sábado, 18 de julho de 2026

Irmãos Grimm (O mestre ladrão)


Certo dia, estavam sentados, em frente de pobre casinha, um homem e sua esposa, descansando do trabalho. Nisto chegou uma bela carruagem, atrelada com quatro cavalos pretos, e dela apeou um senhor luxuosamente vestido. O campônio levantou-se e foi ao encontro do senhor, perguntando o que desejava e em que podia servi-lo. O desconhecido apertou-lhe a mão e disse: - Desejo, apenas, saborear um prato dessa boa comida do campo. Preparai algumas batatas à vossa maneira, sentar-me-ei à mesa convosco e as comerei com imenso prazer.

O campônio sorriu e disse:

- Vós sois, sem dúvida, conde ou príncipe, talvez mesmo duque; os grandes fidalgos costumam ter desses desejos! E o vosso será satisfeito.

A mulher foi para a cozinha e começou a lavar e descascar as batatas, querendo fazer um bom prato de "nhoques," desses que os camponeses tanto apreciam. Enquanto ela cuidava dessa tarefa, o campônio disse ao desconhecido:

- Enquanto esperamos, vinde comigo até à horta; ainda tenho de terminar um pequeno serviço lá.

Na horta, ele havia aberto algumas covas onde pretendia plantar mudas de árvores.

- Não tendes nenhum filho que vos possa ajudar? - perguntou o desconhecido.

- Não! - respondeu o campônio, e acrescentou: - Na verdade tive um mas, há muito tempo ele nos deixou para correr mundo. Era um rapaz viciado, inteligente e malicioso, mas não tinha vontade de aprender coisa alguma; só sabia pregar-me as piores peças. Um dia, fugiu de casa e nunca mais tive notícias dele.

Assim dizendo, o campônio colocou uma muda dentro da cova o enfiou uma estaca ao lado; depois de socar bem a terra em volta, amarrou a haste ao pau, embaixo, no meio e no alto, com um cipózinho.

- Dizei-me uma coisa, - disse o desconhecido, - por que não amarrastes uma estaca também àquela árvore torta ali do canto, àquela contorcida e nodosa que está vergada quase até ao chão?

O velho sorriu e disse:

- Senhor, falais como todos os que não entendem do assunto; bem se vê que nunca lidastes com uma horta. Aquela árvore contorcida já está velha e ninguém poderá mais endireitá-la. As árvores devem ser endireitadas quando são novinhas.

- Tal como o vosso filho! - disse o desconhecido; - se o tivésseis educado quando era pequenino, não teria fugido de casa. Agora ele, também, se terá endurecido e contorcido.

- Naturalmente! - respondeu o campônio. - Já faz tanto tempo que se foi, deve estar bem mudado!

- Se ele se apresentasse agora, ainda o reconheceríeis? - perguntou o desconhecido.

- Pela cara, dificilmente! - respondeu o campônio, - mas o reconheceria por um sinal em forma de feijão que tem no ombro.

Quando ele disse isto, o desconhecido despiu o paletó, descobriu o ombro e mostrou o sinal em forma de feijão.

- Senhor Deus meu! - exclamou o velho: - então és o meu filho!

E o amor paterno agitou-lhe o coração; mas acrescentou:

- Como é possível que sejas meu filho, se és fidalgo e vives na opulência e na fartura? Por quê caminho chegaste a tal altura?

- Ah, meu, pai! - respondeu o filho – a arvorezinha tenra não foi amarrada à estaca, no tempo devido, e cresceu torta! Agora está velha e não endireita mais. Como ganhei tudo isto? Tornei-me ladrão. Oh não te assustes, eu sou um mestre ladrão! Para mim, não existem fechaduras ou ferrolhos que resistam; quando quero alguma coisa, tomo-a. Não creias, porém, que me reduzi a roubar como gatuno vulgar; eu apodero-me, somente, do supérfluo dos ricos; os pobres podem ficar descansados, a eles prefiro dar do que tomar. Assim como não me interessa o que me possa vir ás mãos sem trabalho, astúcia ou habilidade.

- Ah, meu filho, - disse tristemente o pai, - de qualquer maneira teu ofício não me agrada; ladrão é e será sempre ladrão, e nunca acaba bem, digo-te eu!

Conduziu-o à presença de sua mãe e, quando esta soube que ele era seu filho, chorou de alegria; e quando ficou sabendo que ele era ladrão mestre, as lágrimas corriam-lhe das faces como caudais. Entretanto, assim que conseguiu falar, disse:

- Mesmo que se tenha tornado ladrão, é sempre meu filho, e meu olhos tiveram a graça de vê-lo ainda uma vez!

Depois, foram para a mesa e ele comeu em companhia dos pais a modesta comida caseira, que há tanto tempo não comia. O pai lembrou:

- Se nosso amo, o conde lá do castelo, souber quem és e o que fazes, creio que não te pegará no colo e não te ninará como quando te levou à pia batismal; acho que te mandará balançar na ponta da corda de uma forca.

- Não te preocupes, meu pai; ele não me fará nada; pois sei bem como são as coisas. Hoje mesmo irei visitá-lo.

