Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Jaime Vieira (Nas Asas da Poesia)


AMANHECER I

O sol amarrado
no porão da noite
escapa.
Afugenta a lua
espanta as estrelas.
Decidido vai para rua
e anuncia
um novo dia.

AMANHECER II

A madrugada vem a galope
no alazão da noite.
No céu, entre as nuvens,
o rasto que fica,
são estrelas.

AMANHECER III

o sol sonolento
lentamente
desperta
e com agulhas certas
tece o amanhecer.

AMANHECER IV

o amanhecer é
um pássaro ligeiro
leva nas asas
a escuridão
da noite.

ASSALTO

Eu só não te devolvo
estes anos de ti roubados,
porque os meus sonhos guardados,
estes sim,
num assalto, por ti
foram levados.

Roubaste-me o tempo.
Roubaste-me o sono.
Já nem sou mais dono
do meu coração.

CAIS I

Gaivotas já não
acordam a paisagem.
A tarde ancora
no porto.
Fecham-se os olhos do dia,
anoitece.

Chega a noite
em negrito,
debulha estrelas
no infinito
enquanto no porto,
ancorada em mim,
a paisagem agora
dorme.

CAIS II

Meus sonhos
adormecidos
levantaram
âncoras.

Veio a noite
veio o dia
e se atracaram
nos meus cais.

Fiquei no porto
apregoando versos
de um poema torto
ancorado em mim.

INDIFERENÇA

pêssegos ásperos
lâminas frias
estilhaços
quem diria?,
a tua frieza
aquece meu coração.

INTIMIDADE

o acordo
nosso
é tão
íntimo
que a cor do
nosso íntimo
revelar,
não posso.

MOVIMENTO

Voo da ave ferida
paisagem aberta – amplidão.
Há uma espécie de conspiração
movendo as coisas:
a vida!

NEON

quando a noite vem
uma teimosa ilusão
inventa uma lua,
é no meio da rua
que os sonhos ainda estão.

NOVO AMOR

Todo novo amor
é um conto de fada.
Pode ser tudo
pode ser nada.
Água corrente
de morro abaixo,
diante deste riacho;
refrescar os pés,
olhar as nuvens
e sonhar.

NUDEZ

atrás do biombo
das minhas ilusões
dispo-me
das decepções
que querendo ou não
a vida sempre me veste.

OS LENÇOS

pendurados no varal
meus lenços ainda úmidos
de um recente adeus
esperando o sol
ainda respingam
lentas lágrimas.

RACHADURAS

o desprezo
é uma arma dura
fere fundo,
atravessa
as armaduras
de qualquer
coração.

Fonte:
Jaime Vieira de Souza Filho. Asas. SP: EDICON, 1989.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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