segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Mensagem na Garrafa 207 = A Teia de Aranha e a Fé

Imagem: IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Uma vez um homem estava sendo perseguido por vários malfeitores que queriam matá-lo.

O homem, correndo, virou em um atalho que saía da estrada e entrava pelo meio do mato e no desespero elevou uma prece a Deus da seguinte maneira:

– Deus Todo Poderoso fazei com que dois anjos venham do céu e tapem a entrada da trilha para que os bandidos não me matem.

Nesse momento escutou que os homens se aproximavam da trilha onde ele se escondia e viu que na entrada da trilha apareceu uma minúscula aranha. A aranha começou a tecer uma teia na entrada da trilha. 

O homem se pôs a fazer outra oração cada vez mais angustiado:

– Senhor, eu vos pedi anjos, não uma aranha. Senhor, por favor, com tua mão poderosa coloca um muro forte na entrada desta trilha, para que os homens não possam entrar e me matar.

Abriu os olhos esperando ver um muro tapando a entrada e viu apenas a aranha tecendo a teia. 

Estavam os malfeitores entrando na trilha, na qual ele se encontrava esperando apenas a morte, quando passaram em frente da trilha o homem escutou:

– Vamos, entremos nesta trilha!

– Não, não está vendo que tem até teia de aranha!? Ninguém deve ter entrado por aqui. Continuemos procurando nas próximas trilhas.
* * *

A fé é crer no que não se vê, é ter esperança diante do impossível. Se pedes a Deus uma árvore Ele te dará em forma de semente.

Miriane Willers (A estimada chinesa)


O amor não domina; ele cultiva
Goethe

Foi o que aconteceu com nós duas. Ela estava aqui, quando cheguei para ocupar a casa – presente do meu pai. Jovem, vistosa, até um pouco estranha e baixinha. Não sabia eu quem ela era, nem conhecia nada dela, nem ninguém parecido. Mas, me cativou de imediato. Acompanhou a reforma da casa, a mudança. Foi conhecendo os novos moradores: meu marido e meu gato – Toni. Mais tarde, minha filha. No primeiro dezembro de convivência mútua, presenteou-me com pequenos frutos vermelhos, semelhante a morangos. Sumo branco, sabor adocicado, diferente... como os novos amores. Quis saber mais sobre ela e descobri que era originária da China e se chama Lichieira. E assim teve início nossa ligação.

A cada ano, venho me afeiçoando a esse ser, que estende ramos e mais ramos ao meu encontro, como abraços. Aprofunda suas raízes na terra e no meu coração e oferece lichias cada vez mais doces, como versos de amor. Nas tardes de verão, me envolve com seu frescor, enquanto descanso na rede apegada no seu tronco. Melhor climatizador não há! Resfria meu corpo e meu pensamento, enquanto descubro o céu entre seus olhos-folhagem que miram o longe. Acalma. Acolhe. A canção da brisa ao tocar suas folhas sussurra paz. Chamo-a de minha árvore! Todos da casa são conhecedores do meu apego à ela, o que a torna intocável, insubstituível, singular. Aparar minimamente seus galhos pode desencadear um conflito mundial nos 370 m² do meu território, no centro da cidade.

Penso que nosso sentimento é recíproco, sensível, nascido da alma humano-natureza. Somos parte uma da outra. Minha sobrevivência depende dela. A sobrevivência da minha espécie depende dela. E vice-versa. Negar essa relação é dor, catástrofe, enchente, tragédia humano-ambiental. Sem as árvores, seres que nos completam, nossa existência está em flagrante risco. A ameaça não é mais à continuidade da vida dos nossos netos e bisnetos. É nossa. É agora. Não admitir essa relação – que precisa ser amorosa, respeitosa e responsável – é desacreditar da Ciência. E desprezar a Ciência é desamar a humanidade.

