terça-feira, 18 de outubro de 2011

Casimiro de Abreu (As Primaveras) Parte 7


MOCIDADE

Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida - o sol fulgura!
Quando a terra sorri-se e o mar suspira
Porque te banha o rosto essa amargura?!
Porque chorar quando a natureza é risos,
Quando no prado a primavera é flores?
- Não foge a rosa quando o sol a busca,
Antes se abrasa nos gentis fulgores.
Não! - Viver é amar, é ter um dia
Um amigo, uma mão que nos afague;
Uma voz que nos diga os seus queixumes,
Que as nossas mágoas com amor apague.
A vida é um deserto aborrecido
Sem sombra doce, ou viração calmante;
- Amor - é a fonte que nasceu nas pedras
E mata a sede à caravana errante.
Amai-vos! - Disse Deus criando o mundo,
Amemos! - disse Adão no paraíso,
Amor! - murmura o mar nos seus queixumes,
Amor! - repete a terra num sorriso!
Doce filha da lânguida tristeza,
Tua alma a suspirar de amor definha...
- Abre os olhos gentis à luz da vida,
Vem ouvir no silêncio a voz da minha!
Amemos! - Este mundo é tão tristonho!
A vida, como um sonho - brilha e passa;
Porque não havemos p’ra acalmar as dores
Chegar aos lábios o licor da taça?
O mundo! O mundo! - E que te importa o mundo?
- Velho invejoso, a resmungar baixinho!
Nada perturba a paz serena e doce

Que as rolas gozam no seu casto ninho.
Amemos! - tudo vive e tudo canta...
Cantemos! seja a vida - hinos e flores;
De azul se veste o céu... vistamos ambos
O manto perfumado dos amores.
Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida - o sol fulgura!
- Como a flor indolente da campina
Abre ao sol da paixão tua alma pura!
Setembro - 1858

NOIVADO

Filha do céu - oh flor das esperanças,
Eu sinto um mundo no bater do peito!
Quando a lua brilhar num céu sem nuvens
Desfolha rosas no virgíneo leito.
Nas horas do silêncio inda és mais bela!
Banhada do luar, num vago anseio,
Os negros olhos de volúpia mortos,
Por sob a gaze te estremece o seio!
Vem! a noite é linda, o mar é calmo,
Dorme a floresta - meu amor só vale;
Suspira a fonte e minha voz sentida
É doce e triste como as vozes dela.
Qual eco fraco de amorosa queixa
Perpassa a brisa na magnólia verde,
E o som magoado do tremer das folhas
Longe - bem longe - devagar se perde.
Que céu tão puro! que silêncio augusto!
Que aromas doces! que natura esta!
Cansada a terra adormecida sorrindo
Bem como a virgem no cair da sesta!
Vem! tudo é tranqüilo, a terra dorme,
Bebe o sereno o lírio do valado...
- Sozinhos, sobre a relva da campina,
Que belo que será nosso noivado!
Tu dormirás ao som dos meus cantares,
Oh! filha do sertão! sobre o meu peito.
O moço triste, o sonhador mancebo
Desfolha rosas no teu casto leito.
1858

DE JOELHOS

Qual reza o irmão pelas irmãs queridas,
Ou a mãe que sofre pela filha bela,
Eu - de joelhos - com as mãos erguidas,
Suplico ao céu a felicidade dela.

