sábado, 16 de janeiro de 2021

Laurindo Rabelo (Poemas Escolhidos) II


A MINHA RESOLUÇÃO


O que fazes, ó minh’alma!
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Corre o ribeiro suave
Pela terra brandamente,
Se o plano condescendente
Dele se deixa regar;
Mas, se encontra algum tropeço
Que o leve curso lhe prive,
Busca logo outro declive,
Vai correr noutro lugar.

Segue o exemplo das águas,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Nasce a planta, a planta cresce,
Vai contente vegetando,
Só por onde vai achando
Terra própria a seu viver;
Mas, se acaso a terra estéril
Às raízes lhe é veneno,
Ela vai noutro terreno
As raízes esconder.

Segue o exemplo da planta,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Saiba a ingrata que punir
Também sei tamanho agravo:
Se me trata como escravo,
Mostrarei que sou senhor;
Como as águas, como a planta,
Fugirei dessa homicida;
Quero dar a um’alma fida*
Minha vida e meu amor.
* * * * * * * * * * * * * * * *
* Alma fida – alma fiel
* * * * * * * * * * * * * * * *    

A LINGUAGEM DOS TRISTES

Se houver um ente, que sorvido tenha
Gota a gota o veneno da amargura;
Que nem nos horizontes da esperança
Veja raiar-lhe um dia de ventura;

Se houver um ente, que, dos homens certo,
Neles espere certa a falsidade;
Que veja um laço vil num rir de amores,
Uma traição nos mimos da amizade;

Se houver um ente, que, votado às dores,
Todo com a tristeza desposado,
De cruéis desenganos só nutrido,
Somente males a esperar do fado;

Que venha, acompanhar-me na agonia,
Qu’esta minh’alma, sem cessar, traspassa!
Venha, qu’há muito luto, a ver se encontro
Quem sinta, como eu, tanta desgraça

Venha, sim, que talvez por nosso trato
Uma nova linguagem seja urdida,
Em que possam falar-se os desgraçados,
Que do mundo não seja traduzida.

Por lei inexorável do destino,
Quem gemer à desgraça condenado,
Inda lidando no lidar do mundo,
Há de viver do mundo desterrado.

E em que desterro! Os outros só nos tiram
Os olhos do lugar do nascimento;
A desgraça, porém, do mundo inteiro
Desterra o coração e o pensamento.

Ao menos a linguagem deste exílio
Mais suportável torne a vida crua;
Tenha ao menos a terra da desgraça
Uma linguagem propriamente sua.

E quem tê-la melhor? Por mais que fale
O sedutor prazer em frase ardente,
Por mais que se perfume e se floreie,
Nunca é, como a dor, tão eloquente.

Nos fenômenos d’alma o corpo sempre
Do seu modo de obrar diversifica:
Pelas quebras da orgânica fraqueza
A força esp’ritual se multiplica.

Quando, livre, o esp’rito aos céus remonta,
Da Eternidade demandando o norte,
Toda força primeva recobrando —
Tomba a matéria, e cai nas mãos da morte!

Quando o gás do prazer dilata o seio,
A força do sentir dormente acalma;
Quando a pressa da dor o seio aperta,
A força do sentir se expande n’alma.

Assim novas palavras, novas frases,
Nova linguagem, pede o sofrimento;
Porque dobra o sentir, e duplas asas
Pra voos duplos colhe o pensamento:

Não, não pode em seus termos quase inertes,
Esse falar comum de cada dia,
Deste duplo sentir, d’ideias duplas,
Exprimir fielmente a valentia.

Enganai-vos, ditosos! Vossas falas,
Anos que falem, nunca dizem tanto,
Quanto num só momento dizer pode
Um suspiro, um soluço, um ai, um pranto.

Eia, pois, tristes! eia!... desde agora
Uma nova linguagem seja urdida,
Em que possam falar-se os desgraçados,
Que do mundo não seja traduzida.

Veja o mundo, de gozos egoísta,
Qu’os tristes nada têm de suas lavras:
Que, orgulhosos na pátria da desdita,
Nem dos ditosos querem as palavras.

Fonte:
Laurindo Ribeiro. Poesias Completas. Ministério da Cultura.

Carlos Drummond de Andrade (Trem de Contos) 13 e 14

NOVO DICIONÁRIO


Qual não foi o pasmo de Matias ao abrir em casa o dicionário de português que comprara para o filho colegial, e verificar que ele era todo feito de palavras cruzadas.

— O garoto não vai estudar palavras cruzadas, vai estudar português — explicou ao balconista da livraria, pedindo a troca do volume.

— O dicionário está certo — respondeu-lhe o rapaz.

— Como está certo, se não começa pela letra A e termina pela letra Z, a exemplo de todos os dicionários de português desde que a língua existe?

— Estou vendo que o senhor não acompanhou a evolução do português. Com as últimas aquisições da ciência linguística e as recentes pesquisas lexiológicas, e mais o uso literário da língua, o português é hoje considerado jogo de palavras cruzadas. Cruzadíssimas.

— Hem? Não estou entendendo.

— Não precisa entender, desde que o senhor tenha habilidade para decifrar palavras cruzadas. Mestres universitários da maior categoria assim resolveram, e os editores lançaram dicionários de acordo com os novos moldes. Procure ler os tratados e revistas de lexiologia, os estudos sobre linguagem, os ensaios de crítica literária, as dissertações universitárias. Tudo palavras cruzadas. Seu filho ainda não tem a nova gramática cruzacional? É indispensável. E muito cuidado no cruzamento das ruas. As placas também vão cruzar.
* * * * * * * * * * * * * * * *

O AMOR DAS FORMIGAS

— O amor das formigas, você já observou o amor das formigas? — perguntou Otávio a Isadora.

– Não, Isadora nunca observara o amor das formigas.

— Nem eu — confessou Otávio. — Aliás, nunca ninguém observou o amor das formigas — sentenciou.

— Mas os entomologistas… — ponderou Isadora.

— Os entomologistas pensam que observaram — retrucou Otávio —, mas as formigas são muito discretas. Não são como os homens e as mulheres, que amam em público.

A conversa continuava nessa trilha de formiga, em zigue-zague, quando a formiga apareceu na ponta da toalha de mesa e foi subindo.

Outra formiga veio em seguida. As duas caminharam às tontas, depois juntaram as cabecinhas num movimento elétrico, e se afastaram, cada uma para o seu lado.

— Você acha que elas se amaram? — perguntou Isadora. — De modo algum — respondeu Otávio. — Trocaram sinais de serviço, apenas. E daí, querida, ninguém ama com a cabeça, é exatamente o contrário: cabeça atrapalha.

— Pois eu acho o contrário do contrário — disse Isadora. — As formigas podem ser mais evoluídas do que nós, e amar acima do coração, de um modo perfeito.

Mas a conversa não conduziu a nada, e os dois tomaram chá.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Publicado em 1981

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 465

 


Mário Quintana em Prosa e Verso 12

 A RUA DOS CATAVENTOS


VII

Avozinha Garoa vai contando
Suas lindas histórias, à lareira.
"Era uma vez... Um dia... Eis senão quando..."
Até parece que a cidade inteira

Sob a garoa adormeceu sonhando...
Nisto, um rumor de rodas em carreira...
Clarins, ao longe... (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)

Cerro os olhos, a tarde cai, macia...
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa...

E a chuva um'outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

VIII
Para Dyonélio Machado

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino.., acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

IX
Para Emilio Kemp

A mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: - ALEGRIA - RISOS
Depois do circo já ter ido embora!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

X

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!"
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.

"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"
Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XI

Contigo fiz, ainda em menininho,
Todo o meu curso d'alma... E desde cedo
Aprendi a sofrer devagarinho,
A guardar meu amor como um segredo...

Nas minhas chagas vinhas por o dedo
E eu era o Triste, o Doído, o Pobrezinho!
Amava, à noite, as luas de bruxedo,
Chamava o por-do-sol de meu padrinho...

