Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de janeiro de 2014

Natércia Campos (Almofala)

Para meu filho Zé,
cuja sombra foi levada no redemoinho
enfeitiçado de um rio e hoje vive
encantada em mim.

Em Almofala o vento errante era inexorável no seu eterno movimento a levantar os infinitos grãos de areia. Ele os espargia formando dunas e, em uma lentidão exasperante, as fazia caminhar ao seu sabor. O vento possuía magias ao impelir, invisível, as nuvens, tornando-as esfiapadas e etéreas, ao filtrar os raios de sol, e densas com formas grotescas de rostos e rebanhos, pesadas de chuvas, que as ensombravam. Os ventos chegavam ali de muito longe, das pradarias, vales, cordilheiras e oceanos, mas dependendo de sua natureza, podiam descer céleres, irados, dos espaços, causando vendavais e tormentas. Por vezes, vinham serenos, como brisa, roçando de leve o mar, ondulando as águas e as velas das embarcações. Eram constantes, dia e noite, e nada lhes barrava os caminhos. Com manha e paciência, eles conseguiam aplainar os obstáculos e desviar destinos. No ano em que os gêmeos nasceram, a igreja tornara-se um estranho mausoléu, soterrada pela areia. Emergia daquela singular elevação a torre com seu campanário ainda descoberto, a salvo, como um bizarro marco de sepultura. A menina veio à luz ao meio-dia, quando de repente os sinos repicaram magicamente, tocados pelas rajadas de areia fustigadas pela ventania. O menino só nasceu quando os ventos amainaram e ondularam suavemente, como um bafejo, a vegetação rasteira e os longos e agrestes caniços.

A mãe havia tido outros filhos homens que debandaram cedo, mundo afora, sem apegos, assim ela os criara. Os gêmeos nasceram temporãos, estranhas sementes trazidas pelo ar. A mulher percebeu nos filhos uma leve e contínua oscilação, como se o sopro do vento os envolvesse, a desabrochá-los. Com o tempo ela surpreendeu-se pela afeição extrema que dedicava àquela filha. Os gêmeos cresciam iguais, refletindo um a imagem do outro. Brincavam alheados no seu contínuo e brando vaivém. A menina, mais irrequieta, lembrava o vento de verão, desencadeado e solto a provocar os redemoinhos inesperados de areia. O menino, cada vez mais sereno, igual à aragem que antecede as monções camuflando tempestades. Juntos, pareciam duas correntes de ar a se completarem, e eram de grande valia à mãe. Esta procurava dar as tarefas mais pesadas ao filho, mas a menina jamais se distanciava do irmão nesses momentos.

Eram vistos cedo, ao levantar do sol, indo atalhar a cabra no bebedouro de água doce. Traziam-na docemente, puxando-a pela corda com seu chocalho soando como sinos e a mãe tirava o leite grosso e amarelado que os meninos bebiam no seu constante movimento de pêndulo, quando a areia se amontoava na soleira da casa, a mulher mandava que o menino a retirasse com a longa pá. A menina postava-se ao seu lado, tentando ajudá-lo, enchia com uma lata o balaio forrado de talas de palmeira, que os dois despejavam longe contra o vento. O menino acordava cedo e alvoroçado nos dias em que a mãe lavava roupa no córrego. A menina ia sempre adiante pulando a banhar-se na areia, agarrada à sua desconjuntada bruxa de pano. Ele levava as bacias, o sabão, emparelhado aos passos da mãe, que seguia calada com as trouxas e os vasilhames de comida. A mulher lavava os hábitos e panos das freiras e noviças do distante internato. A menina logo entrava na parte mais alta do arroio, molhando-se a gritar com algazarra. O menino auxiliava a mãe, cavando um grande buraco, para onde desviava a água corrente, deixando ali de molho as roupas, antes de começarem, juntos, o infindável esfregar. A mulher falava com ele ensinando-lhe, dando-lhe ordens, a que o filho obedecia, irmanado totalmente à voz e à figura da mãe. Era o grito da irmã, chamando-o, que o tirava daquele açodamento, e a contragosto sujeitava-se à vontade da mãe, que o mandava ir brincar com a menina. Ficava, no entanto, alerta ao primeiro chamado da mulher para vir ajudá-la a tirar a roupa do coradouro. Mais tarde, famintos, comiam o que a mãe esquentava na velha trempe deixada ali, à sombra das barreiras. À tardinha, recolhiam a roupa branca, que parecia cintilar, dobravam-na, e o cheiro gostoso de sol e sabão daquelas peças entravam-lhes pelo corpo. A mulher enfiava tudo em sacos, e regressavam, já a barra do final do dia surgindo no horizonte. À noite, a mãe sentava a filha no colo e passava óleo de coco nos seus cabelos, fazendo, com desvelo, duas longas tranças. O menino, da rede, olhava-as, sentindo-se apartado e infeliz. Percebia que conversavam baixinho e depois, juntas, rezavam. A mãe então embalava a filha, que, por fim, adormecia, ele continuava de olhos abertos, fitando a luz trêmula da lamparina, que parecia ampliar sua solidão.

