Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Teófilo Braga (Contos Tradicionais do Povo Português) O velho Querecas

Eram três irmãs, muito pobres, que viviam do seu trabalho aturado. Naquela terra havia uma casa em que ninguém queria morar porque lá dentro ouviam-se de noite grandes gritos e terrores; as raparigas, para pouparem o aluguel, foram pedir para as deixarem morar naquela casa. A mais nova, como mais animosa, foi morar para o último andar.

Uma noite, mal ela se tinha acabado de deitar, ouviu uma voz gritar:

– Eu caio!

– Pois cai! – respondeu-lhe a rapariga. De um buraco do teto caiu uma perna. Depois soou de novo o mesmo grito:

– Eu caio!

– Pois cai! – repetiu a rapariga; e assim foram caindo os braços, o tronco, até que ela achou diante de si um homem já muito velho e calvo. O velho chegou-se próximo da rapariga, e perguntou-lhe:

– Não tens medo de mim?

– Não.

– Fazes muito bem; és a primeira e única pessoa que resiste ao medo de me ver. Em paga da tua coragem toma lá esta bolsa, e quando te vires nalguma aflição diz sempre: Valha-me aqui o velho Querecas.

O dinheiro da bolsa nunca se acabava, e as três irmãs começaram a viver com largueza. No entanto a mais nova começou a sentir que por mais que se fechasse no seu quarto parecia-lhe que sentia meter-se alguém na cama com ela. Lembrou-se se seria o velho Querecas, e teve uma certa repugnância; mas para certificar-se, uma noite acendeu de repente a luz, e viu deitado ao pé dela um mancebo formoso, que estava adormecido. Estava tão embebida a olhar para ele, que lhe caiu um pingo de cera na cara. O mancebo acordou de repente, e disse:

– Ah! Desgraçada, o que fizeste; dobraste-me o encantamento, que estava quase no fim! Agora não me tornas mais a ver.

A menina chorou muito, e ainda mais quando conheceu o estado em que se achava. Lembrou-se então do segundo dom, e disse:

– Valha-me aqui o velho Querecas.

– Aqui estou já, e bem sei porque me chamas. Há só um modo de remediar o mal que a ti mesma fizeste. Toma lá estes três novelos, e vai andando sempre, sempre até onde eles se acabarem; onde quer que seja pede que te deem aí pousada do ar da noite.
   
A rapariga chorou por ter de deixar as irmãs, mas o que ela queria era quebrar o encantamento daquele moço; foi andando, andando até ir dar ao fim de muito tempo a um palácio cercado de um rico jardim. Espreitou pelo buraco da chave, e viu lá dentro uma sala com muitas mulheres trabalhando em lindos vestidos de noivado, e fazendo as roupinhas de uma criança. Teve receio de bater àquela porta, e foi rodeando o palácio, até que encontrou o hortelão, a quem pediu pousada. O hortelão respondeu-lhe:

– Você sabe em casa de quem está para vir assim pedir pousada?

– O que sei é que já me não tenho de cansada; e é por uma esmola.

O hortelão teve dó da rapariga e deu-lhe um canto no palheiro; ela deitou-se mais morta que viva, e ali mesmo deu um menino à luz. Tudo aquilo se transformou num quarto muito asseado e rico. Quando o hortelão veio ao outro dia, ficou pasmado com o que viu. Foi dar logo parte à rainha, que também quis certificar-se da maravilha. Quando chegou ao lugar em que estava a menina deu um grito ao ver a criança:

– Oh senhora! Quem é o pai deste menino?

A rapariga ficou muito envergonhada por não poder logo dizê-lo; no meio da sua confusão contou o caso do velho Querecas. Foi então que a rainha se lembrou:

– Esse menino é o retrato de meu filho, que me desapareceu, sem nunca mais saber dele nova má nem boa.

A rainha levou a rapariga para o palácio, tratou de lavar a criança, e quando a despiu achou-lhe nas costas um grande sinal. Reparou, e viu que era um pequeno cadeado com uma chavinha. Quis ver se o abria, mas com receio disse à mãe que experimentasse a ver se dava volta àquela chavinha. Logo que a mãe pegou na chave abriu o cadeado, e imediatamente se quebrou o encantamento do príncipe que deveu a sua liberdade ao ânimo daquela rapariga com quem casou logo.
===================
Notas Comparativas

À parte os episódios comuns a muitos contos, é este uma das formas do mito de Psique.

