domingo, 5 de fevereiro de 2012

Guerra Junqueiro (O Ermitão)


Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se a urna gruta solitária para se dedicar inteiramente à salvação da sua alma. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de viver assim durante muitos anos, uma noite lembrou-e de que já tinha merecido um lugar glorioso no Paraíso e podia ser contado entre os santos mais notáveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:

– Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, atônito, ao ouvir estas frases, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do músico e mal o encontrou disse-lhe:

– Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitências te tornaste agradável a Deus.

– Ora, respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça; santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.

O austero ermitão continuou a insistir:

– Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum acto de virtude.

– Em verdade não poderia citar nem um só.

– Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu patrimônio e o produto do teu ofício?

– Não: mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma dívida. Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, protegi-a em todos os perigos, dei-lhe tudo o que possuía para resgatar a sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?

A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e exclamou:

– Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas de um pobre músico ambulante.

Fonte:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.

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