domingo, 9 de agosto de 2026

Geraldo Pereira (A Emparedada da Rua Nova – Verdade ou Ficção?)


Quase todos os recifenses que estão na sexta década de vida ou que já passaram, ouviram falar no caso, na Emparedada de Rua Nova, senão como um romance escrito pelo fundador da Academia Pernambucana de Letras, Carneiro Vilela, mas como um acontecimento trágico, o qual, por certo, marcara a vida da cidade no século XIX. A minha mãe fazia menção ao caso e mesmo sem conhecer os detalhes da obra, contava sempre o drama do centro do Recife. Lucilo Varejão Filho, autor do Prefácio à 4ª edição, comenta, também, que ouvira o relato pela boca de uma velha senhora, sem aptidões intelectuais, mas de qualidades domésticas indiscutíveis, responsável pelas histórias que ouvira na adolescência de seus anos, com as quais tanto se encantara.

O autor publicou sua obra em folhetins que circulavam nos jornais da época, começando em 1871, com Noivados Originais, em periódico que ajudara a fundar: América Ilustrada. A Emparedada saiu entre agosto de 1909 e janeiro de 1912. Por isso, pelo longo período de divulgação no Jornal Pequeno, onde foi acolhido, talvez pelo suspense do enredo, tornou-se tão volumoso, com 477 páginas. Mas, é um texto de uma bem tramada arquitetura literária, construído por quem tinha a capacidade de um escritor de histórias policiais, como alude Varejão. É, de igual forma, uma descrição dos cenários do velho Recife e das cenas de então, as do comércio e, sobretudo, aquelas do inteiramente doméstico. Um retrato bem escrito dos convívios e das convivências em tempos assim, tão distantes então.

O desenrolar dos acontecimentos era a Capital pernambucana, nos idos de 1861, quando os negócios giravam em torno das ruas centrais, onde, aliás, ainda hoje está a velhíssima rua Nova, para usar, ainda, a expressão de Lucilo Varejão. Estabelecimentos comerciais, que abrigavam no andar superior o lar de seu proprietário e de sua família, quando não de algum caixeiro mais chegado. No caso de Jaime Favais, o seu sobrinho, português como ele, João Favais, logo nomeado primeiro caixeiro, assistia por lá, no pavimento térreo, longe da parentela. Um Recife pequeno, mas de distâncias enormes; distâncias que encurtaram com o passar dos anos, com o crescimento urbano e especialmente com o desenvolvimento dos transportes. Circulava-se à cavalo ou em carros puxados por parelhas eqüestres também.

O drama tem inicio nas atividades sociais dos personagens envolvidos, gente da aristocracia, ligada aos negócios do açúcar ou envolvida com o comércio. O teatro Santa Isabel, de tantas tradições, foi o palco apropriado e pelo destino escolhido para a aproximação entre dois importantes figurantes da trama: Leandro e Celeste. A descrição que o autor faz do pivô do crime – Leandro Dantas –, parece antecipar o que disse o jornalista Arthur Carvalho, em deliciosa crônica que escreveu no Jornal do Commercio, do Recife: O Homem Invisível. Era assim o falso estudante de medicina! Uma pessoa que frequentava as rodas sociais, mas que ninguém sabia de onde viera, o que fazia e como se sustentava. Um conquistador, na acepção da palavra, capaz de atrair simpatias variadas, da mulher casada à solteira, recatadas e pudicas, todas.

O galanteador, quando estava na cidade – dizia-se baiano –, hospedava-se no Convento do Carmo. E ali recebia algumas de suas visitas, como a do marido de Celeste, Tomé Cavalcanti, o qual por um triz não viu as cartas da mulher, graças à intervenção de Jereba, um amigo fraterno de Dantas. Sobre Cavalcanti, aliás, comenta Carneiro Vilela que ele integrava uma família cujo erro político fora expulsar os holandeses de Pernambuco. Mas Celeste, mulher dos agrados de Leandro, tivera uma educação complicada. O seu pai, próspero senhor de engenho, casara aos quarenta anos com a filha mais velha de um lavrador, com quem tivera este rebento e mais dois filhos. Mas, era, como outros daqueles anos, que se arrogavam em donos da vida e da morte de seus escravos e nunca dispensavam uma negra bonita e faceira. Assim, tivera muitos bastardos e deles deu conta a esposa, criando-os como se mãe também fosse.

A questão é que Celeste, depois de vinda do colégio onde estivera interna, tornou-se cheia de caprichos, dominadora, mas querida por todos. Com o coração meigo e carinhoso pôde exercer fascínio, influência e predomínio. Fez o pai dispensar a palmatória com que castigava os escravos e mudou o trato dispensado aos negros, permitindo-os o cantar e o dançar de seus agrados. Em compensação, tornaram-se os cativos mais produtivos e o lucro aumentou. Ela, porém, transformou-se na mais namoradeira das moças do lugar, quase sem recusar um pretendente sequer.