Os gêmeos tinham por obrigação entrar na mata certos dias, a fim de apanharem gravetos e lenha, para a mãe acender o fogão de barro.

O menino levava com ele uma lata, e, antes de começar a tirar a madeira, procurava, sob as folhas peludas e grossas do muricizeiro, as frutinhas miúdas e amarelas que sua mãe apreciava. Os meninos haviam aprendido com ela a quebrar nos joelhos as forquilhas e pequenos pedaços de pau, enfeixando-os depois com um cipó. A menina ajudava o irmão a equilibrar na cabeça a rodilha de pano encimada pelo feixe das achas secas de lenha. Ele, ao chegar em casa, estendia para a mãe a lata com o murici, e á noite ela fazia para eles cambica com açúcar e farinha de mandioca. Os gêmeos às vezes eram chamados pelos homens dos roçados distantes. O menino então preparava contrito, enrolando em espiral, estreitas tiras de haste de buriti, que a menina, acocorada, atava com embira-do-mangue. Com este assobio de folha o menino chamava o vento, que descia manso, ajudando os homens na debulha das vagens de feijão e dos caroços de mamona. Quando era preciso o vento descer violento para as grandes queimadas de roçado e capoeiras, a menina o auxiliava, assobiando demorado e longamente. Recebiam, em troca, caça e frutas, que levava, para casa, onde a mãe já os esperava no alto da barreira de veios azinhavrados, parecendo minar ferrugem devido à maresia.

A mulher descera ao encontro deles e agarrara a filha com alegria, carregando-a nos braços. Nem chegou a perceber que ele trouxera um escuro ninho de abelha irapuá. O menino o encontrara no cerrado dependurado no cajueiro. Fizera de palha um facho em que ateou fogo e afugentara as abelhas. Desprendera da árvore o ninho cheio de mel e, amarrando-o na camisa, andara pelos caminhos com extremo cuidado para entregá-lo à mãe, pois sabia de sua preferência pelo mel dessa abelha.

Nessa noite, a lua cheia não o deixou dormir. Através da fresta da porta vira iluminadas a irmã e a mãe, rindo e conversando. Arredio, achegou-se a elas, que, alheadas à sua presença, partiam os favos, enxotando ás vezes alguma solitária abelha, e bebiam o mel, lambuzando-se até ficarem enjoadas e sonolentas. A mãe então banhou a menina, vestiu-a e penteou-a. Ele, já deitado, custou a dormir, sentindo-se desgarrado, como que perdido.

Prendia a custo o choro, que teimava em sair como soluços.

Na época em que sopraram os ventos elísios, em pleno estio, o menino fez uma grande cruz de cana, cobrindo as varetas com papel fino e de cor. Ele a empinava contra o vento e a mantinha segura quase solta no ar. De longe, aquela armação presa a uma comprida e bifurcada cauda de panos assemelhava-se ao peixe arraia, como se ele houvesse subido aos céus provido de asas. A irmã correu para junto dele acompanhando-o. Subia e descia barrancos, atravessava correntes finas de água doce, parecendo também prestes a voar. Ao subir até o alto do platô, para altear o voo da longínqua e diminuta cruz, é que o menino notou a irmã à sua frente. Meio tonto e sem ar, deteve-se atrás dela. Foi tudo tão rápido que ele chegou a sentir quando a menina estranhamente voluteou, perdendo o equilíbrio. Ele assistiu a irmã despencar-se na grota da alta barreira. Deu-se conta do silêncio pesado que a tudo envolveu quando o corpo parou de cair, no fim daquelas paredes profundas e sombrias. Correu alucinado até a casa e contou à mãe, em espasmos, o que acontecera. Ele a guiou até o cimo da barreira, onde os dois estacaram, olhando a menina ainda mais miúda semelhando-se a sua desconjuntada bruxa de pano. Desceram mãe e filho pelas dunas, dando largas voltas, apoiados às lombadas cavadas pela erosão. A menina já estava quase toda revestida de areia, que a ventania levantava em miríades de fino pó. Ambos sabiam que se não a levassem dali o vento a enterraria durante a noite, aplainando aquela elevação.