Contra fatos e números não há argumentos. Árvores são essenciais para evitar o aquecimento global. Evitar que a chuva – que tinha cheiro de vida, aconchego, pipoca, livro bom, canção de ninar – seja preocupação, despedidas, susto, medo, sofrimento. Da mãe natureza têm sido arrancadas, sem dó, milhões de árvores-filha todo ano. E o plantio é pouco e para fins industriais. Só na Amazônia, em 2023, a cada segundo, 21 árvores foram derrubadas. Agredida, a mãe terra chora, chora, chove sem parar. E com fúria, arromba tudo: casas, afetos, pontes, histórias, muros, certezas... e arrasta gente, bicho, concreto, construção, bens (i)materiais... Frutos da ganância.

Preservar a vida humana passa, obrigatoriamente, pelas florestas vivas! Amar e cultivar. É urgente ter árvores de estimação!

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    A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.

Fontes:
Miriane Willers. Apesar de nós, Santa Sede – Crônicas de Botequim. Publicado originalmente em 2024.
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 7: Exclusão Social


Sob o frio da calçada,
deita o corpo sem abrigo.
Toda a noite fria e longa,
dorme, infeliz, o mendigo.
José Feldman – PR

A exclusão social é a consequência de todas as atitudes mesquinhas que viemos denunciando. É a síntese da falta de cidadania. Entre os excluídos sociais encontram-se os moradores de rua, os que não têm voz para gritar pelo seu direito de cidadania. São as vítimas da sociedade competitiva, onde os valores foram invertidos. Em que a dignidade humana foi lançada ao fosso do esquecimento. Onde a riqueza do mundo é abocanhada pelas minorias dominantes, sob o olhar indiferente dos que ainda poderiam se rebelar, mas preferem ver as injustiças regulamentadas em vez de abolidas.

Nesta minha caminhada
não me horroriza a violência,
mas a boca que calada
alimenta-lhe a existência.
Ângela Togeiro - MG

Ei-los vestidos de trapos
pedindo roupa e comida:
não são gente, são farrapos
nas reticências da vida!
Dias Monteiro - SP

Nos becos da iniquidade,
os órfãos do ter e ser
são frutos que a sociedade
semeia... e não quer colher!...
João Freire Filho - RJ
 
Bem mais triste que o lamento
de um velho e rouquenho sino
é o de quem dorme ao relento
sobre o leito do destino.
Sebastião Soares - RN

Só se vê naquela esquina
pedintes, gente sofrida,
carregando a triste sina
dos excluídos da vida.
Hélio Pedro Souza - RN

Nas noites frias, um drama
que a miséria perpetua:
alguns chamarem de cama
o que outros chamam... de rua!
Sérgio Ferreira da Silva - SP

Se todos fossem honestos
ninguém veria na praça
mendigos comendo restos
do pão que a miséria amassa.
Clarindo Batista de Araújo - RN

Bandeiras ornam a rua,
foguetões sobem ao céu;
porém a dor continua
de quem sempre vive ao léu,
Rodrigues Neto - RN

Perdoem-me os meus amigos,
nada tenho a festejar,
pois são milhões de mendigos
e ninguém para ajudar!
Juril Carnascíali - PR

Quantos banquetes regados
a vinho, trufa e salmão...
quantos irmãos relegados
sem água, sem luz, sem pão!
Francisco José Pessoa - CE

Denunciando o abandono e a exclusão social alguns trovadores o fazem com imagens tão poéticas que minimizam essa terrível condição.

Dorme o menor na calçada
e a rua se estende ao léu,
feito uma rede amarrada
aos dois extremos do céu!
Antônio de Oliveira - SP

Meu barraco na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela
não tem vidraça, tem céu.
José Antônio Jacob - MG
 
Dois moradores de rua,
casados com a desventura,
ao relento, olhavam a lua...
- Olhar de quase ternura...
Gonzaga da Silva - RN
 
Uma família sem teto,
repartia o mesmo pão...
Mas sobrava sempre afeto,
no final da divisão...!
Mara Melinni Garcia - RN

Um casebre na favela...
O espaço ganhou fulgor
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!
Vanda Fagundes Queiroz - PR

Muito se tem falado em inclusão social, mas pouco se tem feito de modo eficiente. A lei por si só não garante a inclusão, fica apenas nos discursos ditos "politicamente corretos". O trovador protesta.

