Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Ana Miranda

Ana Maria Nóbrega Miranda (Fortaleza, 1951) residiu em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Publicou os livros de poesia Anjos e demônios (Rio de Janeiro: José Olympio, 1978) e Celebração do outro (Rio de Janeiro: Antares, 1983). Como romancista, publicou Boca do Inferno (1989), O retrato do rei (1991), Sem pecado (1993), A última quimera (1995), Desmundo (1996), Amrik (1997), além do livro de contos Noturnos (1999) e da novela Clarice (1999), todos pela Companhia das Letras. Tem obras publicadas em diversos países, entre eles Argentina, Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Espanha e Suécia. Recebeu o prêmio Jabuti em 1990 (pelo romance Boca do Inferno) e, em 2003, o romance Dias & Dias foi agraciado com os prêmios Jabuti e o da Academia Brasileira de Letras. Boca do Inferno foi incluído na lista dos cem melhores romances do século XX em língua portuguesa, publicada pelo jornal O Globo.

 Em Noturnos, Ana Miranda se vale de uma forma quase fixa (como o soneto e a sextina) de narrativa: cerca de duas páginas; uma só frase ou parágrafo (apenas um ponto, o final); muitas vírgulas; diálogos (falas) intercalados à narração (monólogo) e iniciados por maiúscula. Como se escritos sob medida ou por encomenda de jornal ou revista. A narração é sempre na primeira pessoa do feminino (sem nome explícito). Noturnos seria um romance, houvesse uma costura a amarrar os diversos segmentos (contos) do livro. Mas falta um enredo, mesmo daqueles menos palpáveis, como os de Virgínia Woolf ou do noveau-roman. Em poucas composições se pode vislumbrar uma trama, como em “Violino”. Além disso, as narradoras são mulheres de diversos feitios, embora semelhantes. Como na solidão em que vivem. Em “Blusa vermelha” confessa: “estou só, na penumbra”. Em algumas composições a personagem parece apenas divagar, sonhar, ou imaginar a “ação” que narra, como em “O vestido de noiva”. Inicia-se com um ato (que pode ser imaginário e não real): “Uma mulher abre a porta do quarto”, e se conclui com um gesto e uma lamentação: “mas quando olho pela janela percebo que anoiteceu”. Antes, constata: “nem sei a que mundos minha mente me leva”. Em muitos contos a mulher chora: “No banho choro, a água na água se desfaz, ele ouve e bate à porta” (“A morte do cisne”). “Lua” se abre assim: “No meio da noite acordo com o rosto molhado de lágrimas”.

Algumas narrativas são apenas instantâneos, flashes. E quase nada acontece ou não se vislumbra uma história. Em vez de ação, apenas reflexão. Além disso, não há nenhuma referência a pontos geográficos, nomes de cidades, logradouros. Quando muito, ao mar, à praia ou ao campo. Em “Profecia” mulher se encontra num “lugar deserto na margem oposto do lado, onde há um campo seco”. Em “Macaco” a personagem ouve o “barulho das ondas do mar batendo na muralha de pedras”. Outra se refere a “uma praia chuvosa”. A cidade aparece aqui e ali, como uma alusão apenas, mesmo na composição intitulada “Cidade”: “A cidade me chama pela janela, vejo lá embaixo as pessoas caminhando”. As descrições de ambientes são raríssimas: “uma bela casa branca com vista para a paisagem do oceano”.

A referência a objetos domésticos (armários, roupas, perfumes) se explica pela constante permanência da personagem em casa. Em “Um vestido” toda a “ação” gira em torno da compra de um vestido, “como se vestir o corpo fosse o mesmo que desnudar a alma”. Livros são também objetos não somente decorativos nas obras de Ana. Há até um conto intitulado “Meus livros”. A narradora dessa peça dá explicação para a inclinação da contista pela geografia interior: “Existe em minha cabeça uma estranha geografia que se refere ao mundo em torno de mim, um mundo físico mas de significados infinitos, essa geografia surgiu do meu hábito de viver trancada com meus livros”.             

A noite é outro elemento preponderante nestes contos e talvez isso explique o título do volume. Algumas composições acentuam essa vocação da contista para a noturnidade, como em “Obrigação noturna”: “em pé diante da janela olho a escuridão”.

As mulheres de Ana Miranda são pessoas delicadas, bem educadas, não falam palavrões, se vestem bem, frequentam ambientes finos, vivem em apartamentos de classe média, leem livros, bebem vinho. Uma ou outra foge a esse tipo, como a doméstica Odete e a narradora de “Casa roubada”, que mora em hotéis baratos, trabalhava numa fábrica de tecidos e tinha uma casa.

