinteiros, ferreiros, fundidores, pintores, escultores. As crianças freqüentavam a escola, aprendiam a ler e escrever, até em latim...

-Como era o regime de trabalho?

-Não se permitia a ociosidade, e a disciplina era rigorosa, mas ninguém trabalhava mais que seis horas diárias, respeitando-se os domingos e os dias santos. Havia tempo para o lazer, para o estudo, para o namoro, para as orações, como em qualquer sociedade organizada.

-Muito bonito. Mas não teria sido uma forma de agressão à cultura original dos índios?

-Esse é um assunto bastante polêmico. Discute-se sobre até que ponto teria sido válida a “ajuda” dos jesuítas. Talvez os indígenas tivessem sido mais felizes sem essa intromissão na vida deles. Quem sabe? Pode-se afirmar, contudo, a favor dos religiosos, que suas intenções eram honestas. A obra que tentaram realizar junto aos guaranis merece máximo respeito.

OS CAÇADORES DE GENTE

-Não deu certo, principalmente, por quê?

-Durante alguns anos os aldeados prosperaram em relativa paz. Os espanhóis de Ciudad Real e Villa Rica se conformavam em manter a seu serviço uns poucos nativos preados nas matas e aos quais diziam remunerar na forma de alimentação e roupas... como se os índios precisassem disso. Era um modo disfarçado de escravizá-los. A maior ameaça, entretanto, eram os portugueses de São Paulo, que à caça de índios penetravam seguidamente a região do Guairá Vinham pelos rios ou pelo Caminho do Peabiru.

-O Tratado de Tordesilhas não vigorava mais?

-Portugal e Espanha estando na época sob o mesmo rei, o Tratado foi mais ou menos esquecido. Alinha divisória era facilmente “furada”, de um lado e de outro. Os castelhanos tentando conquistar a costa leste e os lusitanos invadindo o sertão. Em 1607, Manuel Preto, um terrível sertanista, já estivera nas matas do Guairá. Consta que até 1612 os paulistas já haviam levado daqui uns 5 mil nativos.

-O senhor disse que havia uma lei proibindo a escravização de índios...

-Ocorre que Madri estava muito longe para fiscalizar o cumprimento da lei. Por outro lado, os fazendeiros paulistas enfrentavam grave crise: sem mão de obra indígena, diziam sem impossível prosseguir a colonização. Até ameaçaram abandonar as terras. No litoral os índios tornavam-se escassos: muitos deles fugiam para lugares distantes, os demais estavam envelhecendo e morrendo. Era urgente renovar a escravatura, e a solução seria buscar nativos no Guairá.

-E foi assim que os bandeirantes se tornaram “caçadores de gente”...

-Os primeiros bandeirantes eram portugueses arrojados e ambiciosos que vieram para o Brasil atraídos pelo sonho do enriquecimento rápido. Despertando neles a sede do ouro, Portugal usava-os para expandir seu domínio em terras brasileiras e conquistar parcelas do chão espanhol além da linha de Tordesilhas. Como a essa altura já estavam todos desiludidos da esperança de encontrar montanhas de ouro, prata e esmeralda nos sertões a sudoeste de São Paulo, a nova forma de lançá-los mata adentro era incentiválos a caçar outro “tesouro”, os nossos irmãos índios, altamente cotados no mercado de escravos.

-Os donos da terra transformados em “ferramentas de trabalho” dos invasores...

-Durante vários anos os bandeirantes vasculharam as florestas do Paraná. Nas primeiras incursões não lhes foi muito fácil prear os nativos: tinham de usar diversos artifícios, como, por exemplo, oferecer presentes, embebedá-los com cachaça e depois acorrentá-los. Passaram então a botar “olho gordo” nas reduções, em cada uma das quais viviam perto de 4 mil índios. Bastaria aos caçadores fazer o cerco em torno da aldeia e “colher”, numa só investida, milhares de “peças”.

-Isso significa que os jesuítas, nucleando os guaranis, sem querer acabaram facilitando o “trabalho” dos paulistas...