O bruxulear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluído que clama
por respeito e por justiça!
Angélica Villela Santos - SP

Tenham todos terra e teto,
sem preconceito ou fronteira
e que haja amor, não decreto,
para a inclusão verdadeira!
Therezinha Dieguez Brisolla - SP

Trabalho, teto, respeito...
Justiça, saúde, escola…
Meu povo quer, por direito,
jamais receber esmola!
Maria Cristina Corrêa - SP

É urgentíssima a inclusão
dos deserdados da vida,
dai-lhe a terra e a certidão,
identidade e guarida.
Francisco Macedo - RN

Mas excluídos não são apenas os moradores de rua. Parcelas significativas da sociedade vivem o processo de exclusão social. Numa tentativa de minimizar o abismo entre os poderosos e os excluídos, a Constituição e as leis procuram explicitar alguns direitos que deveriam livre e naturalmente ser praticados. E cria-se outro abismo, agora entre a intenção da lei e a sua efetividade.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Quando a miséria se expressa
em mão tímida que implora,
qualquer pão se faz promessa
que enxuga um oíhar que chora…
Elen de Novais Félix - RJ

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    LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.)

Nilto Maciel (As insolentes patas do cão)


Daquela noite lembro quase nada, tudo a se confundir na memória. Chego a pensar que foram muitas as noites, condensadas numa só ao longo do tempo e da angústia crescente. Às vezes ainda me digo: foi um sonho, foram muitos sonhos, misturados a lendas, histórias de trancoso, simples imaginações.

Brincávamos na sala, meus irmãos e eu, de trenzinho de caixas de fósforo, de bois e cavalos imaginários, de artista e bandidos de gibi, qualquer fantasia. E não existiam homens como nosso pai, nem mulheres como nossa mãe, e muito menos cachorros como aquele que nos apareceu de repente, patas à janela, a latir para dentro de nosso mundo.

O medo paralisou-nos e todos os brinquedos sumiram de nossos olhos, como se destruídos pela língua do diabo. Quis correr para os quartos, a cozinha, o quintal, agarrar-me às saias de minha mãe, meter-me entre as brasas do fogão, fugir pelo esgoto, ir bater nas grotas. Não movi um pé, enquanto meu irmão mais velho saltava feito um gato e agarrava as insolentes patas do cão, para empurrá-lo à calçada.

Tudo esforço inútil. Já meio corpo do bicho se debruçava na janela, a grande cabeça agitada, a boca cheia de baba, a latir dentro de casa.

O medo empurrou-me para os brinquedos e, num gesto nunca mais imitado, tomei ao bandido um facão, entreguei-o a meu irmão e ordenei que decapitasse o vira-lata.

Diante da ameaça, primeiro se escondeu a cabeça do outro lado da janela, depois as patas escorregaram, num ganido de covardia.

Corremos à janela e só vimos o pobre do cão, rabo entre as pernas, encolhido, apressado, de vez em quando a olhar para trás, perdido na escuridão da rua.

E por muito tempo nos deixamos debruçados na janela, olhos enfiados nas pedras do calçamento, esquecidos das fantasias espalhadas pela sala.

De mais nada consigo lembrar, se o trenzinho corria, se os bois mugiam, se os cavalos galopavam, se o artista e os bandidos se matavam, se nossos pais dormiam ou já haviam morrido, se o tempo passou, se fui eu que sonhei.

Só ficaram as patas do cão, garras apontadas para meus olhos.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

(Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 5)

curso ministrado por José Feldman

5. AMBIENTES DO CONTO

Construir o ambiente de um conto é crucial para estabelecer a atmosfera e influenciar a narrativa. Aqui estão orientações sobre como criar ambientes adequados para contos de suspense, policiais, críticos, filosóficos e românticos, além de erros comuns a serem evitados.

5.1. CONTOS DE SUSPENSE

5.1.1. Ambiente:

5.1.1.1. Locais Isolados ou Ominosos: 
Como casas abandonadas, florestas densas ou cidades desertas.

5.1.1.2. Clima e Atmosfera: 
Use elementos climáticos (chuva, neblina) para intensificar a tensão.

5.1.2. Erros a Evitar:

5.1.2.1. Ambientes Genéricos: 
Não use descrições vagarosas que não contribuam para a tensão. Cada detalhe deve aumentar a sensação de medo.

