Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Juarez Barroso (Joaquim Bralhador)

Agradecido, doutor, agradecido, quero mais não. Quando eu ando assim de bicicleta, não sou muito amigo de beber, não senhor, os meus camaradas aqui presentes sabem disso. Bebida e bicicleta não se casam.

                Mas como é que o senhor estava perguntando? Ah, sim. Pois é isso que eu já disse, doutor. Isto aqui é um sertão pouco, acanhado. Uma terra sovina, pra gente, pra bicho, pra tudo. Quando escuto dizerem que naqueles centros do sertão, Santa Quitéria, Quixeramobim, os Inhamuns, tem fazendeiro com mil e tantas cabeças de gado, eu fico até sem acreditar. Como é possível? Aqui, nem jumento se dá bem.

                Sertão infeliz, este. Bem verdade que nem toda vida foi assim. Eu ainda alcancei melhor tempo. A gente nunca foi rico, mas o finado meu pai tinha algum recurso, pelo menos para criar os oito filhos de barriga cheia. Passava-se o verão na serra, o inverno aqui. Quando se descia para o sertão, trazia-se de um tudo nas cargas dos animais: rapadura, sacas de café, fruta muita. De quinze em quinze dias, a finada minha mãe mandava um cargueiro na serra ver banana, rapadura, o que tivesse precisão. De dois em dois dias, eu saía pelas moitas, na saia da finada minha mãe, com um alguidar, caçando ninho de capota. Era de cento de ovos. Quando lhe dava na vontade, o finado meu pai pegava a espingarda, fazia ponto num capote, no terreiro, engordava a nossa janta. Capote demais, a gritaria nos ouvidos da gente, tó-fraco, tó-fraco, tó-fraco. No inverno, tinha fazendeiro de fazer queijo de cinco quilos, todo santo dia. Muito feijão, muito milho, muito tudo. Bem verdade que dinheiro nunca se teve. Mas se tinha cavalo gordo, cavalo de sela, cavalo de campo, cada animal de fazer gosto.

                Sei não, doutor. Hoje em dia, eu moro na mesma terra, no pedaço que herdei, mas é tudo diverso. Café, nem se fala, é comprado, ninguém tem mais sítio na serra. Os capotes se sumiram, se vê um aqui, outro acolá. Galinha? Quando a finada minha mãe paria, quarenta galinhas gordas já estavam no chiqueiro, uma para cada dia de resguardo. Hoje? Quando surge menino novo na minha fazendinha, a mulher tem que se arremediar com o que existe. Às vezes aparece gente lá em casa para comprar ovo, doutor. A finada minha mãe nunca ia acreditar numa história dessas. Já teve ano ruim, aqui, doutor, de eu comprar feijão e farinha para comer. Onde já se viu? Bem verdade que algodão agora vale mais dinheiro. Mas do que adianta? Aqui, ou não chove, ou chove demais. Se a safra é boa, a gente tem que implorar pelo amor de Deus a um caboclo desses para apanhar uma arroba de algodão. E pagando bem. No fim, cadê o ganho?

                Sabe, eu vou tomar sempre o diabo desta outra cana. Afinal de contas, ainda estou com o juízo sentado, ainda domino o diabo de uma bicicleta.

                Coisa engraçada, doutor, que eu já reparei. Sertão minguante, as distâncias encurtaram também. Antigamente, se a gente ia daqui para o sítio que foi do meu povo, lá perto de Palmácia, na serra, era dia e meio de viagem, saía-se de madrugada, dormia-se no Rato, para fazer o restante do caminho na madrugada seguinte. Com carga de burro, eram dois dias. Hoje, nos mesmos cavalos, nos mesmos burros, a gente sai de madrugada e vai jantar na Palmácia. As mesmas onze léguas. O senhor tem explicação?

