sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 34 *


Irmanemos nossas vidas
numa união generosa,
tal como vivem unidas
as pétalas de uma rosa!
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
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Para não ver meu amor
vagar no mundo tristonho.
resguardei-o com primor
numa redoma de sonho!
ANA MARIA NASCIMENTO
Aracoiaba/CE
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Recebeu tanta coroa
o coitado do defunto,
que eu quase empurro a patroa,
para ver se ela ia junto...
ANTÔNIO CARLOS TEIXEIRA PINTO
Brasília/DF
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Sendo tão chata, a Constância
tem mesmo um nome batata,
já que desde a sua infância
constantemente ela é chata...
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ
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Quem faz o bem não concebe
que a ingratidão seja ofensa,
pois de Deus é que recebe
verdadeira recompensa.
ARCHIMIMO LAPAGESSE
Florianópolis/SC, 1897 – 1966, Rio de Janeiro/RJ
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Eu creio em Deus, porque creio
que tudo d'Ele provém.
— do Mal não guarda receio
quem crê na força do Bem!
ATHOS    FERNANDES
Itaperuna/RJ, 1920 – 1979, Bom Jesus do Itabapoana/RJ
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Aos nubentes bato palmas
e um conselho deixo aos dois:
primeiro casem as almas,
casem os corpos depois...
BELMIRO BRAGA
Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG
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Este vazio em meu peito,
dói tanto... é dor que não finda!
...Dor da saudade... que aceito,
sem ela... dói mais ainda!
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
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Décimo oitavo casório
de uma noiva conhecida.
No seu encanto ilusório,
diz que é pro resto da vida
CESAR AUGUSTO RIBAS SOVINSKI
Curitiba/PR
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Toda sogra faz lembrar
um monjolo impertinente:
— se não tem o que socar,
soca a paciência da gente...
CESÍDIO AMBROGI
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP
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De “mau jeito” o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP
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Nossa divergência é clara,
embora eu te guarde estima,
tu és muro que separa,
eu sou ponte que aproxima.
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Nova Friburgo/RJ
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Pecando assim, me condeno,
porém a ambição se expande:
santo — eu seria pequeno;
demônio — eu posso ser grande!
ÉLTON DE CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994
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Trova! Trova abençoada!
Nesta dura escuridão,
és a porta escancarada
para a minha salvação!
ERCY M. MARQUES DE FARIA
Bauru/SP
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Eu, que não tenho certeza
de ser amado na vida,
quero viver na incerteza
das incertezas da vida.
EUCLIDES DA CUNHA
Cantagalo/RJ, 1866 – 1909, Piedade/RJ
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As carícias em meu rosto,
tu finges não perceber
os sinais que, de mau gosto,
o tempo brinca em fazer,
GIVA DA ROCHA
São Paulo/SP
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À tardinha, junto ao cais
no meu porto de Ilusão,
como dói amar demais
a quem não tem coração!
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
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A vida — uma onda que avança
e volta — vaivém do mar...
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!
J. G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ
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Enfrentando a adversidade,
caminho sem direção…
Mãos dadas com a saudade,
a tristeza e a solidão…
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR
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Cumpro o meu fado inclemente,
no museu dos meus fracassos,
vendo a saudade insistente
rondando sempre os meus passos.
JOSÉ VALDEZ DE CASTRO MOURA
Pindamonhangaba/SP
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De todas as despedidas,
esta é a mais triste, suponho:
— duas almas comovidas,
chorando a morte de um sonho!...
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ
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Num açougue não se assanha
quem comprar carne sem osso,
pois se não quiser picanha
tem costela e tem pescoço.
LUIZ DAMO
Caxias do Sul/RS
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Com retalhos de lembrança
eu costurei, sem maldade,
meus amores de criança
com suspiros de saudade...
MARIA HELENA URURAHY C. DA FONSECA
Angra dos Reis/RJ
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Morreu coroa e donzela...
foi ao céu, mas deu azar:
sentindo as pretensões dela,
disseram: — Não pode entrar!
MARIA NASCIMENTO SANTOS
Rio de Janeiro/RJ
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Não me assustam as fogueiras
das noites de Santo Antônio;
tenho medo é das solteiras
que procuram matrimônio...
ORLANDO BRITO
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA
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Lendo sobre camisinha,
Joaquim logo gargalhou.
Em peça pequenininha
de agasalho ele pensou!
PAULO ROBERTO O. CARUSO
Niterói/RJ
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Tem dez filhos o ceguinho...
E a cada filho que nasce,
explode sempre o vizinho:
— Calculem se ele enxergasse!
P. DE PETRUS
São Paulo/SP, 1920-1999
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Rompeste um antigo laço,
contudo mantenho aceso
este amor que não desfaço.
mas disfarço com desprezo.
RELVA DO EGYPTO RESENDE SILVEIRA
Belo Horizonte/MG
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A semente pequenina,
sob a terra, protegida,
é assinatura divina
no grande livro da vida.
SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP
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Disse adeus... sorri, sem jeito...
cruzei a ponte, por fim...
... Nunca um rio tão estreito
foi tão largo para mim!...
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
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Faço trova e, divertida,
em humor "me saio'' bem;
- Eu só quis mostrar à vida,
como eu sei brincar... também!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP
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Eu sempre lutei sentindo,
nesta arena em que se vive,
a mão de Deus dirigindo
cada conquista que eu tive.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR
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Os teus vestidos, Vitória,
e os lindos sapatos altos,
representam promissória
pela qual dou muitos saltos!
VASQUES FILHO
Teresina/PI, 1921 – 1992, Fortaleza/CE
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Se tu não gostas de mim,
não fiques me perseguindo.
— Coincidência tanta assim
não pode estar existindo...
WANDISLEY GARCIA
General Salgado/SP, 1945 – 2020, Jales/SP
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Entendo as pessoas calmas
e de corações profundos.
— Quando a fé levanta as almas,
as almas levantam mundos!
ZÁLKIND PIATIGORSKY
Rio de Janeiro/RJ, 1935 – 1979
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 168


