Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 25 de janeiro de 2014

Paulo de Tarso Pardal (O Dorso do Livro)

Comi uma barata inteira. Ouvi o estado da morte quando a esmaguei com o pé. Juntei os pedaços na palma da mão, separei pata por pata e distribui-as pelas bordas do prato. A gelatina amarela e as asas ficaram no centro, formando um girassol, que girava com o meu olhar na solitária escura.

Estou aqui a trinta e dois milhões de traços. Tenho uma terrível angústia quando percebo que não existe mais espaço para fazer um só risco na parede. Conto o tempo por esses traços. Cada sono é um risco. Existem trinta e dois milhões de traços que conto a cada quatro sonos. É o que posso fazer para não ficar doido. Não sei a quantos dias equivalem os trinta e dois milhões de traços. Nos primeiros trinta e dois mil, eu ainda sabia o equivalente em dias. Mas tive que me abster de contá-los porque os traços, a partir de um certo sono, passaram a ser mais vitais para mim do que os dias. Por isso, não sei há quantos anos estou. Sei que há trinta e dois milhões de riscos.

Os traços na parede são a minha vida. Lembro que nos dez mil traços recordei a última rua por onde passei antes de vir para cá. Todos os acontecimentos que ocorreram naquele dia eu marquei com um risco. Tenho uma traço para o poste, outro para o ônibus, outro para a calçada, outro para o cigarro, outro para dono do bar, outro para uma mulher que bebeu comigo, outro para o balcão, outro para o sangue. Com eles fiz o meu universo – o mundo são riscos. Não posso ficar sem eles. Acho que ainda sei pensar porque tenho os traços, por isso eles são mais importantes do que os dias, que não sei mais como são. Não sei o que fiz para estar aqui. Sei que existe um traço no meio da parede, maior do que os outros, que deve significar algo importante, mas não me lembro mais. Devo ter, agora, só um pedaço do cérebro – aquele que sabe contar os trinta e dois milhões de riscos a cada quatro sonos: não sei pensar além disso.

Depois que eu comer a barata, vou dormir pensando no prazer de fazer mais um traço na parede.

Eles pensam que já morri: há trinta e dois traços que não me mandam comida: por isso comi uma barata inteira: azar dela!

Eles têm medo de mim. Acham que virei bicho, que não precisam mais gastar comida com um bicho.

Acho que daqui a trinta e dois riscos eles vão abrir a porta que há trinta e dois não abrem e, neste momento, vou mordê-los e engoli-los, como faço com esta barata. Daqui a trinta e dois traços, vou ficar livre de gritos do meu pensamento que ecoam desesperadamente nestas paredes, e eles vão notar que ainda não morri.

Daqui a trinta e dois gritos, depois que eu comer o primeiro homem, vou fazer o segundo contar os trinta e dois milhões de traços trinta e duas milhões de vezes. Só assim, poderei matá-lo também.

Enquanto os trinta e dois riscos não chegam, vou mastigar a última perna da barata que está no prato: trinta e duas milhões de vezes.

 (Paulo de Tarso Pardal, Margem Oculta)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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