Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de abril de 2020

Carlos Drummond de Andrade (Aconteceu Alguma Coisa)


Dois guardas à porta, barrando a passagem. O bolo de gente na calçada, espichando pescoço para assuntar.

— Vai ver que mataram alguém no edifício.

— Com certeza assaltaram o banco, e…

— Que banco? Não está vendo que não tem banco nenhum aí?

— Já sei. Pegaram lá em cima um grupo de subversivos, e eles estão encurralados, não querem se render. Não saio daqui enquanto os caras não aparecerem.

Cresce a confusão. Tão rápido, que até parece organizada. Todo mundo colabora para que seja total. E fala, fala.

— Olha aquela velha desmaiando!

— Velha coisa nenhuma, é uma lourinha muito da bacana. E não está desmaiando, está é brigando de unha e dente, alguém apalpou ela ou afanou a bolsa.

— Te garanto que houve morte. Um padre abriu caminho e entrou lá dentro, apesar dos guardas. Padre mesmo, desses de batina, sacumé?

— Se o cara já morreu, não adianta ele entrar, ora essa. Salvo se ainda está agonizando. E quem garante a você que por estar de batina esse que entrou lá não é padre de araque? Tem muita falsificação pelaí.

— Não estou vendo fumaça. Incêndio não é.

— Pode ser nos fundos. Espera até a fumaça aparecer. O último incêndio que eu assisti, na Tijuca, levou horas pra convencer.

— Quem sabe foi uma manicure que se atirou no pátio? Já vi um caso assim.

— Por essas e outras é que só moro em casa, e casa térrea, sem escada, pra não dar grilo. Eu, hem?

— É, mas tem muito inconveniente. Nas casas baixas a poluição é servida a domicílio.

— Repara aqueles dois entrando na raça.

— E na raça foram rechaçados, tá vendo?

— Pronto, interditaram o edifício.

— Pior. Estão esvaziando o edifício.

— Corta essa. Todo mundo tem direito de entrar e direito de sair. E os que trabalham lá em cima, por que irão deixar de trabalhar? Os que precisam subir para ir ao dentista, ao médico, sei lá, com que direito são impedidos? Tá errado. Qual, isso é um país sem…

— Calma, Secundino. Acho bom você moderar suas expansões.

— É, mas o senador Farah Diba entrou com passe livre, espia só.

— Não tem senador com esse nome, siô.

— Tem um parecido, mas é deputado.

— Deputado ou não, com esse ou com outro nome, mas entrou. Eu vi.

— Então não há tragédia, ele não é de ir aonde pega fogo.

— Cerraram as portas de aço!

— Isso tá me cheirando a elevador despencado. Não tem dia que não caia um em Copacabana. E essa ambulância que não vem? Devia ter sempre uma ambulância de plantão na porta de cada edifício.

— O diabo são os palestinos. Imagina se o carteiro deixou na portaria uma daquelas cartas com bomba…

— Já não se tem onde morar sossegado. Até entrar pelo cano é perigoso. Lá dentro tem assaltante à espera.

— E na rua, então? Que é que nós estamos fazendo aqui, ameaçados de todos os lados, prestando atenção num negócio que não é da nossa conta, me diga o senhor?

— Sei lá. Mas agora está saindo um caixotão, não atino o que seja. Quem sabe se não é um novo crime da mala!

— Nem me fale nisso. Só de pensar, fico toda arrepiada; passe a mão no meu braço, veja como estou. Cortar um pobre de Cristo em fatias, feito mortadela, depositar na mala e despachar de avião!

— Era de trem que as malas com cadáveres se despachavam, sua ignorante.

— Isso foi no seu tempo, vovozinho. Hoje, quem é que passa pra trás o avião pra dar preferência a trem de ferro?

— Pois então vamos chegar perto e espiar o caixão do defunto.

— Não é caixão, gente, é geladeira!

— O quê? O defunto estava dentro da geladeira?!

— Ah, meu chapa, tu não morou que isso é uma liquidação de eletrodomésticos?

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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