Gosto de ver constantemente na TV documentários sobre cultura, história, geografia e outros. São também momentos de busca e apreensão. A sede de cultura agradece.

Dia destes sintonizei um programa mostrando uma edificação histórica imensa. Relevância cultural dentre tantas Brasil a dentro.  

Pensei, um colégio de séculos passados, daqueles abrangentes, grandes, fabricante de cabeças pensantes que promovem o progresso e conquistam o mundo.  

Não, não era! Nada mais do que uma penitenciária centenária transformada em centro cultural.

Ora, pois! Ora, vejo! Ora, pensemos! Um país desde sempre carente de instrução e cultura, quantos prédios terá construído para servir de prisão de delinquentes. De toda espécie.  

Imaginemos quantas escolas se teriam erguidas com valores gastos em sentido contrário. Pior ainda, seguimos necessitados de locais para escolas, o que significa gente longe do ensino, do aprendizado, da expansão da curiosidade. E o país com índices ridículos e lamentáveis perante outros no mundo.

Não sejamos muros de lamúrias, ajudemos a fazer a nossa parte, como Cristo o fez em sua jornada terrena - espalhando saberes e conhecimentos pelos rincões da pátria.
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(Texto enviado pelo autor)

Nelson Rodrigues (O escrete precisa de amor)


Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: — só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio.
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Amigos, é a grande viagem para a vitória, a gigantesca vitória. Logo mais, a cidade vai se despedir do escrete. Não será um adeus, mas um “até o tri”. E ninguém deve ficar em casa. Como se omitir, se a seleção precisa de todos nós e de cada um de nós? Eis a verdade inapelável e eterna: — só o grande amor faz o grande escrete.

E, por isso, temos que inundar o Maracanã com o nosso amor. O escrete quer sentir também a nossa admiração. Eu sei que o brasileiro e Satã têm algo em comum. Como se sabe, o abominável Pai da Mentira é um impotente do sentimento. Não há, em toda a sua biografia, um único e escasso momento de ternura. E o Satanás daria a metade de suas trevas por uma furtiva lágrima de amor. Pois bem. Já o brasileiro é o impotente da admiração.

Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: — só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio. Mas hoje é a última noite. E a admiração tem que explodir, afinal tem que explodir. É difícil, eu sei que é difícil.

