sexta-feira, 3 de junho de 2022

Estante de Livros (Essa Terra, de Antônio Torres)


Resumo


A história tem seu início com o relato da lembrança de Totonhim, o narrador da história, a cerca do retorno do irmão Nelo ao Junco, uma pequena cidade do interior da Bahia onde moravam. O irmão havia fugido para São Paulo em busca de melhores condições de vida.

A condição da família era de extrema pobreza, principalmente quando se mudaram para Feira de Santana em busca de estudo para os filhos. A princípio, Nelo mandava dinheiro para a mãe, mas, com o tempo, não mandou mais. Por morar em São Paulo, toda a família acreditava que Nelo estava rico. Mas ele retorna fracassado.

A família era composta pelos pais e doze filhos, mas apenas três permaneceram em Feira de Santana com a mãe, o pai não achava importante o estudo e ficou um bom tempo sozinho no Junco, os outros irmãos estavam espalhados. A mãe falava de Nelo de forma carinhosa, diferente dos outros irmãos. Totonhim havia saído de Santana e voltou para a roça para morar com o avô.

Um dia, Nelo se embebedou e enquanto o irmão o ajudava, contou-lhe a trágica história de como perdeu os filhos e a mulher para um primo e ainda foi espancado pela polícia. Dias depois, Totonhim foi chamar Nelo para ir tomar banho no rio e encontrou-o enforcado, pendurado numa corda no armador da rede.

O pai é quem constrói o caixão, pois era carpinteiro. Enquanto isso, ele recorda suas desgraças, lembra-se de como perdeu as terras para o irmão e ficou sem nada. Totonhim faz uma reflexão sobre quem ele é e também relembra suas desgraças. A mãe começa a dar sinais de loucura com a morte do filho no qual depositava todas as esperanças. O romance termina com a internação da mãe, o enterro de Nelo e a partida de Totonhim para São Paulo.

Sobre o autor

Antônio Torres é um jornalista e escritor brasileiro. Nascido no interior da Bahia, tem os temas rurais como os mais recorrentes em sua obra. Faz uma releitura do regionalismo, mostrando de forma irônica as paisagens e os estereótipos locais.

Importância do livro

O romance Essa Terra, lançado em 1976, tem um caráter autobiográfico por ter seu autor vivido a mesma trajetória do personagem principal: a migração do sertão para a capital. A obra traz à tona a dificuldade vivida por uma família no interior da Bahia e, com isso, retrata a diferença entre a capital e o interior. Tem uma temática regionalista, porém num teor crítico, já que os personagens vivem uma crise de identidade e não nutrem amor pela sua terra. O narrador-personagem conta a trajetória de seu irmão Nelo, o personagem principal que migra para São Paulo em busca de melhores condições.
Análise

Pode-se dizer que a obra se aproxima de uma autobiografia, já que o próprio autor viveu a experiência do personagem principal ao sair do interior da Bahia para buscar uma vida melhor nas metrópoles do sudeste. O romance aborda o drama da migração nordestina para São Paulo, relatando o impacto da "cidade grande" sobre o retirante e também as consequências sociais e psicológicas que envolvem a família que permanece.

O romance apresenta o panorama do país no século XX, ao tratar do contraste dos grandes centros desenvolvidos em comparação ao sertão esquecido. Contribui, assim, não só para uma reflexão sobre as diferenças sociais, mas também sobre a questão da identidade do ser humano.

O personagem Nelo, ao se afastar do sertão, acaba se esquecendo de sua identidade e de suas raízes, ao retornar sem cumprir as expectativas de enriquecimento de sua família, acaba pondo fim a sua vida. O suicídio sintetiza o impasse: com o desenraizamento, ao retornar derrotado, não lhe resta mais nada e a frustração põe fim ao personagem.

Apesar da caracterização sertaneja do Junco e a presença de uma temática regional, não se trata de uma obra propriamente regionalista, podemos afirmar que o regionalismo, neste caso, é problematizado. Ocorre uma desconstrução do espaço regional identitário a partir da falta de identidade regional. Não existe aqui uma nostalgia do sertão, como em outras obras regionalistas, mas sim um olhar crítico.

A crítica é construída através do narrador-personagem Totonhim, a partir da sua visão é possível observar o Junco como figura de crise, instabilidade e de pobreza. Tal crise é estendida também à família, pois ambos sofrem pela seca, em ambos a migração se faz presente. Desta forma não tem como separar bem o sofrimento da terra do sofrimento das pessoas. Totonhim é o narrador-personagem que evidencia uma distância crítica em relação aos problemas do Junco e se posiciona de modo reflexivo em relação à terra (o Nordeste) e aos outros.

Personagens

- Totonhim: narrador-personagem. Através de sua visão percebemos a realidade da cidade de Junco e a falta de esperança em relação a sua terra.

- Nelo: personagem principal que sai do Junco para São Paulo em busca de melhores condições, mas retorna fracassado e acaba cometendo suicídio.

- A mãe: vive brigando com o marido e se queixando dos filhos, menos de Nelo, a quem trata diferente, tendo esperanças que ele a tirasse do sertão. Com a morte do filho, enlouquece.

- O pai: perde as terras para o irmão e acaba ficando sozinho no Junco quando a família se muda para Feira de Santana por causa do estudo dos filhos. Acaba sozinho com Totonhim partindo para São Paulo.

- Zé da Botica: farmacêutico do lugar, ajuda Totonhim no enterro de Nelo.

- Pedro Infante: amigo de infância de Nelo, arrepende-se de não ter feito as pazes com o amigo ainda vivo. Não se falavam por conta de uma surra que Nelo levou sozinho por uma travessura que ambos fizeram juntos por ideia de Pedro.

- Zé do Pistom: baiano, primo de Nelo que rouba sua mulher em São Paulo.

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