Anto querido, esse teu livro "Só"
Encheu de luar a minha infância triste.
E ninguém mais há de ficar tão só:

Sofreste a nossa dor, como Jesus...
E nesta Costa d'África surgiste
Para ajudar-nos a levar a Cruz!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

XII

Tudo tão vago... Sei que havia um rio...
Um choro aflito... Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...

O menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...

E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria, junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...

Eras tu... que, ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

Fonte:
Mário Quintana. A Rua dos Cataventos. Publicado em 1940.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 7. conto - Coração de Ouro

CORAÇÃO DE OURO


Foco Narrativo
Narrado em 3ª pessoa

Espaço
Rio de Janeiro-São Paulo. Hotel onde patrão e secretária se hospedam.

Personagens:
a) Antenor Couto - novo rico-herdeiro de grande fortuna tinha que aprender novos hábitos como os dos magnatas. A.C. torna-se “quixotesco”, atitudes tolas...como pagar o dobro do pedágio...Ser identificado pelas iniciais demonstra a importância social.
b) Secretária - sedutora, manipuladora da vida de A.C. "ar de princesa, dedos finos, delicado cerrar das pestanas, que lhe haviam recomendado como um cartão de visitas do Tiffanys"

Antenor Couto é o protagonista deste conto. Tendo recebido uma herança,  títulos, dois prédios, em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Reservou a suíte presidencial do hotel Sheraton em São Paulo, enviou um carro com chofer e a secretária, fundamental para Antenor, mas não como a sua agenda, pois sua vida gira em torno dela.

A linda secretária se aproveita do patrão rico manipulando-o através de uma agenda e telegramas forjados....Assim ele desfruta da fortuna do patrão. O fato de estar empolgado com o dinheiro não enxerga as artimanhas da secretária que mantém sua vida sob controle.

Jamais abandona a agenda que era o coração dos dois.

Fonte:
Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 22 –

 


Professor Garcia (Poemas do Meu Cantar) Trovas – 3 –


A aquele que arrasta a cruz
e, aos ritos do amor se entrega...
Deus põe dois braços de luz
na cruz do bem que carrega!
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Adeus!... Passado tão lindo,
encanto dos dias meus!...
Disseste-me adeus, sorrindo
e, eu triste, te disse adeus!
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A ingratidão se resume
num coração descontente,
a um velho facão sem gume
cortando os sonhos da gente!
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Com remendos e arremedos,
em desmedidos desvãos;
alguns vão sujando os dedos
na sujeira de outras mãos!
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Depois de feita a moldura
da aquarela do arrebol,
Deus pôs gotas de ternura
na rosa rubra do sol!
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Do mar, a mais linda prenda
que a espuma branca ponteia,
é a camisola de renda
que as ondas tecem na areia!
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Feliz Natal!... Se é feliz,
como crer nisto; afinal...
Se há tanta gente infeliz
quando é noite de Natal?!.
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Hoje, eu refiz o meu ninho
e, abri janelas e portas,
para cantar com carinho
cantigas das tardes mortas!
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Lembro, mamãe, do teu canto,
num doce e breve estribilho,
tentando enganar o pranto
do choro triste do filho!
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Meu pensamento deduz,
seguindo os teus passos certos
que, a intensidade da luz
dobra em teus braços abertos!
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Na vida há tantas essências
e aparências desiguais,
que, eu penso que as reticências
são velhos pontos finais!
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Neste Natal, meu Senhor,
quando a vida se refaz...
Teu vinho, é o sangue do amor
teu pão, o corpo da paz!
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O ocaso da vida, é um sonho.
Quando se alcança esse prazo,
fica um pouco mais tristonho
nosso sorriso, no ocaso!
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Peço, ó tempo, que me acudas,
faz-me entender a canção
do canto das folhas mudas,
secas, mortas pelo chão!
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Por temor da noite ingrata
e, antes que, a treva se afoite,
surge uma luz, cor de prata,
no teto negro da noite!
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Posso dizer de joelhos
ante os teus pés andarilhos,
que escuto pai, teus conselhos
aconselhando os meus filhos!
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Saudade é um sonho roubado,
que de forma inconsequente...
Vive no tempo passado,
numa ilusão do presente!
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Saudade! – Velhas raízes
da solidão dos meus ais,
longe das noites felizes
dos meus antigos Natais!
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Se há estradas tão dolorosas
e há cardos pelos caminhos...
Larga o caminho das rosas.
Põe teus pés sobre os espinhos!
= = = = = = = = = = =
Sei que a saudade me escolta,
mesmo triste e tão sozinho!...
Como é bom quando se volta,
mesmo velho, ao velho ninho!
= = = = = = = = = = =
Seis horas!... E, em triste canto,
o sino em seu padecer...
Vai driblando a dor do pranto
nos dobres do entardecer!
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Sempre o mar nas horas calmas
dos sóis de suas manhãs,
liberta os grilhões das almas
presas, às ondas pagãs!
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Sigo do ocaso ao sol posto,
da vida não me envergonho.
O tempo enruga o meu rosto
mas não põe ruga em meu sonho!
= = = = = = = = = = =
Sinto que o amor se agasalha,
nos teus olhos cor de mel...
Quando a lágrima enxovalha
meu lencinho de papel!
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Um samba, dentre os mais belos
que, a memória perpetua...
E aquele, de teus chinelos
nas pedras de minha rua!

Fonte:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020.
Livro enviado pelo autor.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 464

 


Silmar Böhrer (Croniquinha) 15


Pois amanheci pensando na vida, no viver, nas vivências. Buscamos as transcendências que às vezes nem imaginamos. Costuramos sonhos, labutas e vilegiaturas que fazem crescer o caldo dos dias. Caldos doces, alguns, amargos, outros. Alguns, insípidos. Muitos, deliciosos.

Vamos transformando os dias numa crônica que acaba virando um
romanção. Cada um escreve o seu romance - páginas e páginas de vida que são narrativas boas ou más, neste mundo de dualidades, onde nos acostumamos a viver dando arras aos pendores e convicções, misturando fainas com os momentos de merecido lazer e - lá na frente - deixaremos um calhamaço de bons ou maus exemplos que fizeram a nossa história.

Oxalá o livro da caminhada de cada um seja uma constante de bons momentos mesclados com o remelexo do dia a dia.
 
Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Izo Goldman (Trovas Humorísticas) - 1 -


A mini saia amarela
da professora, eu bendigo...
pois, em frente à mesa dela
é que eu fiquei de castigo!...
--------------
A noiva esconde a... "cintura"...
com as dobras do vestido;
e, na igreja, alguém murmura:
– Casório... pré concebido...
--------------
Ao galo meio inibido,
diz a pata sem recato:
–  Não tenha medo, querido,
meu marido é mesmo um... pato!!!
--------------
Ao ver um vulto suspeito,
o ciumento não poupa:
dá dois tiros bem no peito
do espelho do guarda-roupa…
--------------
Cara cheia... Perna bamba,
ele mesmo se conforta,
olha a rua e diz: – "Caramba!"
Nunca vi rua mais torta!..."
--------------
"Casamento... – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa a criançada..."
--------------
"Causa mortis" de um otário:
alergia ou resfriado.
Espirrou dentro do armário,
e o marido estava armado!
--------------
Da vaidade ela se exime,
é gorda mas não se importa.
Em vez de fazer regime,
mandou aumentar a porta!
--------------
Diz o Zezinho, zangado,
do zero que recebeu:
– Não acho que escreva errado,
se escrevo, o "pobrema" é meu!...
--------------
É tão magro que de frente,
parece que está de lado,
e de lado, simplesmente,
nem pode ser avistado...
--------------
Explicava, minha amiga,
os muitos filhos que tem:
– "De dia o marido briga,
de noite... fica de bem..."
--------------
Ficou rico o Zé Maria
na seca do Juazeiro,
vendendo "fotografia
de chuva"... por "dois cruzeiro"…
--------------
Na briga que o meu cabelo
e a careca estão travando,
lamento ter dizê-lo,
a careca está ganhando...
--------------
No paraquedas, fechado,
uma etiqueta dizia:
– "Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia..."
--------------
No seu discurso que cansa,
o candidato ao Congresso
me lembra que "a inguinorança"
é que "astravanca o pogresso"...
--------------
O pai da moça, que é mau,
chega em casa e acaba o "baile"...
É que o Zé, "cara-de-pau",
tava namorando em... "braile"!!!
--------------
O parafuso anda cheio,
pois tem o corpo enrolado,
cabeça partida ao meio
e vive sendo apertado...
--------------
Pergunta o padre ao noivinho:
– "É de espontânea vontade?"
e ele respondeu baixinho:
– "Não senhor... necessidade!..."
--------------
Quando abraço mulher feia
que não seja minha amiga,
ou estou de "cara cheia"
ou separa... porque é briga…
--------------
Quando pergunta o burrinho,
diz a mula, envergonhada:
– "Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma... burrada!..."
--------------
Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio;
e o guarda grita, alarmado:
"Tão roubando o patrimônio!"
--------------
Se ao telefone um amigo
me pede "algum" emprestado,
eu disfarço a voz e digo:
– Senhorrr ligarrr enganado!...
--------------
Tenho medo de mulher
com marido, e mesmo sem...       
– da solteira, porque quer...
– da casada, porque tem...
--------------
Todo "barbeiro" sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!...
--------------
Vendo alguém varrer o chão,
ele deita de comprido
e dá logo a explicação:
"Quero ser... doido varrido..."