Gubernatis, na Mythologie zoologique (t. I, p. 437), traz uma variante deste conto coligida em Fucecchio, na Toscana, em que o desencantamento do príncipe é devido à coragem da donzela. As circunstâncias episódicas divergem e pertencem a outro ciclo novelesco.

Um conto coligido em Cosenza, na Calábria, por Greco, traz o episódio do ruído noturno, do pingo de cera que acorda o mancebo, e do novelo que deve guiar a menina à busca do amante. (Gubernatis, op. cit., t. II, p. 301, nota 2).

Estas uniões misteriosas acham-se ainda com carácter mítico, no Harivansa, entre Urvasi e Pururavas, e no Mahabahrata, entre Çantana e a ninfa das águas; na lenda grega de Psique, Eros desaparece, quando acorda por causa do pingo de azeite que caiu da lâmpada a cuja luz foi visto.

Bruyere, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 183, cita contos pertencentes a este ciclo na coleção sueca de Cavallius e Stephens, Svenska Folksagor och äventyr, traduzida por Thorpe, e na coleção norueguesa de Asbjørnsen e Moe, traduzida por George Webbe Dasent, aparece o episódio do pingo de cera.

Sobre o evidente caráter mítico destas tradições, acrescenta Bruyere: «Em todas estas narrativas a felicidade dos amantes não é de longa duração, porque, apesar da fé jurada, a promessa é sempre violada, e aquele dos amantes a quem o outro faltou à palavra, é forçado a desaparecer, apesar do ardente amor que o consome. M. Cox demonstra que as lendas desta natureza são a representação do mito celeste do Sol seguindo a Aurora, ou reciprocamente. Muitas vezes depois da violação da promessa e da separação dos amantes o mito continua.» (Op. cit., p. 184).

Em um artigo sobre a História do Japão, cita-se também a lenda análoga à de Psique: «Uma parenta do imperador era a esposa do deus Omonomichi. Ele jamais aparecia aos olhos da princesa, pois não se encontrava com ela senão nas trevas. Uma noite ela lhe disse: — Ainda me não foi dado olhar para a tua face; rogo-te que fiques comigo até pela manhã, para eu ter a felicidade de te contemplar.

«Tanto lhe rogou, com tal ternura e tais carinhos, que o esposo cedeu e prometeu-lhe que ficava. Por fim, as primeiras claridades da Aurora entraram no aposento da impaciente princesa, mas qual foi o seu espanto quando ela descobriu, no leito, uma serpente enroscada! Soltou um grito de pavor, e a serpente transformou-se logo num jovem formosíssimo, que lhe disse com expressão de dolorosa melancolia: — Nunca mais, agora, hei de poder estar contigo. E desapareceu. Abatida por tristeza incurável a esposa solitária foi pouco a pouco decaindo até falecer de paixão.» (Do viajante português Mesnier, Actualidade, n.º 241, do IX ano).

O despertar por meio de um raio de luz é frequente, como na Bella Aurora (Spoleto) e La Bella Rosalinda dai capelli d'ori e na novela dinamarquesa de Grandtovig. (Stanislao Prato, Quattro novelline, pp. 156 e 157).

Sobre as origens míticas indo-europeias deste conto, vide Gubernatis, Piccola Enciclopedia indiana, p. 175, em que discute a simultaneidade da representação da Aurora e da Nuvem que desaparecem quando o Sol se mostra. Este ciclo do Amor e Psique foi estudado por F. Liebrecht, Zur Volkskunde (Amor und Psyche).

Na versão do Algarve há o episódio do corpo que cai aos pedaços, para experimentar a coragem da menina; é comum a vários contos, e acha-se na lenda de Atenodoro (ap. Alexander ab Alexandro, lib. III, cap. 12), que o padre Manuel Consciência traduziu na sua Academia Universal de Erudição, p. 545.


Fonte:
Wikisource

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to