-O diabólico projeto foi discutido em São Vicente e São Paulo, formando-se na ocasião uma arrasadora bandeira, tipo “arrastão”, cujo comando foi entregue ao sanguinário Antônio Raposo Tavares.

-O Raposo Tavares que é nome de praça em Maringá?

-Ele mesmo. Se eu fosse vereador trocava o nome da praça. Esse homem, a meu ver, não merece homenagem alguma.

-Poderia ser Praça Montoya, como alguém já sugeriu. Ou Praça do Trabalho. Ou Praça do Café, lembrando o produto que deu o impulso inicial no desenvolvimento da região.

-Estou de pleno acordo. Mas voltemos à história. Raposo Tavares, então com 30 anos, era um homem alto, arrogante, ambicioso e frio. Português nascido no Além-Tejo, viera para São Paulo já fazia uns 10 anos. Tinha muitos inimigos, mas, pela sua fama de valente e pela capacidade de liderança em tarefas desse tipo, foi o escolhido para chefiar o ataque às reduções, assessorado pelo velho e experiente Manuel Preto. Saiu de São Paulo no dia
18 de setembro de 1628, com 69 portugueses, 900 mamelucos (mestiços de brancos com índios) e 3 mil nativos aliados (na maioria escravos), dirigindo-se à região do Guairá. Sabiam que os espanhóis de Ciudad Real e Villa Rica não lhes fariam oposição, interessados que estavam em também escravizar os índios. Em defesa dos guaranis haveria, portanto, e tão somente, a força moral dos jesuítas.

-Foram chegando e destruindo tudo?...

-Não exatamente, Raposo acampou a tropa nas proximidades da redução de Santo Antônio e, acompanhado de pequena guarda, fez uma “visita de cortesia” ao padre Mola, cura da aldeia. Almoçaram juntos. Durante a conversa, afirmou cinicamente que seu propósito era colaborar na conversão dos índios levando-os para São Paulo a fim de viverem com famílias cristãs, que lhes ensinariam os “bons costumes”. O jesuíta retrucou, argumentando que o Cristo não aprovaria tal método de “conversão na marra”, preferindo deixar os nativos onde estavam, confiados à paciente e amorosa catequese dos missionários. “O pastor não escraviza as suas ovelhas”, acrescentou. O bandeirante não se deu por vencido. Citou uma nova lei editada por Filipe III, na qual se mantinha a proibição de submeter os índios a trabalhos forçados, permitindo-se todavia a escravização daqueles considerados “turbulentos” ou que fossem feitos prisioneiros em “guerra justa”. -Inventar uma “guerra justa” não deveria ser difícil...

-Dou-lhe um exemplo: os caçadores de gente erguiam cruzes ao lado dos seus acampamentos; dois dias após, alegavam que faltava uma cruz e punham a culpa nos índios, acusando-os de “desrespeito à religião”. Era o bastante para iniciarem uma “guerra justa”, aprisionando centenas de “inimigos da fé”.

-E os padres não podiam fazer nada?...

-Bem que tentavam, mas como? Naquele tal encontro com Raposo Tavares, padre Mola fez o possível, porém o máximo que conseguiu foi obter do perverso a “generosa” promessa de que só levaria índios pagãos, deixando em paz os batizados.

-Coitados dos pagãos...

-Era uma estratégia. O missionário, sabendo que os arcos e flechas dos guaranis pouco valeriam contra a pólvora dos agressores, aceitou o acordo como forma de ganhar tempo.

-Começo a entender.

-Enquanto isso, procuraria batizar o máximo possível de nativos, aldeados ou não, e mandaria emissários aos padres das outras reduções sugerindo que tomassem a mesma providência.

-Os bandeirantes cumpriram o acordo?

-O que você acha?... Raposo era manhoso. Também ele estava querendo ganhar tempo, à espera de um pretexto para atacar. O pretexto surgiu quando o sertanista ficou sabendo que o padre Mola andava a acolher em Santo Antônio escravos fugidos, que escapavam tanto dos paulistas quanto dos espanhóis.

-Ai então...
–––––––––––-
continua…

O e-book pode ser feito o download no blog do Assis http://aadeassis.blogspot.com

Fonte:
A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá). e-book. 2011.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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