                Bem, vocês, querendo, bebam. Eu não quero mais. Minha bicicleta está lá fora, me esperando, não quero maltratar ela. Está de fazer gosto. Botei dois espelhos novos, botei um farol de pilha, clareia que nem farol de caminhão. Uma burra de sela, a bichinha. Vantagem da burra é dar mais certo com cana, beba-se o tanto que se beber, a gente monta e ela sabe o caminho de casa, deixa a gente no alpendre, ninguém sabe nem como chegou. Já tive muita burra de sela. Para cabra novo e sem respeito ainda existe outra serventia. O cabra volta de um samba, de madrugada, os possuídos vêm doendo de tanto esfregado nas danças. Diabo daquela dor cansada, respondendo no pé da barriga, as boas lembranças agravando a dor. Aí, é só encostar a burrinha no pé de uma cerca, subir uns três lances de pau e fazer o serviço. Tem umas tão aviciadas que já levantam o rabo, na ocasião. Burra é bicho quente. Eu prefiro a minha bicicletinha. É ligeira, não come e nem bebe, não se acoa, não tem cisma e está livre de sem-vergonhice. Uma burra, se a gente manda um caboclo lhe dar de beber, banhar na cacimba, já o indivíduo quer passá-la nas armas. Já botei um para fora da minha terra por via disso, caboclo mais confiado. Peguei no flagrante, a minha burra de sela, estimada. A Mocinha não é rapariga de ninguém não, seu fiduaégua. Animal mimoso, a Mocinha, burra de qualquer passo, de galope, de marcha, de estrada. Mansa, bem mansa, e da maior inocência.

                Mas eu acho que se eu bebesse só outra não fazia mal não, n’era? O diabo é que a natureza de bicicleta não se dá com cana, com cachaceiro. Dá não, doutor. Bicicleta também tem a sua natureza, a sua ciência, que é a de se equilibrar em duas rodas fininhas, sem se saber como. Carece o indivíduo casar-se a esta natureza, sem brigar com ela, respeitando a ciência da bicicleta, como deve respeitar a do rádio, do avião. No referente aos bichos, é da mesma forma, e até mais. O indivíduo pode ser muito sabido, pode ser um Camões na adivinhação, um Aderaldo no repente, que qualquer cachorro magro tem mais faro do que ele, acha tudo pelo cheiro. Em questão de ligeireza, tem que tomar bença à ema e ao veado capoeiro. E não chega onde chega o burro, o cavalo, o jumento, muito principalmente se andar nos escuros da noite. Doutor, se o senhor anoitecer em cima da sela, se lembre sempre que a ciência é do burro, do jumento, do cavalo, e a ignorância é do senhor. Dê o rumo ao animal, porém não lhe ensine onde pisar, que nisso ele lhe dá lição. É da natureza deles, assim como andar dez léguas num dia, e no outro fazer a viagem de volta, estradando, bralhando ou galopando. A natureza do cristão não se mistura com a desses bichos, não adianta teimar, tem que ser cada um do seu jeito. E por falar em cavalo, só houve um vivente, neste mundo que misturou as duas naturezas, foi homem e cavalo a um tempo só, da cintura pra cima um cidadão de respeito, da mais boa educação, da cintura pra baixo o mais fino animal de sela que já pisou nestas paragens, conforme contam os antigos, que esta história do finado Joaquim Bralhador se passou há muito tempo.

                Quer que eu conte? Então, o senhor, por seu favor, mande me ver outra cana, que eu agora já estou começando e desgraça só quer um começo. Bem, o finado meu pai ainda alcançou ele. O finado meu pai ainda menino, e ele homem refeito, já bem passado dos trinta, dono de sua fama esquisita. De princípio, meu pai também só sabia de ouvir contar. O tal Joaquim Bralhador era nascido e criado no Saco do Santo Antonio, coisa de seis léguas daqui, terras da Dona Libânia, a pessoa mais rica destas paragens, dona de três sítios de café na serra, não sei quantas fazendas de gado no sertão. Diss’que até os oito anos de idade, o Bralhador foi um menino sem diferença dos outros, cumprindo as danações de menino, brincando de baladeira, ajudando o pai no roçado. Nessa idade, ao que parece, sucedeu o desacato, bateu-lhe a doença-de-menino, doença infeliz, pois se às vezes o indivíduo escapa com vida, não escapa com juízo. Um mês ele passou no fundo da rede, um febrão, tresvaliando, esperando só a hora da morte. E melhor mesmo que Deus tivesse feito dele um anjinho. Mas estava disposto o contrário. Passado aquele tempo, principiou a melhora, o febrão abrandou, o menino abriu os olhos, pediu caldo, daí a uns dias já caminhava pela casa, a canela fina, os ossos aparecendo, branco da cor de um lençol, mas vivo. Estaria bom do juízo? Com o correr dos dias, acharam que sim. Não falava heresia, respondia tudo com acerto. Ficou até mais quieto, bem mandado para todo serviço, nem mais gostava de acompanhar os irmãos nas vadiações de menino.

