Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas) II

AS BODAS DA MORTE

Para Carlos Lamarca,
In memoriam

Entre os frisos vermelhos da tarde
Eu canto a aurora

Nas colunas de mato e rebanho
Eu canto a aurora

Um fuzil pendurado entre arbustos
Eu canto a aurora

Eu canto a aurora

Uma estrela desmaia de sangue
Eu canto a aurora

E este tempo é um marco de prata
Eu canto a aurora

E esta morte é amarga e sonora
Eu canto a aurora

BILHETE A UM POETA

Olha, Capinam
chegando a Nova Iorque
não te esqueças
escreve um poema
(daqueles)
e manda pelo correio
Vê se as tristezas de lá
são iguais ou mais fundas
que as tristezas daqui

Sabe (e disto não te iludas)
– pelas notícias que tenho
de um amigo que lá esteve –
que há muito ladrão solto
pelas ruas e avenidas
à espreita de fama
e de cenas tão vivas
quanto as letras de sangue
dos crimes de mistério da Rua Morgue

Levas contigo o telescópio?
Sei que montarás
– como navegante de rotas aéreas
um pequeno observatório
para a lua e para as estrelas
– Dizem até que o céu é de prata
além (e por cima) dos arranha-céus de vidro

Tira o primeiro domingo
e vai a Washington
e vê quantas manchas e sangue negro
salpicam os muros
as paredes
e os vitrais da Casa Branca

Escuta se chega
através do vento
do dia e da hora
o eco das vozes
oprimidas do mundo

(Onde se encontra
o radar eletrônico
da Agência de Informações?
– Um detector de mentiras
guardado em sete segredos
que capta a dor em alegria
o pranto em riso
a morte
a morte em vida?)

Ah Poeta andarilho
não te canses agora
aperta a mão de cada astronauta
mas procura nos parques
ou na Quinta Avenida
um jovem que tenha
no peito uma flor
E os Guetos? E as Guerras?
E a Bomba? E a Paz?

Nem te lembro
mas te confesso
que certo dia
morri dez vezes
quando William Calley
– o tal tenente Batman
destruiu com a morte
a vida
e os brinquedos
dos meninos de Mi Lay

E os mísseis?
Inverossímeis?

Não te perturbes, amigo
a hora explode toda em chamas

De tanto espanto
ódio conflito
as palavras se trituram
em pó. Em grito

Depois
antes de teu regresso
(máquina de filmar a tiracolo)
quero fazer-te um pedido
– Dá um pulinho à Ilha de Manhattan
para ver de perto
se a Estátua da Liberdade
continua de pé
ou caiu

CANÇAO DO MENINO PRESENTE

Cada palavra é uma porta
E toda porta é um enigma
Não canto poesia morta
No leito estreito da vida

E canto, poeira e espuma
Amor punhal catavento
Canto as esporas da lua
Cravadas no pensamento

Oh lâmina do céu que arde
Oh dor que no tempo corre
Canto um menino que nasce
Distante de outro que morre

Não morre. O signo guerreiro
Crepita fagulhas e asas
– O peito expulso de medo
E as mãos cruzadas de espadas

O lábio rente e ferreiro
É um rio cortado de datas
A boca é pranto e ponteio
Num poço de ondas e mágoas

A voz é grito na praça
– Lanças agudas no peito
Aurora que se desata
Na fechadura do tempo
_______________________

Fugiu agora a tristeza
Chegou na face à alegria
– Os deuses caíram mortos
Em cinzas de fantasia

APARIÇÃO

Na veia d’água
Ao pé do monte
Tem uma sombra
Atrás da ponte

Em duas pontas
O sol quebrado
Parte os sentidos
De um potro alado

Em puro sangue
O céu se banha
– Cristais de cores
De nuvem estranha

Até na grota
A cotovia
Crespa os cabelos
Da ventania

A natureza
Assim trabalha
Cortando as dobras
De uma mortalha

Na veia d’água
Ao pé do monte
Tem uma sombra
Atrás da ponte

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987. http://br.geocities.com/rsuttana/adelmo_cantico.pdf

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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