5.1.2.2. Incoerência: 
O ambiente deve ser consistente com o tom da história. Um local muito familiar pode diminuir a emoção.

5.2. CONTOS POLICIAIS

5.2.1. Ambiente:

5.2.1.1. Cenários Urbanos: 
Áreas urbanas, como bairros com crime frequente ou locais do crime significativos.

5.2.1.2. Ambientes de Investigação: 
Salas de interrogatório, delegacias ou cenas de crime devem ser descritos detalhadamente.

5.2.2. Erros a Evitar:

5.2.2.1. Ambientes Superficiais: 
Não ignore os detalhes que poderiam enriquecer a investigação, como odores, sons e sentimentos associados ao local.

5.2.2.2. Falta de Variedade: 
Cenários repetitivos podem tornar o enredo maçante. Diferentes locais devem adicionar novas dimensões à trama.

5.3. CONTOS CRÍTICOS

5.3.1. Ambiente:

5.3.1.1. Cenários Sociais ou Culturais: 
Ambientes que refletem a crítica social, como cidades divididas, escolas ou espaços públicos.

5.3.1.2. Contexto Histórico: 
Usar épocas específicas para contextualizar a crítica e suas implicações.

5.3.2. Erros a Evitar:

5.3.2.1. Ambientes Impessoais: 
Não crie cenários que não estejam ligados emocionalmente aos personagens. O ambiente deve refletir suas lutas.

5.3.2.2. Falta de Conexão: 
O ambiente deve contribuir para a mensagem crítica, não ser apenas um fundo estético.

5.4. CONTOS FILOSÓFICOS

5.4.1. Ambiente:

5.4.1.1. Cenários Reflexivos: 
Locais que convidam à introspecção, como cafés, parques ou bibliotecas.

5.4.1.2. Ambientes Simbólicos: 
Espaços que refletem as questões filosóficas abordadas, como um deserto para simbolizar isolamento.

5.4.2. Erros a Evitar:

5.4.2.1. Ambientes Desconectados: 
Não use locais que não tenham relevância para os dilemas e reflexões dos personagens.

5.4.2.2. Superficialidade: 
Evite uma descrição que não crie uma atmosfera reflexiva e introspectiva.

5.5. CONTOS ROMÂNTICOS

5.5.1. Ambiente:

5.5.1.1. Locais Românticos: 
Praias, parques floridos, ou cafés aconchegantes onde os personagens se encontram e se conectam.

5.5.1.2. Cenários que Evoluem: 
O ambiente pode mudar conforme a relação evolui, refletindo o estado emocional dos personagens.

5.5.2. Erros a Evitar:

5.5.2.1. Ambientes Frios ou Hostis: 
Locais que não promovem a conexão emocional podem afastar o leitor.

5.5.2.2. Falta de Detalhes Sensorais: 
Não subestime a importância de criar uma atmosfera sensual ou calorosa que complemente a narrativa romântica.

5.6. CONSIDERAÇÕES

Os ambientes em contos devem ser cuidadosamente construídos para refletir o tom e o tema da narrativa. Ao evitar erros comuns, como descrições superficiais e locais incongruentes, os escritores podem oferecer ao leitor uma experiência imersiva e impactante. A interligação entre ambiente e trama é fundamental para criar uma narrativa envolvente.
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Continua…
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domingo, 9 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 29 *