Josefina parecia ser diferente, em que pese terem estudado no mesmo colégio e sujeitas, evidentemente, às mesmas normas e às mesmas posturas rígidas das religiosas, se bem que expostas, também, como chama atenção o autor, às insinuações maldosas dos confessores. Assim, era uma mulher das chamadas prendas domésticas, ligada ao lar e à família, sobretudo à filha Clotilde. O reencontro com Celeste teve um efeito muito forte em Josefina, transformando-a numa pessoa que de momento para outro passou a frequentar os encontros sociais todos, veraneando no Monteiro e visitando a família Cavalcanti habitualmente. Terminou apaixonada, também, pelo Homem Invisível como se intitulou aqui, nessas linhas. E o pior de tudo, Clotilde, igualmente, caiu de amores por Dantas e dele engravidou. Jaime Favais não aceitou a traição da esposa e não admitiu a gravidez da filha. Mandou matar o amante e condenou à morte, do mesmo jeito, a filha amaldiçoada. O fato correu o Recife, de fora a fora.

Carneiro Vilela, diz que está contando a verdade. Mas Rostand Paraíso, médico e escritor, justifica que tudo não passou de um boato, nunca comprovado. E na rua Nova, verdade ou ficção, ninguém sabe, uma mulher esteve enterrada na parede.
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(*) - Crônica escrita há algum tempo e assim apresentada em congresso de médicos escritores, na cidade de Fortaleza.
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O médico e escritor GERALDO JOSÉ MARQUES PEREIRA foi uma das figuras mais proeminentes da vida intelectual, acadêmica e científica do estado de Pernambuco. Nasceu em 1944, na cidade de Recife/PE e faleceu em 2015, aos 70 anos de idade, na cidade natal, em decorrência de complicações provocadas por doença pulmonar obstrutiva crônica.  Passou toda a sua vida e concentrou suas atividades residenciais e profissionais na capital pernambucana. Ele era filho do renomado jornalista e escritor Nilo Pereira. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1968, onde posteriormente também obteve seu título de mestre em Medicina Tropical. Foi professor titular de Patologia e Medicina Tropical da UFPE. Na área administrativa da instituição, ocupou os postos de diretor do Centro de Ciências da Saúde, chefe do Departamento de Medicina Tropical e fundador do Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (NUSP). Exerceu o cargo de vice-reitor da UFPE por oito anos (entre 1996 e 2004) e chegou a assumir a Reitoria em exercício durante o ano de 2003. Atuou fortemente na gestão de saúde do estado, integrando a Comissão Estadual de Saúde e a Comissão Científica de Combate à Dengue em Pernambuco.
Geraldo Pereira uniu de forma brilhante a ciência médica à paixão pelas letras. Teve uma intensa produção intelectual focada em crônicas, ensaios historiográficos e biografias. Membro da Academia Pernambucana de Letras (APL) desde março de 2011, exercia a função de vice-presidente da instituição no período de sua morte. Membro efetivo da Academia Pernambucana de Medicina (APM), instituição da qual também chegou a ser presidente. Membro ativo da seção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores (UBE), membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), onde atuou como membro suplente do conselho fiscal e colaborador assíduo de pesquisas históricas. Embora sua maior distinção tenha sido o reconhecimento institucional imediato e a eleição para as principais academias do estado de forma unânime por seus pares, suas produções científicas e ensaios históricos acumularam distinções e condecorações de mérito universitário e cultural em Pernambuco.
Sua escrita dividia-se entre a literatura humanista e os resgates documentais. Dentre as suas frentes de publicação destacam-se: 1. Ensaios profundos sobre a História da Medicina em Pernambuco (focando especialmente no período seiscentista e na influência holandesa sobre as ciências naturais, botânica e zoologia no estado); 2. Coletâneas de crônicas e artigos de opinião publicados regularmente em veículos de grande circulação, como o Jornal do Commercio; Textos biográficos sobre grandes vultos da ciência e da política pernambucana, além de poemas íntimos (alguns escritos inclusive em seus dias finais de internação).
A relevância de Geraldo Pereira reside na sua capacidade de atuar como um historiador da ciência e da sensibilidade. Em uma época de crescente especialização técnica, ele resgatou a tradição dos "médicos-humanistas". Suas pesquisas minuciosas sobre o século XVII em Pernambuco preencheram lacunas cruciais na historiografia local, conectando elementos de sociologia, artes e medicina social. Além disso, como gestor e acadêmico, transformou as instituições literárias em polos de preservação da memória cultural do Nordeste.

Fontes:
Blog do Autor. 11.mar.2009.
https://blogdegeraldopereira.blogspot.com/2009/03/emparedada-da-rua-nova-verdade-ou.html
Biografia = Acta Médica, Academia de Letras do Pernambuco, Diário de Pernambuco, Wikipedia, Folha de São Paulo (cotidiano), etc.

Sílvio Romero (O Sarjatário)

(Folclore do Sergipe)
HAVIA UM PESCADOR QUE TINHA MULHER e uma filha, e costumava pescar sempre num rio que ficava a pouca distância de sua casa. 

Uma vez o pescador foi à pesca, e largou por muitas vezes a tarrafa na água, e não tirou nem um peixe. Já desapontado, e depois de ter corrido os poços mais apropriados à pesca e sem encontrar nada, ia-se retirando para casa muito triste. Ao pôr-se a caminho, ouviu uma voz que lhe dizia: “Se me deres a primeira coisa que avistares quando chegares em tua casa, eu te darei muito peixe.” 