Ao cair da tarde, o ladrão subiu na carruagem e foi ao castelo. O conde recebeu-o amavelmente, julgando que fosse um grande fidalgo. Mas, assim que ele se deu a conhecer, o conde empalideceu e, durante alguns minutos, perdeu a fala. Depois disse:

- Tu és meu afilhado, por isso serei clemente e te tratarei com toda a indulgência. Como, porém, te gabas de ser ladrão mestre, quero pôr à prova tua habilidade. Mas, se fizeres fiasco, eu te mandarei dançar na ponta da corda pelo espaço e, como música de acompanhamento, terás o doce crocitar dos corvos.

- Senhor conde, - respondeu o ladrão, - inventai três empreendimentos difíceis quanto quiserdes, se eu não os levar a cabo, fazei de mim o que vos aprouver.

O conde pensou durante alguns minutos e depois disse:

- Está bem! Em primeiro lugar, deves roubar da cavalariça meu cavalo predileto; em segundo lugar, quando minha mulher e eu estivermos dormindo, tens de tirar o lençol que temos debaixo do corpo sem que possamos perceber; também tens de tirar a aliança que minha mulher traz no dedo; por fim, tens que raptar da igreja o padre e o sacristão. Toma nota de tudo direito, porque é a tua vida que está em jogo.

O mestre ladrão despediu-se e foi à cidade vizinha. Lá adquiriu a roupa de uma velha camponesa e vestiu-se. Pintou o rosto de cor bronzeada, desenhando algumas rugas. de maneira a ficar irreconhecível; em seguida, comprou um barrilete de velho vinho da Hungria, misturando-lhe forte narcótico. Meteu o barrilete num cesto. que pôs às costas e, com passos trôpegos e arrastados, voltou ao castelo do conde.

Quando chegou lá, já era escuro. Sentou-se numa pedra que havia no terreiro, pôs-se a tossir como uma velha asmática e a esfregar as mãos como se estivesse morrendo de frio.

Em frente à cavalariça, havia um grupo de soldados, deitados ao pé de uma fogueira; um deles, vendo aquela velha a tossir, gritou-lhe:

- Ei, avozinha, chega aqui perto, vem aquecer-te conosco. Cama para dormir não tens mesmo e deves aceitar o que te oferecem, vem pois aquecer-te aqui!

A velha aproximou-se com passinhos miúdos e pediu que lhe tirassem o cesto das costas; depois sentou-se junto deles ao pé do fogo.

- Que tens aí nesse barrilzinho, velha bruxa? - perguntou um dos soldados.

- Tenho um dedo de excelente vinho, - respondeu ela; - preciso vender alguma coisa, se quero viver! Dinheiro e boas palavras, com isso poderás ter um copo.

- Vamos lá, dá-me um copo, então! - exclamou o soldado e, depois de provar o vinho, disse: - Quando o vinho é bom, gosto de beber mais de um copo! - e pediu mais. Os outros seguiram-lhe o exemplo.

- Olá, camaradas! - gritou um deles aos que estavam dentro da cocheira. - Está aqui a vovozinha oferecendo um vinho tão velho quanto ela mesma; tomai um copo que isso vos aquecerá o estômago melhor que o fogo.

A velha levou o barrilete dentro da cachoeira. Um dos soldados estava montado no cavalo predileto do conde; outro o estava segurando pelo freio, e o terceiro pelo rabo. A velha pôs-se a distribuir o excelente vinho tanto quanto lhe pediam e, assim, foi até esvaziar o barrilete.

Não demorou muito, o soldado que segurava o freio largou-o e rolou pelo chão, onde se pôs a roncar deliciosamente; o outro largou o rabo, caiu deitado e roncou mais alto ainda; o que estava montado, permaneceu na sela, mas pendeu o corpo para a frente até tocar com a cabeça no pescoço do cavalo; ferrou no sono e assoprava como um velho fole.

Lá fora, os demais dormiam há muito, deitados no chão e imóveis como se fossem de pedra.

O ladrão, ao ver que tudo lhe saíra às mil maravilhas, colocou uma corda na mão daquele que segurava o freio; ao que segurava o rabo, pos-lhe na mão um punhado de palha; mas que devia fazer com o que estava montado no cavalo? Não queria botá-lo para baixo com receio que despertasse e fizesse um escarcéu. Finalmente, descobriu um expediente: desafivelou a correia que prendia a sela, passou umas cordas nas argolas que havia nas traves, prendeu a sela com o cavaleiro montado e suspendeu-a, depois amarrou firmemente as cordas num pau. Feito isto, foi facílimo subtrair o cavalo; mas para sair montado, o barulho das ferraduras poderia chamar a atenção, então enrolou alguns trapos nos cascos do cavalo, levou-o para fora da cocheira e, montando nele, disparou a todo galope.

Na manhã do dia seguinte, o ladrão dirigiu-se a rédeas soltas para o castelo, todo pimpão no cavalo roubado. O conde acabava de levantar-se e estava à janela.

- Muito bom dia! - gritou de baixo o ladrão. - Eis aqui o cavalo, que tirei com a maior facilidade da cavalariça. Ide ver como dormem os vossos soldadas, como bem-aventurados estão lá deitados no chão, e podeis ver, também, na cavalariça como se acomodaram os vossos guardas!

O conde não pôde conter-se e, dando uma risada, disse:

- Da primeira vez te saíste bem, mas na segunda não te será tão fácil. A divirto-te, entretanto, que, se te apanho como um ladrão qualquer, trato-te como tal.

A noite, quando marido e mulher foram deitar-se, a condessa fechou a mão bem apertada, segurando firmemente a aliança, e o conde disse-lhe:

- As portas estão todas trancadas; eu ficarei acordado e, se o ladrão tentar entrar pela janela, dou-lhe um tiro.