Fonte:
Izo Goldman. Trovas de quem ama a trova.
Livro enviado pelo autor.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 6. Conto – Tarzan e Beijinho

TARZAN E BEIJINHO


Ambiente:
Rio de Janeiro, Malibu, a vida de exilados.

Foco narrativo:
Primeira pessoa.

Personagens:

Tarzan e Beijinho: homem e mulher brasileiros que tentam desvendar o seu país.
 
Narrador: 
Espectador da vida de Tarzan e Beijinho.

Beijinho e Tarzan, irmãos que são sobrinhos de Tia Gênia, uma exímia contadora de histórias. Juntos com seus amigos (inclusive o "descrente" Baguinho), eles criam as mais diversas fantasias: até um barco!

Conheci Tarzan e Beíjinho em Malibu, antes de se transferirem para o Leblon, uma praia que havia tragado o coração de almirantes batavos e sereias, litorâneas. Viviam em Malibu como se ainda pisassem as araras de Cabo Frio. Para tanto recorrendo a símbolos nacionais, desde o azeite de dendê, até à flâmula rubro-negra. E quando uma pergunta lhes soava particularmente delicada, respondiam em português, teimando em apelidar de João a Mr. Blackmur. A nostalgia do exílio, longe de debilitá-los, poupava-os de qualquer desgosto. Assim, sempre que lhes falavam de Copacabana, como um sonho distante no horizonte. - Beijinho dizia, para eu traduzir:

— Ah, a invernada de Olaria.

Eu não sabia explicar a frase a Mr. Blackmur. Havia um país a preservar. E nós éramos o país deixado atrás à altura do Rio de Janeiro. Tratava-se sim de uma festa móvel, celebrada em qualquer estação do ano, e para a qual a população era convocada. Todo o morro descia para o espetáculo. Cabia ao destino indicar os protagonistas de um festejo a que jamais faltavam bebidas, sangue e alegria.

—E quem separa a alegria da tristeza! - disse Tarzan, para que o aplaudíssemos. Beijinho prontamente condenou-lhe a antinomia em desuso, criada com intenção de ferir a uma das raças mais nobres do hemisfério.

— E a que raça ofende sem querer?

— Os ciganos. Eles choram privados de qualquer critério. Nunca sabem se é de alegria ou de tristeza. Por favor, Tarzan, não me venha mais com metáforas. Como pode ser um homem do mundo se ainda recorre às heranças deixadas no chão e pisoteadas por todos.

Induzido por Beijinho, que recém tingira o cabelo de louro, Tarzan compreendeu que deviam regressar à pátria. Mais econômico seria fingir no Rio que estavam em Malibu. O cargueiro holandês cuidou em trazê-los junto à coleção de conchas, búzios, cavalos-marinhos, o pinguim empalhado, toda a imensa concentração de salitre e mineral que Tarzan e Beijinho haviam recolhido do fundo do mar. Certa vez, eles me confessaram, no fundo do mar encontram-se nossos corações, é preciso ir ( bem fundo para ouvir-lhes as pulsações. Teria sido: um convite para eu fugir deles, me .censurariam o modo de olhá-los? Ou simplesmente suplicavam que fosse visitá-los com o aqualung até o fundo mar. Sobretudo Beijinho retraía-se sempre que tocada. Mesmo diante do gesto que tivesse como desfecho abrir-lhe o zíper do collant vermelho. O seu pudor, obrigavam e a pedir-lhe desculpas pelas uvas roubadas do seu prato em nome da minha fome. Sua vingança nestes casos era corrigir- me, dizia meu nome duas vezes: sabendo que a força dele estava em pronunciá-lo de um só fôlego. Sempre me esvaí quando o repetiam com ociosidade.

COMENTÁRIO:

Tarzan fala de força, de intrepidez, de masculinidade: refere-se ao homem. Beijinho fala de doçura, de carinho, de feminilidade: refere-se à mulher. Tarzan fora exilado da selva onde vivia. Foi acompanhado pela mulher: Beijinho. A selva é o Brasil. Malibu é o lugar do exílio. “A nostalgia do exílio, longe de debilitá-los, poupava-os de qualquer desgosto”. “Quando retornam ao Brasil, tentam descobri-lo, disfarçados de turistas, isto é, não querendo ser reconhecidos”. Na verdade, eles não se reconhecem no próprio país de origem o qual tentam decifrar e compreender. O narrador é o espectador que acompanha a trajetória de Tarzan e Beijinho.

Fonte:
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 21 –

 


Arthur de Azevedo (Poverina)


Era naquele tempo o Salazar uma das figuras mais salientes do nosso diletantismo literário. Os seus artigos de critica, os seus versos, os seus contos, as suas fantasias estavam ao alcance de todas as inteligências, e eram lidos, senão com avidez, ao menos com simpatia.

Ele tornara-se conhecido, quase célebre, e não atravessava a Rua do Ouvidor sem ouvir estas e outras frases que o enchiam de orgulho: - Lá vai o Salazar! - Olha o Salazar! - O Salazar é aquele!

Pouco a pouco essas manifestações da admiração indígena o foram empanturrando de desvanecimento e vanglória, e não tardou muito que ele se julgasse, coitado! superior a quantos o cercavam, fazendo sentir a sua superioridade com uma importância ridícula.

O toleirão era casado, e a primeira vítima da transformação do seu caráter foi a própria esposa, excelente rapariga, bem educada, inteligente, muito inteligente, mas tímida, daquela timidez peculiar às moças brasileiras que não perderam noites em festas e bailes.

Estavam casados havia três anos, mas o literato nunca estudara nem compreendera sua mulher. Volvido o período da intitulada lua-de-mel, todo de brutalidade e egoísmo, e começando a aura do publicista, ele afastou-se da esposa tanto quanto uma pessoa pode afastar-se de outra com quem almoça e janta quase todos os dias, e com quem vive debaixo das mesmas telhas.

Não tinham filhos; faltava-lhes esse traço de união, que talvez os tivesse aproximado.

Entretanto, ela não se queixou nunca da indiferença do marido; sendo, aliás, bonita, muito bonita, mostrou uma resignação que ele seria o primeiro a admirar, se todo o tempo não lhe fosse preciso para admirar-se a si próprio.

Aquela frieza, aquela sobranceria, aqueles ares de semideus ainda mais se acentuaram quando o Salazar, um dia, recebeu, pelo correio, longa carta em que uma desconhecida, sob o pseudônimo de Poverina, manifestava pela sua interessante pessoa uma simpatia e uma admiração excepcionais.