O homem pôs-se a considerar consigo mesmo, e dizia: “Ora, senhor, quando eu chego em casa, a primeira coisa que me aparece é a minha cachorrinha de balaio; não faz mal; posso dá-la.” 

Virou-se para o lado de onde vinha a voz, e disse alto: “Pois bem; aceito.” 

A voz respondeu: “Pois pesca ali.” 

O pescador meteu a tarrafa, e quando tirou vinha se rasgando de peixe. A voz lhe disse: “Sábado a estas horas vem me trazer a primeira coisa que hás de ver ao chegares à tua casa.” 

O homem retirou-se. Ao avistar a sua casa, a primeira coisa que viu foi a sua filha, que, já estando inquieta por causa da sua demora, estava só pondo o olho no caminho, a ver se o descobria. O homem ficou muito triste, e entrou em casa com ar fechado, e atirou o peixe para um lado e não deu nem uma palavra.

A mulher e a filha se admiraram daquilo, e perguntaram qual a razão daquela tristeza. Depois de muito instado, o pescador confessou a verdade. 

A moça não desanimou e disse: “Não tenho medo, meu pai; se vossemecê deu a sua palavra de honra, eu irei.” 

A moça tinha um cavalo com quem consultava tudo, e foi ter com ele e lhe contou o ocorrido. O cavalo disse: “Não tem nada; monte-se em mim no sábado, e faça o que eu vou lhe dizer: quando chegarmos à beira do rio, e depois de seu pai se despedir da senhora, a tal voz, que é de um bicho muito feio, há de dizer: Adeus, siá Maria Gomes!’ e a senhora há de responder: ‘Adeus, seu Sarjatário!’ Ele há de dizer: ‘Muito me admira, siá Maria Gomes, da senhora não me conhecer e por meu nome tratar.’ Ao que a senhora há de responder: ‘Oh, seu Sarjatário, muito me admiro do senhor não me conhecer e por meu nome tratar.’ Ele há de dizer: ‘Está bom, está bom! Caminhe, caminhe!’ Hão de seguir e passar por umas campinas muito extensas e depois por umas matas muito altas e cerradas de fazer medo. Lá no fim das matas há um grande muro, que tem um portão, e o Sarjatário há de mandar a senhora abrir a porta e entrar adiante. A senhora não caia nessa e diga: ‘Não, seu Sarjatário, vá o senhor adiante que sabe os quatro cantos de sua casa.’ Ele há de abrir a porta e entrar; nisso a senhora passe a mão na chave; dê a volta e tranque a porta e deixe o bicho lá preso, e deixe o resto por minha conta.” 

Assim foi. No dia aprazado, a moça montou no seu cavalo Bufanim e seguiu. Na beira do rio avistou aquele bicho-homem de barbas muito compridas e cabelos enormes da forma de samambaias, e fez tudo que o cavalo lhe ensinou. Depois que fechou o monstro lá dentro do muro, ela partiu no Bufanim, voando como o vento. Depois de muito andarem, e de já não ouvirem mais os urros que o Sarjatário ficou dando, e quando já estavam muito longe, foram dar num reino. Aí o Bufanim aconselhou a moça que se disfarçasse em homem. 

Assim fez a moça; entrou para a cidade, alugou uma casa e passava por um moço. Tomou muitos contatos e tudo quanto fazia era sempre com os conselhos do Bufanim. 

Passados alguns tempos — o moço agora não é mais ela, é ele — foi apresentado ao rei, que era solteiro, por um de seus amigos. O rei gostou muito do moço e sempre o convidava para ir passar dias em palácio. 

O Bufanim recomendou-lhe todo o cuidado para não ser descoberto. Ora, a mãe do rei começou a dizer ao filho: “Aquele teu amigo não é homem, é mulher.” Ao que respondia o rei: “Lá vem minha mãe com as histórias dela... Qual, minha mãe! É homem e bem homem!” A rainha respondia: “Está bom, vamos para diante.” 

Um dia a rainha disse ao rei: “Meu filho, se tu queres ver se teu amigo é mulher ou não, convida-o para dares com ele um passeio pela cidade, e leva-o aos estabelecimentos de roupas e modas, e hás de ver como ele se há de agradar justamente dos objetos pertencentes às senhoras.”

O rei ficou certo de o fazer, e convidou de fato o moço para um passeio, ao que ele acedeu. Foi ter com Bufanim e o cavalo lhe disse: “Estamos perdidos!... Agora se descobre o segredo... Enfim, veja bem o que vai fazer: quando entrar nas lojas de roupas e modas com o rei, nunca se agrade de objeto algum de senhora, sempre dos de homem. Quando o rei lhe mostrar um belo vestido, mostre-lhe um bonito corte de calças, e assim por diante.” 

Assim foi; no dia aprazado para o passeio, o rei percorreu com ele toda a cidade entrando nas lojas mais importantes, e nunca pôde pilhar nada. Largou-se para palácio e disse à velha rainha: “Eu não disse, minha mãe? O rapaz é homem e bem homem; não se agradou de objeto algum que não fosse de homem!” 