                E a tal doença já estava no esquecimento quando começaram a perceber um costume esquisito nele. O diabo do menino, em certas horas, se sumia de casa. Joaquim, Joaquim, a mãe dele chamava, o pai chamava. Nada. Onde tu andava menino? Em canto nenhum não, minha mãe. Mas o pai descobriu que ele se tocava para a manga, ficava feito abestado diante dos burros e dos cavalos. O pai danou-se. Diabo de cabrinha sem-vergonho, se eu te pego fazendo o que não presta com uma burra ou uma jumenta destas, te dou uma pisa de tirar o couro, eu te mato, diabo. Mas o menino olhava para o pai com tais olhos de inocência que o velho se desarmava. Coitado do meu filho, é a doença-de-menino.

                O sem jeito, sem jeito está. Se Deus mandou um padecer a um cristão, é porque assim foi servido. O povo acabou se acostumando com aquela doidice, tanto mais por ser uma doidice ajuizada.

                O Joaquim não refugava serviço, enchia os potes da casa de manhã cedo, era disposto na foice e na enxada. De esquisito, só a moda de ficar bestando no meio dos animais. Depois de um certo tempo, perceberam até mais serventia nele, como a sua ligeireza em cumprir mandado, ia e voltava de pés, como se bem montado estivesse. Menino, tu já voltou? Voltei, sim senhora. Era o que mais gostava de fazer, varando os caminhos numa carreira pulada, trocando as passadas, de dois em dois, a moda de um galope, pototoco, pototoco, pototoco.

                Passou-se. E perceberam que, com a natureza de gente, ele tinha também uma natureza de cavalo. E já não corria mais daquele jeito somente no cumprimento de algum mandado. Findo o serviço na fazenda, galopava pelo terreiro, ganhava os caminhos. E ia se apurando. Primeiro, o galope, depois a estrada, por fim a bralha, o passo mais macio e difícil para um cavalo, passo de animal de sela, apreciado. Executava em dois pés o que um cavalo executa nos quatro. Saía naquele ciscado miúdo e ligeiro, o corpo erguido como o de um cavaleiro na sela, porém a cabeça encurvada, meio pendendo, os olhos no chão, no feitio de um cavalo marchador. E os dois braços colados no corpo, ao comprido, as palmas das mãos batendo um baião nos lagartos das coxas, tatataco-taco-taco-taco-taco, tal baião se combinando com o ciscado dos pés, e tudo junto era mesmo que escutar um cavalo bralhando. Mas, se encontrava alguém pelos caminhos, dizia bom-dia, boa-tarde, tudo na boa educação, que ele não deixava de ser gente. Eram as duas naturezas, a natureza de cristão montando a natureza de cavalo. Depois de muito bralhar e muito suar, riscava no terreiro, a natureza de gente desapeava da outra, entrava em casa sozinha, e ele era um rapazote igual aos irmãos, sem sinal algum de doidice.

                E na medida em que se punha homem, acharam nele outra arte esquisita, que era a de pegar qualquer animal, por mais velhaco que fosse, sem auxílio de um cabresto, de uma cuia de milho. Isto ficou provado no caso do burro Capoeiro, que mais de vinte vaqueiros não conseguiram agarrar. Um burro velho de nada, animal de carga, pertencente ao finado Antonio Barroso, situado lá perto. O Seu Barroso também passava o verão no sítio dele na serra, cuidando do café e da moagem, os burros na cambitagem da cana. Choveu, ele descia para a sua fazenda no sertão, mais a família e os burros. Os animais se refaziam no pasto verde, em fins d’água estavam descansados e gordos, subiam outra vez a serra, tornavam à cangalha. Pois bem, houve um fins d’água em que pegaram todos os burros, tirante o Capoeiro, que inventou de não voltar. Não quero mais saber de serviço, quero descanso. Quem viu passarem o cabresto no burro? Os caboclos pelejaram, e nada. Homem, uma coisa desta é possível?, espantou-se o Seu Barroso, que mandou chamar o Antonio Preto, vaqueiro. Compadre Antonio, vista as mangas do gibão e me pegue aquele burro, por seu favor. O senhor pegou? Pois da mesma forma o vaqueiro. Seu Barroso, não sei que diabo é aquilo não, faz até vergonha eu dizer, mas o cavalo não encosta no desgraçado do burro. E veja que o Capoeiro não se achava em campo aberto, mas sim dentro do cercado. Foi justamente o que causou a galhofada dos vaqueiros de redor. Antonio Preto, que diabo é isso, você perdendo a fama diante de um burro? Vieram então o Zé Dias, o Zeca Ricardo, vizinhos, botaram os cavalos no burro, auxiliando o camarada deles, correram dois dias, de manhã e de tarde. Pegaram o burro? O senhor já viu que não. Para encurtar a história, numa semana tinha para vinte vaqueiros arranchados na fazenda, vaqueiros de sete léguas de distância, tudo gente de respeito e bem montada: Joaquim Joça mais dois irmãos dele, Luís Pascoal, toda a vaqueirada da Elva-Moura, do Feijão, da Providência, de toda esta beira do Rio Capitão-Mor. Cada um que chegava dizia, aqui não tem mais vaqueiro não? Pois experimente pegar, homem. O vaqueiro vestia as mangas do gibão, se tocava para o cercado, os outros só acompanhavam, no sentido de apreciar a derrota. O vaqueiro enxergava o burro amoitado, tocava-lhe o cavalo em cima, vais conhecer, burro desgraçado. Corria meia hora, uma hora, voltava de cara feia ante a risada dos outros. A gente não lhe dizia, Seu Joaquim? Cadê a sua fama?

