Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Sérgio Telles


João Sergio Siqueira Telles (Fortaleza, 1946) formou-se em 1970. Tem livros na área da psicanálise e dois de contos: Mergulhador de Acapulco (1992), menção honrosa no Concurso de Contos do Paraná, 1988, com o título O Décimo Dia e outros contos, e Peixe de Bicicleta (2002), prêmio APCA, 2002. Está incluído na antologia de literatura brasileira Fran Urskog Till Megastad, organizada e publicada por Arne Lundgren, na Suécia, em 1994. Para a antologia O Talento Cearense em Contos teve selecionado “Cicatriz de Bala”. Em 2003, lançou Fragmentos Clínicos de Psicanálise, estudos psicanalíticos. Em 2004, lançou dois livros, um de ensaios psicanalíticos sobre cinema, O Psicanalista Vai Ao Cinema, e Mistura Fina – Contos & Crônicas & Poesias. Em 2006, lançou Visita Às Casas de Freud e Outras Viagens, livro de ensaios de psicanálise e cultura.

Há, pelo menos, quatro tipos de contistas ou narradores. O primeiro deles é constituído de Machado de Assis e outros exemplares raros. Outro tipo forma a grande maioria. A dos que nunca trabalharam em redações de jornal, leram ou ouviram as notícias como qualquer mortal, acompanharam a História de seu tempo como espectadores e aprenderam a narrar fatos ou histórias extraídos de suas memórias e das páginas dos clássicos. Também nunca clinicaram em consultórios de analistas, nunca leram Freud e Young em profundidade e apreenderam dramas psicológicos em casa, nas ruas e nos livros. O terceiro tipo é composto de jornalistas. O quarto é formado de psiquiatras, psicólogos e analistas. Sérgio Telles é um deles. Seus personagens são atormentados e analisados, sofridos e dissecados, uns doentes mentais, outros apenas pacientes.

Em “Amizade”, Clóvis e Jorginho se completam como amigos: um frágil, outro atlético; um inteligente e culto, outro joga futebol de salão, “jogo pesado, de macho”. Até surgir a figura da mãe do primeiro, a nova conquista amorosa do segundo, e o conto ter um desfecho enigmático: após a “traição”, Jorginho se sente “péssimo em relação” ao amigo, que, no entanto, simplesmente diz: “– Clóvis, agora me conta tudo, tudo. Com detalhes”. Ora, somente um analista daria um desenlace como este ao conto. Nunca um jornalista ou um contista não afeito à psicanálise. Como se vê, o conflito entre personagens muitas vezes está somente na expectativa do leitor. Ora, qual seria a reação “normal” de Jorginho, se não a repulsa ao amigo?

Os transtornos que a sexualidade reprimida opera estão presentes em diversas narrativas dos dois livros de Telles. Assim como perturbações de outra natureza, nem sempre esclarecidas. O que sente Paulo, de “Falta de ar”, que não consegue dormir ? Será apenas falta de ar? O que leva o “cantor famoso, rico e importante”, do conto “Na Delegacia”, a ficar nu no palco, até terminar preso pelo tumulto causado e confessar ao delegado as suas angústias? Esses personagens “doentes” terminam em confessionários ou em divãs, rememorando suas vidas, suas dores, seus fracassos, seus medos, suas desilusões. Há até uma narrativa sob o título “Rememorando”, também mergulho no poço interior do personagem, cujo desfecho é a pergunta: “Que mais posso fazer além de tentar domar o tigre louco de meu medo e forçá-lo a se dispor nas entrelinhas do que escrevo?”

Em “Peixe de bicicleta”, um dos contos narrados por personagem feminina, o sexo é mais uma vez o motivo da história. A narradora parece se perder em devaneios eróticos, como se vivesse exclusivamente em função do sexo. O contista faz um retrato de um tipo de mulher e de homem da classe média, seus hábitos, como o  de perambular pelo shopping.

Em “Feita para quem não está morto”, do primeiro volume, o narrador se sente “vivo”, livre da “morte em vida”, ao atropelar, matar uma mulher e conduzir o corpo a uma represa, onde tenciona jogá-lo. Nas suas ruminações, o homem se analisa, se desnuda, se mostra a si mesmo, como se quisesse dizer que o ser humano é uma máquina quase imperfeita.

No segundo livro há que se destacar “Uma coleção de lápis”, uma das mais finas peças do contista. Narrado em primeira pessoa, um homem vai arrumando as malas da separação conjugal e, ao mesmo tempo, ruminando (narrando) fiapos de sua vida. Na apresentação do segundo livro, Malcolm Silverman pondera: “Tudo leva a uma justaposição cronológica, o que reforça o tom confessional das peças de Telles, em sua maioria escritas numa primeira pessoa intimista”.