A velha respondeu: “Isto é de propósito para não ser descoberto; mas ele é mulher; se tu queres ver convida-o para ir dar um passeio nas tuas fazendas com outros teus amigos, e lá convida-o para tomar um banho e hás de ver que ele não há de querer.” 

O rei convidou o moço para irem um certo dia às fazendas e tomarem um banho, e o moço aceitou. Foi ter o moço com Bufanim e lhe contou o caso. 

Bufanim disse: “Eh!... Está tudo perdido! Enfim, faça o que eu lhe vou dizer: chegando lá nos tanques do rei não faça cerimônia, vá tirando a sua roupa como os outros; quando a senhora já estiver de ceroulas e camisa eu me solto e entro a dar coices e patadas nos outros cavalos; os criados do rei hão de correr para me pegar, e eu hei de machucar alguns, até que a senhora diga que só a senhora é capaz de me pegar. Corra atrás de mim até ficar cansada e suada e depois queira tomar o banho; o rei, vendo isto, não há de consentir, e assim a senhora escapa do banho.” 

Assim foi; no dia marcado deu-se tudo tal e qual, e o moço escapou do banho com instâncias do rei. 

Chegando este ao palácio disse: “Ora, minha mãe, o rapaz é homem; ia já se pondo nu e queria tomar banho à força apesar de suado.” 

— “Mas suado por quê, meu filho?” 

— “Por ter corrido atrás de seu cavalo”, disse o rei. 

— “Isto é de propósito, respondeu a rainha; se tu queres ver, continuou ela, se ele é mulher ou não, convida-o para vir passar uma noite contigo ajudando-te a copiar a tua correspondência; ele não há de aguentar a noite inteira acordado, e quando ele pegar no sono, desabotoa-lhe a camisa e hás de ver os seios de mulher.” 

O rei convidou o amigo, para passar uma noite em palácio ajudando a copiar a sua correspondência. O moço consultou com o Bufanim, que lhe respondeu: “Desta a senhora não escapa. Enfim faça tudo por não dormir, senão é descoberta com toda a certeza.” 

Na noite marcada, o moço se apresentou e começou o trabalho. O rei ditava e ele escrevia. Foram indo, foram indo e nada de ninguém dormir. Mas lá para quatro horas da madrugada o moço cochilou e pegou no sono. Aí o rei veio devagarinho e desabotoou-lhe a camisa e pegou nos seios, que ali estavam durinhos e guardadinhos... 

O rei quando lhes botou a mão em cima foi dizendo: “Oh, senhora dona!” 

Aí apareceu logo a mãe do rei e deu à moça roupas de mulher, e ela, muito envergonhada, pediu muitas desculpas ao rei, que logo a pediu em casamento. Depois de casados o Bufanim conservou-se sempre em poder da moça. 

Passados alguns meses a nova rainha apareceu pejada e o rei teve que seguir para a guerra, e levou o Bufanim. 

Na despedida o cavalo disse à rainha: “Quando se achar em algum perigo grite por mim três vezes, que eu lhe hei de aparecer.” 

Depois de estar o rei na guerra já algum tempo, a rainha deu à luz dois meninos, a coisa mais linda que dar-se podia. 

A velha mãe do rei ficou muito contente, e escreveu ao filho dizendo que sua nora tinha dado à luz dois príncipes, que estavam muito fortes, e eram muito belos, e mandou levar a carta por um soldado, recomendando-lhe muito cuidado. 

O soldado, por caiporismo (azar), foi, depois de muitos dias de viagem, pernoitar na casa do Sarjatário, que se fingiu de tolo, e perguntou que novidades havia. O soldado lhe contou que não sabia de nada, mas que levava uma carta para o rei. 

O Sarjatário, quando o soldado pegou no sono, foi à sua mala, tirou a carta, e botou lá outra imitando a letra, e dizendo que a rainha tinha dado à luz dois sapinhos, e que a corte estava coberta de luto. 

O soldado seguiu viagem e entregou a carta ao rei, que ficou muito aflito, mas mandou em resposta à mãe — que sapinhos ou não, fossem eles muito bem tratados. 

O soldado seguiu com a resposta, e, ainda por caiporismo, foi pedir rancho na casa do Sarjatário. De novo este monstro foi à mala do soldado e tirou a carta e botou outra no lugar, imitando a letra do rei, e dizendo que a sua mãe mandasse pôr a sua mulher e os dois meninos na Montanha das Feras. 

O soldado seguiu, e, quando a rainha velha leu a resposta, ficou muito agonizada e mandou reunir os conselheiros para lhe dizerem se devia executar aquela ordem terrível. 

Todos ficaram muito aflitos, mas responderam que palavra de rei não volta atrás, e por isso devia ser cumprida a ordem. 

Assim se fez, e a rainha teve de seguir com seus dois filhinhos para a Montanha das Feras. As pessoas que as foram levar, retiraram-se, e a rainha com seus filhos viram-se sozinhos. Mas as feras bravias que ali havia não as ofenderam. 

Eis que de repente apareceu aos olhos da rainha aquele monstro horrível e medonho, era o Sarjatário! 

“Agora vim me vingar, senhora Maria Gomes. Vamos a ver quem pode mais”, disse o monstro. 