- “Senhor meu Deus, que sois clemente e justo,
Que dais voz às brisas e perfume à rosa,
Oh! protegei-a com o manto augusto
A doce virgem que sorri medrosa!
Lançai os olhos sobre a linda filha,
Dai-lhe o sossego no sue casto ninho,
E da vereda que seu pé já trilha
Tirai a pedra e desviai o espinho!
Senhor! livrai-a da rajada dura
A flor mimosa que desponta agora;
Deitai-lhe orvalho na corola pura,
Dai-lhe bafejos, prolongai-lhe a aurora!
A doce virgem como a tenra planta
Nunca floresce sobre terra ingrata;
- Bem como a rola - qualquer folha a espanta,
- Bem como o lírio - qualquer vento a mata.
Ela é a rola que a floresta cria,
Ela é o lírio que a manhã descerra...
Senhor, amai-a ! - a sua voz macia
Como a das aves, a inocência encerra!
Sua alma pura na novel vertigem
Pede ao amor o seu futuro inteiro...
- Senhor! ouvi o suspirar da virgem,
Dourai-lhe os sonhos no sonhar primeiro!
A mocidade, como a deusa antiga,
Na fronte virgem lhe derrama flores...
- Abri-lhe as rosas da grinalda amiga,
Na mocidade derramai-lhe amores!
Cercai-a sempre de bondade terna,
Lançai orvalho sobre a flor querida;
Fazei-lhe, oh Deus! a primavera eterna,
Dai-lhe bafejos - prolongai-lhe a vida!
Depois - de joelhos - eu direi: sois justo,
Senhor! mil graças eu vos rendo agora!
Vós protegestes com o manto augusto
A doce virgem que minh’alma adora! -
Dezembro - 1858

TRÊS CANTOS

Quando se brinca contente
Ao despontar da existência
Nos folguedos da inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, desabrocha
Alegre, cândida e pura -
Nessa contínua ventura

É toda um hino: - esperança!
Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor;
A alma então se expande
Ardente, fogosa e bela -
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: - amor!
Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
De belos sonhos despida,
Chorando a passada vida -
Só tem um canto: - saudade!
Fevereiro - 1858

ILUSÃO

Quando o astro do dia desmaia
Só brilhando com pálido lume,
E que a onda que brinca na praia
No murmúrio soletra um queixume;
Quando a brisa da tarde respira
O perfume das rosas do prado,
E que a fonte do vale suspira
Como o nauta afastado;
Quando o bronze da torre da aldeia
Seus gemidos aos ecos envia,
E que o peito que em mágoas anseia
Bebe louco essa harmonia;
Quando a terra, da vida cansada.
Adormece num leito de flores
Qual donzela formosa embalada
Pelos cantos dos seus trovadores;
Eu de pé sobre as rochas erguidas
Sinto o pranto que manso desliza
E repito essas queixas sentidas
Que murmura as ondas co’a brisa.
É então que a minha alma dormente
Duma vaga tristeza se inunda,
E que um rosto formoso, inocente,
Me desperta saudade profunda.
Julgo ver sobre o mar sossegado
Um navio nas sombras fugindo,
E na popa esse rosto adorado

Entre prantos p’ra mim se sorrindo!
Compreendo esse amargo sorriso,
Sobre as ondas correr eu quisera...
E de pé sobre a rocha, indeciso,
Eu lhe brado: - não fujas, - espera!
Mas o vento já leva ligeiro
Esse sonho querido dum dia,
Essa virgem de rosto fagueiro,
Esse rosto de tanta poesia!...
E depois... quando a lua ilumina
O horizonte com luz prateada,
Julgo ver essa fronte divina
Sobre as vagas cismando, inclinada!
E depois... vejo uns olhos ardentes
Em delírio nos meus fitando,
E uma voz em acentos plangentes
Vem de longe um - adeus - soluçando!
Ilusão!... que a minha alma, coitada,
De ilusões hoje em dia é que vive;
É chorando uma glória passada,
É carpindo uns amores que eu tive!
Lisboa - 1856

SONHANDO

Um dia, oh linda, embalada
Ao canto do gondoleiro,
Adormeceste inocente
No teu delírio primeiro,
- Por leito o berço da ondas,
Meu colo por travesseiro!
Eu, pensativo, cismava
Nalgum remoto desgosto,
Avivado na tristeza
Que a tarde tem, ao sol-posto,
E ora mirava as nuvens,
Ora fitava teu rosto.
Sonhavas então, querida,
E presa de vago anseio
Debaixo das roupas brancas
Senti bater o teu seio,
E meu nome num soluço
À flor dos lábios te veio!
Tremeste como a tulipa
Batida do vento frio...
Suspiraste como a folha
Da brisa ao doce cicio...
E abriste os olhos sorrindo

