sábado, 18 de abril de 2020

Tobias Barreto (Poemas Avulsos) II


NAMORO NÃO É CRIME
(A um juiz da Escada)

Considerando que as flores
Existem para o nariz,
E as mulheres para os homens,
Na opinião do juiz;

Considerando que as moças,
Ariscas como a perdiz,
Devem ler seu perdigueiro,
Na opinião do juiz;

Considerando que a gente
Não pode viver feliz
Sem fazer um namorico,
Na opinião do juiz;

Amemos todos, amemos,
E Cupido quem o diz;
Pois namoro não é crime,
Na opinião do juiz...
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O REI REINA E NÃO GOVERNA
(Apólogo)

Não sei por que a língua humana
Os brutos não falam mais,
Quando hoje têm melhor vida.
E há muita besta instruída
Nas ciências sociais...

Ultimamente entenderam
Que tinham também razão
De proclamar seus direitos,
Pondo em uso os bons efeitos
Que trouxe a Revolução...

Seja o leão, diz o asno,
Um rei constitucional;
Com assembleias mudáveis,
Com ministros responsáveis,
Não nos pode fazer mal.

Fiquem-lhe as garras ocultas,
Não ruja, não erga a voz,
Conforme a tese moderna
Qu'ele reina e não governa,
Quem governa somos nós...

Todas as bestas da terra,
Todas as bestas do mar
Tenham os seus delegados,
Sendo os ministros tirados
Do seio parlamentar...

Muito bem! grita o macaco,
A gente vai ser feliz!
Respeito a ciência alheia;
Publicista de mão cheia,
O burro sabe o que diz.

Todavia, acho difícil
Que Dom Leão rugidor,
Sujeito à sede e à fome,
Queira ter somente o nome
De rei ou de imperador!...

Acostumado a pegar-nos
Com suas patas reais,
Calar-se, fingir-se fraco !...
Segundo penso eu... macaco...
Dom Leão não pode mais!

Acode o asno: "Eu lhe explico.
Nada vale a objeção:
Se o rei viola o preceito,
Salvo nos fica o direito
De fazer revolução."

Mestre burro, isto é asneira,
Palavrão de zurrador,
Esse direito é fumaça,
De que nos serve a ameaça,
Quando nos falta o valor?

Só vejo, que bem nos quadre
No trono, algum animal,
Que coma e viva deitado:
O porco!... Exemplo acabado
De rei constitucional..."
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PAPEL QUEIMADO

Procuro as moças: por que de mim fogem,
Por mais que eu queira lhes fazer agrado,
Faltam-me graças, expressões, maneiras.
Ah! já entendo... sou papel queimado.

Então escutem, não se zanguem, digam:
Acham bonito este penoso fado
De andar de rastos a seus pés chorando?
Não! antes quero ser papel queimado.

A vida do homem, que é um belo drama,
Inda que às vezes mal representado,
Tem dois papéis: um é o papel de bobo,
Outro mais sério: é o papel queimado.

Mas, venham cá, não me excomunguem, vamos:
Toda esta cisma é porque sou casado?
Para guardar um certo amor platônico,
Que tem agora ser papel queimado?

Noivo... não posso, pretendente... nunca,
Nem há mais jeito para namorado;
Então serei adorador eterno...
Que tem agora ser papel queimado?

Nada lhes quadra! Querem gente livre,
E assim me deixam pelo meu estado;
Também não vale conversar com feias...
Que tem agora ser papel queimado?

Não me desejam como par na dança,
Tanto melhor, que ficarei sentado:
Acho-as tão murchas, tão desenxabidas...
Oh! como é belo ser papel queimado!

Melhor, ao certo, que viver na peça
A envelhecer e a ficar mofado,
Esta ou aquela, por exemplo, gentes,
Também não gosta do papel queimado?

Aí que já sentem suas trinta festas,
Trinta dezembros sobre seu costado,
Tantos suspiros não tiraram d'alma,
Doidas por terem seu papel queimado?

Essas ruguinhas que se vão formando,
Esse desgosto que se lê pintado,
Por entre as sombras d'um sorrir sem graça,
Não são a falta do papel queimado?

Por que a menina suspirando vive,
Penosa e langue de causar cuidado?
Por que o piano toda noite geme?
Não é a falta do papel queimado?

Fonte:
R. Magalhães Junior. Antologia de humorismo e sátira. RJ: Bloch, 1998.

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