O que mais o impressionou nessa missiva anônima foi o primor da forma. A desconhecida revelava cultura intelectual superior à dele, e dizendo-se, aliás, sua discípula, mostrava notáveis qualidades de estilista, que o outro não possuía.

A princípio supôs Salazar que a correspondência fosse de algum marmanjo, desejoso de se divertir à custa dele; mas outras e sucessivas cartas o convenceram do contrário. Quem quer que fosse tinha delicadezas femininas de que nenhum homem seria capaz.

Colocando-se, sempre com encantadora modéstia, num plano subalterno, a escritora aconselhava-o com muita discrição e habilidade, a corrigir-se de uns tantos defeitos; apontava-lhe contradições, incongruências, descuidos gramaticais, ligeiros solecismos indignos da pena de um escritor reputado; mas atribuía tudo à precipitação com que ele escrevia, e nem por sombras aludia à sua ignorância, muitas vezes apanhada em flagrante. Um homem não seria tão generoso.

Demais, essas observações e conselhos eram acompanhados de confissões gravíssimas. Ela declarava que o seu maior prazer seria, se pudesse, estar perto dele no seu gabinete de trabalho, auxiliando-o, passando a limpo os seus escritos, procurando um termo no dicionário, caçando um sinônimo, verificando um trecho em qualquer obra citada, corrigindo aqui um descuido, preenchendo ali um claro, mudando as penas, enchendo o tinteiro, cortando o papel em tiras, etc. "Enfim, dizia ela, quisera ser a tua secretária, uma secretária a quem, terminado o trabalho, remunerasses, não com dinheiro, mas com beijos e carícias.

"Mas para isso, continuava a desconhecida, seria preciso que um e outro fôssemos livres, e somos ambos casados; nem meu marido nem tua mulher merecem que os enganemos.”

O Salazar respondia a todas essas cartas, e, escusado é dizer, empregava súplicas, argumentos, razões, para que a Poverina se desvendasse.

Ela resistia energicamente. "Não procures saber quem sou; nunca o saberás. O encanto das nossas relações é esta abstração, este delicioso platonismo. Imagina que somos Heloísa e Abelardo, e que estamos separados por uma fatalidade psicológica…”
* * *

Durante um ano a correspondência continuou assídua de parte a parte. O Salazar recebia pelo correio as cartas de Poverina, e respondia-as pela posta-restante.

Pediu-lhe um dia que não lhe dissesse o seu nome, mas lhe mandasse ao menos o seu retrato. "Não, respondeu ela; mandar-te o meu retrato seria o mesmo que te dizer quem sou. Não suponhas que deixo de satisfazer o teu pedido pelo receio de me achares velha ou feia. Sou muito mais nova que tu, e de feia nada tenho. Digo-te mais: pelo interesse, pela insistência com que olhaste para mim certa vez em que nos encontramos na rua, creio que me achaste bonita... Não calculas como nessa ocasião tive ímpetos de me atirar nos teus braços, dizendo: - Poverina sou eu..."

O Salazar estava, por fim, radicalmente apaixonado, e, a proporção que esse amor desesperançado e extravagante o ia absorvendo e exacerbando, ele mais indiferente se mostrava para com a infeliz esposa, cada vez mais resignada, mais conformada com a sua triste sorte de mulher posta a um canto.
* * *

Mais seis meses de correspondência, e o caso tomou uma gravidade terrível. O Salazar estava obcecado por aquela mulher, por aquele fantasma, por aquele mistério! Já não produzia nada, limitando-se apenas à sua tarefa epistolar, que lhe monopolizava o espírito, como se fosse uma obra de fôlego, um trabalho de grande transcendência filosófica.

Um dia escreveu a Poverina, dizendo que não lhe era possível continuar a viver naquele desespero. Se ela não lhe proporcionasse ocasião de vê-la, de estar ao seu lado, gozando o benefício divino da sua presença, ele procuraria no cano de um revólver a tranquilidade que lhe fugira.

Depois de três ameaças idênticas, formuladas em termos decisivos, Poverina cedeu, marcando a Salazar uma entrevista a noite, no Largo do Machado, naquele tempo mais sombrio e menos frequentado que hoje.

Calcule-se a impaciência com que o literato contou as horas!
* * *

Cinco minutos antes do momento aprazado, ele entrou no jardim, e viu, de longe, uma mulher de preto, com o rosto coberto por um véu, sentada no banco indicado na carta de Poverina.

O coração do mísero saltava, as suas mãos estavam geladas, todo ele tremia...

Foi nesse estado que o Salazar se aproximou daquele vulto de mulher.

Ela convidou-o com um gesto a sentar-se.

Ele sentou-se.

- Aqui me tem! disse Poverina, erguendo o véu.

O publicista ficou estupefato: era a sua própria esposa!

- Tu?... que é isto... Eu... Tu... Eras tu que...?

- Sim, era eu que...

- Não é possível!

- Tenho em casa todas as minutas das cartas de Poverina. Podes encontrar.
* * *

Dali por diante aquele desalmado, que nem sequer conhecia a letra de sua mulher, foi o modelo dos maridos, e ela o modelo das secretárias.

Diziam até as más línguas que o secretário era ele. Não sei: já morreram ambos e a coisa ficou em família.

(Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1905)

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos vários.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 5. Conto – Finisterre

FINISTERRE


Cabo Finisterre (Cabo Fisterra na língua galega): Península no oeste da Galícia, Espanha. Cidade distante 80 km de Santiago de Compostela, a noroeste da Península Ibérica, na Espanha.

Ambiente:
Casa do Padrinho, numa ilha em Finisterre, no litoral da Espanha, terra dos antepassados da autora. Os fatos passam-se durante uma visita ao Padrinho já idoso.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:

Padrinho: Padrinho de batismo da autora.
Afilhada: A própria autora, Nélida Piñon.
Maruxa: Parente? Empregada da casa da avó?
Avó
Irmã do Padrinho
Amigos do Padrinho

É um texto emotivo de encontros e despedidas. O padrinho de 70 anos, morador da ilha, que é visitado pela sobrinha. O conto é um passeio pela gastronomia galega.

A protagonista da narrativa cruza o Atlântico para encontrar o padrinho de 60 anos, que vive em uma ilha galega. Tal mudança de espaços transborda significados. Por um lado, a viagem acena para a personagem com gestos confortadores, ao representar uma imersão em um núcleo originário:

“Olhei-o firme, fique tranquilo, padrinho, hei de salvar-me à custa dos próprios escombros. Por isso vim à ilha, recolher força e origem, terei então vida por tempo ilimitado”.

Por outro lado, o deslocamento assusta com ameaças de desintegração:

“Cabia-lhe, pois, cuidar que eu levasse de volta ao Brasil os mesmos olhos com que chegara. Sem perder a nacionalidade, este cravo espetado no coração. Padrinho, sou uma brasileira aflita com as trilhas do mundo. Assim, até um centolho ameaça o meu futuro, força-me à vigília, ensina-me a honra e a incerteza ao mesmo tempo.”

É a novidade da experiência representada pela mudança de espaço que lhe atravessa o corpo como uma adaga, sacudindo-lhe a identidade que, ameaçada, tenta se recompor novamente.

Não há dúvida – a identidade do ser se molda no contato com os espaços que ele habita e percorre. Mas, na escrita pessoal de Nélida Piñon, a conquista discursiva do espaço, além de se integrar na apresentação identitária da protagonista, vai além, assumindo uma simbologia marcante, essencial para a apresentação de si mesma que a escritora constrói, como as análises que se seguem pretendem mostrar.

Ambos são galegos, raça forte e emotiva. O almoço e o passeio são cheios de imagens de carinho e ternura do padrinho. Enfim a narradora se despede como quem nunca mais vai voltar a ver as pessoas queridas que deixa na ilha.

O título do texto Finisterre tem a ver com a lenda local que diz ser ali o lugar onde o "o Homem ia se confrontar com o Fim, com o seu fim, com a Morte”.