Entretanto, em meio às trevas da noite, o ladrão foi ao local das forcas, cortou a corda de um pobre enforcado e carregou-o às costas até ao castelo. Em seguida, colocou uma escada sob a janela do quarto e, com o morto sentado sobre os ombros, foi subindo. Ao chegar à altura em que a cabeça do morto aparecia na janela, parou. O conde, que da cama estava espreitando, apertou o gatilho e deu-lhe um tiro; o ladrão soltou, imediatamente, o defunto, pulou da escada e correu a esconder-se num canto. A noite estava tão claramente iluminada pelo luar que o mestre pôde ver, perfeitamente, o conde saindo pela janela; depois desceu pela escada e levou o morto até ao jardim. Uma vez lá, deu-se ao trabalho de abrir uma cova para o enterrar.

- Agora é o momento azado! - disse de si para si o ladrão.

Deslizou, mais que depressa, do esconderijo, trepou pela escada e foi direitinho ao quarto da condessa.

- Minha cara mulher, - disse ele imitando a voz do conde: - O ladrão está morto, mas de qualquer maneira era meu afilhado, mais velhaco do que malvado. Portanto, não quero expô-lo à vergonha pública, mesmo porque tenho pena daqueles pobres pais; vou enterrá-lo, eu mesmo, no jardim, antes que amanheça, para que ninguém venha a saber de coisa alguma. Dá-me o lençol para amortalhá-lo, assim não será enterrado como um cão.

A condessa entregou-lhe o lençol.

- E, sabes? - prosseguiu o ladrão - terei para com ele um rasgo de generosidade; dá-me, também, tua aliança, afinal de contas esse infeliz arriscou a vida por causa dela; que a leve consigo para a sepultura.

A condessa, embora a contragosto, não quis opor-se à vontade do conde e, tirando o anel do dedo, entregou-lhe. O ladrão, tendo em poder as duas coisas, tornou a sair pela janela e chegou na casa sem inconvenientes, antes que o conde tivesse terminado o trabalho de coveiro no jardim.

Imagine-se, agora, que cara fez o conde na manhã seguinte, quando o mestre ladrão apareceu levando-lhe o lençol e a aliança!

- Possuis acaso uma varinha mágica? - perguntou-lhe - quem te desenterrou da cova onde com minhas próprias mãos te coloquei? Quem foi que te ressuscitou?

Rindo-se, o ladrão respondeu:

- Não foi a mim que enterraste! Foi àquele infeliz que estava na forca. E narrou, detalhadamente, como se passaram as coisas. O conde teve que admitir que era um ladrão hábil e inteligente.

- Mas não terminaste ainda, - disse-lhe; - falta levares a cabo o terceiro empreendimento; se nesse não tiveres êxito, tudo o mais não te valerá de nada.

O ladrão sorriu e não respondeu nada.

Quando caiu a noite, dirigiu-se à igreja da aldeia, levando um comprido saco nas costas, um embrulho debaixo do braço e uma lanterna na mão. Dentro do saco havia uma porção de caranguejos e, no embrulho, outras tantas velinhas de cera. Penetrou no cemitério junto à igreja, sentou-se no chão, pegou um caranguejo e grudou-lhe uma velinha nas costas; acendeu-a e soltou o bichinho. Fez o mesmo com outros e continuou assim até acabar com todos os que estavam no saco. Em seguida, vestiu uma túnica preta, parecida com burel de frade, grudou longa barba branca no queixo e ficou completamente irreconhecível. Depois, pegou o saco no qual trouxera os caranguejos, encaminhou-se para a igreja e subiu no púlpito. O relógio da torre acabava justamente de bater o último toque das doze horas; então ele gritou com voz tronitroante:

- Ouvi-me, pecadores! Chegou o fim de todas as coisas; o dia do Juízo está próximo! Ouvi! Ouvi! Quem quiser subir comigo para o céu, entre neste saco! Eu sou São Pedro, o que abre e fecha as portas do céu; olhai lá fora, no cemitério, os mortos já estão recolhendo seus ossos. Vinde! Vinde depressa! Entrai neste saco! Chegou o fim do mundo!

Aqueles brados repercutiram por toda a aldeia. O padre e o sacristão, que moravam mais perto da igreja, foram os primeiros a ouvir o estranho apelo; e, quando viram todas aquelas luzinhas caminhando pelo cemitério, convenceram-se de que algo de extraordinário estava sucedendo e foram correndo para a igreja. Durante alguns momentos, ficaram escutando o sermão, depois o sacristão deu uma cotovelada no padre o disse:

- Não seria nada mau se aproveitássemos a oportunidade e juntos fôssemos, confortavelmente, para o céu, antes que chegue o dia do Juízo!

- Naturalmente, - respondeu o padre, - também penso assim; se estás disposto, ponhamo-nos a caminho.

- Sim, - disse o sacristão, - mas vós, reverendo, tendes direito de precedência; eu vos seguirei.

Assim o padre foi o primeiro a subir até ao púlpito, onde o ladrão o acondicionou dentro do saco; em seguida foi a vez do sacristão. O mestre, mais que depressa, amarrou fortemente a boca do saco e arrastou-o pela escada do púlpito abaixo; cada vez que as cabeças dos dois malucos batiam nos degraus, ele gritava:

- Agora estamos atravessando as montanhas.

