sábado, 2 de março de 2013

Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) 15. Canudo-de-Pito

A manhã, hoje, era uma festa, e o meu bairro, todo em manchas aéreas e frescas de paredes claras, telhados vermelhos, jardins verdes, morros azulegos e violáceos a derreterem-se na distância como caramelos, me divertia como uma paisagem refletida numa bola de cristal. Eu não tinha senão olhos, enquanto o bonde corria. "Corre mais devagar, bonde do diabo! que assim como vais se me atrapalha tudo. -Corre mais depressa, bonde do inferno! que assim lentamente a desfilada das coisas mal se liberta da rigidez e do peso."

De repente, do meio da grande nuvem escura de um velho bosque, saltou como de um capulho, uma nuvem amarela, a fronde arredondada de uma árvore de ouro. "Olhe, que lindo! "(disse eu ao meu vizinho mais chegado, o Sr. João Cesário da Costa, capitalista, quarenta e oito anos). "Veja aquele ipê!" O meu vizinho deu uma olhadela e informou friamente: "Canudo-de-pito".

O fato de se tratar de um canudo-de-pito, e não de ipê, madeira de lei, influía decisivamente na reação da sua sensibilidade ante aquele quadro fugente e alucinatório. O mundo, para ele, reduziu-se a uma coleção de conceitos, ou a um dicionário ilustrado. Costa não foi composto para comunicar diretamente com as coisas, no absoluto momentâneo e original da sensação, nesse largo e surpreendente aquém da idéia e do pensamento, mais maravilhoso e menos triste do que o Além por onde vagam os Fabianos.

A civilização cada vez mais afasta os homens do contato imediato e regenerativo das coisas sensíveis. Só as enxergam de longe e de viés, através dos tipos, modelos, noções, definições, poeira brumosa de abstração, sob a qual a intimidade fluente e jovial do mundo se desvanece, e a alma encantada da criação foge como um Ariel zombeteiro. Diante de uma paisagem, não vêem a paisagem, mas uma coleção de objetos e de efeitos conhecidos e explicados, formando um conjunto visual de acordo com meia dúzia de normas laboriosas. Diante de um ser vivo, desarticulam as partes, (como se um ser vivo, como se as coisas tivessem na realidade partes) examinam, medem, subdividem, espedaçam, e cada ato desses decorre de uma idéia feita, de um critério preconcebido, de uma prefiguração normativa, de uma série de operações mentais anteriores ou presentes. A grande descoberta instantânea tornou-se impossível. O delicioso milagre só se revela a quem confia, franciscanamente, na luminosa estupidez do seu instinto e dos seus sentidos, e ingenuamente se lhes abandona, como o pássaro se deixa librar nas suas asas.

Por isso, um imenso repositório de beleza jaz inexplorado e ignorado no mundo e na vida. Quanta mulher feia por definição não é por natureza uma coisa formosa! Quanto rosto irregular, escabroso, macilento, não guarda, um poucochinho mais além desses acidentes, dissimulado como um seixo branco no fundo de um rio, uma harmoniosa, surpreendente disposição fundamental de linhas, de relevos e de contornos! E a quantidade de beleza que não se vê porque o objeto em si mesmo é desprezível ou repugnante! Um charco é uma imagem intelectual e oratória de dissolução, de paralisia, de morte, de decadência; é um foco pestilento, uma chaga aberta na terra, tapada de moscas, de vermes, de batráquios: um horror "por conseqüência". Uma cobra -puh! medonha! Entretanto, olhemos para isso tudo como uma criança, com a atenção e a curiosidade nuas de uma criança que não conhece nada, não sabe nada, não teme nada. O charco talvez nos apareça, cheio de azul, como um buraco da terra sobre um abismo sem fundo, todo lavado de claridade e povoado de numes joviais. A superfície da água, aqui lisa, ali borbulhante, além com placas e refegos de nateiro grosso, ora arrepiada pelo vento, ora quebrada por um bicho que se mexeu, toda betada de sombras movediças e de reflexos morrentes, golpeantes, explosivos, filiformes, maculares, difusos, -como se andasse ali a dissolver-se uma taxada de luminosidades, de negruras e de cores, pode ser um retalho fresco e maravilhoso de beleza arrancado ao monturo da realidade intelectiva.

A cobra, essa é positivamente um objeto encantador. Vê-la enrodilhar-se é apreender a nitidez perfeita da imagem, aliada quase paradoxalmente à cambiante contínua. Vê-la caminhar é ter a impressão de um liquido que se solidificou conservando a propriedade de escorrer.

Vai tão sutil e estreitamente adaptada aos altos e baixos do terreno, que se diria que a cobra não existe, é um simples movimento ondulatório do solo, um fragmento funiforme de sismo, uma estilha perdida e deslizante de terremoto. Esse corpo sem membros parece também não ter ossos, e apenas se percebe que é formado de anéis ou forma anéis à medida que se move, e que esses anéis se desmancham, mal se desenharam em outros que vão desvanecer-se de igual maneira: um devaneio maluco objetivado.

É um pau que se fez cipó e um cipó que parece querer voltar aos enlaces e aos balanços com as ramas. Irritado, arroja o bote com a fulminante rapidez e a fatalidade mecânica de um galho seco atirado pela raiva súbita da rajada. Como se tivesse barbatanas e asas invisíveis, bóia, nada, voa pela superfície da terra, e, quando se diria que lhe vai fugir, mergulha por ela dentro.

Vejamo-la em repouso: é uma obra esquisita de tapeçaria, com desenhos tão bem arabescados e cores tão bem distribuídas, que os nossos olhos se espreguiçam como ela e, como ela o nosso prazer se enrodilha e se esquece nas suas próprias roscas, e sonha.

Disse Boileau, sentenciosamente, como sempre:

Il n'est pas de serpent ni de monstre odjeur,
Qui, par l'art imité, ne puísse plaire aux yeux,


-mas quais são os monstros odiosos para os meus olhos? não têm ódios nem amores. Tudo é natureza, tudo é espetáculo, tudo é necessário, tudo é expressão da multiplicidade sem fim na unidade substancial do infinito mistério e da infinita beleza.

No meio desse infinito, que nos cerca, nos trespassa, nos convida, vivemos um tanto à maneira daqueles dormentes estatelados nas ruas, nos palácios, nos pátios, nos jardins, nos mercados, nos templos e nos bosques do conto oriental. Príncipes, vizires, xeques, mercadores, ganhões, todos alheios à magia do espetáculo colorido e móbil do mundo, eles próprios mero espetáculo para os olhos de um triste fugitivo e da sua amorosa e assustada companheira.

Fonte:
Domínio Público

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