O texto coloca como personagem principal o padrinho, um velho que se aproxima da morte. Entre os povos ibéricos é profunda a relação entre padrinho e afilhado,visto que os padrinhos dos filhos são escolhidos cuidadosamente entre os amigos e parentes com os quais se tenham fortes laços afetivos.

Fontes:
– Cecília de Macedo Garcez. Cartografias Identitárias na Escrita Pessoal de Nélida Piñon. Niterói: UFF, 2013. Tese de doutorado.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Contos e Lendas do Mundo (A Floresta de Lata)


Era uma vez um lugar amplo, varrido pelo vento e quase esquecido, que estava cheio de coisas que ninguém queria.

Mesmo no centro desse lugar, e exposta ao mau tempo, encontrava-se uma pequena casa, de janelas igualmente pequenas, com vista para o lixo que outros haviam feito.

Nessa casa vivia um velho.

Todos os dias, o homem tentava livrar-se do lixo, apartando e escolhendo, queimando e enterrando.

E, todas as noites, o homem sonhava.

Sonhava que vivia numa floresta cheia de animais selvagens, na qual havia aves coloridas, árvores tropicais, flores exóticas, tucanos, rãs-de-árvore e tigres.

Contudo, sempre que acordava, o mundo que via continuava igual.

Certo dia, algo chamou-lhe a atenção e uma ideia ganhou forma na sua cabeça.

Uma ideia que ganhou raízes e germinou.

Que ganhou folhas, alimentando-se do lixo.

Que ganhou ramos cada vez maiores.

Então, uma floresta inteira emergiu das mãos daquele homem.

Uma floresta feita de lixo. Uma floresta feita de lata. Não era a floresta dos seus sonhos, mas era, ainda assim, uma floresta.

Um dia, o vento trouxe consigo um pequeno pássaro para a planície deserta. O homem deitou no chão algumas migalhas que o pássaro logo comeu, empoleirando-se depois no ramo de uma árvore de lata. No dia seguinte, a ave partiu, e o velho ficou sozinho a vaguear pelo silêncio, com o coração a doer de vazio.

Nessa mesma noite, ao luar, o homem formulou um desejo…

No dia seguinte, acordou com o canto de pássaros. O seu visitante tinha voltado e trazia consigo um companheiro. Nos bicos, transportavam sementes, que largaram no solo árido. Em breve, havia rebentos por toda a terra.

O canto dos pássaros misturou-se com o zumbido dos insetos e o sussurrar da folhagem.

O tempo foi passando.

E foram surgindo pequenos animais, a rastejar por entre a floresta de árvores. Apareceram animais selvagens, que deslizavam por entre as sombras verdes.

Era uma vez uma floresta e quase esquecida, que agora estava cheia de coisas que todos queriam.

No meio dela, havia uma pequena casa, de janelas igualmente pequenas. Nessa casa, vivia um velho homem que nunca tinha deixado de sonhar…

Fonte:
Tradução e adaptação de Helen Ward; Wayne Anderson. The Tin Forest
New York, Puffin Books, 2003. Disponível em Contar e Encantar.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 4. Conto – O Ilustre Menezes


O ILUSTRE MENEZES


Ambiente:
cidade do Rio de Janeiro nos fins dos anos 1800. Residência da família Menezes.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:
Menezes: Homem de meia idade, "escrivão bem situado" de certas posses que lhe ficaram da primeira esposa, casado pela segunda vez com Conceição.

Conceição: Atual esposa de Menezes.

D. Inácia: Sogra de Menezes.

Amélia: Primeira esposa de Menezes, já falecida.

Pastora: Amante de Menezes.

Nogueira: Jovem primo da primeira esposa de Menezes que veio ao Rio para estudar.

RESUMO:
"Bem sei que já não sou o mesmo. Ainda que eu atrase o relógio, que trago sempre atado à presilha da calça, passa-me o tempo com demasiada pressa. E qual não é o meu espanto ao já não mais ver-me em 1860, mas já a pisar, e sem a firmeza de outrora, o chão de 1862. Eis dois anos decorridos sem a minha cumplicidade, deles sequer dei-me conta."

O narrador, Menezes, é casado com Conceição, uma mulher educada num rigoroso sistema moralista. Proíbe-se ter prazer ou conversar sobre sua intimidade. Menezes conta que tem o hábito de dormir fora de casa nas Quintas-feiras , pois vai ver sua amante Pastora. Apesar da impertinência da sogra, D. Inácia, ele dobra a mulher com as desculpas mais esfarrapadas, como por exemplo ir ao teatro sozinho com medo que a esposa se aborreça com as peças. Ele arruma uma segunda amante, Delfina, que acaba por abandona-lo. No conto, predomina a atmosfera de século XIX, com uma linguagem no estilo Machado de Assis. Aliás, o final da história faz referência ao célebre conto Missa do Galo, do referido autor.

COMENTÁRIO:
Menezes quer que tudo lhe gire em torno, de acordo com suas necessidades ou caprichos. Conceição é obediente e submissa ao extremo, devido à educação e às circunstâncias em que vive. O próprio marido impede-a de manifestar pensamentos ou opiniões e exige dela um comportamento de acordo com os moldes que ele lhe impõe. Mais que submissão ou obediência. O fato de o marido surpreender Conceição chorando demonstra o sofrimento da esposa, tolhida pelo autoritarismo da mãe e sela falta de amor do marido.

Os diálogos entre os dois são tão contidos que um não manifesta seus sentimentos ao outro. Recorrem às evasivas. Menezes sonha e não dá esse direito à esposa. “Os sonhos poderiam fazê-la” querer mudar de vida e ele não quer que a vida mude. £ como será que Conceição encara a vida?

Conceição tenha por ele os mesmos sentimentos que Amélia tinha por ele. Ele queria os bens de Amélia. Conceição quer; agora, os seus bens.

“A ameaça de que estava a ir-me muito breve não comoveu Conceição”.

Apoia-se na certeza de que, à minha morte, hão de restar-lhe alguns bens. Julgamos as pessoas conforme julgamos a nós mesmos. A mudança de comportamento de Nogueira demonstra que as coisas começam a fugir do controle de Menezes, em sua própria casa: "sua presença na casa brevemente seria incômoda. Não quero molestar-me agora com tais problemas.”

O final do conto, sem desfecho, dá ideia de que a vida, para aquela família, vai continuando com lentas modificações.

Fontes:
– Manuel Comellas Coimbra. In Algo Sobre, Resumos Literários.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

domingo, 10 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 20 –

 


Gregório Duvivier (Epitáfio para um Bar que Acolhia Equinos Bípedes e Elegia aos seus Garçons)


“No Alcorão não há camelos”, diz o Borges, e isso, pra ele, prova que se trata de um livro árabe. Qualquer estrangeiro teria enchido a história de camelos. “Maomé, como árabe, não tinha por que saber que camelos eram essencialmente árabes. Estava tranquilo. Sabia que podia ser árabe sem camelos.”

O Hipódromo vai fechar. Isso não muda quase nada pra quase ninguém, mas muda quase tudo pra uma dúzia de pós-adolescentes como eu. Aqui na Guanabara não chamamos de hipódromo o lugar onde trabalha o jóquei —lugar este que chamamos de Jockey— mas o bar perto do hipódromo, na praça do Jockey —praça esta jamais frequentada por algum jóquei.

O bar abriu em 1945, dizia o letreiro, e estava tranquilo. “Sabia que podia ser um hipódromo sem cavalos.” Acolhia todos os tipos de equinos bípedes: poetas, jornalistas, comediantes, adolescentes e divorciados em geral, ou seja: todos aqueles que não tinham senso estético nem paladar apurado e que, por não terem encontrado seu lugar no mundo, ali encontravam consolo num chope aguadinho, numa fatia de pizza com ketchup e num garçom que sabia seu nome e o da sua família toda.

Cada garçom tinha sua expertise e seus clientes preferenciais. Sorriso trazia no olhar ao te ver a alegria de uma criança que vê seus pais chegando à creche, enquanto João de Deus, o Boi, trazia na testa o maço de cigarro equilibrado nas sobrancelhas, entre outros truques impagáveis.

