Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Jorge Pieiro (Meu Tio e Eu)

O tio era magrinho. Contava nos dedos a idade, brincadeira. Tantos dedos eram poucos para tanta. Tinha a pele muito pálida e um gênio danado. Era dele de quem eu gostava. Muito mais que dos outros treze. Eu sabia que ele tinha visões. Talvez por isso julgavam que ele fosse doido. Quando chovia, ele corria comigo  pela rua, na lama. Gritava e ninguém aguentava os gritos.

– Com essa lama eu viro Deus!

E rolava no chão. Eu o seguia. A gente rolava feito dois porcos e sentia o chão quentinho. Parecia uma fogueira, o chão. Era um fogo sagrado. De vez em quando, o tio gritava. Um grito fiiiino... Bem diferente da voz. Pra mim, o grito era um cordão azul que ia saindo da garganta dele. Os treze tios, acho, sentiam era um gosto de arame farpado na garganta. Aí o cordão ia se anovelando e ele engolia o novelo e sorria pra mim. Eu corria pra ele. A gente se abraçava. Ele batia na minha cabeça com a mão.

– Com essa lama eu fui Deus!

Depois que a chuva passava, a gente se escondia, pra deixar a lama secar. O tio ficava irritado, eu ficava calado. Como ali era o galinheiro, ele saía pegando as galinhas pelos pescoços, e arrancava-os com uma só dentada. Vontade eu tinha de experimentar, mas se eu fizesse o mesmo os tios castigavam. Com a lama endurecida no corpo, a gente parecia uns cavaleiros de armadura. Eu acho que era isso que o tio achava. As galinhas eram os inimigos. Bom, mas pra entrar em casa, a gente tirava a lama, a armadura. Eu ligava a mangueira do jardim e jogava  água no tio. Ele chorava. Eu ficava com pena. A lama amolecia. Ele soluçava.

– Com essa lama eu sou só um anjo!

Eu sentia que era também feito um anjo. A gente ria até a barriga doer. A gente se entendia. Por isso eu gostava dele, muito mais que dos outros treze. Mas o tempo foi rápido. O tio foi ficando igual a um cordão azul, igual àquele que eu imaginara. Foi se transformando num novelo, ovalzinho, recheado. Um novelinho, cada vez mais. E eu fui ficando forte. Não era magrinho. Cresci e crescia cada vez mais. Até que um dia, o tio me chamou.

– Agora vou ser Deus pra sempre!

Ele riu e se engoliu, como um novelo. Naquela hora, senti que o novelo tinha se enganchado na minha garganta. Eu achei que fosse ele. A alma dele. A vida dele. Não sei. Meus outros treze tios suspiraram aliviados. E eu passei muito tempo calado. Triste. Fui ficando magrinho. Os tios se preocupavam comigo. Mas eu não dava atenção a eles. Quando chegou a época de chuvas, eu chorei muito. Lembrei do tio. Saí escondido de casa. Na rua comecei a rolar na lama, um porco, roncando. E o novelo desapareceu da garganta. Foi quando deu vontade de gritar. E gritei.

– Com essa lama eu viro Deus!

Meus outros treze tios quando souberam, rasgaram as peles dos rostos. Eram mesmo umas máscaras! Tentaram me castigar, mas não puderam mais. Eu já era grande. Aí, dessa vez, foram eles que choraram. Sentiram um gosto novo de arame farpado na garganta...

(Jorge Pieiro, Caos Portátil)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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