Às águas quietas do rio!
Depois - uma vez - sentados
Sob a copa do arvoredo,
Falei-te desse soluço
Que os lábios abriu-te a medo...
- Mas tu, fugindo, guardaste
Daquele sonho o segredo!...
Agosto - 1858

LEMBRANÇA NUM ÁLBUM

Como o triste marinheiro
Deixa em terra uma lembrança,
Levando n’alma a esperança
E a saudade que consome,
Assim nas folhas do álbum
Eu deixo meu pobre nome.
E se na ondas da vida
Minha barca for fendida
E meu corpo espedaçado,
Ao ler o canto sentido
Do pobre nauta perdido
Teus lábios dirão: - coitado!
Junho - 1858

O BAILE!

Se junto de mim te vejo
Abre-te a boca um bocejo,
Só pelo baile suspiras!
Deixas amor - pelas galas,
E vais ouvir pelas salas
Essas douradas mentiras!
Tens razão! Mais valem risos
Fingidos, desses Narcisos
- Bonecos que a moda enfeita -
Do que a voz sincera e rude
De quem, prezando a virtude,
Os atavios rejeita.
Tens razão! - Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela,
E a vida tão pouco!
No borborinho das sala,
Cercada de amor e galas,
Sê tu feliz - eu sou louco!
E quando eu seja dormindo
Sem luz, sem voz, sem gemido
No sono que a dor conforta;
Ao consertar tuas tranças
No meio das contradanças

Diz tu sorrindo: “- Qu’importa?...
“Era um louco, em noites belas
“Vinha fitar as estrelas
“Nas praias, co’a fronte nua!
“Chorava canções sentidas
“E ficava horas perdidas
“Sozinho, mirando a lua!
“Tremia quando falava
“E - pobre tonto - chamava
“O baile - alegrias falsas!
“- Eu gosto mais dessas falas
“Que me murmuram nas salas
“No ritonelo das valsas.- “
Tens razão! - Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela
E a vida dura tão pouco!
P’ra que fez Deus as mulheres,
P’ra que há na vida prazeres?
Tu tens razão... eu sou louco!
Sim, valsa, é doce a alegria,
Mas ai! que eu não vejo um dia
No meio de tantas galas -
Dos prazeres na vertigem,
A tua coroa de virgem
Rolando no pó das salas!...
Julho-1858

MINH’ALMA É TRISTE

I

Minh’alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.
E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.
E como as notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh’alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou no estio.
Dizem que há gozos nas mundanas galas
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque - mas a minh’alma é triste!

II

Minh’alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria:
E doce e grave qual num templo um hino,
Ou como a prece ao desmaiar do dia.
Se passa um bote com as velas soltas,
Minh’alma o segue n’amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.
Às vezes, louca, num cismar perdida,
Minh’alma triste vai vagando à toa,
Bem como a folha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!
E como a rola que em sentido queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minh’alma em notas de chorosa endeixa
Lamenta os sonhos que já tive aoutrora.
Dizem que há gozos no correr dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste.
- Pobre ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos - a minh’alma é triste!

III

Minh’alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce cant o sabiá do mato!
E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh’alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!
Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.
Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!
Dizem que há gozos no viver d’amores,
Só eu não sei em que prazer consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das flores...
Tudo sorri - mas minh’alma é triste!

IV

Minh’alma é triste como o grito agudo
Das arapongas no sertão deserto;
E como o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe da praia que julgou tão perto!
A mocidade no sonhar florida
Em mim foi beijo de lasciva virgem:
- Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo a fronte em bacanal vertigem.
De tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã da glória me atirei com ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a s’reia
Que em doce canto me atraiu na infância.
Ai! loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp’ranças altas... Ei-las já tão rasas!...
- Pombo selvagem, quis voar contente...
Feriu-me a bala no bater das asas!
Dizem que há gozos no correr da vida...
Só eu não sei em que o prazer consiste
- No amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se as flores - a minh’alma é triste!
Março 12 - 1858

Fonte:
ABREU, Casimiro de. As Primaveras. São Paulo: Livraria Editora Martins S/A co-edição Instituto Nacional do Livro, 1972. Texto-base digitalizado por Raquel Sallaberry Brião.

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