Lacerda tinha a memória mais prodigiosa e o humor mais veloz —o melhor garçom do mundo segundo qualquer concurso que preste. Existia ali uma tecnologia do serviço avançadíssima e que mantinha o bar aberto apesar dele mesmo.

A luz fria, o cardápio imutável, o teto de espuma, nas paredes a foto de um pedaço de carne crua no espeto com os dizeres “esta é a churrasqueira do Hipódromo”. Aquilo era pra ser uma publicidade, mas soava como uma denúncia.

Em seu lugar, abrirá uma filial do Brewteco —espécie de importação carioca da ideia que um paulista faz do que é um botequim carioca. Não reclamo: a imitação da imitação supera muitas vezes o original. A comida será melhor, o chope nem se fala. Mas falta alma. Não faltam camelos. O botequim carioca dos paulistas está mais pra Aladim que pra Alcorão.

A prova: demitiram os garçons. Rezo pra que todos apareçam recontratados. O tal do novo normal tem muito a aprender com o velho. Prometo que, se assim for, estarei lá (assim que encontrarem a vacina, que não sou doido de compartilhar perdigoto com desconhecido).

Fonte:
Folha de São Paulo. 21 julho 2020.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 462

 


Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) 3. Conto - I Love My Husband

I LOVE MY HUSBAND


Ambiente:
Interior do coração de uma mulher submissa e solitária.

Foco narrativo:
Primeira pessoa.

Personagens:
Marido e mulher.

RESUMO:
“Eu amo meu marido, De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre mal dormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição."

O marido é frio como o café que ele deixa esfriar. Ela lhe arruma o nó da gravata. Ele diz que esse é seu menor problema. Ela ri. Quer que ele saia tranquilo, “capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.”

Ela é aclamada por cuidar do marido. Sabe que é a sombra dele. Os objetos “da casa são adquiridos pelo esforço comum”. Ele diz que ela gasta o dinheiro que ele ganha. Ela quer trabalhar, ser produtiva. Ela sente saudade do passado, do tempo em que sua vida não era ditada pelo marido, do tempo em que o marido não era seu dono. Ela sente que não é dona de si mesma. O marido lhe atara as mãos.

Revolta-se. Acaso é mulher apenas pelas unhas longas e coloridas? Já que ele não quer falar de amor, ela diz que talvez possam falar do futuro. Ele põe o jornal de lado. Ela torna a falar no futuro. Anseia por liberdade.

"O marido, com a palavra futuro a boiar- lhe nos olhos e o jornal caldo no chão, pedia-me, o que significa este repúdio a um ninho de amor, segurança, tranquilidade, enfim a nossa maravilhosa paz conjugal?"

"Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredirem doze meses. Encarregava-me, eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonhado meu marido era mantido por mim: E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar."

"Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Queria dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério Jamais revelado ao mundo."

"Já viu, filha, que coisa mais bonita, uma vida nunca revelada, que ninguém colheu senão o marido, o pai dos seus filhos? Os ensinamentos paternos sempre foram graves, ele dava brilho de prata à palavra envelhecimento. Vinha-me a certeza de que ao não se cumprira história da mulher, não lhe sendo permitida a sua própria biografia, era-lhe assegurada em troca a juventude.”

O pai lhe garantira que não envelheceria se vivesse só para o marido. E ela agora se vê numa vida que não quis. Ela se casara na expectativa da novidade do casamento. Na “esperança de que o marido modelaria suas feições até o último dia de vida juntos.”

"Ele é único a trazer-me a vida, ainda que às vezes eu a viva com uma semana de atraso. O que não faz diferença. Levo até vantagens, porque ele sempre a trouxe traduzida. Não preciso Interpretar os fatos, Incorrer em erros, apelar para as palavras inquietantes que terminam por amordaçar a liberdade. As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento."

COMENTÁRIO:
O conto quer mostrar o interior de uma mulher com um casamento só de aparências. Ela sofre, culpa-se pelos próprios sentimentos. E se vê incapaz de modificar a situação em que se encontra e com a qual é obrigada a conformar-se.

Narrado em primeira pessoa, trata dos enredos da vida de uma esposa conformada, educada sob o signo de uma cultura moralizadora e patriarcal. Ao longo da narrativa, mesmo depois de pensar em uma ou outra situação que não a agradou, ela afirma, tanto para si mesma, quanto para o leitor “Eu amo meu marido”, e ocupa-se imediatamente da descrição de atividades que possam favorecer sua felicidade ao lado de seu companheiro.

Embora não haja abordagem explicita, através de seus relatos, podemos notar seu posicionamento diante da sociedade e perante seu marido, a personagem é consciente de sua (in)existência. Sua vida se restringiu a ser, tão somente, a sombra do companheiro, em suas palavras “sou a sombra do homem que todos dizem eu amar”.

Logo no início da narrativa, já verificamos os indícios de sua aceitação diante da opressão, bem como de sua conformidade. A narradora, de certo modo, mostra-se satisfeita com fato de permanecer em uma zona de conforto. Como assinala Simone de Beauvoir (1986) ela, como tantas outras mulheres, é uma cúmplice de sua escravização, é apenas um objeto no relacionamento:

“Não posso reclamar. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.”

O excerto acima destaca o processo cíclico do enredo que começa e termina da mesma maneira. A afirmação da dominação masculina, representada pela figura do marido, nasce a partir da negação de sua condição humana, seus desejos e vontades são anulados pela falsa certeza de que as coisas precisam ser assim. Segundo Maria Consuelo Cunha Campos (1992) esta aceitação está relacionada à aceitação da naturalização de papéis, o homem, enquanto provedor, cumpre seu papel de chefe de família, cabendo a mulher, em contrapartida, assumir sua função submissa.

Outra marca que perpassa toda a narrativa é a ironia do discurso da narradora que demonstra estar consciente de opressão à qual é submetida.  A certeza de estar no mundo, proporciona um momento de epifania, no qual sua identidade leva-a a enxergar o quanto tem sido subjugada pelo marido.

Ao dar conta da de perda sua identidade, a narradora põe-se a buscá-la. Imersa em seus pensamentos, a memória insiste em visitar os conselhos da mãe, a satisfação do pai ao vê-la recebendo uma educação para o casamento e, como reflexo deste processo, encontrara-se agora diante do comportamento machista do marido. Em “I love my husband” a família é apresentada como a principal incentivadora da dominação masculina.

Dividida entre a dominação e a submissão, podermos afirmar que a personagem de Nélida Piñon é mais um exemplo de mulher em busca de sua identidade: mulher/esposa/mãe. Não obstante, é importante destacar ainda que, ao longo da narrativa ao considerar a função de dominador assumida pelo marido, a narradora passa por três momentos: submissão, epifania e resignação. O conflito entre as duas mulheres, sujeito e objeto, fica evidente nas sobreposições de pensamento, sendo a vitória da mulher-objeto afirmada tanto pela sociedade patriarcal, quanto pelo modelo familiar tradicional.

Fontes:
– As relações de gênero em I love my husband, de Nélida Piñon. Jornal Vetor. 4 nov 2015.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 19 –

 

Montagem da trova sobre imagem da Libreria Fogolla Pisa

Vanice Zimerman (Poemas Escolhidos) 4


ARTE E MISTÉRIO


Um olhar misterioso...
No palco: palmas, sapateado
Num ritmo intenso e belo!
No olhar da Dançarina Flamenca
Cintilam sonhos, espelhos,
Ao som encantado das castanholas, despede-se...
Palmas!
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CENTAURO DE CRISTAL

Veloz, ele passeia em meus sonhos
Sedutor, brinca de esconde – esconde...
Disfarça-se nas poesias
Cobre- se  de folhas...
Quase, desisto de tocá-lo,
Mas, o vento Cupido aproxima-nos…
****************************************

CUMPLICIDADE

Há uma cumplicidade linda,
Entre o claro e o escuro;
O dia e a noite,
O certo e o errado e,
Entre meus pensamentos
e a companhia do por-do-sol…
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JANELA ENTREABERTA

Noite de novembro
Janela entreaberta:
Aos poucos, a poesia abre a janela
Meus pensamentos seguem meus sonhos,
E escapam  buscando encontrar você…
****************************************

JANELAS AZUIS

Nas paredes brancas
Desabrocham flores...
Nas antigas  janelas azuis
Lembranças e poesias…
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MADRUGADA

Cessam os toques...
Descansam as teclas do computador
Teu rosto tão distante,
Silêncio…
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MÁGICO ESPELHO

Noite fria
Envolve o silêncio...
A saudade cintila
Desenha teu rosto
No espelho…
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NOITE DE PRIMAVERA

Noite de primavera
Janela aberta...
Na quietude do jardim
Desabrocham as rosas,
O  vento  suave passeia nas pétalas
Enquanto a saudade envolve-me…
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SAUDADE E RETICÊNCIAS...

