Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Malba Tahan (Uma Lenda de Krishnamurti)


Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho de Deus permanecerá.
Davi, Salmos, 19-91.


O rapaz pálido, com uma túnica andrajosa, que se achava ao meu lado, passou a mão pela testa e, voltando-se para Krishnamurti, assim falou em tom calmo e respeitoso:

— Mestre! Uma dúvida veio refugiar-se em meu coração. Sinto em mim um feixe de espinhos que me torturam...

— Qual é essa dúvida, meu filho? — volveu o Iluminado, cruzando os braços e erguendo os olhos para a imensidade do céu.

— Senhor! — respondeu o jovem da túnica andrajosa. — A minha dúvida está ligada a delicado problema da vida: quem tem mais amor, ou mais apego, aos bens materiais, os ricos ou os pobres? Onde apontar os mais afeiçoados às suas fazendas ou os mais agarrados aos seus trastes? Terá o mendigo mais aferrado aos seus andrajos do que o milionário às suas baixelas de ouro?

O sábio e judicioso Krishnamurti não respondeu. Baixou o rosto sereno, de linhas impecáveis, e ficou um instante a meditar. Decorridos alguns minutos, voltou-se para o discípulo que o arguira e disse:

— Não me acho, no momento, com ânimo para discorrer sobre esse problema, cuja delicadeza transcende nossa imaginação. Mas, como não seria oportuno deixar sem resposta a tua pergunta, vou contar-te uma lenda do país de Girkka. Queres ouvi-la, meu filho?

— Sim, sim — acudiu pressuroso o jovem, com um sorriso de júbilo e pueril sinceridade. — Ouviremos com encantamento a tua lenda, ó mestre, pois as tuas palavras são sempre cheias de preciosos e ternos ensinamentos!

Krishnamurti, o venerável, com voz pausada e firme, em linguagem desnuda e clara, narrou o seguinte:

Para além do país de Girkka, na Índia, entre escarpadas montanhas, vivia, há muitos anos, virtuoso anacoreta, grandemente venerado, de nome Timanak. Os dias desse bom guru, ou melhor, desse santo varão, eram consagrados à prece e à meditação. Numerosos fiéis, escalando as pedras, iam, uma vez por semana, visitá-lo na gruta úmida e triste que ele tornara famosa com sua vida modelar de penitências e sacrifícios. Budistas fanáticos, vindos de remotos climas, traziam-lhe ricos presentes e cestos com saborosos manjares.

O santo de Girkka, porém, com palavras admiráveis, recusava os presentes e devolvia as dádivas mais preciosas. Os acepipes, que faziam as delícias dos gulosos, não o atraíam. Contentava-se com um punhado de arroz branco e meia medida de ervilhas secas. Sua vida de expiação era pautada por extrema abstinência e desprendimento. Cobria a nudez do corpo magro apenas com uma tanga. Tinha, além disso, outra tanga, que usava quando se via obrigado a lavar e purificar a primeira.

Ora, esse virtuoso eremita das duas tangas ouviu, certa vez, contar que vivia em Dakka, a cidade dos 107 templos, o douto Sindagg Nagor, filósofo de renome, que conhecia a Verdade.

“Vou procurar esse homem”, refletiu o ermitão. “Quero conhecer a Verdade. Que pretendo, afinal, na vida, senão descobrir a Verdade e desfazer o Mistério?”

E, deixando a gruta que lhe servia de morada, venceu as ladeirentas estradas e encaminhou-se para a opulenta cidade de Dakka. Vestia, como sempre, a sua tanga amarelada e trazia no braço esquerdo, como troféu precioso, a outra tanga — direi assim —, a tanga sobressalente.

Viajantes e peregrinos budistas que o avistavam ao longo dos caminhos paravam para saudá-lo. Acercavam-se dele e, respeitosos, de joelho na terra, solicitavam um conselho ou imploravam a bênção.

Chegou, finalmente, Timanak, o piedoso, à fervilhante capital. Indiferente aos homens que se acotovelavam pelas praças e aos ricos mercadores que cruzavam as ruas com seus utensílios e baixelas, procurou avistar o brâmane filósofo que desejava conhecer.

Que grande surpresa para o penitente de Girkka! O sábio, deslumbramento da fé budista, mestre entre os mestres, não residia numa choupana, nem se escondia entre pedras. Habitava, ao contrário, suntuoso palácio, junto a um lago em que se espanejavam soberbos cisnes brancos. Levado por um guia, entrou o penitente na senhoril mansão. Pelo chão, que os pés mortificados de Timanak pisavam, estendiam-se tapetes riquíssimos; viam-se, pelos cantos, ou junto às colunas de mármore, jarros transbordantes de flores; oscilavam do teto, presos por correntes de prata, pesados candelabros de cristal. Tudo ali faiscava majestosa beleza e otimismo.

— Que desejas de mim, meu irmão? — indagou o sábio Sindagg Nagor, acolhendo bondoso o desnudo visitante. — Em que poderei servir-te?

Falava com tranquila segurança. Tinha a pele clara e era cheio, pesado, grisalho.

Esmagado pela pompa, ofuscado pelo luxo que o rodeava, sentiu-se o eremita confuso e perturbado. Dominou-se e disse com não pequeno embaraço, tentando um sorriso irônico:

— A fama do vosso incomparável saber chegou até a gruta obscura em que sempre vivi. Deliberei abandonar o meu refúgio e vim até aqui, desejoso de ouvir os vossos ensinamentos. Sinto-me, porém, constrangido. Como permanecer no meio de tanta riqueza? Aqueles que vivem em vossa companhia, e que residem neste magnífico palácio, envergam trajes soberbos, ao passo que eu resguardo a nudez de meu corpo, roído de chagas, com este pequeno retalho. Além da mísera tanga que visto, tenho apenas esta outra tanga sobressalente que trago sob o braço. Na seminudez em que vivo, não posso inclinar-me entre os vossos discípulos sem causar escândalo ou pisotear suscetibilidades.