Dessa maneira levou-os através da aldeia e, quando passavam dentro de alguma poça d'água, ele gritava:

- Agora atravessamos as nuvens molhadas.

Finalmente, quando iam subindo a escadaria do castelo, dizia:

- Agora estamos subindo as escadas do Céu, em breve chegaremos ao vestíbulo.

Chegando lá em cima, ele empurrou o saco para dentro do pombal e, quando as pombas assustadas começaram a bater as asas, disse:

- Estais ouvindo como os anjos se alegram e batem as asas de contentamento?

Então, puxou o trinco da porta e foi-se embora.

Na manhã seguinte, apresentou-se ao conde e comunicou-lhe que se havia desincumbido, também, do terceiro empreendimento e raptara da igreja o padre com o sacristão.

- Onde os puseste? - perguntou meio incrédulo o conde.

- Estão dentro de um saco, lá no pombal, e julgam que estão no céu!

O conde, foi pessoalmente, verificar e convenceu-se de que o outro dissera a verdade. Libertou o padre e o sacristão e depois disse ao mestre:

- Tu és um super-ladrão e ganhaste a tua causa. Por esta vez, escapas com a pele inteira, mas trata de sumir das minhas terras; e, se te mostrares outras vez por aqui, podes contar que serás dependurado na forca.

O mestre ladrão, foi despedir-se dos pais e voltou a correr mundo; nunca mais ouviu-se falar nele.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Minhas Trovas Premiadas * 1 *

 

Chafariz de Trovas * 19 *


A empregada de hoje em dia
quando vai para o fogão,
cozinha em banho-maria
as "cantadas" do patrão.
ADELIR COELHO MACHADO 
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Todo rio na corrente
busca um lago, um rio, um mar.
Mas o destino da gente
quem sabe onde vai parar?
ADELMAR TAVARES 
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Tem cão que mora no morro,
outro morando em mansão;
porque nem todo cachorro
leva uma vida de cão.
ADEMAR MACEDO 
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Realejo, lembrança forte
que a memória não embaça,
você passa, e a minha sorte
nunca mais deixou a praça!
ALBA CRISTINA CAMPOS NETO
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O tolo sempre se engana,
ao julgar o seu saber;
o sábio nunca se ufana
e passa a vida a aprender.
ALBA HELENA CORRÊA 
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Uma batalha perdida
jamais nos deve abater;
cada experiência vivida
é uma fonte de saber.
ALMERINDA LIPORAGE 
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Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco ao meu lado
mas meu lado está vazio.
AMÁLIA MAX
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Onde a esperança?... Eu explico:
    - Ela está no fiapinho
que as aves levam no bico,
quando estão fazendo ninho!...
ARCHIMIMO LAPAGESSE
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Olhos tristes ou risonhos
vejo entre a gente do povo
dos restos dos velhos sonhos
fabricando um sonho novo…
BASTOS TIGRE 
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Bondade não tem medida,
mas tem a grandeza e o porte,
de quem agrada na vida,
os deserdados da sorte!...
CAMPOS SALES 
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Melhor o mundo seria,
se no horizonte se lesse
a palavra AMOR... E, um dia,
nesse AMOR ... o mundo cresse!
CAROLINA RAMOS
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O que me intriga e fascina,
nesse mundo do saber,
é a vida, escola que ensina
a quem não quer aprender!...
CLENIR NEVES RIBEIRO 
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Aposentados na praça
jogam as cartas, sem pressas,
matando o tempo que passa,
ladrão de tantas promessas...
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
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"Voltarei" dizes depressa
num agrado à despedida;
fica comigo, a promessa
e em tuas mãos, minha vida!
DOMITILLA BORGES BELTRAME 
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Que bela seria a vida
se acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!
DOROTHY JANSSON MORETTI 
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Naqueles tempos de antanho,
de escribas e fariseus,
um Homem do meu tamanho
tinha o tamanho de Deus!
DURVAL MENDONÇA 
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A esperança é o quem-me-dera,
o Deus-te-ouça, a oração;
une a vida ao que se espera,
como um traço de união.
EDGAR BARCELOS CERQUEIRA
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Revela sabedoria
quem, ante a ofensa do irmão,
acende a luz da harmonia
e, humilde, lhe estende a mão!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA 
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Na praça dos desalentos,
pobres meninos de rua
que só têm por aposentos
os frios quartos da lua.
F. LUZIA NETTO
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Seja cobrado... ou de graça,
num paradoxo profundo,
por melhor que algo se faça,
não se agrada a todo mundo!
HELOÍSA ZANCONATO PINTO 
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As flores, na primavera,
desabrocham sem pudor,
se eu pudesse, quem me dera
desabrochar sem temor.
HENRIETTE EFFENBERGER
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Somente para agradar-te
e não ficares sozinha,
a minha alma se reparte
e é mais tua do que minha!
HÉRON PATRÍCIO 
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Enquanto faz uma jarra,
canta, o oleiro, uma cantiga
que lhe agrada ser cigarra,
sem deixar de ser formiga!
IZO GOLDMAN
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Avisto já no horizonte,
em pleno declínio, o sol;
mas não me abato, ergo a fronte
e aguardo um novo arrebol.
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO
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Quantas pedras removidas
e quantas por remover.
Provações em nossas vidas
que só nos fazem crescer!
JOÃO BATISTA XAVIER DE OLIVEIRA
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Sei da magia e poder
do amor que edifica impérios,
mas não sei de algum saber
que lhe decifre os mistérios!
JOÃO FREIRE FILHO  
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Bate o relógio sisudo,
mede a vida com rigor,
e o tempo, que vence tudo,
não vence a força do amor.
JOSÉ LUCAS DE BARROS 
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Parece imenso, e é restrito
o SABER que o Homem cultua:
quer conquistar o infinito
e, apenas, pousou na Lua,
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO  
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Não falar de coisa triste
com muito agrado eu queria...
Porém, depois que partiste,
como falar de alegria?...
JOSÉ TAVARES DE LIMA 
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Quem não se importa onde pisa,
na escalada desta vida,
sobe muito mas desliza
e escorrega na descida.
LUIZ HÉLIO FRIEDRICH
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A noite desfez, em contas,
o seu colar de cristal
e fez agrados nas pontas
da grama do meu quintal!...
MARINA BRUNA 
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Há de rir quem encontrar
a luz da felicidade.
Mas quem não sabe chorar,
nunca vai rir de verdade.
NISKIER DÀMASO
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Minha razão distraída
por teus agrados sem fim
deixa outra vez iludida
que a emoção fale por mim!
RITA MARCIANO MOURÃO 
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Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
     inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Praça limpa... Todo dia.
Há tanta gente que passa
e quase nem vê Maria
que varre o lixo da praça...
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
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Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO
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Se eu perdesse, de repente,
tudo o que a vida me deu,
tendo a Esperança, somente,
- bem pouco perdera eu!...
WALDEMAR SOARES CARNEIRO
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Muito saber que deslumbra,
e cujo brilho norteia,
vem do estudo na penumbra,
à luz frouxa da candeia...
WALDIR NEVES 
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Aparecido Raimundo de Souza (Só vou gostar de quem gosta de mim)