Outra verdade eterna: — como bom brasileiro, o Maracanã nasceu com a vocação da vaia. Tenho dito: — lá, vaia-se até minuto de silêncio. Sem maldade, sem premeditação. A vaia arrebenta sem querer, por um desses automatismos inapeláveis. Mas repito: — o doce escrete vai partir. É preciso que as vaias emudeçam. Imaginem vocês se todo o Maracanã, de pé, aplaudir o escrete. A seleção há de ter uma sensação de onipotência.

Pode parecer que eu esteja, aqui, profetizando o tricampeonato. Realmente, eu estou profetizando. Vamos ser tricampeões. Amigos, a grande vitória é anterior a si mesma, ou por outra: — antes de acontecer, ela já estava escrita. Estava escrito que o Brasil seria campeão na Suécia e bicampeão no Chile. Do mesmo modo, está escrito que será tricampeão na Inglaterra.

Os pessimistas (que sempre os há) rosnam pelas esquinas e pelos botecos: — “Humildade, humildade.” Mas é uma abjeção falar em humildade no Brasil. Olhem este povo de paus de arara. Ante as riquezas do mundo, cada um de nós é um retirante de Portinari, que lambe a sua rapadura ou coça a sua sarna. A humildade tem sentido para os césares industriais dos Estados Unidos. Já o pau de arara precisa, inversamente, de mania de grandeza.

Eis a caridade que nos faz o escrete: — dá ao roto, ao esfarrapado uma sensação de onipotência. Em 58, quando acabou o jogo Brasil x Suécia, cada brasileiro sentiu-se compensado, desagravado de velhas fomes e santas humilhações. Na rua, a cara dos que passavam parecia dizer: — “Eu não sou vira-latas!” Em 62, a mesma coisa. De repente, sentimos que o brasileiro deixava de ser um vira-latas entre os homens e o Brasil um vira-latas entre as nações.

Amigos, vamos enxergar o óbvio ululante: — cada exibição brasileira na Inglaterra será uma aventura pessoal de oitenta milhões de sujeitos. Não há distância entre nós e a equipe verde-amarela, ou por outra: há uma distância falsa, uma distância irreal. Na verdade, estamos encarnados no escrete.
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(Nelson Rodrigues. Pátria de chuteiras. 1994. Publicado originalmente em15.06.1966 no Jornal O Globo, na Coluna do Autor.)

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 11: Verdade e Mentira


O homem em princípio aspira à verdade. A humanidade busca a verdade, mas também pode asfixiá-la. Os poderosos procuram calar a verdade que os incomoda. Os de espírito lúcido querem descobrir a verdade, mas sempre haverão os mal-intencionados que querem a todo o custo encobri-la, em benefício próprio.

A verdade, deusa nua,
duas faces sempre tem;
e cada homem cultua
a face que lhe convém!
Moacir Figueiredo - SC

A mentira, bem vestida
anda orgulhosa na rua.
A verdade anda escondida
porque é pobre e vive nua. 
José Firmo Cavalcanti - PE

A verdade que redime
não viveria de luto
se a mentira fosse crime
e, enfim, pagasse tributo!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Movido a farsas e engodos...
É assim que o Universo gira,
um mundo onde quase todos
sobrevivem da mentira,..
Darly O. Barros - SP

Se o barco imenso da vida
seguisse rumo à verdade,
alcançaria guarida:
- paz, amor, fraternidade,
Ione Arruda Gomes - CE

Não é possível construir a cidadania sem desvelar a verdade que se esconde por trás das intenções dos grupos mais diversos, seja de amigos, de profissão, de partido, de religião, de castas sociais. Os grupos dominantes procuram sempre encobrir os crimes praticados contra o povo, os crimes perpetrados para mantê-los no poder. Entretanto,

Uma verdade evidente
não há texto que distorça:
– Ante a imagem contundente,
a palavra perde a força.
Almerinda Fernandes Liporage - RJ

O lucro das aparências
que no mundo se arrecade,
só prevalece na vida
até que chegue a verdade,
Auta de Souza - RN

A verdade redentora
ante a farsa do vilão,
é chama íluminadora
dissipando a escuridão.
Pedro Grilo - RN

Uma verdade é verdade
antes de ser proferida,
e sempre em qualquer idade,
ela deve ser mantida.
Nadir Nogueira Giovanelli – SP

Às vezes o poeta põe em relevo o contraste entre a verdade e a mentira:

A verdade anda tão rara
que a mentira, ultimamente,
já nem sequer se mascara
para enganar tanta gente!
João Freire Filho - RJ

Como é engraçada a vida
que de contraste se tece:
a Verdade anda escondida,
a Mentira é que aparece,
Ascendino Almeida - RN
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(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Enviado pelo autor.) 