— Estás profundamente equivocado, meu irmão — tornou o sábio, sem a menor ostentação e com a maior naturalidade. — Os trajes que cobrem o corpo não medem o valor do homem. A mim, na verdade, não me interessa saber se tens duas, três, vinte ou duzentas mil tangas. Que adianta ao homem vestir-se de sedas e ter a alma nua de virtudes e de predicados? Interessa-me, tão somente, as roupagens do espírito e não os vestidos e bordados que cobrem a matéria. Não te preocupes, pois, com os trajes, nem com o luxo dos que te cercam. Cuida de cultivar a tua alma e enriquecê-la. Se queres permanecer neste palácio, aqui ficarás com toda a honra e deferência que mereces. Durante a tua estada conversaremos sobre os assuntos que mais te interessam. Limitado, bem limitado, é o meu saber, mas imenso e constante é o meu desejo de servir; tudo farei, portanto, em teu auxílio. Com os minguados dons de minha inteligência, tentarei esclarecer as tuas dúvidas e vencer as tuas inquietações e incertezas.

Sequioso por aprender a Verdade, aquiesceu o ermitão ao convite do sábio e passou a figurar entre os hóspedes de honra do grande palácio. Longas horas entretinha-se em palestras com o rico filósofo, e desse brâmane ouvia notáveis e edificantes ensinamentos.

Uma tarde, ao luzir das primeiras estrelas, como faziam, aliás, quase todos os dias, partiram os dois amigos — o guru e o filósofo — a passear por atraente bosque que perto verdejava. Deambulavam sossegados entre as árvores, por pequeno caminho de bom piso, quando os surpreendeu estranho ruído. Parecia um bando de elefantes, em marcha, esmagando os galhos secos sobre um tablado.

Que seria?

A observação e a experiência levam os homens mais depressa à descoberta da Verdade do que as divagações incertas e as conjeturas vãs. Sugeriu, pois, o supersapiente hindu ao seu companheiro de Girkka:

— Indaguemos do que se trata. Algo de anormal ocorre na região que nos cerca.

Com passo normal e certo, sem mostras de impaciência, encaminharam-se para a estrada. E viram, com indefinível espanto, boquiabertos, um espetáculo pavoroso. Todo o vetusto palácio do eloquente Sindagg era presa das chamas. Colunas de fumo, levadas pelo vento, subiam negras para o céu, e o fogo, na sua faina destruidora, retorcia suas espirais vermelhas, devorando, como um chacal faminto, a pomposa residência.

Sindagg Nagor, o filósofo, ao perceber a extensão da calamidade, não teve um gesto de revolta ou desapontamento; cruzou serenamente os braços e olhou para o céu já avermelhado, não pelo crepúsculo, mas pelos clarões sinistros do incêndio. Dentro de alguns instantes, todos os seus tesouros estariam reduzidos a cinzas, ruínas fumegantes e escombros disformes.

O eremita Timanak, porém, não imitou em quietude e sossego a atitude de seu mestre. Longe disso. Depois de dardejar, em redor, olhares aflitos, atirou-se ao chão e pôs-se a rolar como um demente e a praguejar como um pária, com toda a expansão de uma dor represada:

— Que desgraça, senhor! Que desgraça! Tudo perdido!

E lamentava entre uivos e imprecações:

— Tudo perdido!

Ao presenciar o desespero do discípulo, o venerável Sindagg acudiu-o solícito e procurou erguê-lo do chão. Segurou-o pelo braço e proferiu com desusada energia:

— Domina-te, meu irmão, domina-te! “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o conselho de Deus permanecerá!” Não te preocupes com o desastre. Errado procede aquele que se aflige e sofre diante do irremediável. Recebe com serenidade os decretos inapeláveis do destino. O palácio que ali vês, presa das chamas, é meu; todas as riquezas — tapetes, alfaias, móveis e joias — que nele se achavam eram de minha exclusiva propriedade. E, como vês, estou absolutamente calmo e indiferente; a perda dos bens materiais não chega sequer a perturbar, de leve, a serenidade de meu espírito!

A tais palavras retorquiu, com exasperação e sinistra riqueza, o guru de Girkka:

— Que me importa a mim o vosso palácio? Não me interessam tampouco as vossas alfaias ridículas e os vossos inúteis tapetes! Que leve tudo o fogo o mais depressa possível!

— E por que te mostras, assim, tão apoquentado? — estranhou, bondoso, o filósofo. — Não vejo, então, motivo para o teu desespero!

— A minha tanga! — deplorou, entre soluços, o santo, em novo assomo de ira. — A minha tanga sobressalente! Esqueci-me de trazê-la, hoje, quando saí a passeio. Perdi a minha tanga no incêndio!

E desatou em pranto, batendo, sem cessar, com a cabeça no chão. Para a dor que o afligia, não havia lenitivo no mundo. O infeliz perdera a sua tanga sobressalente!...

Calou-se Krishnamurti, o mestre admirável. O rapaz da túnica andrajosa ergueu-se. E, sem proferir palavra, retirou-se da larga varanda.

O Sol, tocando de leve a linha do horizonte, espargia pelo céu, tão martelado de nuvens, as cores avermelhadas do crepúsculo.

Fonte:
Malba Tahan. Novas Lendas Orientais.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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