Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de janeiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Natércia Campos

Natércia Campos de Saboya (Fortaleza, 1938 – 2004) publicou primeiro no suplemento literário de O Povo. Recebeu, depois, o 1º prêmio no 2º Concurso Literário do Banco Sudameris, que lhe foi outorgado pela Academia Botucatuense de Letras ao conto “A Escada”, em 1987. Em 1988, foi premiada pela IV Bienal Nestlé de Literatura Brasileira com o livro de contos Iluminuras (São Paulo: Editora Scipione, 1988). Suas histórias estão em antologias e periódicos: O Talento Cearense em Contos, Antologia do Conto Cearense, Quem Conta um Conto, Almanaque de Contos Cearenses e Letras ao Sol - Antologia da Literatura Cearense. Publicou também Por Terras de Camões e Cervantes - Relato de viagem a Portugal e Espanha (Imprensa Universitária do Ceará, 1998); A Noite das Fogueiras, romance fantástico (edições Fundação Demócrito Rocha, 1998); A Casa, romance, publicado em 2ª edição pela Editora UFC, Fortaleza, 2004; e Caminho das águas (Imprensa Universitária da UFC, 2001).

Os dramas vividos pelos personagens de Iluminuras parecem originados de lendas ou do lendário sertanejo, que, embora modificado, adaptado ao ambiente nordestino, tem suas raízes na cultura popular europeia ou, mais precisamente, ibérica. Vejam-se as histórias de gêmeos (“Almofala” e “O Rio”), do menino pagão (“O Pagão”), da velha rezadeira (presente em algumas narrativas), do pescador encantado (“Alumbramento”), da mulher solitária (pelo menos em duas), da menina enigmática (“Uma Velha Canção”, “A Menina” e “Lua Cris”), do menino ou da menina e do avô ou da avó (“Crisálida” e “Mãe Natureza”), do faroleiro e o navio fantasma (“O Farol”), do cordeiro imolado (“Perdão”) e do leproso (“Penitentes”).

Os ingredientes básicos destas narrativas são o ambiente, pode-se dizer, medieval, seja rural ou marítimo; a presença constante de personagens estranhos, como rezadeiras, loucos, visionários, encantados, deformados; as crenças e crendices como foco principal; o enigma embutido no conflito; e a linguagem mais para clássica (Alexandre Herculano) do que para a dos contos populares: “contam que...”, dos irmãos Grimm, Charles Perrault. Nada mais semelhante a um conto de fada do que “Uma Velha Canção”, no qual uma menina chora a morte da mãe, vive anos a fio com o pai e a ama num casarão, se cerca de gatos e, depois, só, é encontrada morta. “Muitos anos depois” o povo ouvia “uma voz de mulher, que cantava com suavidade uma velha canção”. E “Crisálida”, no qual avó e neta saíam para o povoado carregadas de alfenins, como Chapeuzinho Vermelho a conduzir docinhos pela floresta.

O ambiente das dunas de Almofala, do primeiro conto, é mostrado como num filme, com toda a sua exuberância, sem muitos adjetivos. A igreja soterrada pela areia, o campanário ainda descoberto, os barrancos, as correntes finas de água doce, o platô, a ventania. Nos demais contos, situados em lugares diversos, veem-se cemitérios, mosteiros, ermidas, caminhos, matos, brejos, rios, praias, o mar, onde se movimentam poucos ou solitários personagens. Em espaços menores, casa, alpendre, jardim, quarto, sala, personagens angustiados contam suas vidas ou têm narrados seus anos de solidão e dor.

As descrições de Natércia não constituem meros exercícios de linguagem. Ao contrário, servem de apoio às narrações e sem as quais estas pareceriam longas frases cheias de verbos e substantivos. Ocorre também a simultaneidade da narração ao longo do tempo e da descrição do ambiente. Esta nunca se dá de forma isolada, isto é, sempre antecede ou sucede a narração de um fato. Talvez nem seja assim: Não antecede nem sucede a narração, se faz durante a elaboração das frases. Como em “O Jardim”. Enquanto descreve o jardim, narra curtos episódios de um passado mais distante.

A linguagem de Natércia Campos é limpa, elegante e atraente. Nada de gírias, lugares-comuns, frases feitas. Os verbos são os mais propícios à narração e à descrição: adejar (os ventos adejavam), farfalhar (as folhagens), aconchegar (o xale), firmar (a vista), reter (o vulto) etc. Não se trata de linguagem pomposa, de difícil leitura. A escritora não tem necessidade de ostentar erudição. Também o uso frequente de nomes de objetos em desuso e outros substantivos, adjetivos e verbos esquecidos da maioria dos escritores brasileiros contemporâneos faz de Natércia Campos uma narradora singular.