  Ah, se o amor fosse comprado
tal como se compra um pão,
se eu não fosse afortunado,
seria um grande ladrão!...
A. A. DE PAULA
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Treinando, o punguista Zeca,
enquanto dança uma valsa,
consegue tirar a cueca
sem antes despir a calça!...
APARICIO FERNANDES
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Se há noites frias, escuras,
também há noites formosas;
há riso nas amarguras,
entre espinhos nascem rosas.
AUTA DE SOUZA
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Bem pouca gente procura
aceitar esta verdade:
— antes ser bom sem ventura,
que ser feliz sem bondade.
BATISTA NUNES
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O mérito da questão
foi por demais discutido,
e durante a confusão
o juiz tinha dormido...
BENTO VIEIRA DE MOURA
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Caro doutor, saiba disso:
se esse transplante malogra,
eu pago em dobro o serviço,
pois a velha é minha sogra...
CARLOS GUIMARÃES
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Um anjo veio e deu vida
ao peito de amores nu;
Minha alma agora remida
adora o anjo — que és tu!
CASIMIRO DE ABREU
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Não te deixes deslumbrar
pelo brilho da cidade;
podes ferir teu sonhar,
pois nem tudo é de verdade,..
DINA MARCHETTI ABAD
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É inverno… mas que me importa?
Estou sempre à tua espera…
Quando chegas e abro a porta
entra junto a Primavera!
DÉSPINA ATHANÁSIO PERUSSO
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Dona do maior afeto,
minha amiga doce e terna!
Eu vou baixar um decreto:
- toda mãe vai ser eterna!
DEYSE GOTTARDELLO
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Criança, crescida és,
vives de sonhos, também,
Tu, que tens o mundo aos pés,
serás o mundo de alguém!
DIRCEU AMARAL
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Nosso abismo mais profundo,
que no universo se espalma,
são as tristezas do mundo
nas profundezas da alma.
DILMA SUERO
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Quando a mulher o encontrou
atracado na empregada,
o cara-de-pau berrou:
— Me larga, negra tarada!
ÉLTON CARVALHO
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Jornalista dá notícia
sem fazer dela mistério.
E se é linguagem fictícia
usa seu melhor critério.
EMÍLIO SOARES DA COSTA
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Tem tudo; fortuna imensa,
honras, prestígio, nomeada,
Com o amor… indiferença,
Pobre rico! Não tem nada!…
ESMERALDO SIQUEIRA
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Não tenho televisão,
mas tenho "televizinha"...
E numa programação
que vai a noite inteirinha!
ENÉAS NUNES DE BARROS
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No universo da poesia
desejei veredas novas,
e encontrei o que eu queria,
ao lançar o anzol nas trovas.
ENIVALDO BORGES DA SILVA
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É nas horas do langor,
quando o sonho faz-se extinto,
que se troca um grande amor
por um cálice de absinto!
ÉRICO MAGALHÃES DO AMARAL
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Nesta casa, que é só minha,
onde eu mesmo sou a lei,
obedeço a uma rainha,
muito embora eu seja o rei...
ERNÂNI RUSHEL
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Ajuda aos pobres, amigo,
sem mesquinhez ou ambição.
— O pobre, ao cruzar contigo,
é Deus que te estende a mão!...
GALDINO ANDRADE
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No momento da partida
deixaste por maldição,
uma saudade dorida
dentro do meu coração.
ISAIAS TEVES
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Esquecendo a Lei Divina,
aquele padre — essa é boa! —
Abandonou a batina,
mas... conservou a coroa!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
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A morte é o triste momento
de uma dívida assumida.
É o dia do vencimento
das quatro letras da vida!
LAMARTINE BABO
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Eis que o destino descobre
a sorte que Deus me deu:
- Ninguém na vida é mais pobre
e nem mais feliz que eu!
LATOUR AROEIRA
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Sonhando novas auroras,
no meu viver sem ninguém,
me embala a dança das horas
pelo amanhã que não vem..,
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA
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Fim da estrada... hoje tristonho
eu constato e a voz se cala;
a mão que agarrava o sonho,
hoje segura a bengala…
LEDA BECHARA
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Sei que o Inferno é muito grande,
cabe mais um ou mais dois.
— Se por acaso eu for antes,
tu poderás ir depois...
OZIEL PEÇANHA
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Da morte ninguém escapa,
por isso não tenho medo.
Só peço que ela não venha
me procurar multo cedo...
ROBERTO FERNANDES
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Seis horas... Vem a Saudade...
Rio antigo... Praça Onze...
Os sinos, pela cidade,
choram lágrimas de bronze...
VASCO DE CASTRO LIMA
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Na demanda da ternura,
motivo... meus sonhos lassos,
indo de encontro à ventura
na curva dos teus abraços...
VANDA ALVES DA SILVA
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Aprecio o casamento,
mas num plano secundário.
Casou? Deu festa? Eu frequento,
mas fico celibatário...
ZEDANOVE TAVARES
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José Feldman (Confusões de Totozinho)