A rainha ficou muito aterrorizada e pediu compaixão, mas o Sarjatário a nada se moveu. A rainha, convencida de que ia morrer, pediu para dar três gritos. 

“Pode dar cem ou mil!”, respondeu o Sarjatário. 

Então ela gritou: “Bufanim, ó Bufanim!” Isto três vezes. 

No fim do terceiro grito o Bufanim apresentou-se. O Sarjatário, quando o avistou, deu um pulo para o lado, e pôs-se em distância. Então o cavalo disse à moça: “Eu vou ter uma grande luta com aquele monstro e vou morrer; mas ele também há de morrer. Eu peço somente que arrume uma grande fogueira e deite nela o corpo do monstro; o meu corpo deixe-o aí ao tempo para os urubus o comerem.” 

Dito isto atirou-se ao Sarjatário e começou a briga. A luta foi furibunda, e os dois caíram mortos, cada qual para seu lado. A moça fez o que o Bufanim lhe tinha dito, e largou na fogueira o cadáver do Sarjatário e deixou exposto ao ar o do cavalo. 

Depois de muito chorar, e abraçar o pobre cavalo, ela foi seguindo por uma grande campina que ali havia. Depois de muito andar, avistou muito ao longe uma casa. Ao chegar perto, reconheceu um palácio grande e muito ornado. Entrou e não viu ninguém. À hora de comer viu aparecer uma mesa muito preparada, e ela sentou-se e comeu, aparecendo somente umas mãos que lhe indicavam os objetos, mas sem a moça ver ninguém, nem ouvir falar. Também as mãos apresentavam comida para as criancinhas. À noite apareceram luzes acesas e camas para se deitarem. Assim passou a moça muitos meses, até que o rei, voltando da campanha, e não encontrando a mulher, e sabendo de tudo ficou desesperado, e quis também ir para a Montanha das Feras; viu alguns ossos pelo chão e sinal de fogo, mas reconheceu que não eram ossos de gente humana. 

Pôs-se a andar pela campina, e seguiu na mesma direção que tinha levado a rainha. No cabo de muito andar foi ter ao mesmo palácio, e avistou uma moça na janela, ao mesmo tempo que um dos meninos, que neste tempo já falavam, gritou: “Olhe, mamãe, lá vem papai!” 

— “Ah, quem dera que fosse teu pai!” 

— “É ele mesmo”, respondeu o rei. 

Muita foi a alegria e satisfação de todos, que voltaram para a cidade e viveram felizes ainda muitos anos.
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     SÍLVIO ROMERO (nome literário de Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero) foi um dos maiores intelectuais, críticos literários, ensaístas e historiadores do Brasil no século XIX e início do século XX. Homem de personalidade combativa e polêmica, ele revolucionou a forma de se pensar a identidade nacional, sendo o pioneiro na historiografia literária científica no país e um dos maiores defensores do folclore e da cultura popular como bases da nossa literatura. Nasceu na Vila de Lagarto (atual município de Lagarto), Sergipe, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (então capital federal), em 1914, aos 62 anos. Passou a infância e as primeiras letras no Sergipe. Mudou-se para Recife/PE para realizar seus estudos preparatórios e superiores na Faculdade de Direito. Fixou residência definitiva a partir de 1880, no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira profissional, literária e política até o fim da vida. Foi professor de Filosofia no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cargo que conquistou por meio de um célebre e disputado concurso público em 1881. Posteriormente, lecionou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Atuou como advogado e foi promotor público na província de Minas Gerais (em Estrela do Sul) e em sua terra natal. Com a Proclamação da República, ingressou na vida política ativa. Foi eleito Deputado Federal por Sergipe em duas legislaturas (1891–1893 e 1900–1902), participando ativamente dos debates jurídicos e culturais da nova República.
Iniciou sua vida literária ainda estudante em Recife, colaborando com jornais acadêmicos. Ele fez parte da chamada Escola de Recife, um movimento intelectual liderado por Tobias Barreto que introduziu o positivismo, o evolucionismo e o criticismo filosófico alemão no Brasil. Romero abandonou cedo a poesia para se dedicar à crítica literária e ao ensaio sociocultural. Ele utilizava as teorias científicas de sua época (como o determinismo de Taine e o evolucionismo de Spencer) para analisar a produção literária brasileira sob uma ótica sociológica. Ficou conhecido por suas polêmicas ferozes com outros intelectuais da época, como Machado de Assis e José Veríssimo. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Participou ativamente das reuniões de fundação em 1897 ao lado de Machado de Assis, embora mantivesse uma postura crítica em relação ao formalismo excessivo da instituição.  Foi membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando o espaço para suas pesquisas historiográficas e geográficas. Na virada do século XIX para o século XX, não existiam prêmios literários institucionais de grande porte no Brasil (como o Prêmio Jabuti ou o Prêmio Camões, criados décadas mais tarde). O reconhecimento de Sílvio Romero deu-se por meio do enorme prestígio acadêmico, aclamação pública de seus pares e pela rápida consagração de suas obras como manuais de estudo obrigatórios nas faculdades do país.
Sua produção foi vasta e abrangeu a poesia, a crítica, a história e o folclore:
Historiografia e Crítica Literária: História da Literatura Brasileira (1888) — Sua obra-prima absoluta e divisora de águas; Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897); Evolução da Literatura Brasileira (1905).
Estudos de Folclore e Cultura Popular: Cantos Populares do Brasil (1883 e 1885)
Poesia (Fase Inicial): Cantos do Fim do Século (1878).
A importância de Sílvio Romero é monumental porque ele foi o fundador da crítica literária moderna e da historiografia científica no Brasil. Antes dele, a história da nossa literatura era vista de forma amadora ou meramente biográfica. Romero foi o primeiro a estruturar uma análise que conectava a produção artística à formação social, étnica e psicológica do povo brasileiro. Ele teve a sensibilidade genial de perceber que a verdadeira literatura brasileira não nascia da cópia dos modelos europeus, mas sim da mestiçagem cultural. Ao recolher, catalogar e publicar os cantos, contos e mitos do interior do país, ele salvou o folclore nacional do esquecimento e provou que as manifestações populares eram a base autêntica da nossa identidade. Sua obra abriu caminhos diretos para o Modernismo de 1922 e para os estudos sociológicos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Ebiografia, Wikipedia, Ricardo Velez, Cia. das Letras, Academia Brasileira das Letras, Infopedia, Revista da USP, Amazon, etc.

