Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Miguel Carneiro (Balada do Cangaceiro sem Mãe e Outras Baladas) II

O Herói Anônimo

Quando a opressão
Clama por Justiça
Eu então me engolfo nessa Legião.

Defendendo em plagas distantes
A liberdade instalada em meu coração.
Eu já estou mutilado
Diante de tanta revolução

Não tenho mais uma perna
Não possuo nem mais uma mão.

Dentro de mim
Bate apenas o vento
De uma nova rebelião.
Balada do Cangaceiro Sem Mãe

Vim de muito longe
Das terras de Massacará
Trazendo somente farinha
E a vontade de pilhar
Pelejando por caminhos tiranos
Entre xiquexique, macambiras e gravatás.
Perdido entre tantas lembranças
Sozinho, sem mulher, sem sonhar.

Vindo de muito longe
Pra nessa terra guerrear.
O punhal sobre o peito
E o meu ferro de marcar.
Zé Baiano é o meu nome
E não sei
Onde minha mãe agora estar.

Anel de ouro, trancelim,
Seda, cachaça
Trago no fundo do emborná.

A coragem no meu olho
Sou de longe, sou de longe
Das terras de Massacará.

A coragem no meu olho
Sou de longe, sou de longe
Das terras de Massacará.

Minha sina é morrer lutando
Em qualquer tiroteio
Na hora que eu for enfrentar.
Tenho a benção do Meu Padim
Meu corpo fechado
Bala nenhuma irá se alojar.
Nem as pegadas do inimigo
Poderá um dia me alcançar.

Dormindo em coitos
Sem puder se quer descansar
Acordando no breu da noite
Depois de parar pra rezar
Minha vida pertence
ao Deus Dará
Vim de longe,
Vim de longe,
Das terras de Massacará.
Cangaço
Para João Bá

Para quem pensa
Que o cangaço se acabou
Vive parado na história
O cangaço continua
Silencioso na memória
Sem volantes, cangaceiros
Ou Lampiões
Matando muito mais gente
Pelas cidades e pelos sertões.

Quem imaginou
Que no tempo do Capitão
Houve mais mortandade
Enganados todos estão
O cangaço anda solto
Com a anuência do grande Cão
Agora dando gravatas
Em insuspeitos cidadãos
Matando muito mais pais de família
Pelas cidades e pelo sertão.

O nordestino morrendo de fome
E o preto pobre metralhado na invasão
Lampião foi um santo
Besta é aquele que difama o capitão
Diga-me se o cangaço
Não tá aí agora, não
Sem clavinote, fuzil ou mosquetão,
Silencioso na capital Federal
Em pleno coração de minha Nação.

Fontes:
Miguel Carneiro. Balada do Cangaceiro Sem Mãe e outras Baladas
Imagem = Pintura em tela . textura e tinta acrílica, de Katia Almeida

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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