O sol brilhava forte sobre o resort Águas Celestiais, e o ar cheirava a cloro, coco e um toque de suco de laranja gelado. Carlos tinha conseguido finalmente uns dias de descanso e não pensou duas vezes: levou consigo o seu maior orgulho e também a sua maior dor de cabeça — Totozinho, um São Bernardo de quase setenta quilos, com cara de anjo e energia de um furacão em dia de folga.
 
— Olha só que lugar lindo, Totozinho! — disse Carlos, acariciando a cabeça maciça do cachorro enquanto caminhavam pela beira da piscina. 

— Água azul, sol quente, ninguém para nos incomodar... vamos aproveitar, hein, meu grandão?
 
Totozinho abanou o rabo com tanta força que o vento chegou a bagunçar o cabelo de um senhor que passava por perto. Carlos arrumou uma espreguiçadeira perto da borda, estendeu a toalha e prendeu a coleira do cachorro numa corrente de aço que ficava fixa no chão, pensando: “Assim ele fica seguro e não sai por aí atropelando ninguém”. 

Mal sabia ele que a corrente era forte, mas a paciência de Totozinho era fraca, e o seu plano de paz estava prestes a virar uma tragédia cômica.
 
— Fica aqui quietinho, tá? — pediu Carlos, dando um tapinha no pescoço do animal. — Vou só molhar os pés e já volto.
 
Mal ele tinha dado três passos, Totozinho eriçou as orelhas. Seus olhos se fixaram em algo do outro lado da área de lazer: uma bola de borracha colorida que um menino tinha deixado rolar, e que parecia, para ele, o objeto mais fascinante do universo. O cachorro soltou um latido baixo, ansioso, e começou a puxar a corrente com força.
 
— Ei, ei! Calma, Totozinho! Não é nada! — gritou Carlos, voltando rapidamente para segurá-lo pela coleira. — Que é isso, meu filho, não precisa ficar todo agitado! É só uma bola, não vai comer ninguém!
 
Mas Totozinho não queria saber de explicações. Ele puxou mais forte, com todo o peso do corpo, e Carlos, tentando se equilibrar e ao mesmo tempo acalmar o bicho, acabou cometendo um erro fatal: enroscou a ponta da própria calça na argola da corrente. Quando o cachorro deu um salto decisivo, o tecido se enrolou, e em um piscar de olhos, Carlos estava preso — amarrado à coleira, com as mãos agarradas nela e o corpo sendo arrastado sem dó.
 
— AI, MINHA NOSSA! Espera, Totozinho! Espera, seu doido! — berrou ele, sendo arrastado pelo chão de pedra. — Não corre assim! Vou cair! Vou... AI MEUS PÉS!
 
A confusão começou na hora. Totozinho disparou como um foguete, e Carlos ia atrás, escorregando, pulando sem querer e gritando como um louco. A primeira vítima foi Dona Marlene, que estava sentada relaxando com um chapéu de palha gigante e um copo de suco na mão.
 
— Mas que... — não teve tempo de terminar. Com uma cotovelada involuntária de Carlos, ela foi empurrada direto para dentro da piscina, chapéu e tudo, fazendo um SPLASH tão grande que molhou todos os que estavam nas redondezas.
 
— PERDÃO, DONA! NÃO FOI DE PROPÓSITO! — gritou Carlos, mas não conseguia nem olhar para trás, tamanha a força de paquiderme.
 
O cachorro não parou. Seguiu em frente e acertou em cheio uma mesa com bebidas e lanches, que virou de lado num instante: copos, pratos, fatias de melão e garrafas voaram para todos os lados. Um garçom que vinha com uma bandeja cheia de água de coco ficou boquiaberto e, antes que pudesse se mover, foi atingido pela cauda do cachorro, caindo junto com tudo o que carregava.
 