sábado, 8 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 211 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Haicai de
ZEKAN FERNANDES
São Paulo/SP

Fiel espantalho
Ainda guarda a plantação
Depois da colheita.
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Soneto de 
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Tributo a Severino Silveira de Sousa 

COMO o orvalho emergindo da aurora,
Quando o sol o dissolve na vegetação,
Espalhando pingos de ouro pelo chão,
Para vicejar a relva nativa e a flora;

Assim se expandem pelo mundo afora,
Quem sempre extrai da alma e coração,
Nobre sentimento e real dedicação:
-Tudo de bom que de seu âmago aflora... 

No livro da vida, um soneto perfeito!
Rendo-me, aqui, com todo meu respeito,
Ao colega gaúcho, exímio trovador: 

-Poeta Severino Silveira de Sousa!...
Pássaro cantor!... No galho onde pousa,
Com sua lira faz - "caramanchéis de amor!..." 
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Trova de
RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013

A mulher do sapateiro
que vive ao som do martelo,
bate sola o ano inteiro,
pondo o esposo no chinelo! 
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Soneto de
WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon/Grã-Bretanha, 1564 – 1616

Soneto 2

Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.

Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,
E provará ter herdado de ti toda a formosura.

Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.
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Haicai de
NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Desses livros velhos
eu sei bem a idade deles—
das traças, não sei.
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Soneto de
AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO, 1925– 2002, Rio de Janeiro/RJ+

Sonetos Elementares: XIII

Nada há de mais num túmulo sem flores
perdido numa estrada. Mas em nós
existem solidões, almas que sobram
de um sonho já sepulto ou de silêncios.

Vai comigo o silêncio enquanto fujo
das multidões, das ruas e do amor
que poderia ser – e no silêncio
as tristezas e os risos vão comigo.

Mas que desejo é este que me impele
para as sombras e os ermos, onde, lúcida,
vem sempre me acolher minha presença?

Ontem o rio estava quieto, hoje corre
impetuoso. Eu olho e nada estranho:
muito de mim eu vejo nessas águas.
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Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

"Esta peixada está quente!"
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: "Ó xente,
'se qué', tem pexera fria!”
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Poema de
JOSÉ CRAVEIRINHA
Maputo/Moçambique, 1922 – 2003, Johannesburgo/África do Sul 

A nossa casa

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitetura retangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
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Trova de
MARIA TEREZA NORONHA 
São Paulo/SP

O livro, a cerveja ao lado,
o rádio, o abajur antigo...
Eu deixo tudo arrumado,
fingindo que estás comigo.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
HENRIQUE ABRANCHES 
Lisboa/Portugal, 1932 – 2004, África do Sul 

Ao Bater da Chuva

A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem, 
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces,
a chuva bate o capim molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
                                                                              
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de proteção!
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
                                                                          
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...
= = = = = = = = = = = = = =  

Aldravia de 
EDIR MEIRELLES
Rio de Janeiro/RJ

emocionado
em
silêncio
pela
palavra
apunhalado
= = = = = = = = = = = = = =  

Um Poema de
ANTONIO OLINTO
(Antonio Olyntho Marques da Rocha)
Ubá/MG, 1919 – 2009

Noturno

Os rios da noite passam pelos desvãos do homem,
por todos os pedaços vazios da memória,
pelos olhos secos de tanta sombra.

É uma presença física
de palavras batidas de vida,
de silêncio oscilante da iminência do grito.

As árvores estão sós - o vento é morto
é preciso um avançar exato do gestos
para captar a vida sob as horas imóveis.