Enlaçados e, passo a passo, seus vultos, carregando a menina, projetavam-se em esquisitas sombras pelas dunas que se moviam caladas e inexoráveis. Na estrada das Almas, no alto do céu, o carreiro de Santiago atravessava o firmamento. Cansados, viram aflorar da areia a cumeeira da casa em vigília. Ela escutou, nas horas tardias da noite, o bimbalhar longínquo de sinos, choros e gemidos tangidos pelo vento, que até a madrugada se lançou em rajadas bruscas sobre a casa. Pela manhã, o menino não conseguiu abrir a pequena janela, algo fortemente a escorava. Saiu pela porta da frente notando que a casa parecia desequilibrada, estranhamente diminuída. Todo o lado de trás fora calçado pela areia, que se amontoara. De longe, lembrava-lhe um barco à deriva.

Sentiu que a mãe o fitava por cima de sua cabeça em um ponto muito além. Abraçou-se a ela, chorando desnorteado. Muito depois, quando suas lágrimas secaram, notou que o seu contínuo movimento de pêndulo cessara por completo. Dias depois a mãe costurara uma bata comprida, ajudando o filho, submisso, a vesti-la pela cabeça, como um saco. Desde então ele usou aquela veste, que o fazia ainda mais parecido com a irmã. Por onde o menino passava com aquele sambenito cheio de remendos e cerzidos, recordava a todos um pobre penitente nos autos-de-fé. Ele vivia cada vez mais ao redor da mãe, cheio de aflição, e seu olhar surpreso continha uma muda indagação.

A mulher nunca mudou os hábitos, continuou a dividir tudo em três porções, e mandava o filho ir chamar a irmã de volta para a casa. Ele obedecia, retornava em silêncio, esgueirando-se para perto do fogão, mas nunca se sentava no lugar que era o dela. Aos poucos, ele se confundia, tinha às vezes a vaga impressão da presença da menina. Ouvia a mãe conversar baixinho com a irmã, pedindo-lhe sempre para não sair de casa sem antes avisá-la. À noite armava as redes, cheirando lençóis, roupas da filha e abençoando-a. O menino há muito acostumara-se a dormir embalado pelo choro dorido da mãe. Certa noite de inverno escutou ao passar perto do mangue gritos que o assombraram. Ouviu vozes de animais, ruídos de pescador, caçador e alguém quebrava lenha colhendo mel das abelhas. Correu desesperado, contando à mãe sobre a visagem. Ela persignou-se falando: é o guajara que vive encantado no pântano.

A irmã encheu o tempo e a vida dele, devagarinho como o vento, presente e invisível. Notava já sua chegada, ao ouvir cicios de vozes e sussurros na aragem noturna, zumbido nas folhagens. Nas manhãs em que acompanhava a mãe ao córrego, olhava-se na água transparente como vidro e via refletida a sua imagem, tão clara, que mergulhava sôfrego ao seu encalço. Ele, enquanto viveu, foi sempre a sombra da irmã. Compartilhou sentimentos de amarguras, esperanças, sonhos e pesadelos. Só a mãe os separou, até o final dos seus dias. Foi ainda a irmã a última imagem que seus olhos viram ao apagarem-se. Estava ela à sua espera, ainda tão pequena, afogueada da subida ao platô, quando ele em um movimento brusco, igual a um traiçoeiro golpe de ar repentino e frio, empurrou-lhe as costas rumo ao abismo.

 (Natércia Campos, Iluminuras)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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