Há sempre outro personagem, na maioria das vezes masculino (marido, amigo, desconhecido). Esse outro ser quase nunca aparece com nitidez ou é descrito em detalhes. Em “Retrato de homem” se vê apenas um rascunho ou esboço de personagem: “na primeira vez em que nos encontramos ele bebeu duas garrafas de vinho, agarrou meus punhos”. Esse outro pode ser caracterizado até como monstro: “Tenho tanto medo do monstro da esquina”. Mas não ousa se aproximar dele, do outro. E prefere dar-lhe um apelido. Na maioria das vezes, porém, não há sequer um traço fisionômico do outro, como em “Visitante”: “Ele é o único dos homens vestido de termo”. A protagonista às vezes busca esse outro e não o encontra, como em “Sagrada família”. O outro pode ser um terceiro, como no triângulo amoroso de “Amor vicário”. O marido, que é o outro quase sempre, aqui é apenas o primeiro outro: “Quando meu marido está em casa eu finjo que não me importa a presença do outro homem”. Os outros às vezes dormem, isto é, estão ausentes, são figuras quase mortas. Ou expostas à morte. Em “Amplidão” a narradora se refere a eles como se fossem seres estranhos: “as pessoas da minha família dormem” “indefesas na cama”; “os corpos adormecidos são a expressão das almas, têm os lábios entreabertos e as pálpebras se movem fechadas, seus corpos frios e inertes flutuam, respiram fazendo ruídos e murmuram atormentadas pelos sonhos”.

Muitas vezes ocorre uma fuga se si mesma e dos outros, como em “Corpo e alma”. Fuga misteriosa: “nunca estou no lugar onde aparento estar”. Ou o corpo se distancia da alma: “minha alma vive fugindo pelas janelas”. A figura do Outro se pode esclarecer mais ainda nesta peça enigmática: “o terceiro ser que há em mim e me oprime é o Outro”; “em seguida eu terei fugido e estarei em outro lugar e ele não saberá onde”.

Quando o outro desaparece de cena, entra em seu lugar o ser que narra, para falar de si mesmo. Em pelo menos uma narrativa (“Rosa-dos-ventos”) ocorre o contrário, em que a outra (na maioria das vezes é o outro) é desvendada, mostrada com clareza, e a narradora se comporta como tal.

Muitas vezes o outro não existe mesmo. Ou existe apenas na imaginação dela, a protagonista: “um baile solitário em que danço comigo mesma no salão iluminado por velas, entre seres imaginários” (“Baile negro”). Esses entes aparecem em outras composições. Em “Maiô” mulher compra um maiô para ir ao encontro de “um homem imaginário”.

São raras as vezes em que a narradora se volta para a infância, como em “Machucados” (lembranças), “Ponto de cruz” (ela ainda criança) e “Pai” (em que o outro, o pai, é apenas uma figura de sonho de criança). Em “Mundo da Lua” a que narra tem treze anos, porém namora e fala de sexo.

Em “Carta de Odete” (um dos poucos seres fictícios com nome explícito), a “narradora” é outra, a antiga empregada doméstica. Na maioria dos contos a protagonista é mulher solitária, em casa ou em algum ambiente fechado, a falar de si mesma, de sua solidão, de desencontros, fugas, pecados, culpas. Em “Unhas” a mulher constata: “Nasceram esta noite unhas nos meus dedos das mãos, tão compridas que parecem garras”. E se pergunta: “serão as unhas os meus pecados que se tornaram visíveis?”

Pode-se dizer que os conflitos das personagens de Ana Miranda são consigo mesmas. Dramas de desencontros e desarmonias com os outros. Ou com o outro. No estranho “Mariposas de madeira”, a narradora se encontra com a Outra, que se diz do Outro, e lhe pede que não se aproxime mais “do homem que ela ama”. Esse outro “talvez seja um estrangeiro de olhos azuis que perambula nos gramados e de vez em quando senta à sombra de uma árvore e canta canções de sua terra”. No também estranho “Incompreensão”, a narradora diz não entender “a diferença que há entre mim e eles” (os outros).

As personagens de Ana Miranda vivem a inadaptação ou a sensação de inadaptação ao status quo. Vivem em solidão e essa solidão faz com que os outros seres pareçam figuras apagadas, desbotadas, sombras, quase sem vida, sem aura.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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