Um piano aberto na areia,
diante do mar e das pedras.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Muito suor foi preciso,
mas minha audácia venceu:
- finalmente, o chão que eu piso
tem dono... e o dono sou eu!!! 
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
FRANCISCO NEVES MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012

Cruviana* Sertaneja

Ah cruviana...
Descobri-a numa noite da minha adolescência
no alpendre da casa grande de Coroas Limpas
na minha Santana do Matos.
Tremia feito "vara verde"
Não, não era o frio!
Era o medo de não saber se tu cruviana,
Seria uma onça  ou uma alma penada.
E pela manhã fui dicionariZar o meu medo...
Beleza!
A grande descoberta!

Chega em tornado, 
acordam os trabalhadores das fazendas 
e os envia fora para o trabalho. ...
Meu Deus, que alivio!
E o alpendre da velha casa de Coroas Limpas,
ganhava um "dormidor"
para curtir a cruviana 
de cada emadrugadecer!
= = = = = = = = = = = = = =  
*Cruviana = É a Deusa do vento, a mulher do alvorecer.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
JOSÉ XAVIER BORGES JÚNIOR
São Paulo/SP

Hoje trago na lembrança
uma dor que sobrevive
num fiapo de esperança
pelo amor que nunca tive
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
DULCE AURIEMO
São Paulo/SP

O Castelinho 

Existe um lugar...você vai conhecer 
E quando chegar... pode entrar sem bater... 
A porta aberta vai sempre encontrar 
No alto da torre um sininho a tocar... 

No meu coração... bem guardado em mim... 
Aonde o amor... não tem fim, não tem fim... 
Tem um Castelinho pra gente brincar 
Já fiz seu cantinho você vai gostar... 

Tem água de coco, pãozinho de mel 
Pipoca, paçoca, sorvete e pastel... 
Brinquedo, livrinho, fantoche, massinha 
Balão colorido... herói de estorinha... 

Tem fonte, laguinho, jardim pra correr 
Passagem secreta pra gente esconder 
Tem ponte, riozinho, patinho a nadar... 
Até carruagem... que vai passear... 

As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
As sete notinhas eu vou ensinar 
E tantas canções vamos juntos cantar...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ORLANDO WOCZIKOSKY
Curitiba/PR, 1927 – 2019

É nobre quem não exalta
vitória já conquistada,
pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
CARMEN LÚCIA HUSSEIN
Taubaté/SP

Apenas

Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
As suas palavras
E boas atitudes
Para eu ser feliz
Ter esperança na vida
E energia para prosseguir
Amenizar a saudade
E dar rumo
E norte ao meu existir
Basta a sua existência
Não preciso tê-lo
Basta a sua lembrança
De momentos breves de felicidade
Para eu ser feliz!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
AUTOR ANÔNIMO

Já fui  alegre e contente,
hoje não sou mais ninguém.
Já fui consolo dos tristes,
hoje sou triste também.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
EDGAR ALLAN POE
Boston/EUA, 1809 – 1849, Washington/EUA

Annabel Lee 

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar. 

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar. 

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar. 

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar. 

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar. 

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Mensagem na Garrafa 206 = A Efemeridade dos Nós Digitais

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Diz-se que a internet encurtou distâncias, mas a verdade é que ela criou uma nova geografia da alma. Nela, o afeto viaja na velocidade da luz, mas a empatia, às vezes, empaca na primeira esquina de um mal-entendido.

Ricardo e Magda habitavam essa geografia flutuante há anos. Entre eles, não havia carne, mas havia essência. Ricardo era o amigo seguro de Magda, o mestre generoso que partilhava lições, o poeta que devolvia versos em dias sem par e o riso frouxo que iluminava os dias cinzentos. Nos invernos da vida, quando o chão de Magda cedia, era a mão invisível de Ricardo que a sustentava através de uma tela. Construíram um castelo de confidências, tijolo por tijolo, palavra por palavra.

Até que veio o cataclisma. Uma brincadeira boba, um chiste mal medido por ele, ou talvez mal traduzido por ela. No tribunal silencioso das telas, a palavra escrita não tem tom de voz, não tem o brilho do olhar, não tem o recuo do sorriso. Magda sentiu o golpe, a piada transformou-se em desrespeito em sua mente.

O que se seguiu foi o verdadeiro desrespeito: o silêncio punitivo.

Sem o benefício da dúvida, sem o direito à defesa, Magda acionou o carrasco moderno: o botão de bloquear. Apagou anos de dedicação com o mesmo peso de quem descarta um anúncio indesejado. Ricardo, o amigo de tantas batalhas, foi reduzido a zero. Virou um fantasma digital, condenado sem julgamento, sentenciado sem saber exatamente o tamanho de sua culpa. Ela o julgou pelo pior de seus momentos, ignorando a soma de tudo o que ele sempre foi.


Moral:
O desrespeito nem sempre se veste de agressão escancarada; muitas vezes, ele se esconde na recusa em ouvir o outro. Descartar uma longa história de amizade e cumplicidade por causa de um único erro, sem dar a chance de explicação ou pedido de desculpas, não é amor-próprio — é a arrogância de quem prefere ter a razão do que manter o amigo. No tribunal do orgulho, a justiça é sempre cega, surda e solitária.