Leia-se o conto “O colchão de listas azuis”. A vergonha, a humilhação do garoto Júlio, chantageado pelos irmãos, a se comparar aos prisioneiros dos campos de concentração, narradas com simplicidade, dão um toque de leveza quase infantil à narrativa.

Em “Saudades de Francisca Turner”, ao mesmo tempo em que presta homenagem à cantora negra Tina Turner, lembra a empregada de “tantos anos atrás”, a velha Francisca, “indômita e bela”. Mais parece crônica ou poema, não fosse conto escrito com os olhos do mais fino humanismo.

Homens e mulheres são vasculhados em suas intimidades ou se mostram por inteiro, como a paciente Marion L., de “Cara Doutora Frieda”, em carta-confissão-despedida. No conto “Maktub!”, narrado em terceira pessoa, Paulo reencontra um amigo de infância, Juvenal, então transformado em Vivi. Sentado a uma mesa de bar, vê “alguém familiar que não conseguiu reconhecer logo, até constatar divertido que era de Marilyn Monroe a fisionomia conhecida que julgava ver ali”. Sérgio Telles narra e descreve os instantes do reencontro com mão de contista fino e alcança um desfecho dos mais surpreendentes, ao se valer do flashback: quando criança o protagonista Paulo leu o Maktub, de Malba Tahan. E pergunta: “Será que Deus escreve errado em linhas tortas? Maktub, Alá assim o quis, teria dito Malba Tahan em tais circunstâncias – pensou Paulo”.

E assim são outros personagens de ambos os livros.

A linguagem nos contos de Sérgio Telles não apresenta novidades. A narração, tanto do ponto de vista onisciente, como da primeira pessoa ou do narrador-testemunha, flui em frases bem ordenadas, de fácil leitura. Nada de malabarismos verbais. Aliás, a linguagem é quase sempre coloquial, mesmo quando o ponto de vista é do escritor-narrador. Leia-se “Classe Média Blues”. Primeira frase: “Era noite de sexta-feira”. Final: (...) “foi até a cozinha tomar um gole de café”. Quando se serve do monólogo interior, como no conto “Feita para quem não está morto”, a linguagem também é a oral. O protagonista recorda um fato (o atropelamento de uma mulher, a confusão na rua, o corpo estendido no chão, a acomodação do corpo no banco de seu carro, até a chegada à represa de Gaurapiranga etc.) como se falasse para si mesmo. Ora, o contista poderia muito bem tecer a narração de forma arrevesada. No entanto, a linguagem é simples, usual: “Vinha dirigindo numa boa pela Augusta e atravessei a Paulista, acelerando, dentro do zunzum do trânsito da tarde” (...). Observe-se a expressão “numa boa”. Em “Quando Cora cala”, o personagem-narrador, como se narrasse para si mesmo ou para um ouvinte ou um leitor, vai tecendo a malha de seu relacionamento com a mulher Cora, o significado da incessante fala dela, no dia-a-dia, e de quando ela se cala. A fala, o tormento causado pela fala de Cora, a não-fala, o calar-se e o tormento da solidão, do silêncio. “Todo dia – quer chova, quer faça sol – antes de ir trabalhar, pego meu carro e vou até o Ibirapuera correr”. Observe-se a expressão popular. E ainda os hábitos da classe média, tão presentes na obra do contista. E a presença constante da capital paulista como pano de fundo, como cenário das narrativas.

Em “Missão Cumprida”, dois personagens conversam num bar. O narrador  nem chega a lhes dar nomes. São simplesmente “o gordo” e “o homem de meia-idade”. As frases curtas narram pequenos atos e gestos, comuns a mortais urbanos: “respirou fundo”, “puxou a cadeira”, “passava as mãos pelo cabelo” etc. As falas são da linguagem oral urbana: “Prazer em te rever”, “Me conta. Em que pé está?”, “E agora, para onde você vai?” No entanto, essa linguagem comum esconde um mistério: quem seriam os dois homens?

Nas abas do primeiro volume, Claudio Willer observou: “Esta coletânea de contos mostra, entre outras coisas, que há um ciclo da narrativa realista que ainda não se esgotou. Essas amostras do inferno burguês e metropolitano, esses fragmentos do cotidiano brasileiro, no que tem de cruel e de lírico – já vimos isso antes, na literatura e ao vivo. Mas as situações e personagens reaparecem, vitalizados, com mais força, graças ao talento, à capacidade de observação e à sensibilidade do autor”. Acrescente-se: graças também à psicanálise, pois, não fosse Sérgio Telles um estudioso da alma, certamente muitas de suas histórias começariam e terminariam sem nenhuma graça, como simples relatos de fatos sem importância.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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