domingo, 15 de julho de 2012

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS (A Ordem é Deletar)

O verbo deletar entrou definitivamente no vocabulário da língua portuguesa. Os dicionários o traduzem por eliminar, suprimir, excluir, apagar. As palavras como sabemos não são neutras. Nascem, entram em uso e se consolidam num território bem preciso, do ponto de vista social e cultural. Abrem-se como janelas sobre um determinado contexto histórico. São filhas do tempo e do espaço. Todo organismo vivo cria novas células e expele os tecidos necrosados. Sendo a língua um desses organismos vivos, também ela faz brotar novas palavras de seu metabolismo, enquanto outras morrem e desaparecem.

O termo deletar é filho da revolução informática das últimas décadas. Insere-se no universo de um relativismo progressivo onde as certezas cedem espaço às dúvidas, as perguntas substituem as respostas e as referências se diluem como bolhas de sabão. Não há “verdades”, e sim interpretações. De acordo com o filósofo francês François Lyotard, em seu livro A Condição Pós-Moderna, acabaram-se as metalinguagens ou metanarrativas, restando apenas os experimentos e estudos de caso. Na contramão da globalização, o olhar amplo e universal deu lugar à visão localizada, setorizada, especializada. Na medicina, o clínico geral desaparece frente à proliferação dos especialistas.

Vem à tona toda a obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, com sua insistência no adjetivo “líquido”. Os títulos de algumas de suas obras são ilustrativos: Modernidade Líquida, Tempos líquidos, Vida Líquida, Medo Líquido, Amor Líquido. Tudo parece derreter-se no oceano do relativismo: contratos, relações interpessoais, valores morais, amizades, instituições, regras… Um exemplo corriqueiro e muito frequente: hoje faço cinquenta novos amigos através da rede social Facebook. Trocamos mensagens, fotos e até intimidades. Mas amanhã mesmo, sem maiores explicações, posso deletá-los. Com a mesma rapidez com que os contatei, eu simplesmente os ignoro. Ao invés de um laço sólido e durável, a amizade se converte em um relacionamento líquido, virtual, gasoso… Deletável!

Com o advento dos tempos modernos ou pós-modernos, o universo predominantemente rural da tradição dá lugar ao universo urbano das novidades. Neste último, nada é mais velho do que o jornal de ontem. As notícias ou são simultâneas aos fatos, ou deixam de ter interesse. Os antigos valores e contravalores, passados de geração para geração, são facilmente trocados por novas formas de pensar e de se relacionar. Entram em cena diferentes valores e contravalores, onde a pluralidade e a diversidade tomam o lugar da uniformidade. O tempo, antes marcado pelo sol e a lua, as estações do ano, o plantio e a colheita, o canto do galo ou os sinos da Igreja, agora adquire o ritmo da máquina, do apito do trem. A ciência e a tecnologia imprimiram uma velocidade sem precedentes na produção de mercadorias, inovações e mentalidades.

Torna-se relativamente normal construir e simultaneamente deletar relações de todo tipo. Instala-se progressivamente a ideia de que tudo é descartável: roupas, sapatos, aparelhos domésticos, telefones celulares, televisores, computadores… Mas também amizade, namoro, casamento, profissão, vocação, e assim por diante. Diante de tamanha abundância de coisas e oportunidades, como distinguir o que é essencial do que é secundário? A profusão e pluralidade de pontos de vista podem nivelar tudo por baixo. O experimento ganha força sobre o compromisso de longo prazo. Faz-se uma experiência provisória, se não der certo… Bem, é só deletar e partir para outra! No relacionamento amoroso, por exemplo, o “ficar” substitui o “namorar”, pois este último exige o respeito à alteridade, uma transformação profunda e recíproca, ao passo que o outro representa apenas o uso prazeroso da pessoa em questão.