Hans Christian Andersen (O velho lampião)


Já ouviste contar a história do velho lampião da rua? Não pode se dizer que seja lá muito divertida, mas vale a pena ouvi-la, pois é interessante.

Era um velho lampião, um bom e honesto lampião, que durante muitos a muitíssimos anos fizera o seu trabalho, e agora ia ser aposentado. Achava-se pela última vez sobre o poste, espalhando luz pela rua. E o lampião sentia o que deve sentir uma velha comparsa de bailados, que dança pela última vez e amanhã ficará esquecida na sua água furtada.

Sentia-se também amedrontado, porque no dia seguinte teria de comparecer pela primeira vez à Prefeitura, onde o prefeito e os conselheiros o inspecionariam, para decidir sobre a sua sorte: se ainda estava ou não em condições de prestar serviço.

Ficaria então resolvido se dali em diante iria fornecer luz aos habitantes de um arrabalde, ou a uma fábrica do interior. Talvez o destino o levasse diretamente a uma fundição de ferro; atormentava-o uma dúvida atroz: se nesse caso conservaria a recordação de ter sido outrora lampião de rua. Mas, sucedesse o que sucedesse, de uma coisa tinha certeza: iam separá-lo do guarda-noturno e da mulher, que o consideravam como parte da família.

Quando o lampião foi suspenso pela primeira vez, o guarda-noturno era um moço vigoroso. E assumia o cargo também justamente naquele momento. Sim!  Quão longe ia já o tempo em que um se tornara lampião e o outro guarda-noturno! Naquela época a mulher do guarda era um tanto arrogante; só se dignava a olhar para o lampião quando passava por ele à noite; de dia, jamais. Contudo, nos últimos anos, já envelhecidos todos - o guarda, a mulher e o  lampião - ela também lhe dispensava cuidados, polindo-o e enchendo-lhe o depósito. Era honestíssimo, aquele velho casal: jamais o defraudaram sequer em uma gota de óleo.

E era esta a última noite que passaria na rua! E teria de ir no dia seguinte à Prefeitura! Duas ideias sinistras! Não admirava, pois, que não pudesse dar uma luz mais brilhante. Mas ainda muitas outras ideias lhe passavam pela cabeça. A quanta coisa não prestara sua luz! A quantas ocorrências assistira...talvez tantas como o prefeito e os conselheiros. Contudo, não manifestou essas ideias; era um lampião muito bom e honesto, que a ninguém desejava fazer mal e menos ainda às autoridades.

Lembrava-se de tantas coisas, que de vez em quando sua chama bruxuleava. E naqueles momentos tinha a impressão de que havia alguém que se recordasse dele.

- Sim, havia aquele belo rapaz...é verdade que já faz tanto tempo! Ele tinha na mão uma carta cor de -rosa, dourada nas bordas. A letra era fininha, dir-se-ia da mão de uma dama. Leu-a ele duas vezes, beijou-a e erguem para mim os olhos, que diziam claramente:
" Sou o mais feliz de todos os homens!"

- E só nós dois sabíamos o que estava escrito naquela primeira carta da sua namorada. Sim... E há outro par de olhos de que me lembro. Que coisa estranha são estes saltos do pensamento! Houve um enterro na rua. Repousava a bela moça no mais rico de todos os carros fúnebres, encerrada em um féretro coberto de flores e coroas. Tantas eram as tochas, que desmaiavam a minha luz. Ao longo das casas acotovelava-se a multidão, que acompanhava o cortejo fúnebre. Mas quando perdi de vista as tochas, e olhei em roda de mim, vi uma única pessoa que derramava lágrimas, encostada ao meu poste. E jamais esquecerei o par de olhos dolorosos que se erguiam para mim naquele momento!

E eram esses pensamentos e outros semelhantes, que ocupavam a mente do velho lampião, que ardia pela derradeira vez. 

