Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) José Costa Matos

José Costa Matos (Ipueiras, 1927), poeta, contista e romancista, é autor do volume de contos Na Trilha dos Matuiús (1998). Apesar de não ter apresentado livro de ficção curta antes, sua dedicação à literatura vem de muitos anos. Um dos vencedores do II Prêmio Ceará de Literatura, de que resultou livro com este título, em 1995. Venceu o Concurso Nacional de Contos, na Bahia, o II Prêmio Ceará de Literatura e outros concursos literários realizados em diversos Estados. Está presente em algumas antologias, como O Talento Cearense em Contos. Na poesia, tem os livros Pirilampos, As viagens, O sono das respostas, Na última curva da esperança e O Povoamento da solidão, este ganhador do Grande Prêmio Minas de cultura. É titular da cadeira 29 da Academia Cearense de Letras.

O poeta Francisco Carvalho, também estudioso da Literatura, faz a seguinte observação nas abas do livro Na Trilha dos Matuiús, de José Costa Matos: “Parece lícito supor que o conto, ao contrário do poema, se faz com palavras e com ideias. E também, obviamente, com imaginação e talento”. A obra objeto deste artigo se constitui de dez narrativas. Numa delas, “Um conto, só”, talvez a mais bem realizada do volume, o narrador, Marcos, cujo nome é mencionado apenas uma vez, rumina as suas angústias de querer ser escritor e, assim, mostrar ao povo e às autoridades da pequena cidade onde mora que a falta de diploma acadêmico não o torna menor que o juiz e o vigário. No entanto, sente-me menor, porque não passa de “defensor dativo dos réus pobres”, à falta de advogados na cidade, razão por que a inveja pouco a pouco vai lhe roendo o espírito: “A verdade é que não posso competir com ele em títulos, e isso me dói um bocado”. Essas ruminações lembram alguns personagens de Graciliano Ramos. A linguagem também nos remete à prosa castiça e envolvente do mestre de Angústia. E esse é um dos aspectos positivos no livro de Costa Matos. Mas voltemos ao conto: o protagonista-narrador se propõe escrever um conto e com ele participar de um concurso internacional, na França. Ganhar o prêmio seria realizar um sonho fabuloso: abocanhar quinze mil francos, ter a história publicada na Europa e ver o seu nome “em jornais de dois continentes”. Restava escrever o conto. Rumina aqui, rumina ali, Marcos se convence de que é fácil para ele escrever um conto, pois “tinha gramática” e imaginação. Bastava ler alguns autos de processos criminais, rememorar as secas no sertão e passar uma revista nos “tipos curiosos” do lugar. O assunto da história surgiria disso. Passam-se os dias e nada de o conto germinar. A angústia cresce, pois, sem o conto, ele continuará apenas defensor dativo de réus pobres, professor de “rapazes e moças da sociedade”, conferencista religioso e redator de telegramas dos políticos. Continuará menor do que o doutor Seixas, o magistrado. A história chega ao fim e nada de o conto ser escrito. Porque, apesar de todos os seus conhecimentos do espiritismo, do catolicismo e dos livros, não sabe como se escreve um conto. Talvez faltasse talento ao pobre Marcos. Como também a João Valério, o narrador de Caetés, que “tinha um romance começado na gaveta” e, no final do romance, confessa: “Abandonei definitivamente os caetés: um negociante não se deve meter em coisas de arte”. O que sobrou em Graciliano e não faltou a Costa Matos, ao escrever o conto de um conto que não foi escrito.

Na Trilha dos Matuiús contém crônicas poéticas (“Pedidos de Natal”, “Nada”), crônicas de costumes (“Madrinha Juliana e suas Peiticas”), novelas curtas (“Incêndio na Pedra”, “Uma História de Prefeito”), histórias pitorescas e anedóticas (“O Desmaio de Luís Preto”), contos psicológicos (“Um Conto, Só”, “Pedras na Vidraça”). Em quase todas as narrativas as tramas se desenrolam em cidade pequena do Ceará, seja a Ipueiras real e seus arredores (em “Incêndio na Pedra” há referência à “festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira dos ipueirenses”; em “Uma Usina de Mitos” um personagem pergunta: “Não vê que Ipueiras está cercada de morros?”), seja uma fictícia e mítica urbe do interior do Nordeste brasileiro: Morro do Papoco, com “seus sambas quentes”, Rua de Baixo, Rua de Cima, Rua do Ourives, Morro do Curral do Açougue. Também Fortaleza, ou simplesmente a capital, é palco de um drama, “Pedras na Vidraça”, embora somente na última frase haja menção a uma de suas praias: “Os coqueiros se desequilibravam em colunas oscilantes, sob a brisa de treva da Volta da Jurema”.

