Certa vez, no interior da Índia, um ladrão aproveitando-se da escuridão da noite, tentou assaltar a casa de um rico senhor. Sentindo-se percebido, fugiu para um bosque vizinho e ficou escondido sob uma árvore, de onde via, de quando em vez, avermelhados clarões que surgiam nas trevas. Eram os criados do ricaço que o procuravam, com grandes tochas, pesquisando todos os recantos do bosque.
— Estou perdido — pensou. — Os malditos servos fatalmente virão encontrar-me aqui.
E, sem perda de tempo, resolveu arranjar um disfarce qualquer. Sujou o rosto de terra, rasgou as vestes e, ajoelhando-se no chão, fingia um santo faquir absorvido em profunda meditação.
Os seus perseguidores não reconheceram naquele humilde penitente o astucioso ladrão que, pouco antes, havia tentado violar a residência do rico patrão.
E pressurosos levaram a notícia ao dono do palácio:
— Não encontramos as pegadas do ladrão, e o único ser vivo que conseguimos descobrir foi um santo que orava sob uma árvore!
— Um santo em minhas terras! — bradou entusiasmado o proprietário — Que felicidade!
E foi, sem demora, acompanhado da esposa e filhos, levar frutas e doces ao falso anacoreta.
A notícia correu célere pela cidade. Na manhã seguinte, crentes, em multidão, foram admirar o extraordinário faquir que vivia no bosque sob uma árvore, com o rosto sujo de terra e as vestes em frangalhos. Deram-lhe muito dinheiro e valiosos presentes.
Ao ser informado da presença do santo, o Príncipe Nahor, que governava a região, assaltado por súbita e devota curiosidade, ordenou que seus oficiais fossem ao bosque e obtivessem do venerando penitente permissão para conduzi-lo ao palácio.
E num carro dourado, à frente de grande cortejo, o audacioso aventureiro foi levado à suntuosa morada do Príncipe Nahor. Pelas ruas, quando o préstito passava, os homens ajoelhavam-se e beijavam fervorosos a terra entre as mãos.
O príncipe recebeu o novo santo com o maior respeito e solenidade, beijando-lhe a ponta
esfarrapada da túnica.
— Santo faquir! — exclamou — Só hoje chegou ao meu conhecimento a vossa vida exemplar e modesta de orações e penitências. Desejo que demonstres aos meus queridos súditos a grandeza de vosso poder milagroso. Assim é que vos peço realizeis em minha presença, e na dos ilustres Brâmanes, um milagre prodigioso que robusteça ainda mais a nossa fé e confiança!
Respondeu o falso anacoreta:
— Ó Príncipe! Bem sei que sois generoso e bom, mas só poderei realizar o milagre que acabais de ordenar se prometeres conservar-me sob vosso amparo e proteção! Receio que contra mim se assanhem os ódios exaltados dos incrédulos!
— Asseguro-vos, sob palavra — atalhou o príncipe — que estais sob a minha proteção e
ninguém ousará o menor movimento contra a vossa pessoa. Aquele que tentar contra vós qualquer ofensa ou vingança será castigado impiedosamente.
— As vossas palavras — declarou o ladrão — traduzem a maior garantia que um ser humano pode desejar.
E acrescentou:
— Vou realizar diante de vossos olhos dois espantosos milagres que deslumbrarão os crentes e deixarão humilhados os pecadores. E, com o maior cinismo, narrou ao príncipe as peripécias por que havia passado desde a sua tentativa de assalto à casa do ricaço até sua chegada ao palácio.
— Eis, senhor — concluiu — os dois milagres que prometi.
— Que milagres? — retorquiu o príncipe, tomado de incontido rancor — Não vejo milagre algum, ó cão miserável!
— O primeiro milagre, ó príncipe generoso, foi o seguinte: com um punhado de areia e um pouco de cinza, transformei um ladrão num venerável e virtuoso santo. Depois, narrando a verdade em vossa presença, fiz com que o venerável santo se transformasse, novamente, num ladrão abjeto. Penso que essas extraordinárias metamorfoses que realizei foram altamente milagrosas!
Percebeu o arrebatado príncipe que se achava impossibilitado de castigar o inteligente ladrão, pois havia empenhado a sua palavra, e o aventureiro nada poderia sofrer. Dirigindo-se ao respeitável Sind Avastir, o mais sábio dos seus conselheiros, perguntou-lhe:
— Qual a conclusão moral, ó brâmane!, que poderíamos tirar dessa história? Não resultará dela algum ensinamento útil para o meu povo?
O digno sacerdote hindu respondeu:
— A aventura ocorrida com esse aventureiro que faz jus, aliás, a uma boa recompensa,
subministra-nos vários pensamentos e ensinamentos morais. Penso, entretanto, que será
mais interessante deixar o público, por si mesmo, tirar do caso as conclusões que achar mais acertadas.
E, nesse sentido, o príncipe lavrou uma sentença que se tornou célebre.
Fonte:
Malba Tahan. Lendas do deserto. Publicado originalmente em 1929, com prefácio de Olegário Mariano.
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