A sentinela que é rendida conhece ao menos o seu substituto, e pode trocar com ele algumas palavras. O lampião ignorava quem lhe iria suceder; e contudo poderia dar-lhe algumas indicações úteis a respeito de chuvas e cerração, por exemplo; e poderia ensinar-lhe o alcance dos raios lunares sobre o passeio, ou qual a direção que o vento costumava tomar - além de muitas outras coisas. 

Na prancha que atravessava a sarjeta, achavam-se três pessoas, que queriam apresentar-se ao lampião, porque pensavam que ele mesmo podia transferir o cargo A primeira era uma cabeça de arenque, que também sabia luzir no escuro, e achava que se poderia economizar muito azeite, colocando-a no poste. Vinha depois um pedaço de madeira podre, que também cintila no escuro. E afirmava a sua origem: era rebento de um velho tronco, outrora adorno da mata. A terceira pessoa era um vaga-lume. Não compreendia o lampião de onde viera ele, mais ali estava, e também espalhava luz. Mas o pau podre e a cabeça de arenque juravam por tudo quanto para eles era sagrado que o vaga-lume só podia luzir em determinadas épocas, e por isso não devia ser tomado em consideração.

Declarou o lampião velho que nenhum deles espalhava luz suficiente para ocupar o cargo de lampião de rua, mas ninguém, lhe deu crédito. E quando ouviram dizer que não era o lampião quem transferia o cargo, acharam isso muito acertado; já estava tão caduco que não podia fazer a escolha.

Nesse instante chegou o vento, soprando da esquina; passou pelos respiradouros do lampião, dizendo-lhe:

- Mas que é isso? Queres ir embora amanhã? Vejo-te então hoje ela última vez? Nesse caso quero fazer-te um presente de despedida. Vou assoprar no teu crânio de tal maneira que não só te lembrarás no futuro de tudo o que viste e ouviste, mas também terás tanta luz interior que poderás ver tudo quanto for lido ou narrado na tua presença.

- Ah! - disse o lampíão - mas isso tem muito valor! Agradeço-te de todo o coração. Tomara que não tornem a me fundir!

- Por enquanto não há perigo que isso aconteça - disse o vento. - Vou agora soprar-te na memória, e se receberes outros presentes assim, poderás ter uma velhice muito alegre.

- Tomara que não me refundam! Mas, nesse caso conservaria também a memória?

- Ora, lampião velho, não sejas tão curioso!

E o vento continuava a soprar.

Nesse instante surgiu a Lua do meio das nuvens.

- E a senhora, que vai dar ao lampião? - perguntava o vento.

- Nada! - respondeu ela. - Estou minguando, e os lampiões nunca me iluminam: pelo contrário, eu é que tenho de iluminá-los.

E tornou a se esconder atrás das nuvens, para evitar novas importunações.

Bateu então no lampião uma gota, que parecia ter caído do telhado. Contudo, declarou que acabava de chegar diretamente das nuvens cinzentas, e que era também um presente, e talvez o melhor de todos.

- Vou molhar-te de tal maneira - disse a gota - que, se assim o quiseres, poderás converter-te em ferrugem em uma única noite, esvaindo-te em poeira.

Mas o lampião achou que semelhante presente não valia nada, e o vento foi da mesma opinião. E soprou com toda a força, indagando:

- Ninguém mais quer trazer presentes? Ninguém mais ?

Caiu então uma brilhante estrela, deixando atrás de si uma longa fita luzente.

- Que é aquilo? - gritou a cabeça de arenque. - Não era uma estrela cadente? Parece até que entrou no lampião... Mas então, se personalidades tão elevadas se interessam pelo cargo, gente como nós fará melhor indo para casa.

E foi o que fizeram os três. Mas o velho lampião espalhou uma luz maravilhosa.

- Que presente magnífico! - exclamou ele. - As estrelas claras, que sempre vi com tanto prazer, e que luzem tão esplendidamente como eu nunca consegui luzir, por mais que empregasse nesse empenho todo o meu sentir, todo o meu pensar - as estrelas me descobriram, a mim, o pobre lampião velho, e enviam-me um presente! E agora, todas as coisas que tenho na memória, e vejo com tamanha nitidez como se estivessem diante dos nossos olhos, poderão ser também vistas por todos aqueles a quem amo. E é nisso justamente que consiste a verdadeira alegria: a alegria que não podemos repartir com outros, é apenas meia alegria.

