Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Nilto Maciel (Dicionário do Imperador Napoleão)

Quando estive em Paris, pela primeira vez (faz muito tempo), conheci a jeune femme Isabelle Girault. Convidei-a para um café ou um vinho. Não sabia ainda como me comportar diante de uma francesa na França. Falei, entusiasmado, de Napoléon Bonaparte, passei à Revolução Francesa e terminei na guilhotina. Só pude perceber tédio nela depois de meia hora de lengalenga.

Quando voltei da Europa a Brasília, tomei ciência de outro Napoleão, o Valadares, nascido em Arinos, Minas Gerais. Ofereci-lhe meu segundo livro Tempos de mula preta e ele me presenteou Os personagens de Grande Sertão: Veredas. Fizemo-nos amigos, quase confidentes. Contei minha paixão pela francesinha e ele apenas sorriu. Quase não disse nada. Só perguntou: Você pretende ir embora? Não, não posso. E ela virá morar aqui? Não. Ele riu mais um pouquinho e mudou de assunto.

Semana passada, chegou-me uma carta. Há tempos isso não acontecia. Sabem quem ma enviou? Sim, aquela jeune femme de 1983, agora com 49 anos. Descobriu meu paradeiro na Internet. Seu marido (casara-se ela em 1986 com o poeta mexicano Eraclio Chimal) há um ano a trocou por um imigrante brasileiro de nome Napoleão. Vejam o nome do imperador a me perseguir. Por pouco não morri de rir. Pois, no mesmo dia em que o carteiro me passou às mãos um pacote (não cabia na caixa), vindo de Brasília, na mesma tarde recolhi, na caixinha metálica onde está inscrito “cartas”, a missiva da traída Isabelle. O pacote continha exemplar do Dicionário de escritores de Brasília, de Napoleão Valadares. Como não me lembro mais da francesa e não me interesso mais pelo imperador da França, passei a semana a ler o dicionário. É possível ler um dicionário, como se lê um romance? Talvez não. Mesmo assim, conto a história desta obra.

A primeira edição é de 1994. Nesse tempo eu já esquecera a francesinha. Em 2002 saiu a segunda. Nesse tempo eu já me sentia muito próximo da italianinha que fez de minhas noites uma sucursal do paraíso. A edição de agora é a terceira: “atualizado, revisado e ampliado”.

Deixando de lado o compêndio, direi um pouco do autor, o “Imperador do Urucuia” (eu assim o chamo, de forma brincalhona, desde a publicação de seu romance Urucuia, 1990): Napoleão é um ano mais novo do que eu (fevereiro de 1946). Além de suas atividades como funcionário da Justiça Federal, tem se dedicado à cultura mineira e brasiliense, especificamente, e à brasileira, em geral. Organizou antologias (Planalto em poesia, 1987; Contos correntes, 1988; De Gregório a Drummond, 1999; Antologia de haicais brasileiros, 2003), exerceu a presidência da Associação Nacional de Escritores, tem romances, contos e poemas editados, ganhou importantes prêmios literários, etc.

Voltemos ao dicionário (sem nos esquecermos da França, de Isabelle e do imperador Bonaparte, que ainda estarão nesta crônica). O dicionarista brasiliense presta homenagem aos pioneiros da cultura literária da capital federal: Clemente Luz, José Marques da Silva, Garcia de Paiva e Joanyr de Oliveira. O primeiro verbete vai para o carioca Carlos Alberto dos Santos Abel (com quem troquei algumas palavras), falecido recentemente. O derradeiro se refere a Vera Cristina Zuffo, que desconheço.

A obra, de 390 páginas, mostra verbetes curtinhos (dos escritores menos notados nos corredores da literatura ou de bibliografia mais reduzida) ou mais robustos (não muito), o que é normal. Napoleão Valadares considerou escritores aqueles indivíduos que foram “publicados em livro”. E explica: “Não apresentamos biografias, mas sínteses biográficas, para ter-se um perfil profissional e intelectual de cada autor, para ter-se uma informação, ainda que elementar, sobre sua obra. Os verbetes mostram-se sucintos, sem opinião pessoal, sem crítica. A nossa preocupação não é fornecer o maior número possível de dados, mas apresentar dados precisos, tanto quanto possível”.

Para encerrar esta quase-notícia, informo o número das páginas onde me encontro: 197/8. E dou uma última notícia de minha amiga parisiense: gostava de rabiscar poemas curtinhos. Guardo, há quase trinta anos, este verso, escrito num guardanapo de papel: “Je suis une femme perdue et maladroite”. Foi no dia em que nos despedimos, num café próximo ao Aéroport Paris-Orly. Após o último beijo, ela abriu a bolsa, retirou um embrulho e mo entregou. Eu não sabia do que se tratava. Quando me acomodei na poltrona do avião, pude ver a biografia de Napoléon Bonaparte. E os lábios de Isabelle Girault impressos na folha de rosto, que beijei, a chorar.

Fortaleza, 27 de julho de 2012.

Fonte:
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com.br/2012/07/dicionario-do-imperador-napoleao-nilto.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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