DIZEM QUE O SONHO é só ilusão, tipo uma imagem criada que a cabeça inventa enquanto dormimos. Mas o que eu vivi não foi apenas um sonho. Na verdade, eu diria, sem medo de errar, foi algo inusitado, estranho, algo que entrou fundo, que tocou o meu peito e deixou marca, como se a vida, a minha vida tivesse parado por um instante para me mostrar o que é o fim. Eu sonhei que tinha morrido. Ou pensei, sei lá. Nunca vou saber ao certo. Meu Deus, que loucura! 

Morri cedo, deixei de respirar antes do tempo que eu imaginava ainda ter pela frente. Uma morte, eu diria, prematura, daquelas que chegam sem avisar, que não esperam a gente arrumar a casa, terminar o que começou, perceber o que ficou guardado. E nesse caminho, passei por altos e baixos que pareciam mais reais do que muita coisa que vivi acordado. Senti o peso do silêncio se engrandecer, aquilatei a distância de tudo o que me era caro fluir pelos vãos dos dedos. 

Nesse sonho meio estrambótico, vi rostos entristecidos que choravam, outros que alimentavam uma certa ironia e pareciam indiferentes, e me deparei, no mesmo trilho, ou até aliviados, e isso doeu mais do que a própria morte. Pensei em tudo o que deixei para depois: os abraços que não dei, as palavras que engoli, os sonhos que não tentei realizar, o tempo inerte que gastei com coisas insignificantes. 

No minuto seguinte, subi ao ponto mais alto da consciência, onde tudo parecia claro, e da mesma forma desci ao fundo da dúvida, perguntando ao meu “eu” interior: 

— Era mesmo esse o meu fim? Tudo o que eu vivi até hoje, acabou assim?

Mas no meio de todo esse caminho, algo do nada mudou. Não foi o fim. Eu não morri. Não passei para o outro lado. Voltei. E voltei radiante. 

No momento em que regressei, abri os olhos e percebi que estava aqui, respirando, com o coração batendo forte, assustado, mas energicamente vivo.

E foi aí que entendi: essa “morte prematura”, ou seja, lá o nome que essa coisa possa ter, e que eu confesso que vivi, foi um aviso. Não foi a desgranhenta para me levar de vez, mas para me fazer ver que a vida não espera. Muitas vezes andamos por aí como autômatos, como se fôssemos viver para sempre, deixando o amor para depois, as mudanças para amanhã, a felicidade para um dia qualquer. Esse encontro com o meu próprio fim mostrou-me que o tempo é curto, que o amanhã não é garantido. Talvez nem chegue...

Nesse momento, após me refeito do susto, ainda agora, quando lembro desse fato, melhor dito, desse sonho, não tenho mais medo da morte em si. Tenho medo, aliás um receio mórbido de viver uma vida pela metade, como se já estivesse morto e enterrado de fato e por dentro antes de realmente partir. O que passei foi um alerta: ganhei de novo a chance de viver de verdade, de falar o que sinto, de valorizar quem está ao meu lado, de fazer valer cada dia.

Não foi só um sonho. Foi mais que isso. Acredito, uma lição que a vida me deu de um jeito duro, mas a meu ver, encarecidamente necessário. Morri um pouco para renascer melhor. E agora, de volta ao meu mundo do lado de cá, vivo com mais calma, mais verdade e gratidão. Porque no fundo da minha alma, bem lá no “escondidinho” dela, sei que, por enquanto, ainda estou aqui. E para completar, é maravilhoso estar e me ver de volta. 