                Se burro é ligeiro? Olhe, doutor, não é questão de ligeireza. É questão de arte na corrida, que certos burros possuem. Uma rês corre linheira, uma corrida num rumo só. Não tem rês ligeira para vaqueiro bom e bem montado. Mas o burro tem outro sistema, corre entortado. Espera o vaqueiro chegar perto, e quando o indivíduo vai se abaixando para pegar-lhe o rabo ele quebra de banda, muda o rumo da carreira, engabela o cavalo e o vaqueiro. O vaqueiro retoma a perseguição, e lá o burro procede da mesma forma, no momento certo. O bicho parece até que tem um olho no cu, com licença da palavra. E lhe digo mais, burro às vezes é tão ladino que entorta a carreira justamente para cima da perseguição. Se o cavaleiro está na esquerda, ele entorta para a esquerda, fechando, o vaqueiro tem que riscar o cavalo, mais que depressa, se não se esbagaça tudo, embolam na queda cavalo, vaqueiro e burro. Assim procedia o burro Capoeiro.

                Porém, já estava ficando demais. Afinal de contas, era dentro de um cercado. Às vezes, dois, três vaqueiros encantoavam o bicho num pé de cerca, peguei-te, Capoeiro. Que nada. O bicho se escorregava por entre eles, lá vai tudo principiar de novo. Os vaqueiros já envergonhados, com acanhamento uns dos outros. Até que alguém alertou, este burro tem é padrinho. Tem padrinho? Só pode ser. Alguém apadrinhou ele, e bicho que tem padrinho vaqueiro nenhum pega. Só se o padrinho der licença. E quem pode ser o padrinho deste burro? Deve ser um rapaz dacolá do Santo Antonio, por nome Joaquim, que bralha feito um cavalo e conversa mais os bichos. Nesse mesmo dia mandaram chamar o Joaquim Bralhador, que chegou de tarde. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado. É verdade, menino, que tu é o padrinho desse burro? Padrinho eu não sou, não, Seu Barroso, que eu nunca apadrinhei animal nenhum nesta vida. Mas se quiserem que eu pegue ele, eu pego. Pois então pegue. E lá se foi ele, de pés, caminhando na frente, sem um cabresto, sem uma corda na mão, os vaqueiros atrás, no passo dos cavalos. Lá no meio do cercado divisaram o burro pastando junto a uma moita de mufumbo. Foi o Capoeiro enxergar os homens encourados e murchar as orelhas, aprontando a carreira. Mas aí o Bralhador determinou, vosmicês fiquem aí, senão atrapalha. E marchou no rumo do burro, na calma, como se marchasse no rumo de uma pessoa, o burro espiando, esperando. O rapaz passou-lhe a mão pela crina, alisou-lhe o lombo, o bicho mansinho, esfregando a cabeça no peito dele. E manso ficou quando um vaqueiro entregou um cabresto ao rapaz. Vambora para casa, Capoeiro. Já vou indo, meu amigo Bralhador. Foi um assombro. Este rapaz tem parte com o Cão, alguém disse. Não, Senhor, é que ele teve doença-de-menino e adquiriu a ciência dos bichos.

