Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Oswaldo Elias Xidieh (O Alfaiate Malandro)


No tempo em que Jesus andava pelo mundo com o apóstolo Pedro, disseram que ele ia passar por uma vila onde morava uma viúva muito piedosa e sem malícia. Ela morava numa casa de parede e meia com um alfaiate danado de sem vergonha e que queria pegar a viúva. Nunca dava certo dele pegar a viúva. Então, ele fez um buraco na parede para poder ver o que ela fazia, e vivia espiando. Um dia, ele viu a viúva rezando na sala e pedindo que Jesus chegasse logo, que era o maior consolo da vida dela. Então, o alfaiate, pelo buraco da parede, disse:

- Minha querida irmã, eu já escutei o seu rogo, por isso apronte a janta e a cama que eu vou chegar antes da madrugada. Põe um pouco de vinho e de paçoca de carne na mesa.

A viúva caiu de joelhos e disse:

- Mas será que o bom Jesus vem sozinho? Disseram que São Pedro vinha também e eu não tenho cama para ele.

- Não se avexe, minha boa irmã, que eu já arrumei pouso pra Pedro, eu vou aí sozinho. Mas não esqueça do vinho que lhe pedi.

A viúva, mais que depressa, foi aprontar a comida, pensando: "Hoje o Senhor Bom Jesus vem na casa!" Dali a pouco bateram três pancadas na porta da viúva e ela disse:

- Ai, meu Deus, o Senhor Jesus já chegou? - Foi correndo e pergunto: - Quem é que está batendo na porta?

- Jesus, minha boa filha! - Ela abriu e o Jesus de impostura entrou já querendo abraçar a viúva. A viúva escapou dizendo:

- Ai, meu bom Jesus, ainda nem acabei de fazer a janta! - e fugiu pra cozinha, pensando se Jesus abraça os outros. No fim, ela pensou que ele devia mesmo abraçar os outros sem ruindade. Voltou pra sala e o Jesus de impostura olhou pra ela com dois olhos que nem de gato. Ela fugiu pra cozinha, dizendo que tinha esquecido de trazer paçoca. Veio de novo e viu o Jesus de impostura tirando a roupa e dizendo:

- Vamos deitar um pouco pra descansar, minha filha, que depois nós vamos comer paçoca e beber o vinho.

Então ela viu que aquilo não era Jesus coisa alguma e correu pra cozinha, dizendo que já voltava com o vinho. Lá na cozinha ela se ajoelhou e rogou que Jesus de verdade aparecesse e desse um jeito naquela impostura sem medida. O homem lá de dentro deu um berro:

- Venha logo, querida filha, que já vai amanhecendo e eu preciso ir antes do galo cantar!

A viúva se entanguiu (enregelou) de medo e pensou: "Quem foge antes do galo cantar é cuisarruim. Ai, que esse homem é de mal querer. Me acuda, senhor Jesus!"

Na mesma hora, bateram na porta e ela foi ver e perguntou quem era. Responderam que era Jesus e o apóstolo São Pedro, pedindo pouso e comida. Mais do que depressa ela abriu a porta e mandou entrar. Jesus disse:

- Quem é aquele rabudo que está debaixo da cama?

Na mesma hora o alfaiate virou cuisarruim e saiu uivando pro terreiro e sumiu que até hoje ninguém sabe por onde anda.

Fonte:
Oswaldo Elias Xidieh. Narrativas populares; estórias de Nosso Senhor Jesus Cristo e mais São Pedro andando pelo mundo. SP: EDUSP, 1993.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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