Pois bem! Resumindo esse medo que me fez sair do chão, entre tapas e beijos, mortos e feridos, porradas e safanões, filhos distantes e desgarrados do meu amor, netos que nem sabem que eu existo, amigos idem, colocarei em prática, o método usado anos atrás pelo Roberto Carlos. “Só vou gostar realmente de quem gosta de mim”. 
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O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

Interlúdio * 8 *

 
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Biografia do trovador no Interlúdio 7, em

Camilo Castelo Branco (Aventuras de um boticário de aldeia)


O Sr. Manuel Pires, farmacêutico aprovado por outro farmacêutico que não foi aprovado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica numa aldeia do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratório químico era um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no colo por um cilindro de lata. A sua livraria era o Médico lusitano, in folio; uma Farmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado — Segredos da natureza. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro vidrado, atapulhados (obstruídos) de ervas, que tinham o merecimento cronológico de serem contemporâneas dos garrafões. Afora isto, não sei que líquidos verdes e amarelos e azuis variavam um dos lotes que, pelos modos, continha os remédios heroicos, como óleo de amêndoas doces, extrato de amoras, solimão, e óleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o Sr. Manuel Pires fosse um sábio, não digo consumado, mas superior à inteligência de alguns cirurgiões daquela redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hipócrates honrou as cinzas de seu pai fazendo a cura radical de uma espinhela caída na pessoa da Sra. Terezinha da Fonte. Este triunfo da farmácia sobre a espinhela elevou o Sr. Pires, não direi até às colunas do Zacuto, mas até onde podiam levá-lo as suas aspirações de mestre Manuel Pires, como respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos fregueses.

Um segundo triunfo veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A cura de uma ostrução, que eu não sei o que é, e outra de umas almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aqueles arredores.

O Sr. Manuel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providência lhe cedera. Relacionou-se com o pároco, com o regedor, com o juiz de paz, e associou-se assim a um triunvirato, que decidia dos destinos da freguesia. E o que eles não fizessem dez léguas em redor ninguém o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antônio da Poça que o sobredito juiz de paz se correspondia com os governos de Lisboa. Não posso abonar na sua íntegra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a coisa, atendendo à importância de um juiz de paz, quando se trata de fazer um deputado.

O boticário era uma figura incapaz das honras anatômicas do romance. Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das bochechas caíam-lhe em forma de sanefas sobre os colarinhos engomados com pós de batata. As ventas eram dois vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes acavalados simulavam uma Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capitéis.

Como quer que fosse, o Sr. Manuel Pires, aos quarenta anos, contava quarenta conquistas das melhores raparigas da freguesia. E, honra lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que desse o menor escândalo. Lá como ele fazia as coisas, e a felicidade dos seus triunfos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus pecados, quiser ler uma página altamente dramática da biografia do nosso amigo.

Manuel Pires foi chamado um dia para curar uma dor de rins na pessoa da tia Maria do Eiró. Não é necessário dizer que a moléstia obedeceu. Na mesma casa curou da triz o tio João, e por fim talhou o bicho com perfeição e felicidade à Mariquinhas, rapariga de uma vez, e coisa de pôr a cara a um lado a mais de quatro Antonis de socos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura.

O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o dicionário das ciências médicas. Fiquemos com a nossa ignorância; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso nunca talhar o bicho. O caso é que o mestre Manuel Pires falou ao coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu arcanjos, serafins, e brisas, e raios de lua a pratear lagos de anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os olhos da cara para ver o Sr. Manuel Pires, que, diga-se a verdade, não era cético, nem carpia tristezas por desoras ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava à porta.

Felizmente para ele, o dono da casa foi atacado de um estalecídio (asma) que lhe caiu nos bofes, segundo a opinião do boticário, e a cura demorada desta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes ocasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de porem o coração em maré-cheia de poesia chula.

O diálogo, que mais concorreu para a solução final, foi incontestavelmente o seguinte:

ELE — O deus Cupido fez dos olhos de vosmecê duas setas, que trespassaram o meu coração.

ELA — E as palavras de vosmecê, como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que não regeste meu sensível peito.

ELE — Eu bem queria dizer a vosmecê as ternuras do meu coração, e as congeminências (intuitos) do meu pensamento. Vosmecê é mais bonita que Vênus, e Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vosmecê

ELA — Pois se vosmecê me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o outro que diz.

ELE — O fim para que eu falei a vosmecê só eu o sei; e a troco desse negócio faz míngua falarmos outra vez.

ELA — Quando vosmecê quiser, e Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim não é. Uma rapariga que tem seus créditos não deve de perdê-los, e vosmecê bem entende as coisas que é sábio e homem de cabeça, por muitos anos e bôs.

ELE — E vosmecê que os conte. Ora pois; o que se há de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se vosmecê me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá da minha boca as afetíveis ternuras do meu amante coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras setas.

ELA — Pois se vosmecê promete de ter toda àquela de... sim, dizia eu, se vosmecê promete de ter toda àquela... sim... como diz lá o ditado...

ELE — Pelo deus Cupido lhe prometo a vosmecê de lhe não pôr a minha mão, nem palavra lhe direi que seja contra a honra de vosmecê.

