Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 15 de dezembro de 2013

Malba Tahan (Resignação)

"Cordas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam. Na angústia, invoquei ao SENHOR e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz e aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face". David (Salmo 18:5-6).

 
Era por um dia de sábado, ao anoitecer. Havia já algumas horas que o doutor Meir se entretinha na escola pública explicando a Santa Lei a seus inúmeros discípulos. Deleitavam-no aqueles estudos e a religiosa atenção com que suas palavras eram ouvidas.

Sua casa, entretanto, durante aquelas fugidias horas, hospedara o luto e a desesperação. Dois de seus filhos haviam morrido quase de repente e de sua família só a desolada mãe permanecia para chorar aos pés dos dois cadáveres. Infeliz mulher! Petrificada pela dor, contemplava imóvel aqueles dois corpos amados buscando neles, em vão, alguns indícios de vida; e vinha-lhe à mente o pobre marido que dentro em pouco iria defrontar o tremendo espetáculo. O respeito à vontade divina e a caridade de esposa deram à mísera uma grande força de alma. As maternas mãos estenderam um lençol sobre aquele leito de morte onde os filhos amados repousavam. Cumprindo o piedoso mister, a triste mãe passou-se ao quarto vizinho à espera do marido.

A noite descera lentamente. Já estrelas sem conta luziluziam pelas alturas sem fim. Volveu a casa o doutor e apenas transposta a soleira indagou, da sua esposa, um tanto perturbado:

- E os filhos?

- Terão ido à escola - respondeu a mulher com voz trêmula e sumida, fitando o céu, evitando o olhar do marido.

- Parece-me que não os vi entre os alunos.

A mulher, sem lhe responder, apresentava-lhe o vinho e o círio para o Avdalá, com que implorar as bênçãos do céu para a nova semana.

Cumpriu o doutor o religioso ato e com crescente ânsia bradou:

- Mas, e os filhos, mulher?

- Saíram talvez para alguma incumbência familiar.

Isto dizendo punha diante do marido, há longo tempo em jejum, umas fatias de pão.

Provou o doutor um pedacinho e tendo dado graças a Deus, a quem devemos todos os bens terrenos, exclamou:

- Como tardam hoje os nossos filhos! É certo que não sabes mesmo nada, ó esposa minha? Porque me pareces tão triste?

- Eu, meu esposo, preciso muito de um conselho teu.

- Que é?

- Ontem um amigo nosso me procurou e deixou sob minha guarda algumas jóias. Vem ele agora reclamá-las. Ai de mim! Não contava que viesse tão cedo. Devo restituí-las?

- Ó minha esposa! Essa dúvida é pecaminosa!

- Mas já me afizera tanto àquelas jóias!

- Não te pertenciam.

- Mas eu queria-lhes tanto bem... Talvez tu também...

- Ó mulher! - exclamou atônito o marido que começava a pensar, com temor, nalguma coisa, estranha e terrível. - Que dúvidas! Que pensamentos! Sonegar um depósito, coisa sagrada!

- É isso mesmo - balbuciava chorosa a mulher. - Muito preciso de teu auxílio para fazer esta dolorosa restituição. Vem ver as jóias depositadas.

E as suas mãos geladas tomaram das mãos do atônito marido e conduziram-no a câmara nupcial e ergueram as franjas do lençol fúnebre.

- Aqui estão as jóias. Reclamou-as Deus!

Diante daquela visão o pobre pai prorrompeu em grandíssimo pranto, e exclamou golpeado pela dor:

- Ó filhos meus, filhos de minha alma, doçura da minha vida, luz dos meus olhos, ó meus filhos!

- Esposo meu. Não disseste há pouco que é forçoso restituir o depósito quando o reclama o seu dono legítimo?

Com os olhos marejados de lágrimas, o sábio fitou a esposa cheio de admiração e de inefável ternura.

- Ó meu Deus – suspirou, - posso eu balbuciar alguma queixa contra a Tua vontade? Deste-me, para escudo e consolo de minha vida uma esposa religiosa e santa!

E os dois infelizes prostraram-se a um só tempo e por entre lágrimas repetiram as santas palavras de Jó:

- "Deus deu, Deus tirou. Bendito seja o seu santo nome!".

Fonte:
Malba Tahan. Lendas do Povo de Deus

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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