As histórias de Na Trilha dos Matuiús ocorrem em tempos variados, algumas nos meados do século XX, antes da televisão; outras, na era do telefone celular. Um personagem se refere a um cavalo-de-pau, seu objeto de desejo. Fala de retretas da banda de música. Tonho Silveira “comprou uma geladeira a querosene”. Dona Josefa “ficava sem outra ocupação que as novelas do rádio”.

Em “Incêndio de Pedra”, Inácio Romão encontra uma Ipueiras modificada, após anos longe da terra natal. Acostumado à cidade grande, bradava: “Cadê o barulho? Cadê o cheiro de fumaça? Me acostumo não! Sou um bicho de máquinas zoadentas. Preciso escutar sirenes de fábricas. Queimem gasolina, meus patrícios, pode ser que o progresso sinta a cheirinho bom e resolva chegar por aqui!” O conto ambientado em Fortaleza menciona a televisão e os automóveis.

Tirante os empresários Santiago Ribas e Sérgio Câmara, do conto acima mencionado, os personagens de Costa Matos são matutos ou vivem em cidade pequena. Alguns são tipos característicos (ou curiosos, como diz um personagem) desse ambiente e surgem, ou são apenas citados, em mais de uma história. O contista frustrado Marcos relembra alguns deles: “Passei uma revista nos tipos curiosos do meu conhecimento: Antônio Té-Logo, Maria Tei-tei, Véi Zuca-do-Oi-Só, Carolina Bunda-Alegre...” São pretas velhas, cozinheiras nas casas dos abastados, como Madrinha Juliana; padres de voz estridente nos sermões, como Salustiano e Feitosa; donas de forrós, como Joaninha Bunda Alegre; fabricantes de viola; cantadores; primeiras-damas; prefeitos corruptos; juízes incompetentes; promotores subservientes; comerciantes de secos e molhados.

Voltemos à linguagem. No meio da narrativa, o personagem Marcos, em seu monólogo bem arrumado, refere-se ao momento em que decide escrever um conto: “Certamente, eu tinha gramática para isso. E imaginação também”. Entretanto, se sabe que somente gramática, estudo, leitura não fazem um escritor. Mesmo que o candidato a prosador tenha também muita imaginação. É preciso algo mais. Talvez talento e dedicação à arte de escrever. Costa Matos certamente tem gramática para escrever. Sua frase é quase sempre curta, sem rodeios. Os verbos e os substantivos se casam de forma precisa, clara, sem a necessidade das muletas dos adjetivos, advérbios, preposições, como neste trecho de “Incêndio na Pedra”: “No princípio das tardes, o céu escurecia, para os lados do nascente. E chovia nas alturas. Aqui em baixo, apareciam umas gotinhas de água, tão leves que voavam na horizontal. Os cachorros, ociosos, tentavam abocanhá-las, na ilusão de comer pequeninos insetos faiscantes”. A descrição é minuciosa, embora sem excessos de palavras. Lembra pintura expressionista ou cenário de filme no campo.

O uso da descrição é discreto nas narrativas de Costa Matos. Somente o necessário para que o leitor imagine o lugar onde os personagens atuam. Em “O Desmaio de Luís Preto” lê-se isto: “Era o domingo entardecer e a poeira subir, no campo ao lado do cemitério novo. Bancas de café, potes de aluá, pirulitos em tabuleiros itinerantes, bandejas de pés-de-moleque”. Em poucas palavras pintou o quadro de uma festa esportiva.

Costa Matos mostra com Na Trilha dos Matuiús que é possível e bom para a Literatura o uso correto da frase, sem se prender demais às regras gramaticais e sem se deixar fascinar pelos modismos e pela banalização da linguagem.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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