Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sonetos Satíricos I

Libreria Fogola Pisa
ÁLVARO ARMANDO 
Helena Ferraz de Abreu (Rio de Janeiro RJ 1906-1979) .

Herbert Moses

-
Pequenino. Apelidam-no "mosquito".
Não perde coquetel ou festa de arte.
Anda aos pulinhos, como periquito,
E pula, ao mesmo tempo, em toda parte!

Não há banquete em que, com qualquer fito
Ou sem nenhum, não diga o seu aparte.
E discursos faria, ao infinito,
Se um turista chegasse, lá de Marte!

Aos jornalistas tudo acerta, ajeita.
Se da ABI na doce presidência
Hábil e sutilmente se grudou,

A própria oposição bem o respeita,
Pois tem que se curvar ante a evidência:
Até o Getúlio foi e... ele ficou.

(Obs: ABI – Associação Brasileira de Imprensa)

ARTUR AZEVEDO 
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (São Luís MA 1855-1908)

Tertuliano, o paspalhão
 

-
Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo!

PADRE CORREIA DE ALMEIDA

A Dança dos Partidos

 -
Os dous estragadíssimos partidos
Ocupam a seu turno a governança;
E nós imos vivendo da esperança
De ver os nossos males combatidos.

Os quinhões são de novo repartidos,
Toda vez que se dá qualquer mudança,
Se aquele outrora encheu, este enche a pança
E os clamores do povo são latidos.

Se as velhas leis têm sido violadas,
Estando nossas crenças abaladas,
Novas leis não darão melhores normas.

Palavras eu não sei se adubam sopa,
Mas a fala do trono é que não poupa
Reformas e reformas e reformas.

FRANCO DE SÁ
Joaquim Mariano Franco de Sá (Alcântara/MA – 1807 – 1851)

A Esbelta

-
A "Esbelta", o alvo dos suspiros nossos,
É fada vaporosa, é flor das flores;
Em vez de carne, vestem-na vapores,
É leve a rapariga, só tem ossos.

Os caniços do lago são mais grossos
Que as canelas gentis dos meus amores;
Tem nas lindas bochechas menos cores
Que a seca múmia quando sai dos fossos.

Ah! ditoso mancebo, eu te prometo
Que se hoje, noivo, trêmulo, desmaias,
Beijando a anágua que lhe encobre o espeto,

Talvez, quando marido, morto caias
Vendo surgir o pálido esqueleto
Da espessa nuvem de umas oito saias.

JOINVILE BARCELOS (RS)

Benedito Salgado

-
Vai às aulas e às feiras, lê, patina,
Namora, odeia os militares. Tersos
Os seus sonetos, nos jornais dispersos,
João dos Anzóis "pomposamente" assina.

Ama o truco, o bilhar, jogos diversos.
Ah! Viver no "xadrez" (que bela sina!!),
Tendo ao lado uma cândida menina,
Bons patins, bons autores e bons versos.

Vive alheio aos jurídicos assuntos.
Provas de exame nós "colamos" juntos,
Eis por que ainda não levamos pau.

Prega aos caloiros tímidos na Escola:
"Não tenham medo, aqui tudo se 'cola',
'Cola-se' até solenemente — o grau!"

MOACYR PIZA
Moacyr Toledo Piza (São Paulo, 1891 – 1923)

O Cartola

(a Cardoso de Almeida)

Pança, asneira, bazófia, parolice;
Parolice, bazófia, asneira, pança:
— Eis o que revelou desde criança,
E o que há de revelar até a velhice.

É um realejo, que jamais descansa,
A remoer sempre o que Leroy já disse.
Ninguém, a um tempo, faz tanta tolice;
Ninguém tanta tolice a um tempo avança!

Pingue de enxúndias mas de miolos pecos,
Lembra, na linha, o Conselheiro Acácio,
Superando, em idéias, cem Pachecos!

Nunca um raio de luz lhe entrou na bola.
Pensa o leitor que pinto algum pascácio?
— Engana-se, leitor, pinto o Cartola.

MÚCIO TEIXEIRA
Múcio Scevola Lopes Teixeira (Porto Alegre/RS, 1857 — 1926)

O Girafa

-
Borrar papel, Girafa!, é teu fadário,
Contra a honra de toda a gente séria;
Oh! alma pustulenta e deletéria...
Oh! ente nauseabundo e salafrário!

Ontem... entre os rebeldes, mercenário,
Hoje... parece mesmo uma pilhéria!
Qual vende o leito crapulosa Impéria,
A pena alugas por qualquer salário.

Jornaleiro metido a jornalista,
Dos vícios teus a criminosa lista
Verás aqui... e para além te empurro!

Por andares na berra, estás na barra;
Pois hoje a Musa em teu focinho escarra,
"Doutor na asneira, na ciência burro!"

ROCHA PITA
Sebastião da Rocha Pita (Salvador/BA, 1660 —1738)

Soneto da Desdentada

-
Pondero a emudecida formosura
De Fílis sem temer que impertinente
Possa no meu soneto meter dente
Pois carece de toda a dentadura.

Se por cobrir a falta esta escultura
Tão muda está que não parece gente,
Estátua de jardim será somente
Se de pano de rás não for figura.

O senhor secretário quer que a creia
Bela sem dentes, eu lho não concedo;
Desdentada é pior do que ser feia;

E em silêncio só pode causar medo,
Ser relógio de sol para uma aldeia,
Para um povo estafermo de segredo.

RUBENS PEDROSO (RS)

Toda e Qualquer Semelhança...


Descomunal, vastíssima senhora,
Imensamente gorda. Ela é feliz
Chacoalhando essa banha a toda hora,
Metendo em toda parte o seu nariz.

Mesmo gorda, é uma "fina" salafrária:
Sabe mentir como poucas ante um juiz.
E é cínica, é safada e ordinária,
E mais coisas, talvez... que não se diz.

Monumento de enxúndia e de rancor,
De veneno e maldade inchada está.
Não é mulher, é um monstro, é um horror.

E na cova, onde um dia ficará,
Até o mais faminto verme roedor
Sua gordura com nojo deixará.

TAPAJÓS GOMES
Manoel Tapajós Gomes (Belém/PA, 1884 – ?)

Amador Cobra

-
Este "enorme colega" (assim define-o
Outro colega, espirituosamente),
Não garanto, mas deve ser parente
Dalgum poste da Light, consangüíneo.

É professor e aluno juntamente,
Tem prática, traquejo, raciocínio,
E onde quer que ele esteja tem domínio
Só pela altura... que faz medo à gente.

É muito alto, demais, o nosso Cobra
E embora assim comprido, ele não dobra
Apesar, meus leitores, dos pesares...

Isto de altura é coisa que acontece,
Mas o Cobra, palavra que parece
Um sobrado de três ou quatro andares!

Fonte:
http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/satirico.htm

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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