segunda-feira, 7 de junho de 2021

Rachel de Queiroz (Trabalho & lazer)

NENHUM VIVENTE foi criado com destino ao trabalho; bicho nenhum trabalha, salvo abelhas e formigas, mas por isso mesmo são insetos, formas inferiores, muito abaixo na escala zoológica da aristocracia animal — nós, os mamíferos. Dizem, é verdade, que castores trabalham, constroem represas; mas ou será para estabelecerem a exceção necessária à regra, ou porque se corromperam como nós humanos, e aderiram ao labor como adeririam ao álcool ou à erva - puro vício.

No mais, os bichos todos vivem como nós lá no Nordeste, da mão para a boca, e sendo que o mão-à-boca deles é muito mais simples que o nosso, não exigindo plantar nem criar. Bicho sai por aí, se é herbívoro em procura de pasto, se carnívoro atrás de alguma presa — e comida a ração ou devorada a presa, vai dormir, remoer, digerir, que ninguém é de ferro. E tem até aqueles como as grandes jiboias e sucuris que nessa obra de digestão levam dias, semanas só dormindo.

E também há os bichos porcos chauvinistas como o. leão, que só vive para amar, gozar e querer bem. Quem abastece a família é a leoa — o leão só come o que a companheira matou.

Passarinho faz ninho, é verdade; mas passarinho, além de ser ovíparo, e portanto abaixo dos exaltados mamíferos, faz o seu ninho quase como uma brincadeira, cantando, bailando e namorando. Trabalho maior só no tempo da alimentação dos filhotes; mas também é só na ordem dos volantes que o macho reparte a tarefa com a fêmea — nos mamantes a fêmea que se vire — e dê leite. (Isso quererá dizer que a forma superior da criação é toda dos porcos chauvinistas?)

O homem primitivo não sabia o que era trabalho. Caçava, pescava, mas até hoje em dia caçar e pescar continua a ser diversão, lazer. Na saída do jardim do Éden, o Senhor amaldiçoou o homem com a praga de ter que ganhar o pão com o suor do seu rosto — e aí vocês estão vendo, era praga mesmo, castigo, não tendência natural.

A mulher, sempre inventiva, foi, segundo todas as reconstituições científicas dos hábitos dos primitivos — sim foi ela a inventora da primeira plantação, da primeira panela de barro, da primeira roupa de pele costurada. E o coitado do homem teve então que assumir a maldição do Senhor; e completou as invenções femininas com outras de sua lavra para ao menos aliviar o labor — e assim se inventaram a enxada e o arado.

Depois, a família primitiva, que se abrigava em cavernas quando as achava, foi crescendo de número, as cavernas ficaram poucas — e as mulheres exigiram as cabanas como moradia. (Foi decerto então que se cunhou o slogan “teu amor e uma cabana”.) Da cabana saíram para a casa — e está aí no que deu: estas selvas de cimento que nós chamamos de cidade.

Portanto, voltando à minha tese inicial: o homem não nasceu para o trabalho, nasceu para o lazer. A civilização (que é o ordenamento racional e científico da degenerescência das nossas tendências naturais), foi que instituiu o trabalho como virtude, pois que uma vive na razão direta do outro: — sem trabalho não pode haver civilização.

O pessoal lá do sertão tem uma pena dorida de gente de cidade, que de pequenino começa a sofrer. Enquanto as crianças de lá correm livres pelo mato, as daqui, mal começam a trocar os passos, já estão indo para a escola, quase sempre à força, para trabalhar, ou seja — estudar. E daí até se formarem é aquele cativeiro, obrigadas a aprender tudo que passa pelas estúpidas cabeças dos adultos, a atenderem às manias, preconceitos e à falsa sabedoria dos mais velhos. Menino que odeia matemática, tem que estudar matemática, a pau e a corda. E assim os que odeiam gramática, ciências naturais, física e química; e a prova de que muitas dessas imposições não são tão impositivas quanto se alega, é que com o passar do tempo elas são retiradas do currículo — como hoje o latim, o grego, a retórica. E já houve um tempo em que não se podia conceber infeliz estudante que não recebesse, goela abaixo, o latim ou a retórica.

Fala-se em vocação. Não acredito muito em vocação, salvo aquelas que explodem espontaneamente, como Jorge Amado fazendo romance aos 17 anos, Mozart compondo música criança ainda. Mas hoje há testes vocacionais para descobrir as vocações mais recônditas dos meninos — quando está na cara que os meninos não têm vocação nenhuma, só vão fazer os cursos que lhes são impingidos ou obrigados — nasceram mesmo para o lazer — a chamada sombra e água fresca.

A alegria do trabalho. Pode ser, mas eu por mim não conheço. Nunca trabalhei com gosto — no sentido de trabalhar como cumprir obrigação. Porque cozinhar um almoço para a família reunida pode ser realmente um ato gratificante, inventar comidas pode dar a alegria da criação — mas dar conta do feijão com ensopadinho de cada dia, nós sabemos como é chato; e depois ainda tem que lavar as panelas.

E como cozinhar é escrever, costurar, cuidar de criança, tocar música, representar no teatro. Enquanto se está na etapa voluntária e criadora, ótimo. Mas depois que deixa de ser invenção e diversão para virar tarefa, quer dizer trabalho, é sacrifício demais.

Fonte:
Rachel de Queiroz. As Menininhas e outras crônicas. 
RJ: J. Olympio, 1976.

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