quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

J. G. De Araújo Jorge (Quatro Damas) 1a. Parte

" A CARTA QUE AINDA FAREI "

A carta que um dia hei de escrever
quando tu fores minha noiva,
será curta, pequena...

Na verdade, eu já a fiz:

“Meu amor,
que eu não possa nunca te dizer
nem encontre palavras para descrever
o quanto sou feliz !”

" A COMPANHIA "

Do amor não quero mais a aventura,
quero a companhia.

Já não procuro ilusões e surpresas
se todos os caminhos foram percorridos,
se oblíquo sol da tarde alonga a minha sombras
presa ainda a meus pés, a fugir, para onde?

Quero a compreensão, a tranqüila ternura,
a presença melhor depois que amada,
a que sabe ser luz clareando a estrada,
ser aragem na fronte ardente a inquieta;

- alta maré para encobrir escolhos,
ser água para a sede que atormenta,
sombra, quando a luz doer nos olhos.

- A que inteira se dá sem pedir nada
só pela humilde alegria de se dar!

A que é pousada para o amor que vinha
já cansado de tudo e que não tinha
onde ficar.

A que tem mãos felinas, mãos que arranham
infladas de amor,
sem a gente sentir,
mãos que enlaçam, depois, cantam ternuras,
e que emberçam as nossas amarguras
e nos fazem dormir...

A que é mulher, - mar alto, porto e abrigo –
a que fica a nossa espera,
à que se pode voltar a qualquer hora...
A que sabe perdoar nossos pecados
nossos marinheiros desejos desgarrados
e não nos mandam embora...

Do amor não quero mais a aventura
quero a companhia:
a que depois do beijo
me dará a mão,
a que será minha - à noite se entregara
sem pejo -
e impoluída e pura,
continuara comigo, com a mesma ternura
no coração...

Quero a doce, a permanente companhia .

A que depois da noite
é o meu dia,
e, com o braço em meu braço
há de acertar seu passo
na mesma direção...

" A CULPADA... "

Não tens culpa se me encontras céptico, e se custo
a acreditar em ti.

Talvez eu já esteja batido demais, ou talvez
me pareças muito criança.

Tanto a Vida me mentiu, que me acovardo à simples idéia
de uma nova esperança.

" A VIAGEM "

Não vamos fazer planos, vamos apenas viajar
neste barco que nos recolheu
e cujo rumo não sabemos...

Não vamos fazer planos, vamos olhar as gaivotas,
os crepúsculos sobre o mar,
as ondas, as nuvens, os portos que amanhecerão,
agradecer ao destino que nos fez passageiros
do mesmo sonho.

Não vamos fazer planos, não vamos matar as nossas alegrias
modificando roteiros, se não sou o comandante do navio,
se ninguém é,
não vamos matar as nossas alegrias
com itinerários antecipados
como se fossemos turistas ricos
apenas gastando o seu tédio...

Não vamos fazer planos, vamos nos deixar levar
ao sabor das correntes,
vamos agradecer essa viagem como se fosse a primeira
como se fosse a última,
como se fosse aquela viagem há tanto tempo esperada,
que inacreditavelmente se tornasse
realidade...
E o porto onde chegarmos, - qualquer que seja o porto
ou o horizonte de mar que sempre se afastará,
serão o porto e o horizonte
da felicidade...

" A VIDA, DE REPENTE... "

De repente
percebemos como era boa aquela vida que levamos
aqueles calmos momentos de impercebida felicidade,
aquelas horas aparentemente vazias e sem prazer
entretanto, cheias de nós, de nossa simples presença,
de uma ternura que enlevava nossos corações
como as velas cheias dos bancos sonolentos
sobre o mar sem ondas...

De repente
gostaríamos que tudo voltasse para que nos apropriássemos
do que foi nosso, e se perdeu,
para que pudéssemos dar valor
a tanto que tivemos, sem saber que era amor...

Agora
que a vida nos atira (sobre que expectativas
sombrias e inevitáveis?)
nos lembramos que já fomos nós, pelo menos no início,
e subitamente nos sentimos numa curva impossível,
à borda de um precipício...

" ABISMO ? "

Sei que ao voltar a mim, como quem chega
do fundo de um abismo,
trazia duas estrelas em meus olhos
e o ouro dos teus cabelos em minhas mãos...

Afinal
que estranho abismo era esse
em que os anjos nos embalavam
e nos sentíamos na mão de Deus ?!

" AFINAL... "

Restou o travo de uma decepção
que foi perdendo lentamente
o amargor...

Fui eu
( que num momento de paixão doentia )
enriqueci com a minha fantasia
um pobre amor...

" AGRADECENDO A VOCÊ "

Você achará tolos talvez
estes versos que te escrevo,
mas eu explico porque:

- seja lá como for
meu amor,
eu quero agradecer Você
... a Você.

"ALGO MAIS..."

Eu queria te dar algo mais que poesia:
este ardor que me abrasa, e me punge, e espezinha,
e se consome em vão numa íntima agonia
porque não te possuí... porque não foste minha!

Não queria deixar que partisses sozinha
sem algo de vivido entre nós dois - queria
que a amarga solidão que em minha alma se aninha
fosse um canto de sol, de desejo e alegria !

Eu queria te dar algo mais que um lamento,
queria tatuar com meu beijo a lembrança
nem que fosse a lembrança feliz de um momento...

Com tão pouco de mim, num derradeiro empenho,
eu queria te dar algo mais... a esperança,
a fé que já perdi... o amor que já não tenho!
-
Fonte:
JG de Araujo Jorge. Quatro Damas . 1. ed., 1964.

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