A resistência da rapariga era impossível! Quando a eloquência, assim inspirada do íntimo da alma, regurgita em jorros nos lábios de um amante, é certo o triunfo. O amor é realmente o galvanismo dos estúpidos, desses cadáveres morais, que se levantam do túmulo da inteligência, e cantam lerias num alamiré (diapasão) celeste! Não nos recordamos de ter lido em romances franceses um diálogo tão fértil de imagens, tão vibrante de afetos, tão digno, enfim, de ser copiado na carteira destes obtusos amadores das salas, para os quais não há assunto, se lhes falharem as reminiscências do borda d'água.

Manuel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro cáusticos para a numerosa clínica que o esperava. Sem exagero, este farmacêutico era uma pílula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes da revalenta arábica. Logo que o anjo da guarda, não pudesse salvar o enfermo das agressões mefíticas do espírito mau,Manuel Pires, anjo sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, quer na boca do estômago, quer nos bofes quer nos miolos! Este homem desprezava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros criadores de nomes bárbaros que não fazem nada à saúde do cidadão. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma coisa enorme de cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que pitonisa mágica e, por fim de contas, era um relógio, cujo invólucro supria à farta uma bacia de semicúpios.

Eram 8 horas. Na aldeia é esta a hora dos amantes. Manuel Pires enfiou as suas meias de lã até à cintura, calçou os sapatos confidentes de mil empresas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarelo, e partiu.

Às 8 e um quarto, estava Manuel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a ansiedade própria da sua organização nervosa. Maus fados quiseram que naquela noite, e a tais horas, andasse fora de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticário, enquanto o pai não recolhesse. Quis primeiro sumi-lo na corte das vacas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava ir afagar a sua vaca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitara sete moedas e um quarto! Meteu-o, depois, na loja da égua, mas a bestinha, egoísta e ciumenta da manjedoura, não compreendeu que o Sr. Manuel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de coices, que por um triz o não remeteu à galeria póstuma dos farmacêuticos ilustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surpreendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fê-lo descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.

— Que fazes tu aí, rapariga? — bradou ele.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos. Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe roubava das caixas o seu saco de milho, que vendia para comprar, à surrelfa, o seu cordãozinho de ouro.

Na loja, onde o boticário desceu, estavam as caixas do milho, e não há nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em flagrante delito.

— Onde está a chave deste alçapão, rapariga? interpelou o tio João no mesmo diapasão.

— A chave tem-na vosmecê.

O homem entrou no seu quarto, próximo da cozinha, e veio com a chave, resmungando:

— Ora deixa-te estar, que não hás de cá tornar pô-lo vezo, minha cabra de não sei que diga!

Fechou o alçapão, e foi-se deitar.

A loja não tinha outra saída. O boticário, portanto, achava-se numa posição falsa, diz o leitor. Ele sabia lá o que eram posições falsas! O que ele fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá consigo: “no chão não me deito eu.” Continuou fleumaticamente a fazer o seu juízo crítico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz num presunto. Não obstante, o Sr. Manuel Pires tirou uma segunda conclusão: “de fome não morro eu.” Mais adiante esbarrou numa pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para ver se estava cheia. E o caso é que estava! Manuel Pires era um onagro de felicidade! “Deixa correr o mundo!...” disse ele, e estirou-se francamente sobre a caixa à espera de um sono regalado.

Passara-se uma hora, e o boticário, começando a pensar seriamente na sua situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Aplicou o ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha.

Sentiu frio, por que em dezembro não é fácil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos maquinais, buscando uma saída qualquer, e encontrou um albardão. “Valha-nos ao menos isto,” disse ele, e pegou do albardão, colocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora falemos das cólicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua o seu querido farmacêutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua dor sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor sorte.

O pai ressonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e saiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judite não saiu mais contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alçapão com sutileza, mas, no momento em que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um saco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: “ó rapariga!”

Não se diz, em linguagem Portuguesa, sem um conhecimento profundo dos clássicos, a atrapalhação da cachopa! O tio João procurou as calças, e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (proh pudor!) saltou do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o quinteiro.

O tio João, contra todas as leis da decência, foi atrás de sua filha, e filou-a pelo gasnete:

— O que ias tu fazer à loja, Maria?

— Raios me parta (disse ela a chorar) se eu ia à caixa do pão ou dos feijões!

— Então a que ias tu lá, diabo?

— Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...

O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; mas... ai dele!...o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de família resvalou com todo o peso da sua bestialidade até à loja.

Manuel Pires soltou um urro de surpresa, que já não foi ouvido pelo João do Eiró, que desmaiara.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruído, mas supôs que era o cair do alçapão. Atravessou a cozinha, amaldiçoando a sua sorte, e meteu-se no seu quarto a pensar no desenlace daquela tragédia.

A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu ciúmes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do íntimo, três vezes, o seu João, e como ninguém lhe respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando responsos a Santo Antônio, de mistura com não sei quantas pragas, que ela rogava ao sumidouro das suas socas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria acendeu a candeia, e foi direita à cozinha, que era o ponto convergente de todas as operações daquele drama. Viu o alçapão aberto, e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror daquela fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janela e grita desentoadamente “aqui del-rei ladrões!” A vizinhança alarmou-se, e pouco depois os 60 fogos daquela aldeia aglomeravam-se no quinteiro do tio João do Eiró.

Os mais destemidos rapazes da aldeia desceram à loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por dois lados, e não sei quantas costelas desmanchadas. Reinou o silêncio do mistério! Ninguém conjecturava a causa daquele estranho sucesso, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo de um albardão! Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o albardão, soltou um brado terrível de espanto:

— O senhor mestre Manuel Pires!