A saudade transborda em lágrimas
E amor intenso deságua nas páginas em branco
Em forma de poesias e reticências…
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SONS DO ESPELHO

No espelho caem gotas d’água
Deslizam pequenos retratos,
Reflexos,  rostos e versos
Sussurram um nome…
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TULIPAS E PORTA-RETRATOS

Das tulipas vermelhas
Algumas gotas d'água deslizam
no porta-retratos
Breves lágrimas…
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VENTO...

 Fim de tarde
 A suavidade do vento
 desperta lembranças
 tece sonhos…

Fonte:
Recanto das Letras da Poetisa

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) Segundo Conto

AS QUATRO PENAS BRANCAS


Ambiente:
Rio de Janeiro, Niterói, bares/ uma fazenda, um hotel. Época atual.

Foco narrativo:
Terceira Pessoa.

Personagens:

Rubem e Pedro: Amigos do cotidiano.

Colombo: Alguém que Rubem conhece como vendedor de amendoim.

Bulhões: amigo de Colombo.

Alice: ex-esposa de Rubem com quem tem quatro filhos.

RESUMO:

São dois amigos: Rubem e Pedro. Pedro pega o amigo à porta do jornal onde Rubem deixara o artigo para o dia seguinte. Diz que vai com Rubem parar Niterói para que ele não fuja do Rio de Janeiro. A mulher do Rubem exige a pensão atrasada, dos quatro filhos dos dois. Em Niterói o pai empresta o dinheiro. Mas adverte que é só um empréstimo Admoesta o filho, chama-o à responsabilidade Rubem reage. Quer dividir responsabilidade e culpa com os pais que queriam netos, então acha que eles têm que ajudar a pagar a pensão deles. Acaba reconhecendo a própria culpa.

Rubem toma a barca para voltar ao Rio. Senta-se ao lado de um vendedor de amendoim. Puxa conversa. O homem diz que já fora rico, de ir em "boate grã-fina e dar gorjeta". Rubem interrompe-o. A vida do outro é melhor que a sua. Rubem pede-lhe que comece de novo. “O homem amarrou a cara. Escuta aqui, quem organiza a narrativa sou eu, escolho a porta por onde entrar e a janela por que sair. Quem não está satisfeito com o volume e a posição das palavras, abandona a sala.”

Colombo conta-lhes sua estranha e obsessiva amizade por Bulhões. O tempo que moraram juntos e sua vida na fazenda comprada por Colombo no tempo em que era rico. Após a separação dos amigos, Colombo vai à falência e passa a viver da venda de amendoins na barca Rio-Niterói.

Rubem apalpa o dinheiro no bolso. Tem que entregá-lo à mulher. Considera aquilo um roubo. Sua vingança consiste em saber que a mulher ter que cuidar dos quatro filhos e que ninguém a quer com a criançada.

Aceita um amendoim. Pergunta o nome do outro, Colombo, como o descobridor da América.

Enfim, após muita conversa, os quatro decidem ir beber umas cervejas. Num bar escuro, os três conversam quando, de repente chega Bulhões. Os quatro, então gastam todo o dinheiro da pensão dos filhos de Rubem.

COMENTÁRIO:


Penas soltas são leves e costumam ser levadas ao sabor do vento. Penas brancas são referências aos quatro amigos. Que não pisam em terra firme. Vivem o hoje, mas são despreocupados, não encaram a vida, deixam-se levar por ela. É como diz Colombo: "Eu só sabia viver a vida de modo confuso.”

Nayoka significa a ilusão atrás da qual Rubem parte. A vida com Alice não correspondera à ilusão. Rubem nem sabe explicar porque se separou dela e sente até saudade de sua comida. O amanhecer significa a volta à realidade da vida, quando reconhecem; "as máscaras somos nós, e elas agora se derreteram, foram feitas de cera.”

Fontes:
Análise pela Profª Sônia Targa, in OBRAS DA UEM - 2012 – 2013.
Trecho do resumo por Manuel Comellas Coimbra em Algo Sobre

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Varal de Trovas 461

 


Manuel Bandeira (Antologia Poética) 7


MINHA GRANDE TERNURA


Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.
****************************************

NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ali meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, o sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.
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NATAL

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana - pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
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NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.
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NOITE MORTA

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras
Sobras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
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NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido
Poeta sórdido:
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim
muito bem engomada,
e na primeira esquina passa um caminhão,
salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poeta deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas,
as estrelas alfas,
as virgens cem por cento
e as amadas que envelheceram sem maldade.
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O ANEL DE VIDRO

Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, -
Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste.

Fonte:
Manuel Bandeira. Poesia Completa e Prosa. 1967.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) Primeiro Conto

O JARDIM DAS OLIVEIRAS


Ambiente:
Rio de Janeiro nos tempos da ditadura militar. E a consciência do personagem- autor do monólogo.

Foco narrativo:
Primeira Pessoa.

Personagens:
O autor da carta: Alguém que sofreu a tiranias da ditadura.

Zé: O destinatário da carta. Alguém que pode ser um amigo ou um conhecido ou alguém necessário para desabafar o que explode no coração do autor da carta.

Sequestrador: "Tinha olhar de vidro e nariz...ligeiramente adunco."

"Um crioulo, um mulato e um branco, etnia carioca": algozes ou companheiros do autor da carta.

Antônio: Alguém que morreu após ser torturado.

Luíza: Namorada do autor da carta.

Resumo:
Ele escreve uma carta, urgente para o Zé. ......

Começa contando como foi levado para a tortura. Uma pessoa trava-o pelo braço quando sai de casa. Essa pessoa, da qual não consegue ler o semblante, lembra-lhe a humanidade.

"Ah, Zé, como a alma é uma gruta sem luz.”

Os dois caminham furtivamente. Ninguém os nota...Ele é jogado no banco traseiro do carro onde já estão seus algozes: "Um crioulo, um mulato e um branco, etnia carioca". Levam-no a um local, uma sala com apenas três cadeiras.

Ele sente medo, sente-se asfixiado, tem ânsia e vontade de vomitar; Já havia sido torturado antes. Sente-se covarde, “a desesperança de saber que a dignidade dependia de um corpo miserável a serviço da força alheia". O Zé não lhe compreende os sentimentos. Ele já fora herói. Agora não mais consegue sê-lo.

O branco ameaça, quer saber do Antônio. Ele diz que não sabe. Já confessara tudo nove anos antes. O interrogador insiste em saber do Antônio embora todos saibam que Antônio já está morto. Estilete no peito. Ele sente medo e remorso por ter dado as pistas para a prisão de Antônio. Sente vergonha e ódio.

“Eu era as palavras arrancadas à força, era a covardia que eles souberam despertar em mim, e antes me fora desconhecida”. E era ainda a vida que eu descobrira preciosa entre os suplícios infligidos.

Não desistem. Querem saber do Antônio, Torturadores com mãos como as de qualquer pessoa, aparentemente limpas. Mãos que enterraram Antônio.

