Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 11 de janeiro de 2014

Jangada de Versos do Ceará (4)

BATISTA DE LIMA
Lavras da Mangabeira (1949)

SEGUNDA-FEIRA

A segunda-feira amanheceu
de cara feia
batendo as portas
e acordando a todos
nervosamente

Encheu os coletivos
de descontentes
entupiu as ruas de carros
e andantes apressados

A segunda-feira
estava naqueles dias

 CONSTATAÇÃO II

Na primeira viagem que fiz
estranhei não poder levara o açude
e os potes

Na segunda viagem tentei
levar o alpendre

Na terceira não tentei
mais nada
apenas acenei para o engenho

Nas outras fui esquecendo despedidas
pois finalmente descobri
que todos iam comigo
onde quer
que eu pudesse ir
==========================

ANTONIO GIRÃO BARROSO
Araripe (1914 – 1990) Fortaleza

AS TRÊS PESSOAS

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.

SONETO À LUA
                               A Arthur Eduardo Benevides

Lua Branca, como é terrível tua face      
No céu escancarada, a se mostrar aos homens
Ó astro fluorescente, a espiar as mazelas
Surgidas cá em baixo, ao toque das espumas.

Mulher, ó dulçorosa, o mar te espelha tímida
Mente, corça da noite, ó tu, lua fremente
Que navegas ao léu, sem bússola nem norte
Lua branca, vergel, perdida nas alturas.

Continente de gelo, o sangue tu derramas
De virgens sem fanal, ao jeito das marés
Que sacodem o meu barco, a dois passos da terra

Não te deténs, ó lua, e indiferente estás
A brisa que se espalha, terna como carícia
ou aos ventos tão febris, que acordam as madrugadas.
================================

ARY ALBUQUERQUE
Fortaleza (1934)
-
ECO

Meu eco extravasou-se em desatino,
perdeu sem saber o seu destino,
sumiu no mar em desaprumo
e sem querer, coitado,
perdeu seu rumo.

Melhor ficasse aqui olhando o sol que brilha,
pastorando no céu o cintilar de estrelas,
ou me envolvesse inteiro com a noite fria,
respirando o ar seco que o espaço trilha.

LAMENTAÇÕES


Não choro a chuva.
Não choro o vento.
Choro o meu lamento
por alguma coisa que me fez triste
e triste vivo ao relento.
===================================

CÂNDIDO ROLIM
(José George Cândido Rolim)
Várzea Alegre

MÍNIMA ADJACÊNCIA

dê vez ao próximo da fila ou
facilite o troco

exame mais demorado
— luz direta
na cara —
contraria a reputação
a custo construída

riso aceno sotaque
tudo falsa
aproximação

se não corresponde
tegumento e
tez

CABEÇA A ÓLEO

atado a graúdos
adestramentos líricos
jamais neguei ao murro
sua drástica
preponderância

nunca pronto para
uma vontade nado
a grandes braçadas
contra o que se tem
seguro e certo

conto sempre na
iminência
imprestável à
atribuição

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/ceara/ceara.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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