Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 19 de janeiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Beatriz Alcântara

Maria Beatriz Rosário de Alcântara nasceu em Fortaleza, Ceará. Filha de pais portugueses, passou a adolescência em Portugal. Licenciada em Letras pela Universidade Federal do Ceará e Mestra em Literatura pela Universidade de Brasília. Professora da Universidade Estadual do Ceará. Integrou o Grupo Seara de Literatura e pertence ao Grupo Espiral. Membro da Academia Cearense de Letras, Academia Fortalezense de Letras e da Academia de Letra e Artes do Nordeste Brasileiro. Poeta, ensaísta e contista. Publicou, de poesia e ensaios, os livros La Revolte Positive de Simone Beauvoir (1973); Fernando Pessoa e o Movimento Futurista de Álvaro de Campos (1985); La Parure; A Academia Brasílica dos Esquecidos (1993); Água da Pedra; O Portal e a Passagem; Raízes do Tempo; Folha de Prata e Livre Sinfonia; além do livro de contos Daquém e Dalém-Mar (1993). Participa também de diversas coletâneas, como da Revista Seara, Revista Espiral, O Livro da Ajebiana, Contos Correntes e Antologia do Conto Cearense, dentre outras.

                Daquém e dalém-mar é o livro de estreia de Beatriz Alcântara no gênero conto. Para Moreira Campos, prefaciador do volume, “impõe-se a obra, de logo, pela linguagem trabalhada, limpa, corrente e pelos vários temas de que se vale (são 16 contos, ao todo, 4 portugueses e 12 brasileiros), o que testemunha a imaginação fértil da autora”. Em “Mito rei” o leitor testemunha o velório da jovem Abigail, que “morreu daquela queda besta na calçada quando saltou do lotação” e “bateu com a cabeça no meio-fio”. Trata-se, na verdade, de conto de duplo enredo. A morte e o velório da moça seriam meros artifícios para a entrada em cena de outro personagem, cuja história se vai contanto (pelo narrador onisciente), enquanto se desenvolve o diálogo entre mãe e filha (prima da morta). A chegada do desconhecido instaura o mistério na sala (e no conto). Aliás, o mistério é uma constante neste livro. “Cortejos e avisos” é um conto misterioso, elaborado a partir de sonhos, pesadelos e premonições da narradora.

                Segundo Moreira Campos, “são múltiplos os caminhos da autora. Ora se envereda por experiências filosóficas, como no conto Monólogo da Coisa, ou não esquece o fantástico, o extraordinário, particularmente no conto Cortejos e Avisos. Ora se faz hermética, submersa, irrevelada, deixa ao leitor capaz a tarefa de preencher vazios. Um outro elemento de modernidade em Beatriz Alcântara é o conto curto, breve, um “flash”, mancha”. Uma das peças é constituída somente de diálogos; outra é um monólogo, espécie de apólogo.

                É forte a presença feminina nos contos de Beatriz. A protagonista Potyrama de “No divã” inverte os papéis de paciente e analista, ao “analisar” o psicanalista. Maria, da história que leva o seu nome, é outra personagem interessante, embora de feitio diferente de Potyrama. Enigmática, chega ao vilarejo da Taiba (litoral do Ceará), encosta “seus poucos pertences em cima da gruta, debaixo de um coqueiral”, e ali vai vivendo.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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