                E continuou o referido Joaquim com as duas naturezas, a de gente e a de cavalo. Só que, no passar do tempo, mais era presente a segunda natureza. Xerexexeco-xeco-xeco-xeco-xeco, o arrastado das apragatas pelos caminhos, tatatataco-taco-taco-taco-taco, as mãos batendo nas coxas, o povo acordava de noite. Tu escutou, marido? Nada não, mulher, é o Joaquim Bralhador bralhando.

                Foi deixando de ajudar o pai, os irmãos. Só uma vez ou outra ia com eles ao roçado. Preferia bralhar. O povo tinha pena. Coitado, não faz mal a ninguém, é a doença-de-menino. E descobriam aquele proveito nele, que era a sua ligeireza para mandados. Durante o verão, ia não sei quantas vezes à serra, com recado do finado Zé Dias, o vaqueiro, para a patroa dele, a Dona Libânia. Ia num dia, voltava no outro, dez léguas de ida e volta. E levava e trazia tudo no certo, sem sobrar e nem faltar nenhuma palavra, que a memória era boa, de gente.

                Muitas façanhas contavam do finado Joaquim Bralhador.

                Certa feita, iam daqui deste sertão para a Cruz do Lagedo, hoje Itapebuçu, o Capitão Teófilo e a mulher dele, Dona Nazinha, casal de muito dinheiro e fama. Viajavam em seus cavalos de sela, a Dona Nazinha montando o pedrês, o cavalo de mais nome que já pisou nestas bandas, animal de bralhar solto ou no cabresto, sem precisão de rédea, cavalo de tal competência que chegou a ser chamado de encantado. A certa altura da viagem se depararam com o Bralhador. Adeus, Capitão, como passa vossa excelência? Adeus, Dona Nazinha, como vai a sua saúde? Adeus, Joaquim, para onde se bota? Me boto para a Cruz do Lagedo. Pois então vambora juntos, que é lá também o nosso destino.

                Agora, eu quero ver se este tal Bralhador vai mesmo à viagem, imaginou o finado Capitão Teófilo. E subiu a altura da marcha do seu cavalo, no que o pedrês da finada Nazinha acompanhou, sem ser mandado. O Bralhador ali, do lado, emparelhado todo tempo. Aí foi a Dona Nazinha que imaginou, não é um ente de dois pés que vai bralhar com o meu cavalo pedrês. Subiu-lhe a marcha, o castanho acompanhou, cumprindo as ordens do Capitão, subiram, subiram, foi a bralha mais doida deste mundo, aquele baião ligeiro batido no chão do caminho, coisa que outro cavalo, em galope alto, ia sofrer para acompanhar. Pois no mesmo rojão dos cavalos bralhou Joaquim Bralhador, sua parte de cavalo acertada com o passo dos animais, sua parte de gente palestrando com o rico casal, receitando remédio dos matos para os achaques da finada Nazinha. Assim por mais de três léguas, e desse jeito entraram os três na rua da Cruz do Lagedo, sendo que o Bralhador não chegou mais suado do que os dois animais.

                De outra vez foi o dito Seu Barroso que precisou mandar uma carta missiva para o irmão dele, o finado João Barroso, no sertão do Caxitoré, coisa de vinte léguas distante. Chamou pelo Bralhador, que num dia foi e no outro já voltava com a esperada resposta, bralhando quarenta léguas em dois dias. Um feito de fazer inveja a qualquer cavalo bom, de antigamente.

                E assim foi até ele cumprir a casa dos trinta, entrar na casa quarenta, metade gente, metade cavalo, pois aí, conforme contavam, as duas naturezas começaram a se estranhar, a se cansar uma da outra. Em certas horas, e mais durante o dia, a natureza de gente reinava, montava o cavalo quando queria, o Bralhador galopava nos seus mandados, que disso vivia e sustentava a mãe dele. Em outras horas, e mais no forte da noite, o cavalo se soltava, desconhecia o cavaleiro, corria pelos cercados. O povo acordava de noite, uns rinchos distantes, um atropelo de bichos. As mulheres com medo, marido, valha-me Nossa Senhora, aquilo é o Bralhador com sem-vergonhice. Besteira, mulher, aquilo é o cavalo de lote de Dona Libânia, com sentido nas éguas. Verdade ou não, o Bralhador era desinfluído por mulher, passou da idade de casar sem nunca ao menos demorar a vista em qualquer moça daqueles recantos. Isto é vício do Satanás, as mulheres se benziam.