- Honra-te essa maneira de pensar - disse o vento. - Mas para isso seria preciso que tivesses velas de cera. Se elas não forem acesas dentro de ti, que tua estranhas faculdades de nada servirão aos outros. Estás vendo? Oh! As estrelas não se lembraram disso... Pensam que tudo quanto serve para a iluminação é vela de cera - até tu! Mas vou sossegar agora.

E sossegou mesmo. Enquanto isso suspirava o lampião velho:

- Ah! Deus nos acuda! Velas de cera! Nunca as possuí, e certamente jamais hei de possuí-las...Tomara que não me refundam!

No dia seguinte...

Bem, será melhor saltar o dia seguinte. Na noite seguinte descansava o lampião em uma cômoda poltrona. Adivinhem onde! Ora, em casa do velho guarda-noturno. Em consideração aos seus longos anos de serviços, solicitara do prefeito e dos conselheiros o favor de ficar com aquele lampião velho, que acendera pela primeira vez no dia em que vinte e quatro anos antes, assumira o cargo. Considerava-o como um filho, porque não tinha outro. E atenderam o seu pedido.

Agora se achava o lampião sobre a cômoda poltrona ao  lado da estufa acesa. Até parecia maior, assim sozinho em cima da cadeira.

O velho casal jantava, lançando olhares cheios de simpatia para o velho lampião ao qual teriam dado com prazer um lugar à mesa.

É verdade que habitavam apenas um porão, que penetrava duas braças na terra. Para chegar ao quarto, era preciso atravessar um corredor lajeado. Mas lá dentro tudo era agradável e quentinho. Para conservar o calor, tinham pregado tiras de pano na porta. Tudo era limpo, asseado. A cama tinha dossel, e as portas e janelinhas estavam guarnecidas de cortinas. No peitoril viam-se dois estranhos vasos, que o marinheiro Cristiano trouxera das Índias Orientais - ou Ocidentais. Eram potes de barro comum, e representavam dois elefantes, mas sem costas: no lugar delas brotavam, da terra que os enchia, ótimos alhos porrós, no que servia de horta, e um grande tufo de gerânios, no que era jardim. Pendia da parede um grande quadro colorido: o Congresso de Viena. E nesse quadro tinha o casal de velhos, reunidos, todos os reis e imperadores. Um relógio de parede, com pesos de chumbo, fazia tique-taque. Estava sempre adiantado, mas eles achavam melhor assim: antes adiantado que atrasado.

O casal estava jantando, como já disse, e o lampião da rua achava-se na cômoda poltrona, junto da estufa. Parecia-lhe que todo o mundo estava revolucionado. Mas quando o velho guarda o olhou e falou das coisas que tinham visto juntos - das chuvas e nevoeiros, das noites de verão, tão curtas e tão claras, e também das longas noites de inverno, com sua nevada, aquelas noites em que a gente sente saudades do aconchego da casa - o lampião começou a ambientar-se e tornou a tomar pé. Enxergava com tanta nitidez como se tudo aquilo estivesse acontecendo naquele instante. Sim! O vento acendera nele uma boa luz!

Eram muito ativos e diligentes os dois velhos. Não estavam nunca ociosos. domingo à tarde tiravam livros da gaveta, de preferência livros de viagem. E o velho lia coisas a respeito da África, das vastas selvas, dos elefantes selvagens; escutava-o a mulher, muito atenta, deitando olhares de esguelha para os outros, os de barro, que serviam de canteiros. E dizia:

- Eu imagino, eu imagino!

E o lampião desejava de tudo o coração que houvesse acesa nele uma vela de cera. Porque nesse caso a velha poderia ver tudo distintamente, com todos os pormenores, como o via ele: as altas árvores, os ramos emaranhados, os negros nus, a cavalo; os elefantes, em multidões, pisoteando os juncos e arbustos com as pesadas patas.

- De que me servem todas as minhas faculdades, se não encontro uma vela de cera? - suspirava ele. - Os coitados só tem azeite e vales de sebo, e isso não basta!

Um dia, afinal, foi ter ao porão uma grande  quantidade de tocos de vela de cera. Os maiores foram queimados, e os menores serviram para encerar a linha da costura da velha. Portanto não faltava agora vela de cera mas ninguém se lembrou de por um pedaço no lampião.

