domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ferreira Gular (Não Há Vagas)

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Fontes:
Toda Poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980. p. 224
Imagem = http://www.rascunho.gazetadopovo.com.br

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