O conceito de bem-estar pessoal se sobrepõe ao bem-estar social. O engajamento político e social é substituído pela busca do “estar numa boa”. Prevalece o “eu” sobre o “nós”. Os imperativos morais de uma consciência que se sente responsável diante da realidade sociopolítica ou diante da multidão dos pobres cedem o posto ao imperativo da saúde corporal acima de qualquer preço. Multiplicam-se a compra e venda de cosméticos, as academias de ginástica, o culto ao próprio corpo ou às celebridades. Com isso, trocar de partido, de religião, de amigo ou de relacionamento amoroso é quase como trocar de roupa, de sabonete, de shampoo ou de operadora do telefone celular. Busca-se ansiosamente a marca ou grife do momento, mas também elas se perdem na voracidade dos modismos. Tudo se troca, tudo tem vida curta, tudo se deleta… “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, afirmava o Manifesto Comunista de Marx e Engels ainda em 1848.

Essa passagem da predominância da tradição ao imperativo da novidade constitui um terreno profundamente ambíguo. Tomemos por exemplo o conceito de liberdade. No mundo da tradição rural e fortemente hierarquizada, a liberdade tem limites convencionais. Desenvolve-se sob a pressão contínua da família, da religião, da moral e da sociedade no seu conjunto. No cenário industrializado e urbano, a liberdade abre novos horizontes. As vielas estreitas se convertem em amplas estradas Mas o caminho largo pode levar aos becos sem saída da violência, da droga, do álcool e da prostituição. Tanto a “liberdade vigiada”, num caso, quanto a “liberdade de fazer o que se quer”, no outro, são extremos que escondem perigos. No primeiro caso, é fácil deletar de uma vez só uma longa e sólida tradição, às vezes adquirida como uma camisa de força. No segundo, é igualmente fácil deletar os laços tênues de relações superficiais e momentâneas. Em geral, tudo o que se engole à força, cedo ou tarde se vomita; mas também é comum vomitar o que se engole com excessiva sofreguidão.

Além disso, num universo pressionado pela observação moral ou moralista de princípios rígidos e hierárquicos, há uma tendência natural ao infantilismo. O indivíduo está mais protegido, sem dúvida, mas tende a manter o cordão umbilical que rege o comportamento. Mantém-se comodamente dentro das normas, dificilmente se arriscando ao novo. Ao invés de ousar, tende a neutralizar-se. Já na atmosfera mais aberta, livre e dinâmica do mundo urbano, o indivíduo sente-se exposto a uma série de riscos e aventuras, mas isso pode levar ao desenvolvimento de uma consciência mais madura. No primeiro caso, digamos, a pessoa nasce revestida pela roupagem protetora da família, do compadrio, da religião, da tradição… Sua identidade não terá grandes sobressaltos. No segundo, a pessoa nasce nua, terá que abrir a própria picada na selva de pedra, a identidade é algo a ser construído passo a passo. Cada um tende a regular-se menos pelas conveniências sociais e mais pelos próprios princípios éticos. Por isso mesmo, apesar dos riscos, os laços tendem a ser mais autênticos.

Mas, na medida em que o universo urbano coloniza gradativamente o mundo rural, em ambos os casos o verbo deletar pode ser acionado: ou para desfazer-se das amarras de um convencionalismo estreito e castrador, ou para exibir-se a cada momento com as novidades de uma sociedade que não pára de fabricá-las. Lojas e farmácias, profusamente iluminadas, expõem uma multidão de objetos e de analgésicos que torna líquido toda forma de comprometimento moral. O desejo, motor implícito ou explícito do comportamento humano, se vê atraído, seduzido, fascinado por todo tipo de apelo e modismo, onde o marketing, a propaganda e a publicidade exercem poderosa influência. Dois estudos de Gilles Lipovetsky poderiam ser chamados aqui em testemunho: A Era do Vazio e O Império do Efêmero, respectivamente sobre o individualismo contemporâneo e a moda e seu destino nas sociedades modernas.

Produzir, comprar, usar, descartar… Eis o círculo de aço que amarra fortemente nossa vontade, nossos projetos e nossos passos. Entramos nele quase sem nos darmos conta, mas, depois de a ele atados, é difícil desvencilhar-se. Mesmo professando o credo da preservação do meio ambiente, hoje em voga, não é fácil libertar-se da ratoeira armada pelo mercado total. Se o enxotamos pela porta, ele entra pela janela ou, mais frequentemente, pela telinha da TV ou da Internet. Para facilitar as coisas, lá está a tecla do deletar.

Fonte:
Revista Espaço Acadêmico (UEM)

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