terça-feira, 29 de março de 2022

Mário Quintana em Prosa e Verso – 20 –


OLHO AS MINHAS MÃOS


Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento
impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai
secretando o pensamento
como tecem as teias as aranhas.

A que mundo pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem...

Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar…

Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação! Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz - em mim - esta interrogação?
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O VELHO DO ESPELHO

Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto... é cada vez menos estranho...

Meu Deus, meu Deus... Parece
Meu velho pai - que já morreu!

Como pode ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
"o que fizeste de mim?!"
Eu, Pai ?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga...
Que importa? Eu sou, ainda.
Aquele mesmo menino teimoso de sempre

E os teus planos enfim lá se foram por terra
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra! -
Vi sorrir, nesses cansados olhos,
um orgulho triste…
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POEMA

O grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.

O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura as implacáveis solidões noturnas.

E se o que tanto buscas só existe
em tua límpida loucura
- que importa? -
isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!
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POEMA OLHANDO UM MURO

Do escuro do meu quarto
imóvel como um felino, espio
a lagartixa imóvel sobre o muro: mal sabe ela
da sua presença ornamental, daquele
verde
intenso
na lividez mortal
da pedra. Ah, nem sei eu também o
que procuro, há tanto...
nesta minha eterna espreita!
Pertenço acaso à raça dos mutantes?
Ou sou, talvez
- em meio às espantosas aparências
de algum mundo estranho
um espião que houvesse esquecido o
seu código, a sua sigla, tudo...
menos a gravidade da sua missão!
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PRESENÇA
Para Lara de Lemos

É preciso que a saudade desenhe tuas
linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas,
levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja
como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença
misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e
múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Fonte:
Mário Quintana. Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo & Instituto Estadual do Livro, 1976.

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