Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 29 de dezembro de 2013

Nilto Maciel (Apontamentos para um Ensaio)

Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara.
Moreira Campos, Dizem que os cães veem coisas.

 No dia 7 de maio de 1994 Mauritz Zetterling chegou a Fortaleza. Não esperava nenhuma recepção, quer no aeroporto, quer no hotel. Afinal, ninguém da cidade o conhecia. Ninguém sequer sabia de sua existência. Talvez algum estudioso de literatura já tivesse lido seu nome. E se essa pessoa tivesse lido seus livros? Não, seus livros não haviam sido ainda traduzidos para o português. Nem mesmo em Portugal. Decididamente nenhum habitante de Fortaleza o conhecia. Ele, porém, conhecia uma pessoa daquela cidade. Não, não conhecia a pessoa, mas a obra literária dela. Pequena parte da obra, é verdade. E com aquela viagem tinha exatamente o objetivo de conhecer pessoalmente o autor de uns maravilhosos contos que havia lido em Estocolmo. Ah! como ansiava conversar com Moreira Campos.

No táxi trocou duas palavras com o motorista. E se perguntasse se conhecia o escritor? Não, os escritores não são cantores populares. Nem nas suas próprias terras. Apesar de muito cansado, tomou banho, almoçou, folheou um jornal e se pôs diante de uma televisão.

O primeiro brasileiro lido por Mauritz tinha sido Jorge Amado. Havia quase vinte anos. Interessou-se pelo Brasil e leu outros brasileiros. Em sueco ou em inglês. Lenngren, um tradutor amigo seu, levava-lhe novidades. Em 1993 mostrou-lhe um livro de Moreira Campos. Traduziu alguns contos para o sueco e, entusiasmado, pediu a opinião a Mauritz. Um novo Tchekhov, gritou o crítico. E se pôs a fazer apontamentos para o ensaio.

Os estudos de Zetterling sobre as obras de George Stiernhielm e Esaias Tegner eram tidos como essenciais para a compreensão da arte literária sueca desde Erikskrönikan. Nenhum crítico na Suécia o superava em conhecimento da literatura de sua pátria. Por que, então, abandonar esse posto e partir em busca de outros mares, de distantes, desconhecidas e ainda informes literaturas?

Tão exaltado se achava Mauritz que decidiu conhecer pessoalmente o contista brasileiro. E zarpou para o Rio de Janeiro. Logo, porém, se encheu de decepção e descrença. Nas livrarias não encontrou nenhum livro do contista. Nas universidades ninguém sabia da existência de Moreira Campos. Teria sido ludibriado? Maldito Lenngren! Ou o castigo imposto ao escritor partia dos editores, livreiros, professores, jornalistas? Já desesperado, ouviu de um vendedor – esse autor é gaúcho e os livro dele só são vendidos em Porto Alegre. Rumou para o sul. Não, Moreira Campos era mineiro e somente em Minas Gerais era lido. De Belo Horizonte partiu para Brasília. No Itamarati ninguém sabia da existência de contistas. Mandaram-no ao Ministério da Cultura. O sueco se havia equivocado – o nome da pessoa procurada era Moreira Campista, deputado e cotista de uma empresa de transportes urbanos. Dirigiu-se à Câmara. O deputado nem escrever sabia. A pessoa a quem Mauritz buscava – informou um assessor legislativo – chamava-se Moreia Campos, banqueiro.

Pronto a desistir de encontrar o escritor e voltar a Estocolmo, o crítico arrumou as malas e sentou-se na beira da cama. Não, não existia um contista brasileiro chamado Moreira Campos. Súbito lembrou-se de detalhe da biografia do contista traduzida por Lenngren: “Moreira Campos nasceu em Senador Pompeu”. Ora, certamente o escritor ainda morava na cidade natal, razão por que não se teria feito conhecido no resto do país. Consultou um mapa do Brasil. Não, o contista não viveria numa cidadezinha. Provavelmente morava numa cidade maior. Levou o mapa ao gerente do hotel e concluiu ser em Fortaleza a morada de Moreira Campos.

Animado com os novos rumos de sua peregrinação, Mauritz viajou para a capital do Ceará. Algumas horas depois de sua chagada, já quase satisfeito consigo mesmo, esteve para morrer de susto – o locutor de televisão anunciou o falecimento de Moreira Campos. E num relance o sueco constatou: havia sido conduzido pelo destino a conhecer o contista no seu último dia.

Surpresa maior Mauritz sentiu após os funerais. Em visita à casa da viúva encontrou os apontamentos por ele feitos para um ensaio sobre a obra de Moreira Campos. Achavam-se junto a rascunhos de contos. Apavorado, perguntou à senhora quem havia escrito ou copiado aquilo. E justificou a pergunta, cuidadoso de não ofender a viúva. Ora, havia deixado aquelas anotações numa gaveta fechada a chave, em sua casa. Lembrou-se do sorriso nos lábios do falecido, ao vê-lo deitado no caixão.

No dia seguinte Mauritz Zetterling regressou a Estocolmo. Tinha pressa em abrir a gaveta da escrivaninha. Virou a chave e nem sequer teve tempo de rever seus apontamentos para o ensaio. Subitamente tombou, sem vida.

Fonte:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to