Ele diz que não tem visto Antônio. Quer voltar à vida. Diz que Antônio desapareceu. O mulato assume. Ele se lembra de que vira Antônio, no ano passado, na saída do cinema. Gritara por ele que não ouviu e desapareceu. Estava mais gordo e com bigode. Surge um novo Antônio. É um jogo que lhe custa suor, vida e honra.

"Eu sei que a vida prova-se com a palavra, mas quando nos é ela extraída à força e ainda assim, a vida nos fica, não é a vida o único tesouro com que se recomeça a viver?"

Antônio está na sala, "Vivo, ardente, combatendo o mundo em tudo igual ao que havia deixado antes de partir.”

O branco diz que Antônio é um assassino de mulheres e crianças, que precisa ser levado à justiça. Sai da sala. Ele é levado para uma ceia. Pensa no suplício da manhã seguinte, ou da semana, ou de mês... Pegam-no de madrugada, colocam-no no carro, jogam-no perto de casa. Nem uma palavra.

“Acalentavam o sangue e o suor de um país com o torniquete da naturalidade e da supremacia”.

“Advirto-o assim, Zé, que temos Antônio de volta.”

Mas Antônio não dá notícias a ninguém. Menos a quem lhe facilitara a captura. Mas ele lhe deve a vida. Não o mataram.

"Terá sido desonroso reviver Antônio? O poder não fragiliza apenas a quem domina. O poder educa para que não esqueçamos as suas lições. Mas, como será quando a lição passar a ser aplicada por nós, povo pálido e submisso?"

Luíza não o recebe. Ele vai para casa. A vida de sempre. A espera do carrasco, um dia. O que se pode esperar de uma criatura fiel ao Estado a cobrar-lhe obediência como meio de assegurar a coletividade uma existência feliz? E que expulsa do seu corpo social todo e qualquer organismo infectado de pus, palavra e ação rebeldes? Ele se perfuma "moderado e elegante". Pequenas atenções conseguem mesmo. Acomodação à vida possível.

“ah, Zé, quantos capítulos são diariamente redigidos numa infindável série de resignações?”

Nada de paz, de sossego. Perplexidades. Sono difícil. Ele se sente culpado. Não crê na própria inocência.

“E com que direito protesto, fortaleceu-me quem tinha a arma na mão, dei-lhe a munição que escasseava.”

Mas ele não quer sofrer. Reconhece a própria fragilidade. Reclama da autoridade, mas, no intimo, quer ser autoridade, ter domínio, poder.

Até Luiza desconfia de Zé. O Zé fala bem, mas não se comove. Luiza não gosta de seu olhar crítico. Ela é cheia de pudor. “Onde esteja, sua linguagem é impecável. Sua ordem mental alija a paixão. Não sei onde se abriga o coração daquela mulher.”

COMENTÁRIO:

O Jardim das Oliveiras foi o local onde Jesus Cristo sofreu grande agonia antes de ser crucificado. . “O jardim das oliveiras”, de Nélida Piñon, as personagens principais evocam seu passado e expõem suas dores e seus medos, demonstrando uma relação tensa das personagens com o mundo. Nesses contos, ganham mais relevo a vida emocional das personagens e as sensações provocadas pelos acontecimentos do que os acontecimentos em si.

A autora usa esse título para demonstrar que o texto trata de uma grande agonia interior, de alguém que foi preso e torturado nos porões da ditadura militar. E um texto altamente filosófico, emaranhado de pensamentos que se sucedem numa tentativa dolorosa de explicar a própria vida que foge ao controle do personagem. O personagem é torturado física e psicologicamente. Sofre tanto que desiste de ser idealista. Faltam-lhe forças para isso. Encolhe-se em si mesmo para não sofrer. “Quer ter a ilusão de ser livre embora” sinta-se "como um polvo embaralhado nas 'próprias pernas". Descobre que o próprio amor que sente por Luíza não passa de egoísmo. Ela é a sua tábua de salvação. Descrição exata de uma vida sem fé. Vida que se transforma, para o personagem, numa luta desesperada para preservá-la, pois descobre o quanto é preciosa, Quem é o Zé? O dominador? O rico? O poderoso? A elite cultural? O amigo? Ou todos? Em todo caso, é o interlocutor do personagem a quem ele se desvenda.

Fonte:
Análise pela Profª Sônia Targa, in OBRAS DA UEM - 2012 – 2013.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

José Feldman (Versejando) – 18 –

 


Professor Garcia (Poemas do Meu Cantar) Trovas – 2 –


A dor das ondas e as minhas,
são ante as queixas do mar,
consolo das ladainhas
que a noite vive a cantar!
- - - - - –
Ante os teus ciúmes loucos
e a loucura desmedida;
o amor, vai sentindo aos poucos,
os desencantos da vida!
- - - - - -
Caicó - a idade avança,
mas no meu imaginário...
És linda moça criança
no teu sesquicentenário!
- - - - - -
Coração - cofre sagrado,
és o mais secreto cofre.
Só tu sabes do passado
das ilusões de quem sofre!
- - - - - -
É quando a mágoa me açoita
que busco em meus alfarrábios,
a resposta que se amoita
no silêncio de teus lábios!
- - - - - -
É tarde!... Em tua moldura,
logo assim que o sol se esconde;
uma saudade murmura,
por outra, que não responde!
- - - - - -
Fecho a janela, abro as portas
aos sonhos sentimentais...
Não quero esperanças mortas,
presas aos meus madrigais!
- - - - - -
Foto antiga!... E, pelos gestos,
por culpa de um neto ingrato...
Há cupins, comendo os restos,
do resto do teu retrato!
- - - - - -
Meu sabiá, tão contente,
cantas, fingindo o teu pranto;
nem vês que o pranto da gente
é triste quanto o teu canto!
- - - - - -
Meu versinho é uma criança,
que sozinho me insinua...
A levar paz e esperança
onde faltar paz na rua!
- - - - - -
O silêncio mais profundo,
me inspira e nele eu medito.
Ouço as torturas do mundo
no silêncio do infinito!
- - - - - -
Ostentação, nada diz.
Pobre e feio, também ama...
O sapo é pobre e feliz
mantendo os pés sobre a lama!
- - - - - -
Ouço um canto, me arrepio
e, aquela voz diferente,
vem da cascata de um rio
pranteando as mágoas da gente!
- - - - - -
Passando sem percebê-los,
os anos, de forma ingrata,
deixam-me a cor dos cabelos,
branquinhos, da cor de prata!
- - - - - -
Passo a passo e, sem alarde,
prossegue o pobre velhinho...
Tão perto do fim da tarde,
tão longe do velho ninho!
- - - - - -
Percebo que as mãos do outono
pintam na dor do poente,
cores das tardes sem dono,
donas das tardes da gente!
- - - - - -
Pobres cabelos grisalhos,
encanecidos, tão velhos;
fibras de tantos retalhos
que tecem meus evangelhos!
- - - - - -
Por teu amor, me proponho
a ser fiel ante a dor!...
Quem vive de amor e sonho,
vive as neuroses do amor!
- - - - - -
Qualquer adeus, nesta vida,
deixa um sabor tão cruel...
Que o gosto da despedida
amarga mais do que fel!
- - - - - -
Revivendo os sonhos vãos,
pelo tempo, envelhecidos;
trocamos beijos pagãos
por beijos prostituídos!
- - - - - -
Se amas a luz do luar,
te encantas, com tanto brilho;
vê quanto brilho, há no olhar,
da mãe que amamenta o filho!
- - - - - -
Se nossas almas se enlaçam,
ouço fingidos rumores,
entre corpos- que se abraçam
nos braços de outros amores!
- - - - - -
Toda tarde, em meus cansaços
ouço os teus conselhos belos,
na cantiga de teus passos,
no estalo de teus chinelos!
- - - - - -
Um grande amor não fenece,
resiste ao tempo que passa;
quanto mais ele envelhece,
mais tem ternura e tem graça!
- - - - - –
Vida dura!... Mil percalços,
e, essa ausência, inesperada,
me deixa de pés descalços
no meio da caminhada!

Fonte:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020.
Livro enviado pelo autor.