Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 14 de dezembro de 2013

Nilto Maciel (O Último Troiano)

Quando mais uma pessoa caiu do edifício Troia, a história das tragédias lá ocorridas voltou à baila. Relembraram repórteres as outras mortes no prédio de vinte andares. Um ano atrás, uma jovem se havia espatifado na calçada, caída do 18.º andar. E ainda não se concluíra o inquérito. Inoperância da polícia – asseguravam jornalistas. Para o delegado, podia se tratar de suicídio, hipótese não aceita pela família da vítima. No ano anterior a esse, um homem voou do 19.º andar. Portava asas de papelão e uma máscara. Disseram ser réplica da face de Cristo. Nos dias anteriores à inauguração do edifício, ainda em obras, um operário escorregou de um andaime do último andar e deu início à série de tragédias acontecidas no lugar. No dia seguinte alguns jornais noticiaram o fato, sem alarde. E ficou nisso.

A morte da moça caída do 17.º andar do Troia deixou a polícia perplexa. Não se apresentaram parentes nem amigos da vítima. Na bolsa da morta não foram encontrados documentos pessoais. Ninguém no edifício conhecia a jovem. Quem seria ela? Qual o nome dela? De onde viera? O que fora fazer no prédio?

Para alguns jornalistas, estava-se diante de um mistério. Aliás, de mistérios. Por que tantas mortes no edifício? Por que a sucessão de tragédias se dava de ano em ano? Por que as mortes ocorreram de forma tão organizada, seguindo a ordem decrescente dos andares? Por este raciocínio, no próximo ano a vítima cairia do 16.º andar.

Segundo um pesquisador, erigiram o prédio sobre o terreno de um cemitério. E daí? Ora, as fundações...; ora, os mortos antigos...; ora, isso e aquilo. Os mais incrédulos riam do pesquisador maluco. Eu não sou palhaço, não. E maluco é a mãe. Deixavam de rir, mas não de refutar as opiniões do homem. Ora, quase todas as cidades foram construídas sobre cemitérios, sejam de índios, sejam de seus antepassados. Os arqueólogos descobriam a toda hora sítios no Egito, na China, no Piauí. E hajam ossadas de mil, dez mil, quarenta mil anos. Quarenta mil anos antes de Cristo parte de uma tribo teria sido enterrada na praia (antes terra firme) onde o edifício Troia se erigiu. E tudo se explicava.

Um delegado de polícia não queria conversa fiada. Precisava somente encontrar o assassino, o louco, o “frio e calculista matador”. Não podia dar maiores informações, mas garantia: mais dia, menos dia, apresentaria à imprensa o monstro. Seria um coveiro? Não, talvez um carvoeiro. Um engenheiro? Não, talvez um arteiro. Um jornalista? Talvez um contista.

Quando ninguém mais falava da moça sem nome, um fotógrafo se postou diante do Troia e apontou a máquina para o alto. Logo cercaram-no dezenas de curiosos. Aconteceu mais uma tragédia? Dizem que o prédio vai desabar. Morreu galego? Um homem vai pular do 16.º andar. O incêndio já começou? Os bombeiros foram chamados. Descobriram o nome da moça? Maria, mãe de Jesus, salvai-nos! O fotógrafo pediu silêncio; a multidão gritou, vaiou, assobiou. Olha para o céu que a estrela vai nascer. Súbito um corpo apareceu entre a parede do edifício e a eternidade, rodopiou no espaço, na direção da terra. O fotógrafo acionou a máquina uma duas três vezes, o povo se calou, voltou a gritar, o corpo descia, aproximava-se do chão, mais fotografias, apupos, gritinhos de pavor e gáudio. Finalmente o homem voador pousou, feito uma nave, aos pés do fotógrafo e das demais pessoas. Silêncio de morte. Mais fotografias, arredem pé, aplausos, risos, palmas. O rapaz abriu os olhos, mexeu-se no chão da calçada e se foi erguendo, para espanto de todos. Estou vivo! Estava tudo escuro. Senti medo, muito medo. Preciso morrer depois. Quem é você? Os mais medrosos se retiraram, embasbacados. Milagre! O fotógrafo fotografava o homem e o povo, o chão limpo, sem uma gota de sangue. Será o assassino das moças e dos rapazes? Será o engenheiro irresponsável? Será o capeta? Um evangelista se aproximou da multidão, Bíblia aberta, e pregou o fim dos tempos. Chamaram o sobrevivente de impostor, enganador do povo, matador de moças e rapazes. O delegado se enfiou no meio da plebe e sorrateiramente se acercou do homem caído. Com visível ódio, juntou as mãos do último troiano e o algemou. Prendi o assassino! Cumpri minha palavra. E arrastou o preso para um carro cheio de luzes e sirenes.

Fontes:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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