Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Marlene B. Cerviglieri (À Hora das Saudades)

Oh! minha Lua Prateada!

Com você eu posso falar!

Que saudade eu sinto das noites frias de junho, onde lá no Terreiro a fogueira ardia em brasa num clarão de tamanho.

Bem antes já se juntavam as madeiras, tudo era em abundância.

Amontoados os troncos, os galhos era só esperar.

Menino ainda sem saber do perigo, e nem mesmo avisado, fazia meus balões para estas noites ir soltar.

Que alegria ver o balão subindo nas suas cores tremendo e o seu fogo até cuspindo.

Ao lado com mesas improvisadas estavam todos os doces, aqueles que hoje não como mais.

Tanta coisa, pé de moleque, cocadinha, batata doce, pinhão cozido e não faltava a canjiquinha e o arroz doce também.

Noutro lado o gostoso bolo de fubá, o milho cozido pronto para mastigar e o quentão só para gente grande tomar.

Ah! que saudades do tempo da roça e do luar.

Cantava-se com a viola tocando, e sanfona fazendo o acompanhamento numa grande alegria.

Meu sonho secreto era ser cantor.

Quando me pegava sozinho cantava com toda minha força com muita alegria no peito.

Saudades das caminhadas no mato procurando os ovos que as galinhas deixavam por lá.

Ir pegar as mangas no chão, pois caíam de montão, não dava tempo de distribuir tudo.

Saudades do vento no rosto, do cheiro de chão!

Do leite quentinho tirado na hora da Mimosa que calma assentia.

Saudades de ir pescar no rio e levar para casa peixes que nunca ninguém viu de tão miúdos. Mas a brincadeira valia.

O tempo passou, o progresso chegou lá também.

O pomar não é o mesmo, as frutas crescem em qualquer tempo!

Os ovos estão guardados recolhidos automaticamente e as galinhas na engorda, presas, coitadinhas.

O leite levam todo embora para ser comercializado.

Tenho saudades sim, mas também estou no novo tempo!

Olha eu aqui escrevendo no computador!

Mas à noite com um olho no céu, procuro a Lua, o luar prateado e se der sorte ainda ouço a voz de um sertanejo cantando sua história, que quase sempre é de amor!

Do sonho de ser cantor, restou a lembrança de um menino que soube aproveitar tudo que a natureza de bom pôde lhe dar.

Na roça, onde meu coração foi morar.
–––––––––––––––––––––-

*Psicóloga e escritora, reside em Ribeirão Preto/SP, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.

Fonte:
Revista Literária Café-com-Letras – Ano 11 n.11. Teófilo Otoni: Academia de Letras de Teófilo Otoni, 2013.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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