— O que está acontecendo aqui?! — gritou o gerente, saindo correndo de dentro do bar com a toalha na mão.
 
— É O MEU CACHORRO! E EU TAMBÉM! ESTOU PRESO! — respondeu Carlos, que agora ia com a camisa toda suja de areia e suco de fruta.
 
Mais adiante, um grupo de amigos fazia um brinde na beira da piscina. Num segundo pensaram que era uma brincadeira, no seguinte viram a dupla furiosa chegar. Totozinho passou por baixo de uma das mesas de plástico, que subiu no ar e girou como um pião, enquanto todos que estavam ali se jogavam para um lado e para o outro, ou acabavam caindo na água aos gritos e sustos.
 
— SEGURA ELE! ALGUÉM SEGURA O TOTOZINHO! — tentou pedir Carlos, mas a voz saiu arrastada e falhada.
 
— TOTOZINHO! — chamou uma criança, achando a maior graça da bagunça. — QUE CACHORRO FORTE!
 
— FORTE É POUCO! ELE É UM TREM! — respondeu Carlos, quase engolindo areia.
 
O passeio destruiu também um guarda-sol que estava bem fincado, que saiu voando e abriu-se no meio do caminho como um para-quedas, atrapalhando ainda mais a visão. Totozinho, ainda obcecado pela tal bola, não dava folga. Passou por cima de uma esteira, derrubou um balde de gelo e arrastou o dono direto para a área onde estavam as espreguiçadeiras mais caras, fazendo uma fila inteira delas tombar uma após a outra como peças de dominó.
 
— SOCORRO! A MINHA CALÇA VAI RASGAR! — gritou Carlos, desesperado. — MEU DEUS DO CÉU, QUE IDEIA MALUCA FOI A MINHA DE TRAZER VOCÊ! PRECISO ANALISAR MINHA CABEÇA!
 
Quando todos já estavam de pé, uns molhados, outros cobertos de areia e frutas, mesas viradas e pessoas rindo alto sem conseguir acreditar no que viam, Totozinho finalmente parou. Parou exatamente na frente daquela bola que tanto o tinha atraído, cheirou-a com carinho, pegou-a na boca e sentou-se calmamente, abanando o rabo como se nada tivesse acontecido.
 
Carlos, todo amassado, com a camisa rasgada, joelhos ralados e ainda preso na corrente, ficou ali estirado no chão por uns minutos, respirando ofegante. O silêncio durou só um segundo — depois explodiu uma gargalhada geral, de todos os lados. Dona Marlene, que tinha saído da piscina toda molhada, limpou o rosto e disse rindo:
 
— Meu filho, que cachorro danado! Mas você também, hein? Que jeito é esse de passear? Parece que foi atropelado por um rebanho!
 
— Eu juro que não foi minha intenção — respondeu Carlos, soltando uma risada fraca e tentando se soltar da corrente. — Ele viu a bola, ficou doido, eu me enrolei... e olha no que deu!
 
O garçom, que já começava a recolher os cacos, sorriu e disse:
 
— Não se preocupe, senhor! Há muito tempo não víamos uma animação tão boa por aqui. 
 
Totozinho, com a bola na boca, olhou para todos com uma cara de quem não fez nada de mais, e soltou um latido feliz, fazendo todo mundo rir. Carlos, finalmente livre da corrente, levantou-se, sacudiu a poeira e passou a mão na cabeça do seu grandão.
 
— Pois é, Totozinho — murmurou ele, sorrindo e balançando a cabeça —, com você, nem um dia de descanso é sossegado.
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final do século XX. Residiu em cidades como São Paulo, Taboão da Serra, Curitiba e Ubiratã e finalmente em Maringá (PR) desde 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante Supremo do Saber, em Timisoara/Romênia; Mérito Cultural “Euclides da Cunha” na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural; Mérito Cultural da Academia Brasileira de Trova, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pergola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Confraria Brasileira de Letras, Bonde; Francisco Pessoa, UFRJ, etc.

Interlúdio * 17 *


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    LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.