Hão de ter visto nos dramas descabelados um encapotado, que é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma súcia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o efeito que o boticário produziu na chusma de valentões de foice roçadora, que o cercavam.

O tio João, tornando a si, foi direito ao boticário para agradecer-lhe a prontidão com que viera curá-lo. Mas a tia Maria pôs tudo em pratos limpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflito.

Mestre Manuel Pires ia ser apregoado ladrão, por que a sua importância, passado o momento da surpresa, começava a sofrer uma grande baixa na opinião dos lavradores. Mas o seu caráter repelia tamanha afronta! A hora solene de uma honrosa satisfação estava chegada. O farmacêutico, superando com a sua voz o ruído da turba conspirada, disse:

— Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negócio como ele é.

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos de amante, o segredo da coisa, quis logo ali partir a cabeça do seu rival.

— Oh su’alma do diabo!...exclamou ele.

Contiveram-no. O Sr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era uma cascata de lágrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a sua fim, como ela depois disse.

A sua aparição impôs às multidões um respeitável silêncio. Mestre Manuel Pires falou assim, com ar de inspirado, e o braço direito em atitude profética:

— Esta rapariga é minha mulher, se ma derem. Eu vim aqui a troco dela. Em bom pano cai uma nódoa. Mal remediado é mal acabado. Amanhã se Deus quiser leem-se os banhos, e não há nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia num sino. Os pais, desses não se fala. Mestre Manuel era o casamento mais vantajoso da freguesia. Endireitou as costelas ao sogro, bebeu à saúde da boa companhia, e casou com grande préstito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar nesse fausto dia o hábito de Cristo na casaca. Nas bodas célebres para sempre, nos anais de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.

Já lá vão cinco anos.

Mestre Manuel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este ano veio a banhos de mar, e viu por aí baronesas, que lhe despertaram o louvável desejo de o ser.

E há de ser, se Deus quiser.
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CAMILO FERREIRA BOTELHO CASTELO BRANCO foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente de seus rendimentos literários. Figura central da segunda fase do Romantismo português, ele se tornou um dos autores mais prolíficos, populares e brilhantes do século XIX. Nasceu em 1825, em Lisboa/ Portugal e faleceu em 1890, em São Miguel de Seide, no município de Vila Nova de Famalicão/Portugal. Suicídio por arma de fogo, motivado pelo desespero da cegueira progressiva causada pela sífilis. Ficou órfão muito cedo e teve uma vida marcada pela itinerância geográfica pelo norte de Portugal: Onde foi criado em Vila Real por uma tia e uma irmã mais velha após a morte dos pais. Na cidade do Porto viveu a boemia estudantil, cursou medicina (sem concluir) e onde foi preso na Cadeia da Relação por adultério. Na Aldeia no Minho, em São Miguel de Seide se fixou na maturidade com sua grande paixão, Ana Plácido, e onde hoje funciona a sua Casa-Museu. 
Sua vida profissional confunde-se inteiramente com sua produção literária. Ele trabalhou ativamente como jornalista, cronista, tradutor e crítico literário para diversos periódicos. Como precisava de dinheiro para se sustentar e pagar suas dívidas, escrevia em um ritmo industrial e frenético. Sua vida foi cercada de escândalos amorosos e polêmicas públicas. O episódio mais famoso foi o seu envolvimento com Ana Plácido (casada com um comerciante), o que levou ambos à prisão em 1860 sob a acusação de adultério. Foi justamente na prisão que ele escreveu sua obra-prima em apenas 15 dias. Pelo reconhecimento de sua vasta obra, o rei D. Luís concedeu-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho em 1885. 
No século XIX, o sistema de academias de letras em moldes modernos ainda não estava consolidado em Portugal (a Academia das Ciências de Lisboa era o foco). Camilo foi nomeado Acadêmico Correspondente da Real Academia Sevillana de Buenas Letras na Espanha. Não existiam grandes prêmios literários institucionais em sua época. Ironicamente, sua importância hoje é tão grande que seu nome batiza premiações contemporâneas de prestígio, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. 
Sua bibliografia ultrapassa as 260 obras, englobando poesia, teatro, ensaios e romances. Os principais destaques são: Amor de Perdição (1862): O auge do ultra-romantismo português; Memórias do Cárcere (1862): Relato autobiográfico de seu período na prisão; Amor de Salvação (1864); A Queda dum Anjo (1866): Uma sátira política e social mordaz; A Brasileira de Prazins (1882).
Camilo é o pilar do Ultraromantismo. Ele consolidou o romance passional baseado no sofrimento, no amor proibido e nas barreiras sociais. Sua relevância fundamenta-se em que possuía um dos vocabulários mais ricos, dinâmicos e puristas da língua portuguesa, dominando tanto a linguagem erudita quanto a popular. Rompeu com a tradição de que a escrita era apenas um passatempo para nobres ou burgueses ricos, inaugurando a era do escritor profissional no ecossistema lusófono. Embora puramente romântico, suas crônicas sociais e retratos psicológicos da sociedade do Minho abriram caminho para as correntes realistas e naturalistas que viriam logo a seguir.

Fontes:
Camilo Castelo Branco. Cenas contemporâneas. Publicado originalmente em 1862.
Biografia = Sites consultados: Wikipedia, Brasil Escola, Livrista, Ebiografia, etc.