                Também contavam que, com o passar do tempo, ele deu de se espojar, no chão, feito animal, coçando as costas na areia, braços e pernas erguidas, o homem rinchando de contentamento. E até a obra dele já não era mais de gente, e sim de animal, aquelas bolotas nem verdes e nem amarelas, conforme jurava um caboclo depois de ver o finado Bralhador fazendo uma precisão.

                O homem montando o cavalo, o dia todo. Quando imaginava desmontar, para o descanso, o cavalo disparava com ele, atrás das éguas, ou corria pelo gosto de correr, cavalo inteiro. De modo que não tinham um sossego, nem o homem e nem o cavalo, sendo ainda que, na peleja, o homem perdia, que cavalo carece de menor descanso e dorme em pé. O povo percebia o finado Bralhador minguante, as feições magras, o homem calado de cansaço. Aí, que eu quero minha rede, uma pestana, ando enfadado de tanta viagem, quantas léguas naveguei. Se esqueça do seu descanso, meu patrão, já tem estrela no céu, meus camaradas me esperam, se for homem desamonte, sou o cavalo Bralhador, nada respeito neste mundo, minha rédea só eu tenho. E disparava o cavalo, Joaquim grudado na sela, fiduaégua, tu me paga, tu me paga. Pois então me segure, se é capaz.

                Marido, que diabo é isso? São os cavalos de lote de Dona Libânia, mulher. Cavalo de lote o quê, marido, vou acender uma vela para Nossa Senhora do Desterro desterrar esta fantasma, este ente lobisomem. Pois, se quer acender, acenda.

                Tudo por dizerem que a natureza de animal, depois de uns tempos, já não se contentava de bralhar e galopar na forma de cristão de dois pés e que o finado Bralhador de noite se encantava num cavalo, virava um lazão fogoso, correndo solto, chupando as forças do homem, que amanhecia mais morto do que vivo, gemendo na rede. Seu Bralhador, tem um mandado para o senhor fazer no Campos Belos. Pois bem, já vou. Mas o homem não tinha a mesma disposição de montar a natureza de animal, não tinha nervo para ela, pegava o caminho em estrada baixa, medroso de aferventar o cavalo, feito um velho, receio do bicho desembestar. De quando em vez, a raiva, diabo, bicho nenhum me sujiga, o cavalo disparava, e começada a carreira o Bralhador encontrava seus nervos, vais conhecer, se deparavam com ele nos caminhos, riscando em cima dos pés de pau, em cima das cercas, pinotando, as naturezas brigando, o bucho do Bralhador todo cortado de unha, esporas dele, o sangue manchando a blusa. Te esconjuro, dizia o povo. Coitado do meu filhinho, dizia a mãe dele.

                Até o dia em que o pobre anoiteceu fora de casa e não amanheceu. Como não amanheceu no dia seguinte e nem no outro, a mãe chorando, sucedeu uma desgraça com o meu filho, e o povo, é castigo, é castigo. Foi achado com três dias, pelos urubus, e o vaqueiro que achou se benzia, eu nunca vi coisa tão feia na minha vida. E devia ser mesmo. O senhor já ouviu contar de cavalo de lote que morre estrepado? Assim foi. Uma estaca de cerca, da ponta fina, madeira cortada de novo, ele espetado pela barriga, a ponta quase lhe saindo pelas costas.

                Nunca se tinha visto aquele cavalo por lá, um lazão grande, estrela na testa. O Bralhador, morto na natureza de cavalo, com sentido nas éguas, latejando de vontade. Pulou a cerca atrás de uma, para voar-lhe nas ancas, cavalo inteiro, estrepou-se na vontade. Te esconjuro, dizia o povo. Se enterra ou não se enterra? Acabaram enterrando no mato, o povo se benzia, rezando para Nossa Senhora desterrar a alma do homem.

                O fato é que não se pode misturar as naturezas, doutor. O homem tem o seu sistema, cada bicho tem o seu. Se o Bralhador permanecesse gente, botava um cabresto na égua, marrava a bicha junto de uma cerca, botava ela na posição devida, fazia o serviço, bem escondido no seu canto, sem risco de morte excomungado. É assim que se procede.

                Agora, se me dão licença, eu vou chegando, enquanto não fico bêbado, vou ver se a minha bicicleta ainda me aceita. Lá está a bichinha esperando por mim, toda equipada. Tem jeito de moça, é a minha burra de sela, burrinha de estimação.

(Juarez Barroso, Joaquinho Gato, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976, Coleção Vera Cruz, volume 225)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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