- E aqui estou eu com faculdades tão raras - pensava ele - e completamente inúteis. Trago tudo comigo, e não consigo fazê-los aproveitar essas vantagens. E nem sabem que tenho o poder de transformar as paredes brancas nas tapeçarias mais esplêndidas, nos bosques mais lindos - em tudo, enfim, quanto se possa desejar.

Contudo, cuidava muito do lampião; conservavam bem areado, e sempre em um lugar onde era logo visto. Achavam as visitas que aquilo era um traste velho, mas os donos da casa não se importavam com a opinião dos outro: queriam bem ao lampião.

Um dia - era  o aniversário natalício do guarda - a mulher aproximou-se sorrindo do lampião e disse:

- Hoje vais iluminar a casa, em homenagem ao meu marido.

E o lampião chiava, nos seus enfeites de folha, pensando:

- Ora até que afinal alguém acenderá a vela!

Mas foi azeite o que puseram nele O lampião ardeu a noite inteira. Percebia, porém, agora que o presente das estrelas permaneceria inaproveitado toda a vida.

Um dia teve um sonho - porque não era difícil sonhar, era um lampião que possuía todas aquelas faculdades. Sonhou que os dois velhos tinham morrido, e que ele fora levado para a fundição de ferro, a fim de se refundido. Teve tanto medo como naquele dia em que tivera de ir à Prefeitura, para ser inspecionado pelo prefeito e por todo o conselho. Mas, embora senhor do poder de se desfazer, quando lhe aprouvesse, em ferrugem e pó, não fez. Meteram-no em um cadinho e transformaram-no em um castiçal de ferro, o castiçal de ferro mais bonito que se possa desejar. Deram-lhe a forma de um anjo, com um grande ramalhete. No meio do ramalhete é que se colocava a vela de cera. O castiçal achou um lugar em uma secretária verde, num gabinete de luxo. Havia em redor dele muitos livros, e nas paredes quadros belíssimos, e todas aquelas coisas pertenciam a um poeta. Tudo quanto este pensava ou escrevia, aparecia ao redor dele. O ambiente transformava-se em matas densas e tenebrosas, em prados amenos, onde se pavoneavam cegonhas, no convés de um navio em alto mar, no firmamento recamado de estrelas.

- Quantos donos tenho em mim! - disse o velho lampião ao despertar. - Quase que desejo ser refundido... Mas ainda não! Não quero  que isso aconteça enquanto viverem os dois velhos. Eles me estimam tanto por causa da minha personalidade; poliram-me, encheram-me de azeite. Seja como for, tenho tão boa aparência como todo aquele Congresso, cujo aspecto também lhes causa tamanho prazer.

E dali em diante viveu sempre em perfeita tranquilidade interior - e era isso mesmo o que merecia o velho lampião da rua, tão bondoso e tão honesto.
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(Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público.)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 216 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Chega ao fim a serenata...
E a Lua, mesmo cansada,
recolhe as taças de prata
das mesas da madrugada!
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Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ 1915 – 2009

Descansa, coração

Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão, já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!”
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Trova de
MAURO MACEDO COIMBRA
Juiz de Fora/MG

Dorme no beco e afinal
diz o ébrio, sem conforto:
– Eu também sou imortal,
não tenho onde cair morto"!
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ

A última cigarra

Todas cantaram para mim. A ouvi-las,
Purifiquei meu sonho adolescente,
Quando a vida corria doidamente
Como um regato de águas intranquilas.

Diante da luz do sol que eu tinha em frente,
Escancarei os braços e as pupilas.
Cigarras que eu amei! Para possui-las,
Sofri na vida como pouca gente.

E veio o outono... Por que veio o outono ?
Prata nos meus cabelos... Abandono...
Deserta a estrada... Quanta folha morta!

Mas, no esplendor do derradeiro poente,
Uma nova cigarra, diferente;
Como um raio de sol, bateu-me à porta.
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Trova de
MANOEL CAVALCANTE
Pau dos Ferros/RN

A brisa bateu na porta
naquela noite abatida...
Trouxe uma esperança morta
pra minha face sem vida...
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Felicidade

Às vezes, absorto em minha introspecção,
À mente me chega com facilidade
A visão tão minha de "felicidade",
Ao sabor do pulsar de meu coração.