As narrativas deste livro trazem enredos compostos de tons de suave impressionismo. A pintura medieval do ambiente está mais presente em “Iluminuras”. Medieval em sentido amplo, alegórico, do inconsciente: O cemitério, a cruz, as ervas, o mosteiro. Ambiente povoado de personagens antigos: O ferreiro, o fazedor de selas e arreios, o fabricante de armadilhas e gaiolas, monges, penitentes. Nada de sertões, romarias de Padre Cícero, devotas de todos os santos.

As crenças, as crendices, as lendas das histórias de Natércia foram colhidas, certamente, do imaginário popular e da própria memória da escritora: O guajara “que vive encantado no pântano”; o pagão encantado, que, morto, chorava sem parar e, após o batismo póstumo, se desencantou; o possuído pelo Maligno; a mulher (sereia) de “cântico dolente e fino”, “longos cabelos”, que afogou o menino (“Alumbramento”); a mulher solitária e suas visões de sombras, entes invisíveis. 

A presença de enigmas, em meio a superstições, é outra característica dos contos de Natércia. A começar pelos enredos ou pela fragmentação dos enredos. A morte da menina no primeiro conto se dá de forma misteriosa. Apesar de todo o amor do menino por ela, teria o ciúme (a mãe vivia “rindo e conversando” com a menina, enquanto ele se sentia “desgarrado, como que perdido”) motivado uma vingança? Teria sido ele o causador da morte da irmã? Em outro belíssimo conto, “A Menina”, narrado por uma mulher, qual o significado daquela menina assustada, sempre agarrada a seu carneirinho, que um dia apareceu e de repente foi embora? E a morte da menina gaza, que se “evaporou na areia ressequida”, para depois surgir “uma cerca de estranha folhagem gaza, por suas manchas esbranquiçadas”, no conto “Lua Cris”?

                A par disso, o drama psicológico está presente em todos os contos, sempre em narrações-descrições suaves, sem assombros para o leitor. “Almofala” é, sem dúvida, uma obra-prima do conto brasileiro contemporâneo, de uma profundidade nunca vista. Nesta e em outras narrativas a descrição do ambiente se faz com cores naturais. O ambiente em que viviam os gêmeos – as dunas, o vento, a casa – tudo está retratado com fidelidade. E que dizer da descrição, ou da aposição no ambiente, de objetos de uso doméstico e diário, como chocalho de cabra, balaio, trempe, lamparina, fogão de barro, panela de barro, rodilha de pano? Tudo por necessidade da narração, nada como simples enfeite, adereço literário.

Natércia Campos também utiliza com frequência o cruzamento dos tempos e das ações. No primeiro conto, por exemplo, o conflito se instaura lentamente, desde o nascimento do menino e da menina, vai se engrandecendo aos poucos, nos pequenos atos, no dia-a-dia, até o ápice – que ainda não é o ápice – quando o menino “assistiu a irmã despencar-se na grota da alta barreira”. O desfecho – muitos anos depois, quando os olhos do menino se apagaram – nas últimas frases do conto, revela todo o drama, toda a tragédia dos gêmeos.

                Esses dramas psicológicos se apresentam em variadas conotações, especialmente no medo, na solidão e no abandono dos personagens. Do homem do mar, sempre às voltas com o insondável, o mistério, o absoluto, a morte, como em “Alumbramento”. Da mulher solitária em permanente contato com os fantasmas dos parentes mortos, sombras, seres perceptíveis somente pelos sentidos internos, e que conduzem à loucura (“Eles”). Do leproso, o papa-figo, em suas andanças, a tanger uma matraca, em aviso de sua condição. Das mulheres solitárias e seus presságios, os maus agouros, as superstições. Na dor e na morte da mulher que ensopou com querosene a lã do cordeiro e lhe ateou fogo, o cordeiro de Deus, o agnus Dei da oração e da inscrição no conto “Perdão”.

                Não se sabe a origem das obras literárias: como nascem, se formulam. Fala-se em missão, destino, vocação, dom, inspiração. Talvez hajam sido as fadas as inspiradoras de Natércia Campos. Com a ajuda de Herculano, Grimm, Perrault, Moreira Campos. Seja como for, o conjunto de seus contos de fadas, o seu fadário, o seu destino é ser Natércia Campos.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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