JOSÉ FELDMAN (Floresta/PR)

Giuseppe Caonetto (Itinerário de uma gota)


a estrada
começa na minha casa
e não tem fim
(Sérgio Rubens Sossélla)

Aqui estou. Hora de me jogar. E como dói este instante final. Sei que é minha missão. Fui gerada para este momento. Na minha jornada realizei outras tarefas. No início, basal. Sonhava com o brilho nos olhos. Nos meus devaneios, via-me refletida em outro olhar. Não que eu quisesse ser reflexiva. Buscava mesmo as emoções. Aquele momento único. Como um gol no último minuto do jogo final. Ser jogada no gramado e ali permanecer, misturada a suor e pisoteada pelo time, na comemoração do título. Seria a eterna glória. Ou cair no concreto da arquibancada. Entraria para a história ao ser mostrada pelas câmeras da televisão, tocando suavemente, como um beijo, um lindo rosto transfigurado pela alegria. O mundo veria meu grande feito, um monumental salto no meio da multidão. Os sonhos às vezes se realizam, às vezes são só sonhos. Por certo não me jogaria sozinha. Aliás, nunca estive só. No meu tempo de condutora, integrar bem a equipe representava êxito na função. Assim também atuei quando ajudei na limpeza. Orgulho-me desses serviços. Éramos unidas, como uma família. E combativas também. Tenho consciência do dever cumprido. Minha vida foi de total entrega. Tenho saudade. O que seria motivo mais que suficiente para estar onde estou. Mas não. Aqui me sinto como testemunha solitária de uma dor que me empurra para fora, como quem faxina a casa e descarta lixos sob tapetes. Dependurada neste fio, prestes a me lançar ao chão, dependo apenas de um abrir de olhos. Sinto o movimento das pálpebras arroxeadas sinalizando que a hora chegou. Aproveito o impulso para projetar-me no ar e espatifar-me no pó da estrada, que tem início na porta da casa, mas não tem fim.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
GIUSEPPE CAONETTO é o nome artístico do poeta, escritor e editor José A. Cauneto, uma expressiva voz contemporânea da poesia e da difusão literária no estado do Paraná. Ele possui uma sólida produção voltada principalmente à poesia lírica, à tradição dos sonetos e à edição de novos autores por meio de seu próprio selo editorial. Nasceu em Tamboara/PR, em 1962, embora tenha o seu registro civil na vizinha cidade de Paranavaí. Viveu parte de sua adolescência na zona rural do estado de Mato Grosso do Sul, onde estudou em escola pública. Posteriormente, retornou para o Paraná e fixou residência definitiva no município de Paranavaí, onde atua ativamente na cena cultural. Construiu uma carreira de quase 37 anos na Justiça do Trabalho (TRT da 9ª Região), tendo ingressado em 1986. Aposentou-se em 2023. Ao longo desse período, exerceu cargos importantes de liderança, atuando como Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho (1994–2001) e de Paranavaí (2006–2015). É graduado em Letras (1989) e especialista em Língua Portuguesa (1992) pela Fafipa/Unespar. Também obteve o título de bacharel em Direito em 1997. No campo da escrita criativa, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores pela Metamorfose Cursos (2022). 
A escrita despertou cedo em sua vida, por volta de 1976 na zona rural, inspirada por poemas contidos em livros didáticos. No entanto, sua produção poética adormeceu durante os anos em que priorizou a carreira e os estudos acadêmicos. O retorno definitivo à literatura aconteceu em 1999, impulsionado pelo surgimento da internet e a conexão com comunidades virtuais de escritores. Após sua aposentadoria em 2023, fundou a Doarte Edições, editora voltada à publicação e promoção de obras poéticas e literárias no circuito paranaense. 
Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (ALAP); membro do Centro de Letras do Paraná. Foi selecionado e integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE) em 2023, coordenado pela Casa das Rosas de São Paulo. Foi um dos autores premiados na categoria Poesia durante a 54ª edição do aclamado Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP) em 2019, um dos festivais literários mais tradicionais e longevos do sul do país.
Livros Publicados: Santo Rosário: um tesouro mariano (2010) — Obra voltada à tradição religiosa; Para que os olhos falem: poemas ternos (2012); Doarte (2016) — Livro de poemas que mais tarde inspiraria o nome de sua editora; Trilhas sazonais: versos liturgos (2020) — Livro em coautoria com a escritora Lilia Souza; O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (2023); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (2024) — Obra em celebração à sua trajetória de vida, explorando a estrutura clássica dos sonetos; Tantum: apenas tanto (2025) — Reunião de poemas maduros escritos ao longo de uma década.
A contribuição de Caonetto reside na interiorização da produção literária e no fortalecimento do mercado editorial independente fora das grandes capitais brasileiras. Ao unir o rigor formal da poesia clássica — como visto na escrita de sonetos — a uma linguagem sensível sobre o cotidiano, o afeto e a passagem do tempo, ele ajuda a consolidar o norte e o noroeste do Paraná como polos produtores de cultura de alto nível. Além disso, por meio de palestras, rodas de conversa em universidades e da atuação na Doarte Edições, o escritor cumpre um papel fundamental de agente cultural, abrindo portas para novos poetas e estimulando o hábito da leitura nas novas gerações.

Fontes:
Biografia = sites pesquisados: Doarte, Site Giuseppe Caonetto, Ana Justra Federal, etc.