Felicidade é de longe ser querido,
Num pacto de amor e de mútua confiança.
Felicidade é sonhar, ter esperança...
Saber que, nessa fé, sou correspondido.

Felicidade é navegar em teus poemas,
É enfronhar no sentido de tuas rimas.
É decorar e aplaudir tuas obras-primas,
Já que, com elas, me colocaste algemas.

Felicidade é amar tu'alma primeiro,
Antes de sentir ao vivo teu calor.
Encantar-me com tua beleza interior
Para depois ver teu corpo por inteiro.

Felicidade é ter o pressentimento
De que estaremos, em breve, frente a frente.
Eu espero afoito por este presente,
Uma recompensa pro meu sofrimento.
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Trova de
LUCÍDIO DE FREITAS
Teresina/PI

Ó rio de águas sonoras!
Teu pranto eu sei de onde vem,
que os lamentos que tu choras
tenho-os chorado também.
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Poema de
ALDA CORRÊA MENDES MOREIRA
Niterói/RJ, 1926 – 2009

Eterna ilusão

Com a alma vestida de Poesia,
cheia de fantasia,
caminho por uma estrada enluarada
à procura apenas
de tua companhia.

Olho o espaço e me refaço;
um sonho de encantamento me invade
e me traz felicidade.

Ao contemplar os astros,
banhada de muita luz,
inundo todo o meu ser
com uma imensa ternura
que só a ti me conduz.

E nesta hora,
tomada agora
de uma total fascinação,
fitando o céu,
faço-te a minha revelação
e deixo meu corpo todo se envolver
com o doce véu
da minha eterna ilusão.
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Trova de 
LUCÉLIA SANTOS
Patu/RN

Céu nublado e a terra fria,
e o vento ainda dormindo,
num tom de melancolia
o dia vai prosseguindo.
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Poema de 
EUNICE ARRUDA
Santa Rita do Passa Quatro/SP, 1939 – 2017, São Paulo/SP

Em dezembro

a lenta
iluminada
agonia

retorna a
voz esquecida sob a
pele

em dezembro

águas passadas movem
moinho
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Haicai de
ANIBAL BEÇA 
Manaus/AM (1946-2009)

Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Pena de talião

"Um dia, andei contigo, ó pálida Glicera,
Num passeio ideal, entre árvores e fontes.
Tu tinhas na cabeça uma coroa d'hera,
E andávamos os dois, como uns Belerofontes...

Brilhava sobre nós uma infinita esfera.
Resplandecia o azul de um céu sem horizontes.
Tu tinhas o esquisito olor da primavera
E a graça e o frescor dos vales e dos montes...

Eu me vi tão feliz, minha volúpia d'ouro,
Correndo atrás de ti, do teu cabelo louro,
Nessa manhã de luz, sonoramente arfando,

Que até me pareceu, através do caminho,
Feito de luz e flor, de aromas e de arminho,
Que eu ia, porém, como um pássaro, avoando!"
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ CARLOS ABRITTA
Cataguases/MG, 1935 – 2021, Belo Horizonte/MG

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
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Poema de 
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Constatando...

Eu, que nunca discrimino,
tratando a todos igual,
na mesma coluna assino
e uso o mesmo embornal,
fui cativa de assassino,
mas fugi, alada, afinal!
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
ANGELA TOGEIRO FERREIRA
Belo Horizonte/MG

O vento na rosa
rouba-lhe o belo e o perfume,
ao tirar-lhe as pétalas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR 1944 – 1989

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP

Meu desabafo é criar
versos sensíveis e belos,
mesmo tendo que chorar
a quebra de meus castelos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
WILSON DE OLIVEIRA JASA
São Paulo/SP

Amada Minha

Em teu corpo sensual tens o perfume,
Da mais sensível flor, rosa de amor;
Mas mesmo nos meus braços tens queixume,
Querendo para ti bem mais calor.

Voas em sonhos pra mim, qual vaga-lume,
Iluminando a noite com fulgor;
És minha doce amada com teu lume,
Que é meu nome em momento abrasador.

Inspiradora musa da poesia,
Que transporta meu ser na fantasia,
Fazendo-me viver o amor-paixão.

És tu, amada minha e companheira,
Minha mulher, e a amiga verdadeira,
Quem aquece minh’ alma e coração.
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